Enigma - Segredos e Mentiras
10 Capítulo 9
Notas iniciais
Alice ainda tentou demover a amiga de levar seu plano á diante agora que havia grandes chances de sair chamuscada ou até mesmo ser consumida inteiramente por brincar com fogo santo, contudo Bella se mostrou irredutível. Uma vez que havia nomeado o que sentia e acreditava que talvez, nunca sentisse nada igual, não entendia a necessidade de retroceder. Não quando tudo caminhava para o desfecho satisfatório.
– E como ficam as noites de quinta? – Alice inquiriu. – Já que está decidida á conquistar o padre, já pensou no que ele pensará quando souber?
– Ele não tem por que saber. – Bella ciciou secamente. – E uma coisa não tem nada á ver com a outra.
– Como não? – insistiu. – Que Deus me perdoe pela falta de respeito, mas vamos supor que o padre corresponda e vocês mantenham um caso... Acha que ele vai aceitar numa boa que você fique se contorcendo pelada sobre um palco?
– Certo! – Bella falou começando á se aborrecer. – Um assunto de cada vez... Eu ainda nem tenho nada com Edward... Apesar de tudo que lhe contei, não sabemos se eu vou conseguir nada além desses pequenos flertes quanto mais “manter um caso”... E não vou parar minha vida, para fazer o tipo de garota certinha que não sou por algo que talvez nem aconteça. Edward não é nada meu e como você bem salientou “se” um dia vier á ser não pode me oferecer nada. Então não terá direito de opinar sobre minha vida.
– O padre e a stripper... – Alice murmurou em uma mescla de pesar e mofa. – Isso daria um bom livro!
– Pois tem minha autorização para escrevê-lo, mas não de me perturbar com detalhes imutáveis do enredo... – retrucou ácida.
– Tudo bem!... – a amiga ergueu as mãos em sinal de rendição. – Mas depois não diga que eu não avisei. Espero ter um bom final para essa história “se” ela realmente acontecer. Porém o desfecho lógico é o padre Cullen pedir perdão público e formal até ser recebido novamente pela igreja e você, morrer afogada depois de se atirar do penhasco. O que me diz disso “senhora Flinn”?
– Digo que não é de minha natureza sofrer por antecipação e não vou começar agora... Conforme as situações forem aparecendo eu vejo como as resolvo. Por ora... – ela pediu voltando os olhos para o mar e sentindo seu ânimo melhorar consideravelmente. – Vamos encerrar o assunto, pois meu pai e seu peixinho fedorento estão vindo logo ali.
Alice seguiu o olhar da moça ao seu lado ansiosamente e, depois de avistar os barcos ainda distantes, atendeu ao pedido refreando novos acréscimos. Sem desviar sua atenção das embarcações que se aproximavam, Bella ignorou por completo a companhia inesperada e deixou que a saudade que sentia dos únicos homens que lhe importava na vida – até aquele momento – ganhasse força. Quando o barco de seu pai estava próximo o suficiente para que seus tripulantes á vissem com clareza, acenou freneticamente. Alice permaneceu parada, com a mão no coração e os olhos rasos d’água.
– Venha. – Bella chamou.
Contudo, sem esperar pela obediência, tomou a amiga pelo braço e a arrastou até o atracadouro onde outras mulheres esperavam seus maridos. Sua mãe não estava entre elas, pois preferia ficar em casa e cuidar para que tudo estivesse perfeito na ocasião da chegada de seu marido exausto á se expor em demonstrações exacerbadas de afeto publicamente. Enquanto esperavam que finalmente chegassem, Bella ouviu uma voz fina e arrastada ao seu lado.
– Como vão os preparativos para o piquenique?
Policiando-se para não demonstrar sua antipatia pela recém chegada, a moça se voltou com um sorriso morno no rosto frio até que seus olhos pousassem em Jessica.
– Muito bem, obrigada!... E já que perguntou vou aproveitar para perguntar se deseja me ajudar? – certo, não gostava dela, mas a garota era habilidosa e tinha bom gosto para decorações.
– Claro que sim! – a moça respondeu animada e então perguntou esperançosa. – Nos encontraremos na igreja?
