Enigma - Segredos e Mentiras
9 Capítulo 8
Notas iniciais
– Por que não vai se deitar Eddie?
Sem desviar os olhos da lua para voltá-los na direção do padrinho que caminhava para a janela onde se encontrava, Edward respondeu também em italiano como sempre fazia quando estavam á sós.
– Porque estou sem sono.
– Deite que ele virá. Ficar ai de pé ao lado da janela não vai ajudar em nada se está insone.
– Sei disso. – retrucou simplesmente, ainda sem se mover.
Após alguns segundos de silêncio o padrinho palpitou.
– Será que não é fome?... Não almoçou ou lanchou e durante a janta fora de hora, não comeu quase nada. O macarrão que deixei está praticamente intocado.
– Se estivesse com fome eu comeria. – disse ainda olhando o vazio.
Depois de um suspiro exasperado, Carlisle diminuiu a distância entre eles e tocou-lhe o ombro.
– Não gosto de lhe ver assim... Por que não me conta o que o atormenta. Dou-lhe minha palavra que não o julgarei ou criticarei se me disser que é por causa da moça e...
– Não vamos voltar á esse assunto, por favor. – pediu em tom cansado, fechando os olhos.
– Tudo bem... Não quero que se aborreça. – Carlisle pediu. – Então não é por causa da senhorita Swan, mas tem que ter algum motivo para seu comportamento. Eu não enveredaria por suposições erradas se me dissesse a verdade.
– Por que não posso me aborrecer? – Edward perguntou subitamente o encarando.
Pego de surpresa com a pergunta fora do contexto, o tutor piscou algumas vezes antes de dizer.
– Porque não há necessidade de nos alterarmos como aconteceu essa manhã.
– Tem certeza que é somente por isso? – inquiriu franzindo cenho, avaliando as expressões faciais do tutor.
– E por que mais seria Eddie? – ele lhe devolveu com outra pergunta, impassível.
Novamente fugindo do contexto que teria lógica para o padrinho, Edward contou.
– Hoje senti vontade de bater em alguém.
– O quê?! – Carlisle engasgou espantado. Depois de se recuperar parcialmente, perguntou alarmado. – Agrediu alguém?... Quem? Quando? Por quê?
O jovem padre não respondeu de pronto impacientando o padrinho.
– Edward diga alguma coisa!
– Não disse que bati em alguém e sim que tive vontade. – respondeu cruzando os braços sobre o peito e encarando o padrinho que ainda se recuperava do susto.
– Certo, mas então me conte. Por que quis bater numa pessoa?... Quando foi isso? Agora á noite? Quando saiu?
– Foi sim... Tive uma... “contrariedade” e meu primeiro desejo foi resolvê-la com uma agressão.
– Edward... – tio murmurou em lamento, olhando-o como se não o conhecesse.
– Não me olhe assim. – pediu. – Já falei que não o fiz.
– Mas pensou em fazer. Vai me dizer o motivo?
– Ele não vem ao caso. O motivo é irrelevante diante da minha reação. É por isso que estou sem sono... Queria entender de onde veio a animosidade que senti.
– Você é humano, apenas isso. – o padrinho simplificou.
– Não... Nem todos os humanos reagem da mesma forma diante de determinada situação e a minha foi completamente contrária á minha índole e á minha posição. – sem desviar os olhos dos do padrinho, disse. – Gostaria que me dissesse por que agi assim.
O tutor franziu o cenho e perguntou confuso.
– Como eu posso saber?
– Talvez ajudasse se me dissesse como eu era. – sugeriu.
– Como assim “como era”? – Carlisle estranhou a pergunta. – Já disse milhões de vezes como você era.
– Diga mais uma. – pediu incisivamente.
O tutor bufou exasperado antes de dizer.
– Você sempre foi um rapaz normal.
– Defina normal.
– Sempre foi educado... Respeitoso com seu pai, amoroso com sua mãe. Nunca arrumou confusão na escola ou na rua em que morava. Mesmo criança teve poucos amigos, mas interagia bem com eles. Quando adolescente era cordato salvo um ou outro desentendimento próprio aos de sua idade, mas nada grave ou que merecesse severas repreensões. E até onde soube nunca teve uma namorada, pois expressou desde cedo o desejo de servir á Deus.
– Resumindo; praticamente sempre fui um santo. – Edward comentou encobrindo o sarcasmo que o assomava.
