Notas iniciais
Oi... bom dia! Vou ser caruda e pedir indicações... se estiverem gostando, deixem uma para alegrar a autora!... ;) BOA LEITURA!

– Que novidade é essa? – Jacob indagou desconfiado, encarando Bella depois que ela o informou que não iria com ele para Sin Bay. – Vai á algum outro lugar? Posso levá-la.

– Não vou à lugar algum, só não quero ir com você. – explicou arrumando a bolsa com seus cadernos de livros de desenho sobre o ombro e seguindo caminho para o ponto de ônibus.

Sabia que não seria fácil, mas tinha que colocar o plano traçado durante sua aula em ação. Sem traumas, tentaria afastar Jacob aos poucos. Devia isso á si mesma uma vez que o padre lhe acenava com a possibilidade de ficarem juntos. Em momento algum ele lhe cobrou, contudo era claro que a amizade o incomodava. Na verdade o incômodo se dava por crer que fossem amantes e uma vez que ele não acreditava em sua palavra, teria que demonstrar com ações que nada sério acontecia entre ela e o rapaz.

– Por que isso agora. – ele insistiu colocando-se em seu encalço. – Tem ido todos esses dias. Eu não toquei em nenhum assunto que não queira então qual é o problema?

– Apenas quero ficar sozinha. – falou parando para encará-lo. – não é nada com você Jake, é comigo.

– A desculpa clássica. – debochou.

– Não é desculpa, pois não estou desmanchando com você. – Bella retrucou esforçando-se em não se aborrecer. – Nem há o que desmanchar... Entenda, por favor... E me deixe um pouco sozinha. Não o estou mandando embora, ainda nos veremos todos os finais de tarde e nas noites de quinta. Eu só... preciso desse espaço, entende?

– Esse á um daqueles momentos em que vocês mulheres param para refletir sobre o sentido da vida? – novamente debochou, cruzando os braços sobre o peito.

– Mais ou menos isso. – ela falou voltando á andar. – Preciso encontrar um rumo para mim.

– Certo. – Jacob disse por fim. – Posso entender que alguém tão perdida quanto você precise mesmo de tempo e solidão para se encontrar. Se valer minha dica, comece revendo essa sua necessidade de exibição semanal e esse seu interesse num padre. Acho que depois disso todo o resto fique fácil.

– Farei isso. – disse refreando o desejo de mandá-lo ao inferno. Estava se saindo bem e não estragaria tudo com a grosseria merecida.

– Posso ao menos esperar o ônibus com você? – ele perguntou se preparando para sentar no banco do ponto.

– Não será preciso. – ela avisou satisfeita ao avistar que sua condução se aproximava. – Ele já está vindo... Boa noite Jake! Até amanhã.

Já acomodada no fundo do velho ônibus, Bella agradeceu silenciosamente por ter conseguido afastá-lo ao menos naquela noite. Ficaria feliz em dizer á Edward que provaria estar falando a verdade quando o visse na manhã seguinte. Era certo que o veria, pois juntamente com sua decisão em se afastar de Jacob, determinou encontrá-lo todos os dias. Inventaria uma desculpa qualquer relacionada ás imagens que precisava restaurar, não sabia. Apenas tinha a certeza que não lhe daria mais espaços. Seria discreta, não mais o provocaria, mas ficaria sempre ao seu lado. Contendo um sorriso, apertou sua bolsa sobre o colo e fechou os olhos duvidando que naquele ônibus ou em sua cidade, houvesse alguém mais satisfeita do que ela.

A reunião familiar em volta da mesa de jantar transcorreu tranquila e silenciosa. Por vezes Bella era acometida de breves calafrios sempre que se lembrava da presença do padre ao seu lado, mas os disfarçou com maestria. Quando seu celular tocou logo após o jantar, pediu licença á todos dizendo que atenderia ao namorado em seu atelier e que aproveitaria o final da noite para trabalhar na restauração. Antes de sair não pôde deixar de reparar no olhar entristecido da irmã. Cada vez mais ficava difícil e desnecessário sustentar a armação.

