Enigma - Segredos e Mentiras
3 Capítulo 2
Notas iniciais
– Por onde andou? – Carlisle perguntou em sua língua natal deixando sobre a cama as camisas pretas que segurava, assim que Edward o encontrou no quarto que daquele dia em diante seria seu.
Como sempre o padrinho se ocupava com obrigações que lhe cabiam. Estava agora desfazendo suas malas, tarefa que deveria ter sido sua prioridade tão logo visitasse a igreja. Sim, ainda não se permitia pensar á respeito sobre o encontro inesperado na praia, mesmo assim acreditava que talvez fosse melhor se tivesse ficado em casa para cuidar de seus afazeres. Depois de expirar profundamente, Edward foi se sentar na cama, dizendo a verdade.
– Desculpe-me padrinho, mas não tinha como saber que moraria ao lado de uma praia e não aproveitar para conhecê-la.
– Podia ao menos ter avisado que demoraria quando me deixou com a Sra. Williams. Sabe que não domino bem o idioma. Quase tive que recorrer á mímica para pedir que me deixasse só. E também não teria sido de todo mal conhecer primeiro a igreja que administrará a partir de hoje.
Edward reconheceu a repreensão velada no comentário óbvio; não gostava que seu padrinho lhe chamasse a atenção como se ainda tivesse oito anos de idade, porém dessa – como na maioria das vezes – teve que reconhecer que ele estava certo. Realmente sabia da dificuldade de comunicação, ainda mais com alguém falante como sua vizinha. Contudo precisava daquele tempo sozinho. Parecia que quando corria liberava todas as suas tensões e elevava seu pensamento.
Para Edward, correr, antes de uma necessidade, era uma forma de entrar em comunhão com seu Criador. Era como se demonstrasse á Ele que não apenas cuidava de sua alma através de suas orações, mas também do corpo que havia recebido para usar como instrumento na propagação e no ensinamento de Sua obra, mantendo-o saudável.
– Desculpe-me. – repetiu abrangendo seu entorno. – Estava apenas ansioso com tudo isso.
– Entendo como deve estar se sentindo... Assim como deveria ter adivinhado que você não voltaria logo de uma corrida fosse onde fosse. Depois que arrumarmos tudo poderemos ir até a igreja, o que me diz?
– Que seria ótimo. Ainda não vou reabri-la, mas podemos rezar o Ângelus.
– Perfeito! – voltando a guardar as camisas, perguntou. – E então?... Foi bom o passeio?
– Foi sim... Apenas me exercitei. – ele disse evasivamente antes de erguer-se. – Vou tomar banho e já venho ajudá-lo na arrumação.
Sem esperar por resposta pegou a primeira toalha que avistou, assim como roupas limpas e saiu á procura do banheiro. O cômodo ficava no final do corredor. Como todos os outros da casa, era pequeno. E também como todo o resto estava limpo e pronto para o uso. Ao terminar de se despir, Edward entrou sob os pingos fracos do chuveiro. A água estava fria, como apreciava. Depois de alguns minutos, começou a se ensaboar com o sabonete intocado. Não tinha luxos, mas não se agradou do odor, anotou mentalmente que deveria providenciar outro melhor quando fossem abastecer a dispensa.
Subitamente o pároco riu sem nenhum divertimento de seus pensamentos. Á quem estava tentando enganar ao fazer listas mentais de produtos de higiene pessoal quando remoia apenas um assunto em sua cabeça. Por mais que tenha tentado bloquear a imagem da moça que havia conhecido na praia, ela insistia em revisitar sua mente. Para sua consternação, naquele instante ela estava presente mais do que quando se dirigia de volta á nova morada.
Assim como havia acontecido enquanto se afastava, Edward disse a si mesmo que não havia feito um bom negocio indo até ela. Não devia ter cedido á sua curiosidade, mas como sempre, ela foi mais forte do que ele. Enquanto corria, sentindo-se desligar de tudo á sua volta, chegou á acreditar que estaria sozinho, pois o senhor que lhe indicou o caminho comentou que aquela praia era deserta. Talvez por isso, ver a moça sentada sobre a pedra tenha chamado sua atenção.
