Enigma - Segredos e Mentiras
27 Capítulo 26
Notas iniciais
– Já que está em condições de receber visitas – Rosalie falou entrando no quarto para ocupar o lugar deixado por Carlisle. – acho que podemos conversar agora.
– Podemos – Bella concordou novamente se sentando – mas já vou avisando que não estou com ânimo para brigas. Se vai me ofender, faça de uma vez e depois me deixe.
– Você merecia que eu fizesse exatamente isso. – disse. – O problema é que também estou cansada de brigas.
– Isso é bom... – murmurou. – então o que vai ser?
– Pensei em tudo que conversamos ontem e acho que os entendi.
– Sério? Estou perdoada? – as palavras da irmã lhe devolveram a alegria que sentiu pela manhã.
– Isso já é outra estória. – Rosalie respondeu com seriedade duvidosa. – Antes terá que se redimir. Ligue para Emmett e diga que quero falar com ele.
– E por que você não faz isso? – Bella alcançou seu BlackBerry e começou a discar os números.
– Não sei se tenho coragem. – Rosalie confessou receosa.
– Deixe de bobagem... Ele está em outra cidade, nem pode vê-la e... Alô, Emm! – cumprimentou com um sorriso.
– Que milagre você ligar para mim... – o rapaz exclamou. – O que houve?É alguma coisa com Rosie?
– Por que não pergunta á ela? – sem esperar pela reação, estendeu o celular para a irmã pálida á sua frente. Com mãos trêmulas, Rosalie o pegou.
– Oi Emmett. – murmurou timidamente. Nesse momento Bella achou melhor deixá-la á vontade. Saindo da cama, calçou seus chinelos e foi para a varanda olhar a noite. Satisfeita, pensou que ao menos o romance de uma Swan estava bem encaminhado. Indo para uma das cadeiras dispostas no extremo oposto á porta que levava ao seu quarto, se sentou e esperou pacientemente que a irmã fosse até ela. Sabia que tinham muito á conversar, então se surpreendeu ao vê-la deixar o quarto poucos minutos depois.
– Já?!... Pensei que fossem trocar juras de amor a noite inteira. – troçou.
– Combinamos de fazer isso amanhã. – Rosalie informou toda sorridente.
– Amanhã?!... – Bella se pôs de pé. – Amanhã é o dia do baile esqueceu? James vai estar com você. E papai... Está maluca?
– Só estou fazendo o que sempre me aconselhou á fazer. – falou segura. – E não estou louca, apenas conto com sua ajuda. Você me deve essa. E se não bastar lembre-se que ainda me deve aquela ida á igreja para pegar a imagem.
Lembrava-se e a irmã nem precisaria usar o favor para ter sua ajuda. Apenas achava arriscado que se encontrasse com Emmett sendo tão inexperiente no que ela mesma era mestre. Então recordando tudo pelo que passou naquele dia, considerou que estava novamente sendo arrogante. Talvez a irmã em seu amadorismo fosse bem sucedida.
– Está bem... O que devo fazer?
– Bom... – Rosalie se sentou ao seu lado e falou cúmplice – não se preocupe com nossos pais... Eles disseram durante o jantar que não vão ao baile. Jasper também não, pois Alice tem um trabalho para apresentar na segunda e ele vai ajudá-la. Temos somente que lidar com James. Pensei em tentar cancelar, mas achei que poderia levantar suspeitas.
Bella olhava para a irmã com admiração. Orgulhosa ouviu em silêncio o que havia combinado com Emmett. O arranjo do encontro fortuito podia não ser perfeito, mas era ideal em sua simplicidade.
Ao que tudo indicava nem o cansaço físico poderia manter o padre livre da libertina exibicionista. A prova foi despertar no meio da noite, suado e excitado depois de assisti-la se despir exclusivamente para ele, obedecendo á uma ordem sua. Era estranho que ele empunhasse um punhal como aqueles trancados em sua caixa. E mais ainda que, á despeito da expectativa pelo sexo que viria quando ela estivesse completamente nua, fosse compelido á atirá-lo contra seu coração.