– Alô – disse já no corredor. – Boa noite Emmett.

– Hoje sua voz está melhor. – o amigo salientou.

– “Eu” estou melhor. – enfatizou e antes que ele dissesse qualquer coisa, falou. – Acho que não tenho uma boa notícia para você.

– O que é? – o amigo pareceu alarmado. – É algo com Rosie?

– Infelizmente sim... Acho que nosso plano não está funcionando.

– Acha que ela não se importa conosco? Se for o caso por que nos deixou daquela forma no domingo?

– Ela se importa, mas pelo visto não fará nada á respeito... Rosie parece conformada. Sinto muito.

Odiava ter que lhe dividir sua impressão com o amigo quanto se encontrava feliz, mas tinha que fazê-lo. Aquele era outro detalhe dos planos traçados á tarde. Livrar-se-ia também do falso compromisso que a mantinha cativa á uma mentira que já estava indo longe demais nas aspirações de seu pai, como também somente fazia sua irmã sofrer sem nunca tomar a atitude esperada.

– Então não há nada que possamos fazer? – ele indagou, mal disfarçando o bom lamurioso.

– Talvez haja algo... – disse para animá-lo. – Mas não vou dividir para não criar falsas expectativas.

– Não vai me dar nenhuma dica?

– Não. – falou decidida já descobrindo a imagem em seu atelier. – Apenas espere o resultado.

– Se é tudo o que me resta – Emmett falou. –, vou confiar e esperar.

– Sábias palavras. – Bella murmurou. – Até amanhã Emmett.

– Até amanhã Bells.

Ela voltou o celular ao bolso dos shorts que vestia e prestou atenção ao santo remendado á sua frente. Havia dito aos pais que trabalharia nele – precisava dar continuidade ao serviço –, mas não encontrou ânimo para fixar e pintar. Sua disposição era outra e, depois de cobrir a imagem, seguiu até sua mesa de desenho para extravasar sua necessidade. Logo estava perdida em traços, alternando grafitis com diferentes espessuras. Quando os olhos incolores tomaram forma, ela soube qual imagem acessou para se inspirar no desejo. Não era uma que escolhesse deliberadamente uma vez que lhe causou certa dor, mas não poderia negar que durante aquela última despedida na praia, Edward carregasse todo esplendor de sua beleza.

Bella trabalhou em sua melhor obra até tarde. Ao se dar por satisfeita e namorá-la por alguns minutos, escondeu-a entre seus livros e retornou ao interior da casa. Todos já haviam se recolhido. Entrando em seu quarto, parou ao lado da cama da irmã para vê-la em seu sono. Seu rosto estava marcado; com certeza chorara até dormir. Sem saber se deveria ter raiva ou piedade por todo aquele conformismo covarde, a moça se preparou para dormir e entrou sob as próprias cobertas. Dando-se conta que na verdade não conseguia se aborrecer com a falta de ação da irmã, percebeu como muitas coisas á seu próprio respeito havia mudado nos últimos dias.

Antes de adormecer, Bella reconheceu o quanto fora infantil e um tanto quanto ingênua, ao aceitar aquela proposta de Emmett. Todas as idas e vindas em direção ao padre, assim como o recuo de Rosie, lhe mostraram que ninguém poderia traçar rumos para que outros seguissem. O livre arbítrio era um fato e cabia á cada qual fazer o que bem entendesse de suas vidas.

Como na manhã passada, a moça despertou além do horário habitual. Praguejando por ter perdido a hora de ir á praia, saiu apressada da cama para tentar ao menos alcançar a irmã. Queria lhe falar antes que saísse, porém encontrou apenas Renée á lavar a louça utilizada no café da manhã de sua família.

– Todos saíram? – perguntou inutilmente.

– Até que enfim! – a mãe exclamou sem lhe responder, voltando-se com as mãos molhadas. – O que há com você que sempre se atrasa?

– Sem exageros mamãe... – Bella pediu indo se sentar á mesa, no lugar disposto para ela. – Perdi a hora ontem e hoje.