– Mais uma!... – Alice escarneceu num murmúrio ao seu lado sem desfazer o rosto saudoso ou deixar de mirar os barcos. Bella apenas lhe lançou um breve olhar reprovador.
– O que ela disse? – Jessica quis saber.
– Ela disse que você é mais uma na minha lista de colaboradoras. – e então, acrescentou. – E não, não nos encontraremos na igreja. Estou pensando em marcarmos na Blue Moon amanhã á tarde, pode ser?
– Pode, não é... – respondeu visivelmente desanimada. – Á que horas?
– Ás duas.
– Está marcado então.
Quando Jessica se afastou para se juntar á mãe, Bella refreou o desejo de retrucar á amiga; de nada adiantaria afinal ela tinha razão. A moça sabia que não era a única á alimentar fantasias com o novo padre. Por mais que lhe incomodasse saber, não sofria em demasia, pois enquanto as outras o desejavam e ficavam horas e horas de joelhos atrás dos bancos deteriorados da igrejinha, ela era a única que lhe recebia a verdadeira atenção.
– É ele! – Alice falou ao seu lado com a voz embargada. – Meu Jazz...
Bella o via. O irmão estava no convés do primeiro barco que cortava as cristas das ondas mansamente. Depois de acenar-lhes empregou sua atenção nas cordas, preparando-as para a amarração. Não estava com as roupas sujas, mas seu cabelo crescido e a barba que cobria seu rosto lhe acresciam anos e davam um ar desmazelado. Ah sim... E a moça sabia que ele fedia á peixe passado. Contudo nada disso importava. Daquela vez não se atiraria em seus braços porque não privaria a amiga de fazê-lo, mas tão logo Alice matasse um pouco de sua saudade, Bella aplacaria a dela.
A moça saudosa nem ao menos ouvia o burburinho á sua volta. Quando os barcos finalmente começaram a encostar-se nos pneus que revestiam a mureta do cais, ela se dirigiu até o do pai e esperou. Alice não se desgrudou dela um só minuto e tão logo Jasper pulou para junto delas, depois de atirar as cordas para que um dos ajudantes a prendesse, ela se atirou em seus braços e o beijou sem se importar com que estava á sua volta. Bella apenas sorriu e voltou sua atenção para o homem que saiu da cabine tão logo desligou a embarcação.
– Papai... – murmurou intimamente; e fazendo o caminho inverso de seu irmão, saltou para o barco e foi abraçá-lo ainda no convés.
– Oi minha princesa! – Charlie exclamou antes de recebê-la em seus braços. O pai também rescindia á suor, maresia e ao odor de peixe apodrecido, mas a moça não se importou. Depois de estreitá-lo em seu abraço, beijou-lhe em uma das bochechas.
– Bem vindo de volta pai!
– Obrigado!... Agora se afaste. Estou suado e não tomo um banho decente há dias.
– Sabe que não me importo! – então disse. – Vou deixar que termine suas coisas aqui, mas depois quero saber como foi tudo dessa vez...
– Pode deixar... Eu sempre conto, não é? – ele perguntou divertido. – Apenas me diga como estão sua mãe e irmã. Por que Rosalie não está aqui?... Já foi para a lanchonete?
– Não... Esme lhe deu licença, pois está com o pé engessado.
– Engessado? – repetiu alarmado.
– Calma... – Bella tranquilizou-o. – Não foi nada grave.
– Está bem... Também não posso conversar agora... Acho melhor você ir para casa, eu vou logo em seguida... E pode levar seu irmão se quiser. – disse olhando para o filho ainda abraçado á noiva. – Acho que Alice não vai desgrudar dele tão cedo. Eu vistorio o descarregamento.
– Certo! – depois de beijá-lo mais uma vez, Bella saltou de volta para o cais e se juntou ao casal apaixonado.
– Muito bem D. Alice! – disse afastando-os sem cerimônia. – Agora é a minha vez.
O irmão e a cunhada a olharam atordoados, mas ela não se importou. Tirou Alice do caminho e abraçou Jasper, tomando o devido cuidado de não se ajustar muito á ele, pois não queria descobrir o tamanho da saudade que o irmão sentia de sua noiva.