Como desejava permanecer sozinho depois das longas horas de viagem não a olhou ou cumprimentou quando passou á sua frente pela primeira vez. Enquanto ganhava distância se lembrou das garçonetes revivendo seu azedume. Quando se encontrava naquele estado de espírito o melhor era não falar com ninguém. O padre sabia que seu azedume e má vontade, não condizentes com sua posição eclesiástica, deveriam ser contidos, mas aprenderia á fazê-lo em dias de reflexão, não em parcos minutos de atividade física ou breve oração. E de toda forma, não desejava interromper sua corrida nem mesmo pra breves cumprimentos.
Contudo, a imagem da moça solitária, instalou-se em sua mente e o acompanhou pelo restante do percurso. Rendido, fez meia volta e correu até onde a tinha visto. Qual não foi sua surpresa ao ver de longe que ela estava estendida sobre a pedra, com os braços largados ao lado do corpo. Naquele instante verdadeiramente se preocupou. Imaginou se ela estaria desmaiada então se aproximou rapidamente, afinal, Edward acreditava que também era seu dever zelar pela saúde de todos. Se a moça necessitasse de seu auxilio lhe daria.
Porém, ao se acercar dela, sua preocupação simplesmente evaporou-se. A moça solitária lhe pareceu diáfana e etérea como uma visão; um anjo desprovido de asas e em repouso. Todavia, o vestido com tom de sua pele que se moldava ao corpo feminino como uma segunda camada, roubava toda inocência da cena. O tecido fino e úmido revelava com riqueza de detalhes as formas bem desenhadas. Nem mesmo o rosto delicado ou os cabelos longos que se espalhavam pela lateral da pedra como uma cascata castanha, devolviam-lhe a pureza. O padre julgou-a um o anjo da perdição.
Não era a moça mais bonita que havia visto, mas algo a tornava diferente. Talvez fosse a ambiguidade. Mesmo que fosse a tormenta anunciada, inspirava proteção pela aparente fragilidade e abandono. Seu senso cívico lhe disse para verificar se ela estava bem, mas a visão das pernas expostas o travou. Era padre, não santo nem cego. Já havia visto mulheres nuas antes nas revistas contrabandeadas por um ou outro seminarista – e também havia a de seu sonho recorrente. Contudo, até onde recordava, aquela era a primeira vez que verdadeiramente tinha um par de coxas desnudas bem diante de seus olhos. Elas eram bem torneadas, a pele perfeita e lisa; provavelmente macia.
Depois de fechar os olhos por alguns instantes para recuperar-se, Edward voltou á olhá-la. Dessa vez os subiu por seu corpo, detendo-se nos seios. Estavam devidamente cobertos pelo vestido e a roupa íntima, mas os bicos despertos pareciam se sobrepujar á eles e tiveram o poder de incitar sua imaginação. Á lembrança, o padre teve que fechar os olhos novamente e respirar fundo algumas vezes. Naquele instante, assim como quando esteve diante dela, foi relativamente fácil imaginá-la livre de todos aqueles panos. Sem que pudesse evitar a imagem veio límpida em sua mente e então, o que tentou valentemente evitar na praia e em todo caminho de volta ao bloquear a moça em sua cabeça, aconteceu.
Seu corpo voluntarioso e fraco, ignorante ao que ditava sua doutrina, tomou-se de lascívia e excitação. Nem mesmo a água fria sobre suas costas acalmou a súbita queimação que o consumia. Como havia pensado na praia, não era santo e nem tinha a pretensão de se comparar á um, mas era seu dever renegar os prazeres da carne e ser fiel aos seus votos. Então, foi com o coração oprimido e a mente tomada pela culpa, que Edward sentiu aquela parte excedente de seu corpo ganhar vida de forma degradante e dolorosa. Aquele pulsar torturante nunca o havia perturbado longe de seu leito; apartado dos sonhos infernais.
Não desejava livrar-se do incomodo e conspurcar-se pecando por ação ou pensamento em seu primeiro dia na paróquia. Era inerente ás suas funções que fosse forte e expulsasse as imagens do corpo real e exposto que passeavam matreiramente por todas as partes de sua cabeça — como se fosse luz e som – definitivamente. Ainda com os olhos fechados, Edward pediu em silêncio e com fervor, que aquela porção emancipada de seu corpo se aquiescesse e voltasse ao repouso voluntariamente; se possível, em definitivo. Seu rogar obstinado começava á surtir efeito quando suas preces foram interrompidas por Carlisle.