– Sabe...

– Que gosta de todos juntos – ela falou cortando a mãe gentilmente. –, mas eu fiquei até tarde no atelier. Prometo não me atrasar mais... Também não gosto de tumultuar nossas refeições.

– Por falar nisso – a mãe enxugou as mãos para se aproximar. – como está a imagem? Já posso vê-la?

Tomando um gole de seu café, a moça desconversou.

– Na verdade não tem muito para ver. – como não poderia dizer o que fez durante as horas que ficou no atelier e necessitando de uma boa desculpa para ir á igreja, mentiu. – Eu acabei estragando uma parte já arrumada e tive que reconstruí-la. Está praticamente da mesma forma de quando a peguei.

– Lamento o tempo perdido. – Renée falou voltando aos seus afazeres. – Quando acha que termina?

– Não saberia dizer – e despretensiosamente seguiu com sua ideia. – De toda forma quero pedir mais informações sobre ela ao padre. As cores estavam tão desbotadas que nem sei qual é a original. Talvez ele possa me ajudar.

– Posso fazer isso por você. – a mãe se ofereceu animada. – A veste...

– Eu agradeço. – Bella novamente a cortou, ocultando o súbito nervosismo por ter sido primária. Era evidente que sua mãe tiraria uma dúvida tão corriqueira. –, mas de toda forma preciso mesmo ir até a igreja. Vi ontem como estou desperdiçando material que serviria para outras peças... Quero trazer mais algumas e trabalhar paralelamente em todas.

Para seu alivio, a saída pareceu ser suficiente para sua mãe.

– Sendo assim... – ela deu de ombros. – Mas saiba que pode contar comigo no que precisar.

– Eu sei que sim mamãe. – disse presenteando Renée com seu melhor sorriso. Como na manhã passada, comeu somente uma torrada com mel e, depois de se despedir da mãe, partiu para seu quarto. Banhou-se e se vestiu expectante. Sua ida á igreja tinha um sabor especial naquela manhã. Ainda não sabia ao certo o que esperar, mas ao menos tinha a certeza que seria bem recebida.

Como era de se esperar suas pernas não a ajudavam muito durante o trajeto. Ao passar diante da Blue Moon, cogitou entrar para acalmar o coração e sentir o estado de espírito da irmã para decidir se revelava o plano infeliz de seu falso namorado. Apenas cogitou, pois ao avistar Edward á conversar com os trabalhadores á porta da igreja, seguiu caminho como que atraída por ele, esquecendo-se até a incerteza dos passos.

– Bom dia! – soou a voz feminina ás suas costas. Não estava preparado para vê-la nem para o salto súbito de seu coração, então Edward precisou tomar um respirar profundo para conter sua ansiedade ante de se voltar na direção de tão agradável som.

– Bom dia! – exclamou depois de todos os outros. Ao vê-la fresca e jovial em um de seus tantos vestidos coloridos, com os cabelos presos no inseparável rabo de cavalo, o padre experimentou um leve ciúme daqueles que pararam seus afazeres para cumprimentá-la e que inadvertidamente continuavam á lhe sorrir. Com um pigarro lhes chamou a atenção, porém se dirigiu á ela. – Ao que devemos a honra de sua visita? Veio ver como estão as obras que seu adorável piquenique proporcionou?

Ineditamente insegura diante dele, Bella olhou na direção dos ajudantes de seu pai que serviam como operários na obra e então de volta ao padre.

– Na verdade não. Sei que todos farão um excelente trabalho. – falou piscando para os mais próximos, antes de novamente encarar Edward. Ao flagrar um brilho estranho nos orbes azuis escurecidos, falou seu texto ensaiado. – Vim tirar algumas dúvidas sobre a imagem que está lá em casa... Teria um minuto, senhor?