– Senti sua falta. – declarou ainda abraça da á ele.
– Também senti a sua. – o irmão disse separando-se dela, porém segurando-a pelos ombros com um dos braços e estendendo o outro para que a noiva se juntasse á eles. – Senti falta das duas... – e então as beijou.
– Tudo bem... – Bella começou fugindo do abraço. – Acho que já deu minha cota de peixe por hoje... Ele é todo seu, Alice... E é melhor dar um trato em suas escamas logo... – recomendou tapando o nariz teatralmente.
– Bem que eu gostaria. – Alice lamentou. – Mas ainda é cedo para me indispor com minha sogra... Depois eu o mergulho na minha banheira. – disse piscando para a amiga.
– Eu fico fora duas semanas e quando volto as entendo menos ainda... – ele exclamou olhando de uma á outra.
– Não precisa entender... Só fazer o que nós decidirmos... – disse Bella puxando-o pela mão. – Já que sua noiva covarde só vai cuidar de você depois que a “sogra” dela o liberar, vamos para casa... Papai já o dispensou e o sabonete de lá é tão perfumado quanto o de qualquer outro lugar.
– Vou apenas pegar minha mochila então. – depois de dar um beijo breve em sua noiva ele saltou para o barco. Depois de poucos minutos voltou com sua mochila de roupas usadas e sujas. O cheiro de suor e peixe impregnou a pick up, mas Bella não se importou. O irmão estava de volta são e salvo, assim como seu pai. Isso deixaria a moça satisfeita até a próxima pescaria em alto mar, quando então, a saudade e a preocupação se fariam novamente presentes.
A manhã corria estranha; arrastada e incompleta. O padre tinha chegado da praia á mais de duas horas e ainda se sentia frustrado por ter corrido sozinho. Sabia que Bella não iria; saiu de casa convencido de que seria melhor daquela maneira – afinal não precisavam realmente se encontrar todos os dias –, mas na prática não gostou da falta que a moça lhe fez. Agora perambulava pela igreja á procura de pequenos serviços para ocupar seu dia entre uma obrigação e outra, levemente aborrecido, por saber que não á veria cruzar a porta, abraçada ao caderno, vestida em algum vestido bonito e balançando seu indefectível rabo de cavalo.
Também não ajudava que Carlisle estivesse lhe boicotando desde que chegou de sua corrida na manhã seguinte, depois de deixá-lo sozinho com Kirk, o único encanador da cidade, para resolver o problema com o cano. Edward sabia que boa parte de sua inquietação também se dava pela falta de comunicação entre eles. O padrinho lhe procurava para falar somente o necessário, assim como lhe respondia com a mesma economia de palavras. Edward não gostava daquele clima entre eles.
Tal atitude também não o ajudava á encontrar uma boa maneira de lhe contar sobre o novo jantar. Ainda estava decidido á ir sozinho, mas a cada olhar enviesado que flagrava em sua direção, o padre acreditava que não conseguiria seu intento. O padrinho deliberadamente o ignorava, mas estava decidido á vigiá-lo. Evidente que não perderia a oportunidade de se fazer presente em uma reunião na casa dos Swan. Contudo, avaliando suas opções, Edward considerava preferível a companhia indesejada a faltar ao compromisso. Sua metade atraída pela moça não resistiria á tantos dias sem vê-la.
– Pensei que as idas á praia fossem para acalmá-lo, não deixá-lo irrequieto. – o tutor disse de súbito enquanto distraidamente folheava o lecionário.
– Não estou irrequieto. – ele disse reposicionando um castiçal sobre o altar.
– Se tem alguma coisa á me falar, apenas diga. – o padrinho pediu, mostrando-lhe o quanto o conhecia.
– Bom. – Edward começou, retirando o castiçal do lugar mais uma vez. – Hoje os pescadores da cidade estão voltando para suas casas.
– Sei disso... A senhorita Platt me disse dias atrás.