Cada vez mais lhe parecia que o padrinho lhe escondia algo importante sobre seu passado, contudo não tinha como fazê-lo falar se não era essa sua vontade. Não via como ser possível ter sido aquele modelo de perfeição, possuidor de uma conduta branda e casta; irretocável e irrepreensível quando era perseguido por sonhos apelativos demais para um virgem e agora era visitado por tantas reações intensas e incongruentes á um padre.
– Nunca disse que foi um santo Eddie. – o tutor falou docemente atraindo-lhe a atenção. – Acredite, entendo suas dúvidas, mas nada mais posso lhe dizer uma vez que realmente foi uma criança normal.
– Normal demais... – Edward murmurou para si mesmo; cansado.
– Normal na medida certa. – o padrinho retrucou ainda amável demonstrando tê-lo ouvido. – Não crie problemas para si mesmo Eddie, basta os que você já possui desde seu acidente. Como lhe disse, você está sob forte pressão. Pode-se dizer que viveu enclausurado por anos e agora mantém contato direto com tantas pessoas diferentes. Tudo é novo aqui... Não tente procurar por explicações em seu passado para o que lhe acontece no presente.
– Talvez tenha razão, mas seria tão mais fácil se eu me lembrasse. – Edward lamentou; envolvido pelas palavras de Carlisle.
– Evidente que seria, mas não adianta forçar sua memória. Acredito que um dia, quando menos esperar, ela reacenderá e seu passado virá inteiro assim não será preciso acreditar somente no que lhe digo. Contudo, até que aconteça tenha em mente que antes de ser padre, você é um homem jovem e saudável, suscetível a qualquer reação quando estimulado. Se alguém o provocou na rua, principalmente lhe dizendo algo que não gostou de ouvir, nada mais natural que tenha desejado externar o que sentia no momento.
Edward nada retrucou, apenas recebeu as colocações daquele homem que amava como á um pai. Elas recaíram sobre seu espírito atormentado como água fresca em uma planta ressequida; salvando-a. Aquela explicação era totalmente relevante; aceitável e menos fantasiosa que seus questionamentos levantados com os últimos acontecimentos. Ainda havia a questão dos sonhos impróprios, mas não poderia persistir na crença de que tivesse sido um delinquente juvenil. Se insistisse no caminho que seguia era á isso que chegaria, afinal tinha apenas dezessete anos quando sofreu o acidente que lhe roubou a memória. Seria reconfortante aceitar as palavras do padrinho mais do que se imaginar um celerado ou acreditar que não conhecia o caráter do homem que sempre esteve ao seu lado.
O tutor era seu ponto seguro; sua única referência na vida. Se perdesse a confiança nele perderia tudo e Edward começava a ficar cansado de procurar por respostas para questões inquietantes que talvez nem devessem existir. Depois de ponderar sobre tudo que ouviu, o padre procurou pelos olhos do padrinho. Neles encontrou toda a dor por estarem presenciando sua angustia pessoal mais uma vez. Não era possível que olhos tão sinceros escondessem uma alma mentirosa. Imediatamente arrependido pelos pensamentos infames que alimentou contra Carlisle, Edward foi até ele e o abraçou com força.
– Perdoe-me! – o jovem padre pediu emocionado.
– Pelo o que Eddie? – o padrinho inquiriu consolador retribuindo o abraço. – Por desejar saber quem é ou tentar entender as emoções que sente?
– Por minha descrença. – Edward respondeu soltando-o.
O tutor lhe sorriu brandamente e lhe deu três tapas breves e leves na bochecha direita; aquele era seu equivalente á carinho.
– Não se martirize por isso Eddie. Não sei se aguentaria melhor do que você se tivesse que ter minha vida contada por outra pessoa. Na verdade acho até que se sai muito bem. – elogiou. – Agora vá se deitar, por favor. Levantamos cedo e não quero que acorde cansado. Se desejar posso lhe levar uma xícara de leite morno, vai ajudá-lo á dormir.
– Não quero nada, obrigado!... Sinto-me melhor agora que conversamos.
– Sabe que sempre estarei aqui para você Eddie. – Carlisle assegurou lhe sorrindo ternamente. – Agora vá se deitar.