Sabia que era desculpa para estar com ele e teria apreciado a iniciativa não fosse o incomodo de ver sua intimidade com todos aqueles homens. Estava saudoso desde a manhã anterior. Sentia falta até mesmo das malditas buzinadas noturnas que lhe deixavam próximo á ela indicando ainda que estava em seu próprio carro, não no do rapaz moreno. Aquele mesmo que agora o impedia de retornar á correr na praia, pois não suportaria ficar longe dela onde – não fosse pelo “amigo” onipresente – poderiam ter alguma privacidade. Sim, teria apreciado a visita caso não se perdesse em ciúme.

– Acho que tenho um minuto. – disse sério demais. – Venha!

Antes de segui-los, Bella ainda olhou na direção dos trabalhadores. Pôde ver em algumas expressões que tiveram o mesmo pensamento; o padre não gostou de ser incomodado. Como se lhe desejassem boa sorte, alguns acenaram com a cabeça antes que ela sumisse no interior da igreja atrás de Edward.

O padre seguia muito rígido pela nave central, fazendo com que ela revisse sua decisão de procurá-lo. Talvez devesse ter esperado que Edward tomasse a iniciativa, afinal ele pediu discrição. No momento não havia como voltar atrás, apenas tomar como nota mental para não colocar tudo á perder com sua ansiedade. Ao chegarem á sacristia, ele entrou e lhe deu passagem. Mantendo a porta aberta, foi até sua mesa para se acomodar atrás dela. Sem esperar por convite, Bella o imitou tentando não recordar a vez que havia sido destratada.

– Fiz mal em vir? – perguntou encobrindo o nervosismo. – Não quis aborrecê-lo.

– Sei que não. – sem perceber a seriedade em sua voz, aproveitou a proximidade para decorar-lhe os traços delicados. Gostou de vê-la, mas preferia que não tivesse vindo. Estava acostumado aos encontros na praia, onde para todos os efeitos estavam apenas os dois. Sentia-se preparado para dar aquele passo, mas diante do ciúme que sentiu, temia não ser capaz de dissimular seu envolvimento. E para o sucesso daquela relação teria que fazê-lo á perfeição como seu tio. Ao notar a ruga na testa feminina, falou. – Apenas não acho seguro.

– Todos estão acostumados que eu venha. – ela falou, aliviada. – Acreditam que somos amigos.

A menção, Edward sentiu nova pontada em seu peito.

– As pessoas dessa cidade são bem condescendentes com amizades estranhas.

– Se o que me disse ontem foi sério, acho que devemos agradecer, não? – ela indagou sem entendê-lo. Pela primeira vez em sua vida compreendeu a expressão, “pisar em ovos”. Não sabia como se comportar diante daquele novo Edward. Ou talvez o temesse por saber que era o mesmo padre bipolar, capaz de recuar á qualquer momento.

– Não costumo brincar com coisas sérias. – ele retrucou duramente. Contudo Bella tinha razão. Não deveria se voltar contra a cidade que fazia ouvidos moucos ao relacionamento dela com o rapaz moreno quando precisaria da mesma surdez e cegueira. Após um suspiro cansado, amenizou o tom de voz e pediu. – Perdoe-me se dei á entender que não queria vê-la... Apenas acho que devemos ter mais cuidado. Não podemos conversar da forma que desejamos aqui.

– Eu que peço desculpas – começou animada com a explicação. Aproximando da mesa, dispôs as mãos sobre ela e prosseguiu em voz mais baixa. –, pois não pensei. Precisava vê-lo, mas perdi á hora e não fui á praia... De toda forma seria um palpite, pois ultimamente só nos desencontramos.

Ver as mãos dispostas sobre a mesa incutiu no padre o desejo de tocá-las. Seu tio, e a Sra. Williams estavam na casa; a igreja cheia de trabalhadores. Ainda assim, depois de olhar furtivamente para ambas as portas, Edward se valeu da mesma coragem que o levou á beijá-la na noite retrasada e as segurou fortemente, entrelaçando seus dedos. O contato era o mais inocente possível, mas como tudo referente á ela, o excitou.

– Não tenho ido á praia esses dias. – disse rouco, movendo os dedos delicados nos seus. – E acredito que não irei nos próximos. Da mesma forma que não podemos nos expor aqui, devemos nos precaver com seu... “amigo” Jacob.