– Pois bem... – o padre colocou o castiçal em seu lugar e foi até o padrinho para encará-lo. – Charlie Swan, chega hoje e pediu á sua filha que nos convidasse para jantar em sua casa amanhã no início da noite.
– E você aceitou? – o tio perguntou sem ocultar seu desagrado.
– O homem é o líder comunitário, talvez a figura mais respeitada dessa vila de pescadores... Como eu poderia recusar?
– Quanto á isso não posso contestar, mas seria bom que tais jantares não se repetissem. – disse. – Ficaria aborrecido se eu não fosse?
Edward mal acreditou nas palavras inesperadas. Em situações normais aquele era o comportamento esperado, mas visto o empenho em afastá-lo da moça ele perdia todo o sentido. Para o padre, não demonstrar seu contentamento se tornou tarefa fácil quando a incredulidade era dominante. Sem nem ao menos refletir, inquiriu com o cenho franzido.
– E por que não iria?
– Sabe que não gosto desses encontros. Da última vez havia tantas pessoas que até agora estou tonto. Prefiro ficar em nossa casa.
Então aquela era realmente a resposta; Edward acreditou que o espírito vigilante do padrinho seria maior do que seu desejo de reclusão. Estava enganado. Providencialmente estaria desacompanhado, refletiu refreando um sorriso de satisfação genuína. Imediatamente o padre se arrependeu do pensamento e seu espírito se tornou recriminador, pois ser liberado para ir á um jantar onde não só aproveitaria para saciar as saudades e receber mais atenções de certa moça, nada tinha á ver com providência divida. Sério, perdido em sua blasfêmia não verbalizada, o padre procurou se ater aos pontos importantes da noite seguinte.
– Bom... De toda forma eu iria pedir para que ficasse. Como sabe me comprometi á realizar uma missa também aos sábados.
– Sim, eu sei... Estava aqui justamente pensando sobre isso. – encarando-o diretamente, inquiriu. – Por isso me pediria para ficar? Para realizar a missa em seu lugar?
– Sim... – a voz saiu apagada, como nas poucas lembranças que guardava de sua infância quando se dirigia ao padrinho depois de algum mal feito cometido. – Faria isso por mim?
Carlisle não desprendeu os olhos de seu rosto, deixando-o ainda mais incomodado á espera de um sermão reprovador e acalorado. Contudo, as palavras do tutor novamente lhe mostraram que estava enganado.
– Apenas dessa vez.
– Obrigado! – agradeceu ocultando o contentamento crescente que preenchia seu peito expulsando sem temores todo o respeito anterior.
– Não me agradeça. – Carlisle pediu seriamente. E como se fosse possível saber suas intenções, ele ainda acrescentou. – E não me dê motivos para arrependimentos.
– Não há razão para acontecer tal coisa. – Edward assegurou.
– Geralmente não há razão para as grandes catástrofes... – o padrinho contraditou profético enquanto se afastava em direção á sacristia. – Ainda assim elas acontecem.
Quando Carlisle sumiu porta adentro, Edward ainda permaneceu bons minutos olhando para a passagem vazia. O que era nomeado de “catástrofe”?... O interesse que havia percebido entre ele e Bella?... Caso fosse, o tutor se preocupava em demasia; nada aconteceria. Ele tinha tudo ordenado em sua mente e era apenas uma questão de tempo para ter tudo sob controle. Bastava que se acostumasse com a presença feminina em sua vida e tudo seguiria dentro da normalidade aceitável. Talvez, com esse tempo viesse a rotina; a novidade se perdesse e o padre nem mesmo precisasse de agrados para manter sua metade domada.
Bastava também que se policiasse quanto ás palavras usadas em suas conversas, para que não alimentasse os sentimentos da moça como na manhã passada ao lhe contar que havia deixado o padrinho sozinho para ir ao seu encontro. Não havia mentido, mas ela não precisava saber. Tudo que não queria era que Bella começasse a acreditar que teria mais do que ele lhe oferecia ou desejava dela. Não estava procurando romance e sim um paliativo para acalmar aquele homem viril que havia despertado em si.
