Enigma - Segredos e Mentiras
22 Capítulo 21
Notas iniciais
Bella despertou alarmada. Como previsto rolou por sua cama a maior parte da noite, cedendo ao sono já no final da madrugada. Justificável que acordasse muito além do horário habitual. Não haveria tempo de ir á praia e decididamente não dispensaria seu pouco tempo á restauração da imagem. Como determinou antes de adormecer, iria até Edward. Se não conseguia uma resposta por si só; perguntaria ao único que poderia lhe dar.
Tomada banho, arrumada e bem disposta, seguiu para a cozinha. Descobriu-se sozinha em casa. Rosie estaria na lanchonete, seu pai e irmão no cais ou na cooperativa e sua mãe, talvez tivesse ido ás compras. Na verdade não se importava. Tanto melhor sair sem ter que dar satisfações. Após engolir uma torrada com mel e um pequeno gole de café já morno, saiu atrás de sua desejada resposta.
A atividade ao redor da pequena igreja era grande. Toda a lateral esquerda já estava tomada pelos andaimes onde alguns dos trabalhadores da cooperativa faziam um revezamento entre telhas quebradas e sãs. Agradecendo intimamente que o padre não estivesse coordenando os trabalhos, cumprimentou os conhecidos e entrou. Sua intenção era seguir até a sacristia onde comumente Edward se encontrava. Porém ao ver duas moças ocuparem os poucos bancos que ainda não haviam sido lixados, soube onde ele estaria. Era dia de confissão. Impaciente para esperar sentada como todas as outras, ela caminhou até a lateral onde parte dos bancos era restaurada para tentar se distrai até que pudesse conversar com o padre.
Alheio á presença em sua igreja, o jovem padre ouvia mais um dos tantos relatos inconsistentes. Se fosse possível organizaria uma confissão conjunta onde sem ouvir-lhes, passar-lhes-ia uma penitência branda e as absorveria á uma só vez. Estava intolerante e faltoso com seu compromisso como ouvinte e conselheiro, mas simplesmente não conseguia desligar sua mente da visita feita á casa dos Swan. Sua boca ainda trazia a impressão do beijo roubado, assim como sua mão ferida guardava a quentura convidativa da coxa delicada. Queria estar com Bella; conseguir uma forma de conversarem para saber o que pensava a respeito de suas ações quando então poderia confirmar sua predisposição á um novo relacionamento secreto.
– Perdoe-me padre porque pequei. – Edward ouviu á voz ansiada ao seu lado.
– Bella! – exclamou surpreso. Não se lembrava de ter liberado a confessanda anterior ou a penitência dada e para agravar sua falta de atenção, não se importava. Acreditou que a moça o procurasse, mas não em seu confessionário. Aquecido com a imediata procura, cumprimentou com voz mansa. – Buongiorno !... Como passou a noite?
– Não muito bem na verdade. – ela disse sinceramente. Então acrescentou sem rodeios. – Gostaria de saber o que foi aquilo ontem á noite. O que aconteceu com tudo que me disse na praia?
– Apenas jantei em sua casa. E me lembro de ter dito ontem pela manhã que não precisava estar tão afastada. – falou divertindo-se com a evidente ansiedade. Talvez não fosse somente um capricho; talvez de alguma forma dissesse a verdade ao declarar sua “loucura” por ele.
– Entendi que me queria por perto como uma de suas ovelhas, mas quero crer que não beija todas.
– Conhece a resposta para esse comentário. – ele retrucou sério. Não admitiria ser julgado a partir da libertinagem pessoal. – E não creio que meu confessionário seja o lugar para tratar desses assuntos.
– Por favor – ela pediu abaixando mais a voz, chegando-se mais para perto da tela de madeira que os separava. Tudo que não desejava era que o padre novamente se fechasse. Ele sempre parecia outro á luz do dia. –, não se zangue comigo. Não foi o que quis dizer... Eu só preciso saber o que mudou “senhor”.
Edward apreciou a submissão; o tom sussurrado muito perto de seu ouvido e muito mais do cheiro floral que vinha dela e causava uma revolução sob suas vestes. Contudo, ainda não era seu desejo se expor em demasia.
– Antes de responder-lhe – disse continuamente á uma ideia súbita. –, estaria disposta á se confessar?