Enquanto mirava o breu de seu quarto, o padre mal podia crer na decepção ao descobrir se tratar de um sonho. Não que quisesse ferir a moça; esse detalhe era um capítulo á parte. Chamara-lhe a atenção mais por segurar o punhal pela lâmina que pela vontade de arremessá-lo. O que o exasperou foi não ter consumado o ato antes que despertasse. E aquela interrupção, mesmo de um coito irreal, o fez aceitar algo inegável; qualquer tentativa de fuga sempre seria inútil.
Sentando-se – e se recusando bravamente á atender o chamado daquela parte desperta pela dança da moça intangível –, Edward respirou fundo na tentativa de se acalmar. E de juntar força o suficiente para o que ainda viesse á saber ou ver relativo á ela, pois nada mais o demoveria; nem ela, seus deveres, sua doutrina, muito menos sua consciência. Tomar a decisão, agora imutável, pareceu trazer a tranquilidade desejada por fim. Voltando a se deitar, o padre fechou os olhos e saboreou o resquício de excitação até que adormecesse.
Horas depois, desperto e satisfeito após uma série de flexões e de seu banho matinal, Edward entrou na cozinha com disposição renovada. Encontrou seu tio e a Sra. Williams a conversarem acaloradamente sobre a limpeza da igreja. Pegou o assunto pela metade, mas soube que a moça que povoou seu sonho fazia parte do tema central.
– Bom dia! – cumprimentou. Ao ter a resposta conjunta, perguntou. – Posso saber o que discutem?
– Estou dizendo á Sra. Williams que a Srta. Swan já cumpriu com a tarefa que você arrematou no leilão. – o tio explicou contrafeito em inglês, então em italiano acrescentou indicando a vizinha discretamente com a cabeça. – Não acho uma boa ideia ter a menina por perto, pois ela fez insinuações.
– Senhor Cullen – Sarah ralhou. – desculpe lembrá-lo, mas não é educado falar em outra língua quando todos não entendem... Acaso está falando mal de mim?
Edward achou por bem intervir, sorrindo – sem se importar com o acréscimo do tio – falou.
– Não, ele não está falando mal da senhora. Apenas deu sua opinião. Agora me diga a sua... Qual o problema com a Srta. Swan?
– Pelo o que eu me lembro, ela só limpou a casa e no dia do leilão o senhor comprou também a limpeza da igreja.
– E a senhora faz questão que ela venha participar do mutirão de limpeza? É isso ou sugere que ela limpe toda aquela sujeira sozinha? – indagou já se servindo de café. Intimamente pensou mordaz que vê-la limpar a bagunça deixada pela pintura recente seria uma forma interessante de castigá-la por tudo que o faz passar. Quando estivesse exausta e redimida ele a ampararia. Quando a senhora falou, o padre agradeceu pela interrupção do pensamento que ganhava ares licenciosos.
– Não disse ao seu tio que precisava ser hoje, estávamos falando sobre a limpeza e comentei que ela não cumpriu todo o combinado e ele já ficou todo exaltado... Como quando descobriu que ela cortou as rosinhas dele. Acho que depois disso ele ficou cismado com ela, pobrezinha... – voltando-se para o velho padre, falou. – Ela não fez por mal.
– Tenho certeza que não – Carlisle retrucou. –, mas nem sempre fazer as coisas com boas intenções justifica o mal feito.
– Muito bem! – Edward novamente interferiu. – Eu estou lembrado que ela deve a limpeza da igreja e se estivesse em condições pediria que viesse mesmo hoje e já a liberaria da obrigação, porém ontem soube que Bella não se sentiu bem, então vamos deixá-la quieta. Quando for preciso eu lhe cobro o serviço. – e se voltando para o tio, perguntou. – Está bem assim?
– Está não é? – resmungou. – Bom, como não posso ajudar no mutirão, vou cuidar de minhas plantas. Se precisarem de mim é só chamar.
A sua saída a senhora veio se sentar ao lado do padre para falar em um cochicho.
– Eu acho mesmo que seu tio não gosta da garota. Será mesmo só por causa das rosas?
– Quem saberia dizer? – Edward murmurou partindo um pedaço de pão que mordeu sem acrescentar qualquer acompanhamento.
– Uma pena, pois Bella é uma boa menina. – disse alheia a expressão de desagrado do padre. – E parece gostar tanto do senhor...
Então Carlisle não mentira afinal. Negar veementemente traria luz ás desconfianças já existentes.