Justamente por isso, também na manhã passada, ponderou consigo mesmo e refreou um crescente sentimento de posse. Queria a moça por perto, mas não deveria desejá-la “para si” então não se incomodaria com a relação conturbada que mantinha com aquele rapaz moreno; Jacob. Imaginá-la-ia também como duas, assim como fazia com ele mesmo. A Bella de seus agrados e a Bella filha do líder comunitário, jovem e livre para fazer o que bem entendesse de sua vida. Desde namorar moleques á frequentar cursos semanais de veracidade questionável.
O padre olhou á sua frente, para os bancos velhos e descascados de sua igreja que naquela manhã estavam ineditamente vazios e suspirou profundamente. Sabia que o distanciamento racional e emocional era o melhor caminho á seguir e se manteria firme em percorrê-lo até que não precisasse mais da moça. Contudo, até que uma parte sua deixasse de ser dependente, preferia vê-la todos os dias. Por algum motivo alheio á ele, sabia que mesmo sua igreja estando lotada, ainda estaria vazia, se ela não ocupasse seu lugar.
– E então?... – Charlie perguntou á esposa que o servia. – O novo padre vem aqui em casa novamente?
– Sim... – Renée respondeu prontamente. – Confirmou para Bella que virá amanhã ás sete e meia, como da outra vez.
– Confirmou para Bella? – estranhou, olhando para a filha e novamente para a esposa que havia ido para seu lugar á mesa do almoço. – Pedi que você fizesse o convite em meu nome.
– Sim, papai... – Bella se adiantou á resposta da mãe. – Sabemos que pediu á ela, mas como eu o vejo praticamente todos os dias achei que não teria nada de mais convidá-lo. Somos todos da mesma família, não?...
– Está certo! – anuiu. Depois de mastigar mais um punhado de comida, perguntou. – Por que o vê todos os dias?
Bella esperava por aquela pergunta. Por isso se adiantou á mãe, pois desejava entrar naquele assunto o quanto antes e ser ela a expor os fatos. Nada melhor que ali, durante o almoço em família, na presença também de Alice. A explicação demonstraria que não havia nada de extraordinário em seus encontros com o novo padre da cidade. Como havia pensado antes, se seu pai não visse problemas, ninguém mais veria. Ou pelo menos não comentaria abertamente.
– Bom... Acho que nos esquecemos de lhe contar, mas... Lembrasse que comentamos sobre um piquenique comunitário?
– Lembro, sim... – confirmou voltando á comer.
– Pois bem... Jessica Stanley deu a ideia e Rosalie se ofereceu em ajudar como sempre, mas logo no primeiro dia ela se acidentou. Então... eu assumi seu lugar.
E mais uma vez era somente esperar pela pergunta óbvia. Dessa vez, porém, ela veio de seu irmão, já limpo e barbeado, que a olhava entre incrédulo e divertido.
– Você?!... Ajudando em obras da igreja? Essa é nova!
– Não vejo qual o problema. – Alice retrucou em tom casual por solidariedade á amiga. – É uma festa como outra qualquer...
– E é justamente assim que eu a encaro. – Bella afirmou, aproveitando o ensejo. – Não vejo problema algum em ajudar minha irmã já que ela está incapacitada.
– Então não está ajudando por nenhum motivo cristão. – o pai concluiu.
“Não mesmo”; Bella pensou e em voz alta explicou muito séria.
– Em um primeiro momento não era, mas começo á simpatizar com a causa. Como sabem frequentar missas nunca foi meu forte... E ainda não é... Mas agora que estou indo á igreja todos os dias e vendo as senhoras da cidade ajoelhadas atrás de bancos velhos e gastos... Ou a pintura descascada pelas infiltrações, eu sinto que não custa ajudar á recuperar a capela de nossa cidade.
– Já é um começo... – Charlie exclamou depois de beber um gole de seu suco de laranja. – Quem sabe assim seu interesse não se volte para nossas obrigações religiosas?
– Bom... – a moça iniciou inibindo um sorriso que desejava parecer acanhado. – Admito que já está acontecendo... E de toda forma, a única mudança será mesmo em meu interesse e na frequência, pois sempre cumpri com minhas obrigações.