– Dificilmente me arrependo do que faço. – Bella retrucou prontamente. Não mentia; apenas se ajoelhou ao lado do confessionário por ver chegar mais duas fieis com o mesmo propósito; não estava disposta á esperar até que o padre estivesse livre. – Não vejo o que poderia lhe dizer.
– Diga qualquer coisa. Sem receios, pois seja o que for ficará em sigilo. – apreciando a oportunidade de saber mais sobre ela sem ter que recorrer á terceiros, acrescentou. — Dê-me algo que me faça conhecê-la melhor e às pessoas que a cercam. Poderia começar por seu namorado... Ele realmente não se importa com essa forma alternativa e liberal de relacionamento?
– Não, Emmett não se importa. – disse por fim.
– E segundo me disse ontem, não nutre sentimentos por... Jacob. – o nome lhe amargava a boca.
– Não nutro. – assegurou decidida.
– Ficaria ofendida se eu lhe confessasse que não acredito?
– Acho que não... – ela murmurou. Sabia que a descrença era por próprio mérito. Comprovando seu pensamento ele falou.
– Fica difícil de acreditar quando se encontram todos os dias. Se seu namorado morasse na cidade não aprovaria.
– O senhor não aprova. – não foi uma pergunta.
– Não estou em posição de aprovar ou desaprovar coisa alguma. – também lhe amargava externar a verdade. Queria exercer tal poder sobre ela.
– É complicado explicar minha... “relação” com Jacob. – desejou fazê-lo entender, sem se delatar. – Ele sabe coisas sobre mim que me... “obrigam” á deixá-lo por perto.
– Ele a chantageia? – Edward inquiriu rouco; em alerta, cerrando os punhos inconscientemente.
– Não! – ela se apressou em dizer. – Eu apenas prefiro mantê-lo por perto.
A declaração não o acalmou nem o fez acreditar. Apenas aumentou sua curiosidade sobre aquela incômoda ligação.
– Conte-me o que ele sabe. – pediu sem pensar; ainda tenso.
Bella considerou por um momento. Fazer como pedido seria arriscado afinal o padre já havia encerrado a especulação sobre suas noites de quinta, mas se estavam para dar o passo indicado na noite passada, deveria prepará-lo.
– Bem... – começou – Ele sabe sobre um trabalho que faço além das aulas...
– E que trabalho seria esse? – o padre indagou refreando sua imaginação.
– O problema não é bem o trabalho – ela corrigiu já arrependida. – e sim o local onde o faço. – como Edward nada retrucasse, prosseguiu. – Todas as noites de quinta eu vou á uma casa noturna.
O padre então se lembrou do comentário de Jacob sobre suas idas ao “The Isle”. Evidente que um nome tão sugestivo fosse de uma casa noturna; era daquilo que se tratava. Mal suportava o rapaz moreno, mas era obrigado á reconhecer que ele pareceu aborrecido com as idas dela ao lugar. E baseando-se no sentimento dispensado á ela por seu rival, mesmo que tentasse domar sua imaginação, somente algo lhe ocorreu e antes que filtrasse o que diria, disparou incrédulo.
– Você se prostitui?
– Não, não é nada disso! – ela exclamou alarmada, maldizendo sua inépcia ao iniciar o assunto prematuramente. Deveria ter confirmado a razão da mudança, saber o que acontecia entre eles antes de se delatar. Rapidamente cogitou dizer logo a verdade, mas considerou que o padre não aceitaria seu strip-tease da mesma forma que abominaria a venda de seu corpo. – É apenas um bico... Eu... Sirvo mesas.
– Uma vez por semana? – Edward indagou sem acreditar no que ela lhe dizia, sempre se valendo da postura de seu rival.
– Cubro uma folga. – ela mentiu, odiando-se, contudo não faria diferente. Era preciso para não perder o mínimo que ele lhe oferecia. – Só isso, mas Jacob sabe que meus pais não aprovariam.
A contra gosto o padre concordava com o rapaz. Nem conhecia o local e já o abominava. Não a queria num antro noturno. Infelizmente nada poderia fazer. Apenas tinha a certeza que, por mais que a desejasse, não se envolveria com uma prostituta. Rogava que ela estivesse lhe dizendo a verdade ao menos quanto àquilo. Queria poder olhar em seus olhos naquele momento, sem a trama divisória entre eles. Talvez assim acreditasse no que lhe dizia. Segundo seu próprio relato, Bella não era de igrejas, então poderia deduzir que mentiria descaradamente em confissão caso fosse sua intenção ocultar algo grave.