– Eu também gosto dela como a todos dessa adorável cidade. – baixando a voz para um tom cúmplice, falou. – Não conte a ninguém, mas a senhora é minha preferida. Eu não poderia desejar vizinha mais esmerada e atenciosa.
Edward não esperou vê-la corar e sorrir acanhada. A reação da senhora o divertiu, dissipando o leve aborrecimento pela maledicência mal disfarçada.
– Cuido de vocês com prazer senhor. – ela disse satisfeita.
– E lhe serei eternamente grato por isso. – foi sincero. Depois de tomar todo o café, levantou e anunciou. – Agora me dê licença, vou ver quem já chegou.
– Mas o senhor nem comeu direito. – ela se queixou, apontando o pão inacabado e um bolo intocado. Nem havia se dado conta, mas a insinuação velada lhe tirou a fome.
– Comi o suficiente. Até logo...
A limpeza da igreja se mostrou ser mais trabalhosa do que a reforma em si. Talvez pelo acúmulo de tinta e poeira, mais do que pela baixa dos voluntários. O número reduzido de pessoas se dava pela necessidade de preparação do galpão da cooperativa para o comentado baile mensal – que por seu piquenique estava atrasado em algumas semanas. Não fosse a necessidade de ter a igreja pronta para sua missa na manhã seguinte, teria liberado á todos.
Principalmente depois de saber por Charlie Swan sobre a inesperada visita de seu tio á Bella. O comentário veio distraí-lo da alegria que sentiu ao saber que o capitão intencionava regressar ao mar muito em breve. Com ele e o filho fora de casa, talvez pudesse ignorar a presença de Jacob e voltar ao que era antes em suas idas á praia. Isso se seu padrinho não se tornasse um problema ainda maior. Suas ações o confundiam. Na noite anterior lhe perguntou resignadamente se desejava ver a moça, para á sua recusa ir ele mesmo? Com qual propósito?
Enquanto ajudava á passar os baldes de água – alheio quanto aos olhares que vez ou outra recebia das moças que esfregavam o chão da igreja – decidiu questionar o tio, contudo com o passar das horas acabou por desistir. Ele não lhe diria se não quisesse e provavelmente acabariam com a trégua estabelecida durante o jantar. Repassando as possibilidades, chegou á conclusão que Carlisle pouco ou nada poderia fazer para manter Bella afastada. Estava claro que a moça fazia apenas o que queria e, mesmo distante esperando obediente á sua sinalização, ela queria á ele, pensou orgulhoso.
– Então senhor padre – disse Charlie vindo se colocar ao seu lado quando, de pé sobre seu púlpito, olhava o salão da igreja satisfeito, ainda que exausto. –, acho que isso é tudo.
– Infelizmente é menos do que eu tinha em mente para nossa igrejinha, mas é o suficiente para termos uma casa limpa, arejada e sem goteiras sobre nossas cabeças durante as celebrações que faremos aqui. – enquanto Edward falava verdadeiramente emocionado em ver o resultado do trabalho ininterrupto e conjunto, todos os voluntários se colocaram diante dele. Fazendo um gesto expansivo, acrescentou. – Esta casa sempre foi e agora é ainda mais de todos vocês. Como não tenho palavras para expressar o quanto sou grato pelo tempo que dispensaram á ela, deixando seus afazeres para muitas vezes passarem o dia inteiro aqui, só me resta dizer muito obrigado!
Houve um burburinho geral onde o desobrigaram de agradecer e em alguns casos externaram declarações do quanto aqueles dias foram divertidos. Contente com o entusiasmo após o trabalho extenuante, Edward sinalizou para que se aquietassem para sugerir.
– Antes de dispensá-los para que retornem as suas casas para o descanso merecido, o que me dizem de fazermos uma oração em agradecimento e boas vindas aos muitos dias que nos encontraremos nessa igreja renovada?
Como era de se esperar, sempre em meio á um falatório ininteligível, todos se espalharam pelos bancos agora recuperados e reluzentes. Quando sua audiência incompleta, suada e satisfeita se acomodou, o padre fez o sinal da cruz convidando-os á fazer o mesmo e iniciou um Pai-Nosso e uma Ave-Maria. Ao final, agradeceu mais uma vez e os liberou para que fossem embora. Antes de seguir o exemplo de todos os outros que saiam tão logo pegavam os respectivos utensílios de limpeza que haviam trazido de suas casas, o líder comunitário veio novamente até ele sendo seguido pelo filho.