Bella notou o tom, mas não iria se repetir. Girando a palma masculina, avaliou os pontos bem cuidados. Determinando ser dispensável comentá-los, pois via que o corte cicatrizava bem, apenas correu o dedo distraidamente sobre ele antes de novamente entrelaçar as mãos. Apreciando o carinho em seus dedos que refletia diretamente abaixo de seu ventre, falou para tranquilizá-lo.

– Bom, talvez goste de saber que estou cuidando para que ele não seja problema.

Mesmo atento aos sons que denunciariam alguma aproximação, Edward não deixou de ouvi-la. Entre descrente e ansioso, desejando haver mais na declaração, indagou.

– Ontem me disse que o mantém perto por causa de seu serviço. Resolveu deixar de ir á tal casa noturna?

Queria dizer que sim, mas não podia.

– Uma coisa de cada vez. – disse, pedindo intimamente que ele a entendesse. – Gosto de meu trabalho. É divertido e me rende algum dinheiro.

– Não duvido que seja divertido – ele retrucou sério –, mas não creio que cobrir uma folga seja assim rentável.

Bella pigarreou incomodada, já arrependida de ter tocado naquele assunto e por consequentemente mentir. Teria que dar um jeito de contar-lhe ou deixar de ir á “The Isle”, contudo somente o faria quando sua situação com ele fosse algo concreto. Conhecia-o suficiente para saber que á qualquer momento poderia tentar afastá-la e não mudaria sua vida somente por promessas. Sem coragem de encará-lo, mirando os dedos unidos, falou.

– Não é muito, mas me ajuda...

Algo não se encaixava, ele sabia. Ela mentia em suas declarações. Poderia ser sobre Jacob ou seu serviço esporádico; não tinha como adivinhar. Apenas sabia que ambos estavam relacionados e mesmo não tendo nenhum controle sobre ela, perguntou.

– E se eu lhe pedisse, baseado no que lhe falei ontem... sobre querer ficar com você... Deixaria de ir á tal casa noturna?

Colocado como pedido pessoal, quando ela novamente se perdia nos olhos muito azuis, percebeu que não havia muito á considerar.

– Baseado nisso, sim... Eu deixaria. – disse sinceramente, porém ao ver o sorriso satisfeito, acrescentou. – Mas isso não é coisa que se faça assim. Eu preciso avisar que não irei mais.

– Já é um bom começo! – Edward exclamou. E alimentando a esperança que talvez tivesse feito um mau julgamento da relação que o casal mantinha, comentou. – Será um elo á menos á lhe prender ao Jacob.

– Será. – ela exalou; assustadas ante a facilidade em mudar de ideia e aceitar se desligar da boate mesmo sem nada concreto entre eles.

Animado com o atendimento de seu pedido e desejando ter mais do que beijos roubados ou um entrelaçar de dedos, indagou.

– Nesses últimos dias você tem vindo com ele, não? – quando ela maneou a cabeça afirmativamente, ele sugeriu. – Bom... Ninguém me conhece em Wells. Talvez se conseguisse dispensá-lo essa noite, eu pudesse ir buscá-la.

– Não! – ela negou alarmada. Tarde demais notou seu exagero reflexivo. O padre a encarava inquiridoramente com o cenho franzido. Antes que ele formulasse qualquer pergunta, Bella se adiantou. – Eu gostaria muito, mas já viu como Jacob é grudento... Eu não conseguiria mandá-lo embora e o senhor não deve se expor.

Era evidente que um padre não deveria se arriscar, mas estava disposto á correr o risco mínimo por ela. E a moça que conhecia também arriscaria afinal não fora ela que se insinuou praticamente diante de todos? Não estava em sua sacristia naquele momento com tantas pessoas á sua volta somente para vê-lo? Decididamente havia algo oculto em toda aquela situação. Assim como nas desconfianças de seu tio, seria inútil perguntar, visto que ambos eram especialistas em dissimulação. Ainda lhe analisava os olhos nervosos que não se fixavam aos seus desde a fraca explicação, quando foi obrigado á lhe soltar os dedos e se endireitar sobre a cadeira ao ouvir passos vindos pelo corredor que levava á casa.