– Fiz como lhe pediu. – ela falou despertando-o. – Falei sobre mim. Agora sabe que as aulas de dança não existem... Então me diga... O que foi aquilo em minha casa? O que devo entender?
Com boa vontade poderia considerar sua razão; de uma forma torta e incompleta Bella se expôs. Chegara a sua vez, mas diante da dúvida gerada por ela achou por bem não ir direto ao ponto.
– Deve entender... Que mesmo sendo errado, gostei de beijá-la. E senti sua falta nesses dias em que não a vi. Talvez me contentasse em vê-la por perto, mas você não veio hora alguma... E ontem pela manhã me disse aquelas coisas. Sei que quer estar comigo e cheguei á conclusão que também quero estar com você.
O corpo trêmulo de ansiedade simplesmente planou. Se fosse preciso se levantar, provavelmente Bella cairia. Seu padre havia dito que queria estar com ela. Não sabia por quanto tempo duraria a rendição ou até onde ela os levaria, então suplicou com mãos e lábios próximos á madeira.
– Sim, por favor... Eu quero muito estar com o senhor, como faremos?
Aquelas palavras o inflamaram e varreram qualquer receio que ela tivesse lhe incutido. Se fosse possível a atenderia prontamente e a puxaria para seu colo, ali mesmo em seu confessionário e lhe mostraria o que fazia com sua porção indomada. Como não poderia apenas se juntou á madeira e disse com a boca próxima á dela; uma mão posta exatamente á altura de uma das palmas femininas, como se a pudesse tocar.
– Ainda não sei carino mio . Estarmos juntos não é coisa que se faça intempestivamente como na semana passada. A que se ter cuidado para não chamarmos a atenção.
Estava acontecendo; era tudo que Bella conseguia repetir em festa. Estava acontecendo e esperaria o quanto fosse preciso.
– Tem razão!... Mas morrerei de saudades até que seja seguro.
– Também sentirei sua falta bella mia . Agora é melhor encerrarmos esse assunto. Já nos estendemos demais.
– Está bem... – ela exalou já se preparando para levantar e se manter em linha reta.
– Mas não vá embora – ele recomendou. – Fique aqui em frente onde eu possa vê-la e ao menos finja rezar já que não poderia livrá-la sem sua penitência.
– Sim, senhor padre... – então, rapidamente ela beijou a madeira e se foi. Deixando o som á brincar em seu ouvido e a claridade de sua súbita partida entrar pela trama mínima que os separou. Edward abriu um pouco a cortina que o ocultava, o suficiente para vê-la se ajoelhar e, depois de se benzer contrita como a boa herege que era, fingir descaradamente que rezava. E ela nunca lhe pareceu mais bela; mais mundanamente desejável.
Ouviu as lamúrias seguintes sem nunca desprender os olhos daquela fenda estreita que o permitia ver sua amante. Já a considerava como tal uma vez que novamente a beijou e se expôs. Precisavam apenas aplacar o desejo abrasador que os consumia. Aquele mesmo que o tornou incapaz de julgar qualquer pecado, fazendo-o adotar a penitência padrão de um terço completo á todas que se ajoelharam ao seu lado depois dela. Nenhum deles seria maiores do que o seu. Naquele momento o padre entendeu a benevolência de seu padrinho na ocasião de sua confissão e lhe depositou um pouco de simpatia.
Ao deixar o confessionário Bella já havia partido. O padre se arrependeu de não ter, ao menos, tratado um encontro. Por mais recatado que fosse; bastaria estar com ela como há poucas horas.
– O que há com você Eddie? – a voz de seu padrinho lhe trouxe á estrada. – Está estranho desde ontem. Esteve calado o tempo todo e ainda agora nada diz. Aconteceu alguma coisa durante sua ida á casa do tal enfermeiro?
Era pouco mais das três da tarde e seguiam de volta á Sin Bay depois da retirada dos pontos como ficou acertado na semana anterior. Realmente mal falou na ida ou durante a breve estada no hospital. A proximidade com seu padrinho se tornou incômoda. Depois de sua descoberta havia perdido completamente a naturalidade da convivência conjunta.
– Nada aconteceu. – disse firme, tentando encobrir a irritação que a voz sempre mansa de seu tio lhe causava; livre de qualquer traço de simpatia que brevemente lhe dispensou no final da manhã, acrescentou ríspido. – Na verdade nada acontece para mim.