– Senhor padre... – começou já ao seu lado. – eu gostaria de lhe pedir uma gentileza.
– Uma gentileza? – indagou com o cenho franzido, recusando-se a imaginar que este tivesse algo á ver com sua filha caçula.
– Sim. – confirmou. – Hoje vou receber meu barco de volta. Talvez Emmett até já o tenha trazido, vou confirmar ao sair daqui... – esclareceu, então pigarreou e voltou ao assunto principal. – O caso é que eu gostaria que o senhor o abençoasse antes de nossa partida.
O pedido era novo, mas não causou estranheza ao padre. Aliviado por ser somente aquilo, e contente por deixar o capitão satisfeito quando inocentemente também o faria imensamente feliz com sua partida, sorriu e disse.
– Será um prazer.
– Muito obrigado senhor. – Charlie lhe sorriu. – Agora vou deixá-lo descansar. Depois tratamos do horário.
– Poderíamos conversar á respeito essa noite no baile.
– Nós não vamos – Jasper se adiantou ao pai que lhe lançou um olhar enfezado.
– Como meu filho disse, hoje não vamos ao baile.
– Então combinamos amanhã pela manhã... – ou ele poderia ir á casa do capitão, Edward pensou, sentindo seu coração se enregelar pela oportunidade perdida de ver Bella ainda naquela noite.
– Faremos isso... Agora vou ver se meu barco já está de volta. Até mais senhor.
Com a saída de Charlie e Jasper, Edward permaneceu a olhar a porta aberta e o salão completamente vazio, cismando consigo mesmo. Nada poderia fazer num baile, mas ao menos veria Bella. Recriminava-se por não ter colhido informações; não sabia se ela estava recuperada. Contendo uma imprecação que macularia o bom clima deixado após a oração conjunta, Edward colocou as mãos nos bolsos da calça e com o coração oprimido caminhou até a imagem de São Nicolau.
Colocando-se aos seus pés, ergueu os olhos para analisá-la e viu além dela. Era como se em cada detalhe sua restauradora tivesse deixado uma impressão pessoal. Não importava como, de um jeito ou de outro a moça se fazia presente em sua vida tornando impossível esquecê-la. Fosse ao olhar o primeiro banco destinado á sua família, mas que parecia ser todo dela ou nas palavras das pessoas que o cercavam. Agora na imagem que o encarava bondosamente como se entendesse e já o perdoasse pelo rumo sem volta que daria á sua vida. Na verdade que finalmente seguiria, pois fora convidado a se perder por ele desde que pôs os pés em Sin Bay.
– Desde que pousei meus olhos sobre ela e me apaixonei. – murmurou para o santo, reconhecendo o que por semanas tentou negar. – Então, por favor, não me condene por ser incapaz de matar o que sinto.
Os ecos de passos o fizeram calar. Olhando em direção á porta viu Rosalie Swan caminhando apressada em sua direção. Retirando as mãos dos bolsos foi até ela. Encontraram-se no meio da nave central. A moça parecia agitada, preocupando-o mais do que o deixando curioso.
– Bom dia senhor. – ela cumprimentou e sem esperar por sua reposta, perguntou. – Será que poderíamos conversar?... Sei que deve estar cansado, vi que a faxina terminou agorinha, mas eu realmente preciso.
Edward fez um gesto expansivo mostrando á si mesmo.
– Não estou preparado para ouvir confissões, porque não...
– Por favor, senhor... Estou nervosa, preciso conversar e fora minha irmã o senhor é o único que sabe o que se passa em minha vida. Se não se importa não precisamos ir até o confessionário. Podemos nos sentar aqui. – disse indicando o banco mais próximo.
– Tudo bem! – aquiesceu. – Mas espere enquanto fecho as portas. Estou mesmo cansado para receber mais pessoas.
Enquanto Rosalie se acomodava, o padre foi á passos largos cerrar as portas da igreja para que as frequentadoras habituais não se animassem á entrada da moça. Logo estava de volta, sentindo-se sujo e incomodado com a roupa suada, mas decidido á ouvi-la de boa vontade.