– Eddie, eu... – Carlisle se interrompeu ao se deparar com o casal á conversar.

– Bom dia senhor Cullen. – Bella cumprimentou muito rígida sobre a cadeira.

– Bom dia Srta. Swan. – ele praticamente mascou o nome. Voltando-se para o sobrinho, perguntou sério. – Interrompo?

Antes que o padre mais novo pudesse responder, a moça aproveitou a chegada providencial e se pôs de pé. Agradecendo aos céus por se manter firme após a conversa tensa e dos carinhos em seus dedos, se despediu apressadamente.

– De forma alguma senhor... Vim somente tirar algumas dúvidas sobre a imagem que está lá em casa... Já estava mesmo de saída. – olhando para Edward, tentou ignorar a sombra escurecida sobre o anil e falou. – Obrigada pela ajuda senhor... Vou fazer como me instruiu. Tenham um bom dia.

E sem esperar por resposta ela se foi. Como se seu tio não estivesse presente, Edward foi até a porta para acompanhar-lhe a saída com o olhar. Aquela era uma fuga, com certeza. Antes que pudesse ponderar sobre o que fazia, deu um passo para ir atrás dela.

– O que estava acontecendo aqui? – a voz de Carlisle o deteve.

– Acho que Bella lhe disse, não? – retrucou voltando ao interior da sacristia. Aborrecido com a interrupção, sustentou-lhe o olhar. – E o senhor, o que queria?

– Vim me oferecer para ajudar. Já cuidei de meu jardim... Estou cansado de tanto repouso.

Maldosamente Edward considerou que nem era preciso tanto uma vez que, ainda com pontos, já se “esforçava” com Esme. Todos dissimulados; com seu tio se entenderia depois. No momento estava mais interessado naquela que estava trazendo para sua vida. Confiança e conhecimento eram primordiais para que uma ligação secreta fosse bem sucedida. Aquele passo adiante era grande demais para dá-lo sem conhecer o terreno onde pisaria.

– Fique á vontade para fazer o que desejar. – disse ao padrinho. – Se me der licença vou ver se precisam de mim para alguma coisa.

Á exemplo de Bella saiu sem nada mais acrescentar. Seu padrinho não o seguiu até a entrada da igreja, apenas foi se juntar aos homens que já envernizavam alguns bancos. Ao ganhar a rua, o padre não viu a moça em parte alguma. Com certeza havia ido diretamente para casa. Com a recusa dela em sua mente, decidiu que tiraria á limpo aquela estória sobre “The Isle” naquela mesma noite.

O restante da manhã transcorreu livre de percalços. Com Carlisle recuperado, retomaram o costume e, ao meio dia e meia, tio e sobrinho almoçaram juntos ao redor da pequena mesa da cozinha. Apenas o som dos talheres era ouvido. Edward se perguntava se algum dia conseguiria estar perto ao padrinho sem lhe dispensar tamanha magoa e decepção. Por vezes o olhava de esguelha e se não fosse a lembrança das conversas secretas que ouviu por detrás da porta, continuaria á ser o mesmo afilhado crédulo e iludido.

– Por que sempre que me olha tenho a impressão que quer me dizer alguma coisa? – Carlisle indagou antes de levar um bocado de comida á boca, indicando que os olhares recebidos não formam discretos.

– Talvez seja porque quero. – Edward retrucou, sem olhá-lo. Ainda não o questionaria, mas se valeria de sua nova postura para conseguir sua liberdade. – Quero lhe dizer que sairei essa noite.

– Sairá? – Carlisle exclamou incrédulo, deixando os talheres ao lado do prato. – Para onde?

– Não sei... – nesse ponto não mentia, pois apenas possuía um nome. – Só sei que quero sair.