– Sei disso, mas gostaria que nas raras vezes que vai comigo á missa não fosse com cara de velório.
– Acho que até em velórios ela vai um pouco mais animada. – comentou Jasper que recebeu um beliscão de sua noiva logo em seguida.
– Para seu governo. – Bella disse séria para o irmão. – Gosto menos de ver gente morta do que ir á missa... E como prova de que estou nutrindo certo apreço pela instituição, me ofereci também para restaurar as imagens.
– Ah sim?... – o pai se interessou. – Estou gostando de ouvir isso...
Animada, Bella explicou.
– Começarei depois do piquenique... O serviço é leve... Elas não estão em péssimo estado então será rápido.
– Certo!... – exclamou Charlie depositando os talheres sobre o prato e se recostando contra o espaldar da cadeira. – Já que está ajudando o padre, me conte como ele é?
– Bom... Receio não ter muito á dizer... Para mim, padres são todos iguais... Devotados ás suas igrejas e aos seus fiéis. Quando estamos juntos conversamos sobre o piquenique... Na quarta o levei para conhecer o galpão da cooperativa, juntamente com Sue. – acrescentou rapidamente, antes de introduzir outro detalhe, desconhecido até mesmo por sua mãe. – Ás vezes o encontro na praia pela manhã. Ele costuma correr ou caminhar...
Nesse ponto Bella podia sentir todos os olhares em sua direção, mas se manteve firme em sua narrativa como se o que dissesse não representasse nada especial para ela.
– Algumas vezes eu o acompanho, mas sempre conversamos sobre o piquenique ou o tempo... Ou sobre o senhor.
– Sobre mim? – Charlie franziu o cenho. – O que conversam sobre mim?
– Ontem mesmo o padre Cullen me dizia que acreditava que o senhor fosse um homem correto e bom quando lhe contei que sempre o esperava no cais. Disse que já ouviu alguns comentários á seu respeito na cidade e que todos o têm muito apreço.
Enquanto falava, Bella pode acompanhar as feições do pai gradativamente se encherem de orgulho. Charlie Swan gostava de ser ouvido e respeitado e saber que alguém, que nem ao menos o conhecia, reconhecia sua importância em meia dúzia de conversas o envaidecia.
– Amanhã o senhor vai conhecê-lo e pode fazer sua própria avaliação. – ela disse por fim.
– Acho que vou gostar dele. – sentenciou como que para si mesmo e então, mudando o assunto completamente se voltou para Rosalie que permaneceu calada durante todo o almoço. – E como está James?... Ele virá amanhã, não?
– Sim papai... – a filha mais velha confirmou sem encará-lo. – Acho que ás seis horas ele já esteja aqui, pois deseja conversar com o senhor.
– E como está o noivado?
Bella olhava para a irmã, compadecida. Charlie não era tão fácil de enrolar como Renée, justamente por isso sabia que Rosie não o encarava. A caçula conseguia se sair melhor, pois tinha a preferência do pai á seu favor. E também o conhecia como ninguém e jogava com sua vaidade como havia terminado de fazer com relação ao assunto “novo padre”.
– Muito bem!... – a filha mais velha disse forçando um sorriso e arriscando um breve olhar. – Gostaria que ele pudesse vir todos os dias, mas ao menos conversamos ao telefone.
– Fico feliz em ouvir isso. Eu lhe disse que com o tempo passaria á gostar dele. James é um bom homem e tem um futuro brilhante... Tenho certeza que será um bom marido também...
– Sim, ele será... – ela concordou sem muito entusiasmo.
Voltando os olhos para o casal ao seu lado, dando por encerrado seu assunto com a filha, Charlie comentou.
– Quanto á vocês dois nem preciso perguntar... Vi que tudo está bem. Arrisco em dizer que Alice era a pessoa mais saudosa naquele porto.
– Pode apostar que eu era senhor Swan. – disse a noiva do irmão sem se deixar intimidar.