– É justamente disso que eu falo – o homem ao seu lado exclamou. –, nunca foi tão grosseiro comigo.
– Isso é o que o senhor diz. – falou sem se importar em ser cordato. – Eu não tenho como saber por mim mesmo se já o desrespeitei ou não. Se já fui grosseiro ou não... Tudo que me resta é crer em suas palavras e ser “gentil”. Um homem sem ação ou vontade própria que segue calado o rumo que me aponta.
– Edward! – Carlisle falou ainda mais alto – Agora eu exijo saber o que se passa com você. O que fiz para ouvir essas coisas?
Ainda não queria confrontá-lo. Conhecia-se o suficiente para saber que se seu tio persuasivo apresentasse uma explicação plausível – mesmo que pouco aceitável – para a presença de Esme em seu quarto, logo estaria perdido em suas eternas dúvidas. Carlisle o exasperava, mas não deixou de amá-lo e sempre tentaria vê-lo por seu melhor lado. E no momento não poderia se render. Sua porção eclesiástica precisava daquele rancor para seguir adiante com o mau passo que daria; assim como o homem desmemoriado precisava ficar atento á novas falhas que talvez o ajudassem á recordar um passado perdido.
– Não fez nada. – Edward disse por fim. – Eu é que estou atarefado com a reforma, o corte em minha mão ainda dói... Só isso. Perdoe-me.
– Sabe que sempre pode contar comigo, não sabe? – Carlisle lembrou-o sem deixar de encará-lo. – Sei que sou duro ás vezes, mas é para o seu bem.
Novamente o desejo de não se expor o manteve calado. Engolindo em seco para não perguntar-lhe o quanto a dona da lanchonete o fazia bem, disse apenas.
– Sim, eu sei. – e antes que seu tio pudesse prosseguir com o assunto, ligou o som do jipe para que a música clássica os envolvesse indicando que não estava aberto á novas conversas. Novamente o silêncio os envolveu. E foi quebrado por um toque insistente quando já seguiam pela estradinha vicinal que os levaria á vila.
– Que som é esse? – Edward baixou o som do veículo para melhor ouvir a campainha irritante. Olhando em volta percebeu o desconserto no rosto do tio. – É seu celular?
– Sim. – ele admitiu pegando o aparelho. Depois de conferir o visor, apertou uma tecla que o silenciou e o recolocou no bolso.
– Por que não o atendeu? – o jovem padre indagou desconfiado.
– Era engano. – respondeu inabalável.
Antes Edward aceitaria a desculpa, no momento, não deteve a curiosidade.
– Não poderia ser a Srta Platt?... Ela sabe seu número.
– A Srta Platt não tem assuntos á tratar comigo que a faça me ligar. Foi mesmo engano.
Edward o olhou de relance e decidiu se calar, mantendo sua atenção na estrada. Carlisle retomou a palavra quando o sobrinho já estacionava diante da casa anexa á igreja em reforma.
– Se não se importar, irei para meu quarto. Os pontos estavam secos e o corte cicatrizado, mas está levemente dolorido.
– Vá em paz. – disse sem olhá-lo. – Se precisar de mim estarei na igreja. Acredito que estejam à minha espera para as confissões da tarde.
Sem nada acrescentar, o padrinho sumiu porta adentro. Edward o acompanhou com o olhar e depois de contar até sessenta, finalmente o seguiu. Atravessou a sala á passos largos. Não tinha dúvidas que seu tio havia se refugiado no quarto. Queria apenas conferir se ele tentaria descobrir a origem do “engano”. Ao ouvir-lhe a voz nervosa, regozijou-se por seguir seus novos instintos.
– ... disse que nada aconteceria. – após um longo silêncio, falou. – Tem certeza que agora é seguro? – nova pausa. – Não me agrada, mas também considero ser o melhor... Fique com Deus.
Edward não entendeu o sentido das palavras, mas encaixando algumas delas nos acontecimentos recentes, poderia deduzir que talvez ele estivesse se referindo ao que lhe aconteceu. Seria possível que estivesse conversando com algum dos investigadores? Se for o caso por que não lhe colocava á par? Seria complicado descobrir o que se passava, contudo sem sombra de dúvidas teve a confirmação de que seu tio escondia segredos inimagináveis sob sua aparente confiabilidade.