– Eddie! – ele chamou antes mesmo de bater á porta. – Você está bem?
Depois de pigarrear, respondeu apressadamente.
– Estou. Saio em um minuto.
– Não demore. Tem uma senhora aqui que deseja falar-lhe.
– Serei breve. – assegurou.
Quando teve certeza que seu padrinho havia se afastado da porta e que não entraria sem anunciar-se, Edward voltou a respirar; porém com certa dificuldade. Aquele era claramente um sinal. Seu eterno tutor havia sido mandado àquela porta pela providência divina para mostrá-lo que estava no caminho certo em não sucumbir ao desejo do corpo. Situações como aquela não deveriam se repetir. Era um homem convicto de sua fé, não um moleque inconseqüente.
Irritava-se com os olhares de cobiça que as mulheres lhe lançavam, mas nunca parou para pensar na situação contrária. Jamais havia olhado para nenhuma delas senão como á uma irmã; com interesse. Como nunca havia passado por uma situação como aquela, não havia pensado em sua reação então não estava preparado para a força do sentimento. Era preciso se policiar; agora morava em uma cidade litorânea. Se seu corpo reagisse á todas as mulheres que visse em trajes sumários ou reveladores estaria perdido. Ao pensamento, irritado consigo mesmo, ignorou definitivamente o resquício de excitação e finalizou o banho.
Minutos depois, já refeito do breve momento de provação e devidamente vestido em suas habituais calças e camisa pretas, seguiu para a sala. O som da voz feminina se misturava á de seu padrinho. Quando se aproximou ouviu a explicação preocupada.
– Eu consigo entender o que diz, mas não falo bem Inglês... – então se desculpou em italiano.
– Imagine... Estou lhe entendendo perfeitamente bem Sr. Cullen. – afirmou a mulher sentada á sua frente.
Assim que o viram, os dois se levantaram para recebê-lo. Sem se ater á etiqueta, seu tio falou novamente em sua própria língua.
– Edward, essa é a senhora Swan. Seu marido é uma espécie de líder comunitário da cidade e ela veio, gentilmente, nos convidar para um jantar amanhã em sua casa.
Aquilo foi o que ele disse, mas Edward o conhecia á tempo suficiente para entender a mensagem oculta; “não aceite”.
Apenas lhe sorriu e, depois de agradecer a explicação, se voltou para a senhora e estendeu a mão.
– Prazer em conhecer Senhora Swan.
– Sua benção. – ela pediu curvando-se, mas sem beijar sua mão. Então, quando endireitou o corpo disse. – O prazer é todo meu. Seja bem vindo á nossa cidade.
– Obrigado! – Edward respondeu indicando o sofá para que ela se sentasse. – Então veio nos fazer um convite?
Somente quando se sentou ao seu lado e terminou de falar, foi que o padre percebeu que a mulher o olhava com curiosidade. Franzindo o cenho, perguntou.
– Algum problema senhora?
Depois de pigarrear ela disse visivelmente envergonhada.
– Perdoe-me!... É que o senhor é tão novo... Estava tentando adivinhar quantos anos teria.
Edward sorriu complacente. A senhora que o recebeu teve o mesmo espanto indisfarçado quanto á sua juventude.
– Não era preciso adivinhar, bastava perguntar-me. Tenho vinte e seis anos.
– Realmente é novo. Tenho um filho dessa mesma idade que o senhor; Jasper. Ele está com meu marido em alto mar. Voltam somente semana que vem... – ela se interrompeu incerta, então concluiu. – Esse é o motivo de minha visita. Charlie é o líder comunitário e se estivesse aqui iria desejar que o senhor recebesse as boas vindas. Então... Mesmo em sua ausência, gostaria de convidá-lo, juntamente com seu...
– Padrinho. – Edward completou ajudando-a.
– Isso... Seu padrinho. Para jantarem em minha casa amanhã á noite.