O padrinho o mediu atentamente então, como se chegasse ao resultado de uma elaborada equação, inquiriu alarmado.

– Quando os interrompi estavam marcando um encontro?!

– Não diga bobagens! – Edward ordenou. – Por quem me toma? Meu desejo de sair um pouco nada tem á ver com Bella... Quero é ficar sozinho. Longe daqui.

– Muito bem, já chega! – o padrinho falou sério. – Exijo saber o que está acontecendo.

– Já lhe disse que não está acontecendo nada. – o jovem padre disse inabalável. – Somente quero passear... Dirigir um pouco... Ficar sozinho. Que mal pode haver nisso?

– Mal algum se esse não fosse um desejo repentino. – o tio replicou prontamente. – Jamais demonstrou estar “entediado” com nossa vida. Por que isso agora?

– Porque como o senhor mesmo o diz, sou humano. Sei de minhas obrigações e nunca vou deixar de cumpri-las, mas sinto desejo de espairecer longe daqui por algumas horas.

– Então vou com você. – disse resoluto.

– Não vai. – Edward disse igualmente decidido. – Disse que quero ficar “sozinho”. E não precisa fazer tanto alarde... – encarando-o, forçou seus lábios num sorriso e acrescentou. – Prometo não fazer nada que o senhor mesmo não faria.

Carlisle ainda sustentou o olhar de seu sobrinho por alguns instantes, antes de dar de ombros e voltar sua atenção á comida deixada no prato.

– Se lhe sirvo de exemplo – falou cortando uma fatia do filé preparado pela senhora Williams – não há mesmo problema algum que tome esse tempo sozinho, pois jamais faria nada que maculasse minha conduta impoluta e confio que fará o mesmo.

– Certamente. – Edward retrucou antes de afastar o prato ao perder a fome diante de tamanha desfaçatez. – O senhor sempre será meu guia.

Entrar na The Isle no início daquela tarde não teve o mesmo sabor das vezes passadas. Talvez o contentamento tenha sido gasto durante a compra do primeiro presente que daria a Edward ou enquanto marcava a consulta com sua ginecologista que a deixaria pronta para recebê-lo. As opções eram boas, mas o provável era imaginar que com ele parcialmente ciente de suas funções, boa parte do prazer em estar ali tivesse diminuído. Bella não imaginou que esse dia chegasse, porém havia acontecido. Como disse ao padre, não poderia deixar de ir de uma hora para outra. Teria que conversar com Barry e aproveitaria aquelas últimas vezes para agradar a parte dela que sentiria parar com o que considerava diversão.

Estava atrasada. Algumas meninas já ensaiavam sobre o palco. Tanya era uma delas então cumprimentou á todas de um modo geral e seguiu para o corredor que levava aos camarins. Precisava se movimentar como todas as outras. Queria extravasar a ansiedade que sentia de alguma forma. Não fosse por sua mentira ou pela presença infalível de Jacob que tornava imprescindível manter Edward longe da casa noturna, poderia estar com ele naquela mesma noite. Praticamente uma semana depois de ser atirada sobre sua cama. Enquanto pendurava sua bolsa e a sacola com o celular que comprou para oferecer ao padre como uma linha segura entre eles para que não usassem um que ele provavelmente teria, Bella sorriu sem perceber; seu milagre viera rapidamente.

– Gostei desse sorriso. – ouviu a voz de Kristen ao seu lado. – Muito melhor que a carranca da semana passada.

Sem medir suas ações, Bella se voltou e abraçou aquela que considerava uma amiga entre todas aquelas moças.

– A distância que sugeriu operou o milagre. – disse simplesmente.

– Eu não disse?! – ela exclamou e lhe piscou tão logo se separaram. Então, com um torcer de lábios, falou séria. – Depois quero os detalhes, pois agora o Sr. Reagin quer vê-la.

– Por quê? – era sua intenção falar-lhe, mas não via o que “ele” pudesse querer com ela tão cedo.

– Não faço a mínima ideia... Ele apenas me pediu para avisá-la quando a viu passar pelo salão.