Edward o obedeceu sem mais palavras. Precisava mesmo de descanso, dormir e de preferência não sonhar, pois tinha que estar preparado para um novo dia em sua paróquia. Aquela era sua vida. A vida que conhecia e a vida que teria indefinidamente. No momento seria melhor vivê-la sem grandes questionamentos. Tudo acontecia em seu tempo certo. Também sempre acreditou no mesmo que Carlisle; mais dia menos dia seu passado viria límpido e inteiro em sua mente, então saberia qual era sua verdade.
Tão logo caiu sobre a cama, sua mente refrescada e seu corpo cederam ao cansaço fazendo com que o pároco prontamente adormecesse. Contudo, contrariando o que desejou, teve sonhos perturbadores durante toda a noite onde uma Bella envolvida em um tecido vermelho e diáfano o abraçava com braços e pernas enquanto afundava o rosto em seu pescoço para torturá-lo com o hálito morno em sua pele. Mais uma vez, já pela manhã, despertou rígido de desejo. Aceitando que aquela seria uma situação constante e sentindo apenas certa irritação embaraçosa por não comandar aquela parte emancipada de seu corpo, Edward levantou e seguiu ás pressas para seu banho matinal onde poderia manter seu primeiro contato íntimo com certa moça de cabelos castanhos.
– Moletom? – Rosalie estranhou ainda sonolenta. – Camiseta e tênis?... Aonde vai vestida assim?
– Ao cinema. – Bella respondeu terminando de prender o cabelo em seu eterno rabo de cavalo. – Volte a dormir e sonhe que me esqueceu.
– Sério Bells. – a irmã falou apoiando-se em uma dos cotovelos sobre a cama. – Aonde vai?
– Caminhar na praia, onde mais? – disse impaciente.
– Ah... É bom variar a modalidade ás vezes. Assim mamãe não surta com você nadando pelada.
– Para seu governo nunca nadei pelada; só de lingerie. – corrigiu indo para a sacada.
– Vai sair escondida? Por que não sai pela porta como uma pessoa normal.
– Talvez eu não seja normal. Tchau Rosie...
Dito isso saiu e fechou a porta do quarto sem esperar resposta. Enquanto descia descobriu o quanto fugir de tênis era trabalhoso, esperava apenas que usar aquele calçado feio e limitador assim como aquela roupa ridícula não se mostrasse ser pura perda de tempo. Ao chegar ao chão, cruzou o quintal e correu para a mata sem encontrar obstáculos. Enquanto seguia pela trilha tentava dizer a si mesma que nada tinha mudado. Carlisle não proibiu o sobrinho de vê-la e Edward por sua vez apenas disse correr havia se tornado inconveniente num daqueles momentos em que se refugiava em si mesmo.
Seguia tão distraída que seu coração quase saltou pela boca quando sentiu duas mãos de aço segurá-la pelos braços e tentar tirá-la do caminho, levando-a para o meio do mato. Passado o susto reagiu imediatamente pisando com toda sua força em um dos pés de seu agressor. Quando ouviu o grito de dor e as mãos afrouxaram o aperto o suficiente para se desprender, agradeceu por estar usando o calçado feio.
– Droga Bella! – Jacob exclamou tentando segurá-la novamente. – Vem cá.
– Pare de tentar me segurar. – ela alertou. – Sabe muito bem que sei me defender. Se precisar sair na mão com você eu saio. – disse, mostrando-lhe o punho mínimo.
– Está bem... Vamos parar por aqui. – ele disse erguendo as mãos. – Eu errei, como sempre!... Vamos começar novamente. Bom dia Bella.
– Só se for para você. – ela retrucou irritada; não queria que o padre a visse conversando com ele. – Já está me enchendo a paciência logo cedo por causa de ontem á noite, é isso?
– Sabe que sim.
– Se eu disser você promete que larga do meu pé pelo menos por hoje?
– Não vou lhe prometer mais nada. – avisou cruzando os braços. – Já me enganou ontem, não caio nessa de novo.
Certo, ela merecia estar passando por aquilo, pensou. Se tivesse dito de uma vez onde havia ido, agora ele estaria atrás de alguma árvore espreitando-a e sendo invisível como sempre e não ali, no meio da trilha a importunando. Assumindo seu erro, ela bufou e disse.
– Ontem eu e o senhor Cullen fomos ao galpão da cooperativa porque eu dei a ideia de fazermos o piquenique lá, satisfeito?
– Ouvi falarem de um piquenique que o padre esquisito está organizando.