Edward não se furtou de olhar rapidamente para Carlisle. Este acenava negativamente com a cabeça de forma disfarçada. Erguendo uma sobrancelha, o padre se voltou para a senhora e disse.
– Nós adoraríamos. Á que horas devemos estar em sua casa?
– O senhor escolhe a hora. Não quero atrapalhá-lo em nada.
– Então vamos deixar marcado para as sete, está bem assim?
– Está perfeito. – ela concordou com um sorriso.
Subitamente seu rosto lhe pareceu familiar, mas Edward não soube determinar onde a tinha visto antes.
– Bom... – ela disse erguendo-se. – Não quero tomar seu tempo. Acredito que tenha muita coisa á fazer aqui. A igreja esteve fechada há mais de dois meses.
– Fui informado. – ele afirmou, imitando-a.
Ao ficar de pé diante dela, novamente teve a impressão que já a conhecia depois que mediu as estaturas de seus corpos. Porém logo afastou a impressão. Não tinha como conhecê-la de lugar algum.
– Se precisar de ajuda em alguma coisa é só avisar. Costumávamos fazer o mesmo pelo antigo padre, que Deus o tenha.
– Amém! – Edward repetiu automaticamente. – Se precisar de algo aviso amanhã em sua casa. Por falar nisso, onde mora?
– Ah... Venha cá, por favor. – pediu tomando sua mão sem cerimônia e o levando até a porta. Ao chegar á ela apontou á sua frente. – Está vendo aquela casa de madeira?
Contendo um riso divertido, Edward comentou o óbvio.
– Qual delas?... Todas são de madeira.
– Verdade... – ela lhe sorriu. – Deixe-me facilitar. Está vendo o telhado de um sobrado além das casas da praça?
Imediatamente Edward o viu. Da porta onde estavam se podia ver o telhado claro de um sobrado distante. Pelos cálculos de Edward ele ficava próximo á praia.
– Sim... Eu o vejo.
– Pois é lá que moramos. Na última rua antes da praia. Nosso quintal é praticamente na areia... Se seguir por aquela rua ali. – disse apontando. – O senhor chegará nela em uns dez minutos de caminhada.
Edward se lembrava daquela casa; passou diante dela antes de pegar a trilha que o levou até á praia; até a moça da pedra.
– Então está combinado. – disse após um pigarro. – Amanhã ás sete estaremos lá, não é padrinho?
– Sim. – foi tudo que Carlisle disse.
– Que bom!... Então, até amanhã.
Depois das despedidas, Edward fechou a posta e se voltou para Carlisle. Antes que dissesse alguma coisa, ele perguntou.
– Por que teve que aceitar?
– Por que não aceitar um convite tão gentil? – rebateu. – Precisamos mesmo começar á conhecer as pessoas com as quais iremos conviver a partir de hoje. Não sei o senhor, mas eu sinto falta de uma boa comida caseira.
De onde veio aquilo afinal? O que ele se lembrava de comidas caseiras? Todas as suas lembranças referentes á comida se resumiam á todas as refeições que fez no seminário onde passou os últimos sete anos de sua vida.
Não é verdade, Edward, disse á si mesmo. Você se lembra de quando era criança. Lembra-se de sua mãe preparando bolos e tortas, assim com as massas e os pães. Os panetones no Natal. Com certeza foi á isso que se referiu tão prontamente.
Quando ergueu os olhos, encontrou o padrinho encarando-o apreensivamente. Talvez como ele estivesse á espera que dados sepultados em sua memória estivessem ressuscitando. Infelizmente não era o caso. Por mais que tenha feito o comentário espontaneamente, não se lembrava de nada entre sua infância e o presente momento; como sempre. Seu padrinho sabia como a falta de lembranças o afetava então Edward lhe sorriu para tranqüilizá-lo.
– Acho que essa veio do que me lembro... Nunca atinei, mas sinto falta da comida de minha mãe.
– Eddie não...
– Está tudo bem... Não vou entrar em luto novamente. Talvez eu devesse ser agradecido, por não guardar nenhum detalhe do que perdi. Talvez mesmo as lembranças felizes fossem dolorosas, não é mesmo?