– Então é melhor que eu vá de uma vez... Não quero atrasar ainda mais meu ensaio. – tocando no ombro da amiga, perguntou. – Ensaia comigo?

– Claro, como sempre! – concordou sorrindo.

Acenando com a cabeça, sem se trocar, Bella deixou o camarim e rumou até a sala onde era esperada. Após dois toques sobre a madeira da porta, ouviu a voz masculina.

– Entre, está aberta. – Bella encontro Barry sentado na beirada de sua mesa, os braços cruzados sobre o peito e um sorriso lhe iluminando o rosto. – Que bom que chegou!

– Oi. – ela cumprimentou, estranhando a recepção animada. – Kris me disse que queria me ver...

– Sempre quero vê-la Bella, sabe disso.

Sim, ela sabia e não gostava. Nunca havia alimentado aquele interesse; nada disfarçado naquela tarde. Cruzando os braços em uma atitude defensiva, desconversou.

– Como um amigo atencioso, sempre depois das apresentações para um drink... Não antes. O que quer me falar?

– Quero saber de você se devo me preocupar com aquele seu amigo. – disse diretamente, abandonando a expressão animada.

– Jacob? – indagou desnecessariamente, então prosseguiu. – De forma alguma..

– Ele me pareceu bem incomodado. E insinuou algo sobre sua idade... Acaso não mentiu sobre ela não é?

– Não... Logo farei vinte e um. – então, de repente se deu conta que não faria diferença ser completamente maior. – Na verdade... Jacob realmente não gosta que eu venha aqui, mas ele não decide minha vida.

– Folgo em ouvir isso. – Barry falou ainda sério. – Não quero que um moleque apaixonado me traga dores de cabeça.

– Bom, não acontecerá! – afirmou e antes que o homem á sua frente se mostrasse animado, falou. – Afinal estive pensando esses dias e resolvi que vou encerrar as apresentações.

– Como disse?! – ele perguntou endireitando o corpo. – Por quê?

– Sabe que topei a brincadeira por diversão... Não preciso estar aqui.

– Pode ser diversão para você, mas é muito sério para mim. – Barry ainda a encarava incrédulo. – Também não sei como cresceu, mas a verdade é que nas quintas tenho o maior movimento, perdendo apenas para os sábados que é meu melhor dia nos finais de semana. Eu estava até pensando em chamá-la em reunião para tentar convencê-la á vir nesse dia.

– Vir duas vezes?! – exclamou. – Impossível!... Nem saberia o que dizer para minha família. Até mesmo às quintas tenho que me esforçar em manter a desculpa para a hora que chego. Como vê, seria ainda mais desgastante.

Barry a ouviu e permaneceu calado, coçando o queixo e por vezes correndo os dedos pelos cabelos. Bella nunca imaginou que sua saída fosse deixá-lo daquela maneira. Não pensou que seria um problema, mas ao que tudo indicava, esteve errada. Somente naquele momento percebeu a enrascada na qual havia entrado. Sentia-se aflita por não querer se indispor com Barry, contudo, para sua surpresa ele sorriu dissipando a tensão que os envolvia.

– Eu deveria estar preparado. Tocamos nesse assunto na semana passada, lembra?

– Sim, eu me lembro. – ela falou, desacreditada da súbita aceitação. – Então tudo bem eu não vir?

– Tudo bem, não... – ele disse ainda sorrindo. – Mas vai ficar. Só não me diga que isso já vale de hoje.

– Não. – respondeu aliviada. – Hoje continua tudo igual e se for preciso na semana que vem também... Não quero prejudicá-lo de forma alguma.

– Que bom! – ele exclamou aparentemente satisfeito. – Então não temos nada mais á conversar por hoje. Vou pensar como anuncio sua partida. Todos sentirão sua falta... Inclusive eu.

– Também sentirei. – falou sinceramente. – Mas a vida segue.

– Sim, a vida segue. – ele murmurou antes de sua saída.

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Notas finais
Bom, espero que estejam gostando... Vamos ao próximo!