– Quem está organizando sou eu... Por isso saímos juntos. Está vendo... Não era nada demais como essa sua mente suja imaginou.
– Tem que admitir que é difícil imaginar algo puro e inocente quando você está envolvida.
– Não estou tão desesperada para me atirar para um padre. – retrucou ofendida.
– Ah não?... – ele perguntou medindo-a. – Então por que está vestida como ele?
– Não estou vestida como ele. – ela negou dando de ombros. – Só me vesti assim porque é melhor para caminhar ou... correr. Não é segredo para você que fazemos isso algumas manhãs; então não venha com aquela estória de ciúmes novamente.
– Está certo! – ele também deu de ombros. – Se é o que diz...
– É o que digo, agora podemos ir? – perguntou, então, tentando encobrir a ansiedade usou a desculpa. – Preciso ver se o senhor Cullen já está na praia. Tenho um recado da minha mãe para ele.
– Podemos ir se quiser, mas o padre esquisito não passou por aqui então acho pouco provável que esteja na praia. Por que sua mãe não liga para ele?
Bella não lhe respondeu. Não conseguiria, pois subitamente sua garganta se fechou tamanha foi a decepção ao ter seu temor confirmado. O tio havia imposto sua autoridade; toda sua produção ridícula havia sido em vão. Nunca mais veria o padre sem estar cercada de várias outras pessoas. Graças á senhora Williams aquele era o fim do que nem havia começado. Ainda sem nada dizer, lutando contra as lágrimas que se formavam nos cantos de seus olhos, Bella se pôs á caminho da praia.
– E então? Qual é o recado de sua mãe para o padreco? – Jacob começou a seguir a moça sem perceber sua tristeza evidente. Imitando uma voz feminina e fina, falou.
– Tire esses olhos grandes de abutre agourento de cima de minha preciosa filhinha... Como se ele pudesse! – exclamou por fim com voz normal e debochada.
– Cale a boca Jacob! – Bella pediu embargada.
– O quê? Você está chorando?! – ao perguntar ele se adiantou e se colocou á frente da moça broqueando-lhe a passagem.
– Droga! Sai da minha frente garoto! – ela ordenou sem convicção alguma, pois as lágrimas que tentava ocultar começaram á cair sem que nada pudesse fazer para retê-las.
– Ei... Calma Bells. – ele pediu abraçando-a.
– Me deixe em paz Jacob!
Bella tentou afastá-lo, contudo não conseguir movê-lo um milímetro. Aproveitando-se do momento de fraqueja da moça, o rapaz imprimiu certa força até que ela cedesse e se deixasse abraçar. Ao ser envolvida pelo abraço afetuoso e acolhedor, Bella deu vazão ao choro e passou a soluçar copiosamente com o rosto enterrado no peito amplo e sólido.
– Shhh... Calma Bells. – Jacob repetiu o pedido passando a acariciar seus cabelos, consolando-a. – Foi alguma coisa que eu disse?... Se foi me desculpe... Eu sei que tenho a boca grande ás vezes e falo bobagem... Se quiser eu prometo que nunca mais faço piada do interesse do padreco por você.
Ao ouvir a promessa sobre algo que não precisaria ser feito futuramente, ela chorou ainda mais. Não haveria mais interesse do padre por ela ou fosse lá o que ele sentisse que o deixava em constante estado de alerta e cautela quando estavam juntos. Não haveria mais as oportunidades de provocá-lo como tanto começava á apreciar fazer. Nunca mais sentiria o formigamento em sua pele caso ele a tocasse novamente. Não haveria beijos... Não haveria nada.
– Bella você está me deixando preocupado. – Jacob disse ainda acariciando seus cabelos. – Não me lembro de ter visto você chorar antes; nem quando éramos crianças.
Ela queria atendê-lo. Parar de chorar e se afastar dele, mas não conseguia. Era como se todo o choro acumulado durante anos necessitasse ser extravasado. De repente, ainda abraçado á ela Jacob riu. Antes que Bella se sentisse ofendida por ele ter encontrado alguma graça de seu sofrimento Jacob perguntou, divertido.
– Lembra de quando nós tentamos escalar aquelas rochas lá do final da praia? Quando tínhamos o quê?... Nove e sete... Você se esborrachou na areia depois de cair quando estava ainda na segunda pedra. – então riu novamente. – Tudo bem, não estava tão alto assim, mas você bateu o pé na pedra de baixo e abriu um talho enorme no dedão. Nossa... Eu nunca vi tanto sangue em toda minha vida!... Agora confesso que quase desmaiei só por imaginar a dor que você estava sentindo, mas você... Se lembra o que me disse?