– Então? – perguntou para que ela iniciasse.
– Bom... Em primeiro lugar quero que saiba que segui seu conselho e falei com meu pai sobre o que sinto.
– Muito bem! – elogiou admirado. Nunca acreditou que a moça um dia o fizesse.
– Não se anime senhor, tudo o que consegui foi ter meu casamento adiantado. – ela explicou sem emoção.
– Lamento. – disse sinceramente. Aí estava a prova de que Charlie seria capaz de extremos para fazer o que considerava certo.
– Ah... não lamente. – ela disse decidida chamando sua atenção pelo tom despreocupado. – Resolvi seguir seu outro conselho e fazer como minha irmã que procura viver a sua maneira sem enfrentá-lo.
Edward recordava-se de ter dito algo naquele sentido, mas na ocasião não tinha a confirmação de que Bella não possuía “nenhum” comportamento que pudesse ser seguido.
– O que quer dizer?
– Vou tomar as rédeas da minha vida.
– E como pretende fazer isso? – perguntou preocupado.
– Nada que não devesse ter feito antes. – disse se colocando de pé. – Viu como foi rápido? Eu só queria mesmo lhe dizer que estou fazendo como me aconselhou... E por enquanto é só o que posso contar, mas depois que tudo estiver acertado volto e lhe digo.
– Estarei aqui para o que precisar. – falou levantando e antes que ela se despedisse, tentou se redimir da falha anterior. – Poderia dizer como está sua irmã?
– Seu tio esteve ontem lá em casa – ela comentou com as sobrancelhas unidas –, ele não lhe contou?
– Hoje o dia foi tão corrido que mal conversamos. Eu me informo com ele depois, obrigado. – retrucou encobrindo a contrariedade.
– Não precisa, ela está bem... Ontem passou o dia de cama, mas hoje está melhor. Se o senhor for ao baile verá que ela está bem disposta. Agora preciso ir... Pedi cinco minutos á Esme. Sua benção senhor Cullen.
O padre a abençoou em estado de graça. Novamente sozinho correu os olhos para a única imagem restaurada e mesmo sabendo não ser certo acreditar em uma interseção em assuntos mundanos, agradeceu-lhe silenciosamente.
Correndo os olhos pelo salão, Bella se perguntou se havia sido ela ou o baile estava realmente mudado. Mesmo incomodada com a tranquilidade imutável de Sin Bay, sempre considerou as reuniões mensais animadas. Naquela noite, porém nada parecia agradá-la. A iluminação parecia diferente, a sequência de músicas escolhidas pelo filho dos Clearwater, agitada demais. Com um suspiro profundo alisou sua saia, reconhecendo aborrecida que a mudança se deu nela própria.
Antes nada daquilo importava, pois deixava sua casa decidida á se divertir, fosse por dançar com suas amigas, esnobar os rapazes ou zombar intimamente dos modos simplórios de quase todos daquele lugar. Atitudes presunçosas de uma garota pedante que ao que parecia, não mais existia. Aquela que estava ali era outra Bella; uma garota apaixonada, que quando muito era desejada, não correspondida por quem amava. Que pelo visto nem iria ao baile, pensou correndo os olhos pelo salão mais uma vez. Viu a irmã dançando com James, ineditamente animada. Outros conhecidos também se moviam no meio do salão. Antes estaria com eles; naquela noite não tinha ânimo.
– Posso saber por que não está dançando? – Angela perguntou ás suas costas, assustando-a. Valendo-se da desculpa já usada, respondeu.
– Não estou me sentindo muito bem... Ontem fiquei mal do estômago.
– Que pena! – a amiga lamentou. – Todos estão comentando sua apatia, afinal sempre foi uma das mais animadas.
– Bom... – falou forçando um sorriso. – ao menos eu estou aqui. Quem sabe mais tarde eu me anime.
– Tomara! – a moça exclamou. – Vou dançar... Quando quiser se junte á nós.