Alice a confundia. Nutria imenso respeito pela futura sogra que nunca havia se oposto á escolha do filho, por vezes tão inexpressiva ao passo que pelo futuro sogro que apenas a tolerava não baixava sequer o olhar. Talvez essa fosse a razão, Bella ponderou, se a amiga demonstrasse inferioridade Charlie Swan nem mesmo a respeitasse; e Alice era digna de toda consideração. Ela era como todos os jovens normais daquele país que desde cedo deixavam a casa dos pais e seguiam suas vidas. Não poderia ser culpada por se apaixonar pelo filho do homem mais apegado aos costumes de seus antepassados ou que este retribuísse o interesse por alguém parcialmente independente como ela.
Sim, Alice agora morava sozinha, mas nunca perdeu o contato com os Brandon ou se deu pouco respeito. Também não poderia ser condenada se os pais resolveram sair daquela cidade perdida no mapa. Ela apenas ficou para trás por acreditar que dia menos dia o objeto de seu desejo iria até ela, como realmente aconteceu. Alice teve a coragem de fazer o que Emmett deveria ter feito, Bella considerou agora mirando a irmã que olhava para além dos limites da janela distraidamente. Se o amigo tivesse metade da coragem que sua amiga Alice, todos naquela mesa estariam felizes.
– ... não é mesmo Bella? – o pai finalizou uma pergunta.
Piscando algumas vezes, a moça olhou em volta e viu que alguns dos olhares se dirigiam á ela. Esteve tão submersa em seus pensamentos que não havia escutado toda a pergunta.
– Desculpe... Eu não ouvi, poderia repetir?
– Seu pai disse... – começou Renée. – Que agora só falta conseguir um bom partido para você.
A moça quase engasgou.
– Para mim?!...
– Evidente. – afirmou o pai. – Já está com vinte anos... Logo fará vinte e um. Parou a faculdade e vive de dar aulas para as crianças em Wells... Não quero isso para você. Quero meus filhos todos estabelecidos na vida, vivendo em paz com suas famílias... Se puderem ficar aqui perto de mim, melhor... Se não, como é o caso de Rosalie que irá morar em Wells, está bom também...
– Qual o problema com minha idade... – a moça inquiriu juntando as sobrancelhas. – Jasper tem vinte e seis, Rosalie vinte e quatro... Ainda tenho alguns anos livres antes de pensar em casamento.
– Jasper é homem. – o pai replicou em tom amável, porém firme. – Poderia casar aos quarenta e não estaria velho para cumprir com suas obrigações matrimoniais, mas com as mulheres é diferente. Vocês têm o tempo certo para tudo... Quanto mais cedo se casarem, melhor estarão dispostas á terem filhos, cuidarem de seus maridos...
– Nem mesmo Rosalie está velha para nada disso. – Bella argumentou. – Imagine se eu estou... E hoje em dia as mulheres se casam cada vez mais tarde... Muitas têm seu filho aos trinta ou mais.
– E com o tempo se parecem avós dos mesmos. – o pai rebateu levemente aborrecido. – Todas as mulheres de minha família se casaram cedo... Sua mãe não havia chegado aos vinte quando me casei com ela e não vou repetir o mesmo erro que cometi com sua irmã esperando tanto tempo... Se não tiver um namorado que queria me apresentar, eu arrumo um para você.
Se Bella não estivesse habituada á ser a boa atriz que era, teria ouvido o discurso inflamado do pai com o queixo caído. Jamais lhe ocorreu que cedo ou tarde ele tentasse fazer com ela o mesmo que fazia com a filha mais velha. Recuperando-se do choque, indiferente ao silêncio que se abateu sobre a mesa, Bella disse á si mesma que aquilo era tudo que o pai poderia fazer; “tentar”. Apesar da aparente submissão, ela não era exatamente um cordeiro esperando para ir ao abate. Ciente de sua capacidade de persuasão sorriu levemente para quebrar o clima tenso.
– Tudo bem... Seu desejo de igualdade é muito justo... Mas acho que dois casamentos já são suficientes por esse ano... Até que Rosie esteja casada eu acredito que já tenha encontrado um namorado decente.
– Isso seria muito bom. – Charlie disse satisfeito com a rendição da filha caçula. – Mas ainda vale o que eu disse... Se não se interessar por ninguém, eu mesmo providencio esse homem decente para você.
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