Depois de fungar e pigarrear, ela falou ainda com o rosto pressionado contra o peito amplo.
– Disse que você parecia uma menininha por gritar apavorado daquele jeito.
– Justamente... “Eu” era a menininha histérica e você lá... sem derramar uma única lágrima... Preocupada se seu dedo ficaria defeituoso e a impedisse de usar os sapatos de salto preferidos de sua mãe.
Ao se lembrar da obsessão que sentia pelo par de sapatos que há muito tempo não existia, ela sorriu em meio ás lagrimas.
– Aquela era minha tragédia particular... E não perder um bocado de sangue ou um corte idiota.
– E a dor criatura?! – ele perguntou ainda rindo e a afastando para olhá-la. – A dor devia estar te matando!... Eu sentia em mim.
– Eu me lembro... – ela riu novamente mesmo que seus olhos ainda estivessem molhados. – Ainda escuto seus gritinhos... “Ai meu Deus!” – imitou-o, porém usando voz fininha. – “A Bella caiu”... “E agora?”... “Ah”... “Socorro”...
– Eu não gritei assim. – ele negou fazendo-se de ofendido.
– Gritou sim! – ela confirmou, socando-o levemente no peito e agora sorrindo abertamente.
– Assim está melhor! – Jacob disse ficando sério de repente. – Essa é minha Bella!
Imediatamente a moça parou de sorrir, mas não voltou á chorar. Intimamente agradeceu pelo que ele havia feito, livrando-a de se esvair em lágrimas por um fato que não poderia mudar. Encarando-o, sorriu ternamente.
– Obrigada!
– Ah não... – ele começou tocando o rosto dela com as duas mãos para secar-lhe as lágrimas. – Nada de agradecimentos “sentimentaloídes” depois de fazer aquela imitação ridícula e ofensiva.
Dito isso, ela lhe sorriu ainda agradecida e não se importou quando Jacob, depois de enxugar-lhe o rosto parcialmente, aproximou o seu ao dela e a beijou demoradamente na testa.
– Scusame... Interrompo alguma coisa?
Ao ouvir a voz cantada, rouca e baixa Bella desejou que o chão se abrisse sob seus pés e a engolisse junto com Jacob para que não fosse obrigada à encarar o recém chegado depois de ele ter assistido àquela demonstração de carinho e intimidade. Certo, não queria que Edward os tivesse visto, mas já que tinha acontecido, era preciso agradecer silenciosamente á Jacob mais uma vez por estar segurando seu rosto, caso contrário cairia. Simplesmente não sentia suas pernas.
Seu coração batia de forma tão violenta que temeu sofrer um infarto. Cedo ou tarde aconteceria, era um fato. Edward levava seu corpo á extremos nunca antes visitados. Quando finalmente as sensações primárias voltaram, Bella confirmou que o padre também despertava sentimentos intensos em Jacob, pois as mãos que ainda a seguravam pelo rosto exerciam uma leve pressão, mesmo que não á machucasse. Saindo da inércia, Bella cobriu as mãos do rapaz e as tirou de seu rosto gentilmente antes de se voltar e procurar pelos olhos azuis.
– Não.
Bella respondeu com a voz ainda embargada; imediatamente registrando a imagem do padre parado á três metros de onde se encontravam, vestindo a habitual calça própria para corrida, camiseta e pela primeira vez com os cabelos molhados: lindo.
– Não interrompe nada, não é Jacob?
Bella o chamou na tentativa de despertar o rapaz de seu torpor. Piscando algumas vezes ele se afastou um passo dela e respondeu sem desviar os olhos de Edward.
– É... Não interrompeu nada.
E então, se voltando para Bella, sem se importar com a platéia ou se valendo dela por saber que a moça não faria uma cena diante de testemunhas, segurou-lhe o rosto mais uma vez e perguntou seriamente.
– Tem certeza que está bem?
– Tenho. – respondeu odiando ter sido privada de olhar para Edward.
– Ótimo! – Jacob disse antes de soltá-la e anunciar. – Tenho umas coisas para resolver em casa... Preciso ir agora. A gente se vê mais tarde.
– Tudo bem. – foi tudo o que conseguiu dizer. – Tchau Jake.