Iria respondê-la quando finalmente o viu. Edward, assim como seu padrinho, estava ao lado de Sue e Harry Clearwater. Nada mudou, vestia a mesma roupa preta com o famigerado colarinho branco, o cabelo estava úmido e penteado para trás; absolutamente lindo como se lembrava dele. Bella não reparou quando havia chegado, mas pela animação da conversa parecia que estavam nela á algum tempo. Ele teria lhe visto? Provavelmente, mas não viria até ela quando estava tão imbuído em ser discreto.
Ela não compartilhava de tanta rigidez de postura, afinal para todos os efeitos uma amizade havia sido estabelecida e nada mais natural que fosse cumprimentá-lo. Com isso sua vontade era ir até ele, mas não sabia como seria recebida. Resolveu permanecer quieta e lhe acenar quando olhasse em sua direção, mas o olhar que cruzou com o seu foi o de Carlisle, obrigando-a á procurar outro foco rapidamente; droga.
Os minutos corriam e Edward nunca a olhava; apenas o padrinho que parecia lhe vigiar todos os gestos; não confiava nela afinal. Se antes considerava o baile aborrecido, com sua presença estava ainda pior.
– E então? – ouviu novamente a voz de Angela ao seu lado. – Nada de ânimo ainda?
Bella olhou para o rosto afogueado e suado da amiga que lhe sorria esperançosa. Semanas atrás também esteve esbaforida e satisfeita daquela maneira. Subitamente não lhe pareceu certo desperdiçar sua noite com lamúrias quando Edward nem ao menos se dignava á olhar em sua direção depois de dias e mais dias em que não se viram. Procurando forças naquele início de revolta, falou estendendo a mão.
– Ele acabou de chegar.
Expandindo o sorriso, a amiga segurou a mão oferecida e a levou para o meio do salão onde todos os seus amigos dançavam animados. Jessica foi a única á torcer o nariz á sua chegada, mas sua opinião não contava. Todo o rancor da moça era dirigido exclusivamente ao padre bipolar que mesmo não tendo dito com todas as letras, parecia ter desistido dela mais uma vez. Sufocando o nó em sua garganta, Bella se misturou á algazarra e determinou que aproveitasse a noite ao máximo. Logo sua irmã estava ao seu lado, com o rosto tão corado quanto o de todos os outros.
– Está chegando a hora. – disse diretamente em seu ouvido, se deixar de se mover.
– Tem certeza que vai fazer isso? – Bella perguntou também em seu ouvido. O plano era sair tão logo Emmett fizesse seu Smartphone vibrar. Rosie subitamente precisaria ir até sua casa enquanto ela distraia o noivo para que não a seguisse. Nada daquilo tinha a cara da irmã.
– Nunca tive tanta. – ela afirmou em tom normal, dançando á sua frente. Era bom ver alguém decidida e feliz aquela noite.
– Onde está James? – a moça perguntou sorrindo, contagiada com a alegria da irmã.
– Foi cumprimentar o senhor Cullen.
Impossível não olhar na direção dos citados. James agora fazia parte do grupo que ainda conversava entre si. Mais uma vez o olhar de Carlisle encontrou o da moça, desta feita ele inclinou a cabeça levemente num cumprimento mudo, então voltou sua atenção á conversa. Contrafeita, Bella voltou-lhes as costas e passou á dançar com a irmã; a noite era de Rosalie e se recusaria á ficar triste diante dela.
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Com a aproximação de James, Edward se manteve rígido esperando pelo momento que sua noiva ou sua futura cunhada viessem lhe fazer companhia, contudo não aconteceu. As duas moças continuavam misturadas ao grupo de jovens que dançavam animadamente no meio do galpão. Bella, linda em sua simplicidade, agitava o rabo de cavalo de um lado ao outro. Vestia camiseta preta e saia creme de pregas; curta demais, mas ainda decente se comparada á outro figurino que costumava usar. Aborrecido com a lembrança, o padre reconheceu que preferia os momentos em que ela apenas observava o movimento. Aqueles minutos lhe deram a falsa sensação que era uma garota decente.
Seus olhares não se cruzaram, mas a observava desde sua chegada. Não fora falar com ela atendendo á um pedido do padrinho e a uma voz interna que fazia coro e lhe ordenava que fosse discreto. Não precisava de mais comentários como o de Sarah Williams. Uma vez assumida sua paixão tinha medo de se expor mesmo com gestos ou palavras que pudessem ser ouvidas por quem estivesse próximo. Naquela noite bastava vê-la. Porém era incômodo assisti-la dançar mesmo vestida. Ainda que as luzes usadas para alegrar o baile não fossem nada se comparadas ás da boate, não conseguia fazer a separação das situações.