Como nada poderia fazer no momento, ao ouvir o som vindo do colchão que cedia ao peso do corpo masculino, o padre deixou o corredor e seguiu para a igreja. Descobriu que era esperado por duas moças. Agradeceu intimamente e rogou que fossem tão cheias de pecados quanto todas que estiveram no seu confessionário pela manhã. Logo reviu seu pensamento, pois se uma delas possuísse metade dos atribuídos á caçula dos Swan, teria muito que ouvir e perdoar.
Resignado, cumprimentou-as e, depois de pedir-lhes licença por um instante, retornou á sacristia. Sentando-se á sua mesa, juntou as mãos e fechou os olhos em oração. Não se atreveu á pedir perdão pelos pecados que cometia ou pelos que viria á praticar – relegou-os á uma parte isolada do seu cérebro como se esses fossem realmente apartados de sua vida religiosa –, apenas pediu calma e concentração para ao menos cumprir seu papel de ouvinte e sábio redentor.
– Com sua licença senhor. – ele ouviu a voz incerta vinda da porta. Antes de atendê-la, finalizou brevemente seus pedidos. Após fazer o sinal da cruz, ergueu os olhos para sua recém-chegada.
– Entre Rosalie. – disse indicando-lhe a cadeira á sua frente. Esquecera-se completamente que haviam combinado encontrarem-se naquela tarde. – Em que posso ajudá-la?
– Vim agradecer a tentativa de ajuda – falou já acomodada. –, mesmo que não tenha surtido efeito.
Não havia dito nada com aquele intuito. Edward realmente não sabia o que o levou ao tema na noite anterior, mas ficou satisfeito com o resultado mesmo que não tenha tido qualquer intenção.
– Não vejo dessa forma. – falou confiante. – Se não me falha a memória, seu pai deixou claro que se um de seus filhos não estivesse feliz ele talvez entendesse.
– Gostaria de dar maior crédito á esse “talvez” como parece que o senhor o faz. – ela retrucou entristecida. – O problema é que conheço meu pai.
Ao comentário foi impossível não recordar suas experiências pessoais e antes que refreasse seu rancor, disse á ela.
– Ninguém conhece ninguém. Ele pode ser seu pai, você pode ter seus traumas e ressentimentos, mas não pode afirmar conhecê-lo apenas por formar seus próprios julgamentos. Uma conversa sincera talvez a surpreendesse. E se não acontecesse, ao menos teria a confirmação do que acredita e não ficaria atada às suas dúvidas.
O discurso valia para ele próprio, mas como pensou antes, ainda não estava preparado para enfrentar aquele que cada vez mais descobria ser um completo estranho. Algo em seu íntimo lhe dizia que as descobertas não seriam agradáveis. E verdadeiramente se odiaria caso se deixasse levar pela lábia infalível do padrinho.
– Falta-me coragem senhor. – ela admitiu. – Ontem quase engasguei quando o ouvi tocar nesse assunto.
– Quanto à isso nada posso fazer. – retrucou levemente aborrecido, com ela e si próprio. – Já a aconselhei, já introduzi o tema ao seu pai... Agora cabe á você decidir que caminho seguir.
Novamente palavras que cabiam aos dois. Subitamente aquela conversa se tornou demasiadamente incômoda, visto que ele reconhecia também sua própria covardia. Colocando-se de pé, indicou que o encontro havia chegado ao fim.
– Obrigada por me ouvir. – ela disse torcendo as mãos nervosamente, imitando-o. – Vou tentar criar coragem. Boa tarde senhor Cullen.
Ele a liberou com um aceno e um sorriso engessado. Rosalie Swan arriscaria fazer o que ele ainda não se aventuraria. Como pensou antes, primeiro colocaria em prática suas intenções para com Bella, aplacaria seu desejo por ela e depois se ocuparia de seu padrinho.
Uma vez sozinho Edward cogitou fazer nova oração, pois toda a frágil paz adquirida se esvaiu, porém considerou que apenas perderia seu tempo. Com Rosalie ou com os fracos relatos em seu confessionário, perder-se-ia em suas divagações. Enquanto não encontrasse solução para todas elas, não estaria completo em nada que fizesse. E assim resignado, sem carregar qualquer culpa, seguiu para atender àquelas que o esperavam; levando Bella e Carlisle em seu pensamento.
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