– Tchau Bells. – respondeu indo na direção de Edward, encarando-o. – Tchau padre.
– Ciao.
Quando o rapaz se foi, ficou o silêncio, velho conhecido de ambos. Contudo a ausência de palavras era incomoda. Por alguns minutos nenhum dos dois sequer se moveu sem nunca desprenderem o olhar. Bella não sabia o que dizer, ao passo que Edward não sabia se desejava ter suas suspeitas da noite anterior confirmadas. Quando o clima começou á ficar insustentável, coube ao padre tentar amenizá-lo.
– Eu me atrasei.
– Percebi. – ela respondeu automaticamente. – Eh... Vim arrumada.
– Percebi. – ele comentou.
Na verdade havia percebido muitas coisas. A primeira e mais incomoda foi descobrir que não gostou nada de vê-la nos braços do rapaz. Que novamente sentiu ganas de socá-lo por ele se atrever á beijá-la duas vezes seguidas mesmo que na testa. Que desejou ser ele á consolá-la no momento em que notou que ela havia chorado. Que ela ficava linda com os olhos vermelhos e a ponta do nariz rosada. E que esperava – com todo o seu coração – que ela não fosse comprometida com o garoto da forma que a cena sugeria.
– Acha que dá tempo de corrermos? – ela perguntou ainda meio entorpecida, indicando a praia com o polegar, por sobre o ombro.
– Acho que hoje podemos somente caminhar. – ele sugeriu finalmente indo até ela.
– Seria perfeito. – Bella murmurou.
– Mas antes falta uma coisa. – ele disse parando á sua frente.
– O quê? – ela perguntou aturdida.
– Você não me tomou a benção.
E novamente seu coração ainda em recuperação, acelerou. Sem saber o que esperar, Bella disse as palavras esperadas; tomando o devido cuidado de não citar sua posição no clero. Quando o pároco lhe abençoou e ato contínuo lhe estendeu a mão, ela não soube o que fazer por cinco segundos inteiros. Então, aproveitando a oportunidade oferecida, tomou os dedos longos entre os seus e os beijou demoradamente. Ao ouvir a respiração masculina ser suspensa e contida, seu corpo estremeceu em deleite. E quando finalmente o soltou e ergueu seus olhos, flagrou o momento exato em que Edward abria os dele permitindo que visse as íris azuis escurecidas; as pupilas dilatadas.
O padre tinha que se habituar àquelas pequenas concessões uma vez que havia decido recebê-las, contudo desejava que nunca acontecesse. Agora que sabia o que esperar, apreciou cada segundo do tempo que a adrenalina tomou para percorrer seu corpo inteiramente ao ser liberada após ter os lábios macios comprimidos sobre sua pele. Então, esperava verdadeiramente que jamais se acostumasse á ela, pois lamentaria o dia que não mais sentisse aquele prazer estimulante e ao mesmo tempo pacificador.
Também não gostaria de ser privado daquele olhar intenso que encontrou ao abrir os olhos que nem ao menos percebeu ter fechado enquanto a sua metade necessitada dela apreciava o pulsar breve e latejante naquela parte em seu corpo livre de qualquer comando. Havia naqueles olhos castanhos um desafio constante – e agora um discreto pedido mudo – que descobriu ter se tornado dependente. E mesmo que sua metade consciente jamais pudesse atendê-los, egoisticamente os queria sobre si; e sobre si somente.
Novamente em um gesto generoso, o padre resolveu atender á um súbito apelo de sua parte interessada e, sem cerimônias, ergueu uma das mãos para tocar o rosto ainda molhado e capturar com o polegar os restos de uma lágrima nos cílios inferiores. E já que estava com a mão sobre a pele macia e úmida, ele a deixou correr pela bochecha rosada até que chegasse ao queixo, na tentativa de secar a face da moça, sem perceber – ou querer admitir – que lhe fazia um carinho. Quando os olhos de Bella deixaram os seus para se fixarem em sua boca entreaberta e ela umedeceu os próprios lábios com a ponta da língua, o padre soube que sua benevolência havia ido longe demais. Pigarreando para limpar a garganta que sentia obstruída, ele anunciou roucamente.
– Agora podemos ir.
Sem mais avisos retirou a mão do rosto de Bella e se pôs á andar sem olhar para trás, como se também fosse natural que Bella simplesmente o seguisse.
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