– Ouviu o que eu disse senhor? – a voz de James chegou aos seus ouvidos despertando-o de sua observação hipnótica. Rogava para que esta tenha passado despercebida.
– Perdoe-me, o que disse? – falou, estranhando que estivessem somente eles e seu tio; não havia visto o afastamento do casal Clearwater que os monopolizava desde a chegada ao salão.
– Eu disse que me lembrei de onde acho que o conheço. – repetiu.
– Eu digo que é um absurdo. – Carlisle interferiu contrariado. – Já disse que é impossível que ele o conheça.
– É verdade. – Edward exclamou se lembrando da insistência em dizer que o conhecia. Se voltando para o padrinho explicou. – James cismou que me conhece. Tem comentado essa impressão desde nosso encontro na casa do capitão Swan.
– Bom... Agora sei que foi somente impressão mesmo. Como eu disse, agora sei onde achei que o tinha visto.
– E onde foi. – o padre indagou curioso.
– Em um retrato falado. – disse antes de rir de suas próprias palavras. – É realmente um absurdo senhor.
Estranhamente Edward não conseguiu ver a mesma graça; assim como seu tio que pareceu engasgar ao seu lado.
– Retrato falado? – inquiriu com o cenho franzido. – E o que “eu” supostamente fiz?
– Não dê asas á esse disparate Edward! – Carlisle ralhou muito sério.
– Bom – James falou já recuperado do riso –, meu pai é aficionado por todos os assuntos que saem nas páginas policiais e como não poderia deixar de ser, tem uma pasta com retratos falados, panfletos com foragidos, essas coisas... E entre eles tem um desenho de um cara muito parecido com o senhor. Estávamos vendo as coisas dele esses dias e me deparei com o bendito desenho e vi que era mesmo impressão. Em primeiro lugar porque o senhor não é um bandido e tem todos os mínimos detalhes que os diferem como o nariz e os olhos. Talvez se o senhor deixasse os cabelos crescerem até os ombros ficassem mais parecidos, mas nada além disso...
– Comentou isso com seu pai? – Carlisle perguntou antes que Edward esboçasse qualquer reação.
– Que em Sin Bay tem um padre que se parece com um procurado? – retrucou em tom de troça. – Não mesmo... Do jeito que ele é paranoico é bem capaz de vir aqui perturbar o senhor Cullen.
– Ao final da perturbação daríamos muitas risadas. – Edward falou taciturno, destoando do clima jocoso que tentou imprimir. – Mas você ainda não disse o que esse procurado fez.
– Nem me lembro... – James falou dando de ombros. – Apenas fiz as contas e hoje ele teria uns trinta anos, mas quem se importa? Só vim lhe dizer que nunca mais vou aborrecê-lo com esse assunto. Agora se me dão licença vou voltar para minha noiva. Até logo...
O padre não identificou o motivo, mas não gostou do que ouviu. Esperava que a impressão fosse sem embasamento, não firmada em uma pessoa real, ainda mais um bandido.
– Eddie – Carlisle o chamou –, você se importaria se eu fosse embora?
– Tão cedo?! – estranhou, porém se lembrou da aversão ao acúmulo de pessoas em um mesmo lugar. – Não me importo, Quer que o leve?
– Não precisa. Vou caminhando e respirando um pouco do ar da noite. – o sobrinho assentiu com a cabeça, então ele acrescentou. – Lembre-se do que lhe pedi. Não se exponha em público por uma confusão momentânea.
– Essa nunca foi minha intenção. – retrucou sério, calando o desejo de mandar recomendações á Esme Platt; não era certo ser leviano e provocar com suposições.
Com a saída do tio pensou que fosse ficar sozinho; livre para pensar sobre as palavras de James ou finalmente ter a chance de falar com Bella. Contudo não foi deixado um minuto sequer. Todos requisitaram sua atenção. Mesmo com a música alta foi obrigado á conversar em vários grupos, sobre os mais variados assuntos. E em todo esse tempo, disfarçadamente, acompanhou a moça em todos os seus movimentos.
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