– Não sei se é o caso de agradecer. – disse Carlisle se aproximando para abraçá-lo pelos ombros com um dos braços. – Mas acredito que é melhor assim. Sabe o que penso. Não deve se forçar á nada... Se um dia tiver que lembrar, acontecerá.
– Está certo. – Edward concordou. Então aproveitando que o padrinho estava perto o encarou e refez a pergunta. – Agora é sério. Por que não queria que eu aceitasse o convite?
Carlisle se afastou e passou as mãos pelos cabelos castanhos.
– Bobagem minha... É que acabamos de chegar... Achei que teríamos tempo até que esses eventos sociais começassem.
O padre analisou seu tutor. A explicação fora fraca e para piorar, ainda tinha todo o comportamento estranho de antes da viagem, mas não iria pressioná-lo. Conhecia o padrinho há tempo suficiente para saber que se ele tinha algum motivo para ser anti-social, não lhe diria.
– Ainda bem que é só isso. Não vá ficar com cara de poucos amigos em meu primeiro jantar de boas vindas como padre ordenado.
Subitamente Carlisle lhe sorriu orgulhoso.
– E esse talvez seja o primeiro de muitos. Tenho certeza que fará um bom trabalho aqui. Todos gostarão de você.
– Assim seja! – retrucou Edward esperançoso.
Até onde sabia aquela sempre foi a vida que quis para si. Agora que começou a vivê-la, queria que tudo saísse á contento. Respirando fundo disse.
– Bom... Chega de conversa. É quase meio dia e eu realmente gostaria de rezar o ângelus. Em latim.
– Do jeito que mais gosto.
– Vamos ver como está a igreja agora?
Depois de responder com um aceno afirmativo de cabeça, Carlisle foi pegar as chaves da pequena construção. Em silêncio, seguiram até ela. Para surpresa de Edward algumas pessoas se encontravam á sua porta. A primeira á se dirigir á ele foi uma mulher.
– Bom dia senhor.
– Bom dia. – disse Edward acenando para todos, então voltou a olhar a mulher que lhe estendia a mão.
– Sou Esme Anne Platt.
– Prazer em conhecer senhora.
– Senhorita. – ela corrigiu rapidamente. – Mas pode me chamar de Esme.
– Senhorita. – Edward repetiu respeitosamente
. – Sou a dona da Blue Moon. Aquela lanchonete ali no final da praça. – disse depois de sorrir, indicou a construção á qual se referia. – Desculpe a intromissão, mas onde pretendem almoçar?
– Não havia pensado nisso ainda Esme.
Ao perceber que ela olhava na direção de seu padrinho, percebeu sua falta.
– Deixe-me apresentá-la. Esse é Carlisle Cullen. – depois que os dois apertaram-se as mãos silenciosamente, Edward concluiu. – Ele não domina muito bem seu idioma. Então, por favor, não repare ele ser de poucas palavras.
– Sem problemas. Agora... Deixe-me apresentar...
Ao dizer isso, Esme chamou um á um dos que estavam na porta da igreja e os apresentou. Com certeza Edward decoraria os nomes algum dia, mas naquele momento foi impossível. Apenas apertou todas as mãos educadamente e abençoou á todos que pediram. Dadas as apresentações iniciais, Esme voltou á dizer.
– Acredito que ainda não tenham nada em casa, pois fomos pegos de surpresa... Se soubéssemos de sua chegada teríamos providenciado tudo. Então... Acho que seria ideal se eu mandasse algo de minha lanchonete. Por conta da casa.
– Bom... Obrigado desde já... É muita atenção de sua parte.
– Imagine... Vou pedir para Rosalie trazer o almoço completo.
– Obrigado mais uma vez.
– Disponha.
Ao dizer isso se afastou. Alguns dos curiosos seguiram-lhe o exemplo, outros esperaram por sua dispensa. Depois que foram embora Carlisle finalmente abriu a porta.
– Então desistiu definitivamente do jejum?
Edward nem ao menos se lembrava que daquele desejo.
– Posso começar um no sábado pela manhã. – talvez devesse mesmo fazê-lo, pensou ao se lembrar da moça da praia.
– Nada disso! Já disse que não vai fazer jejum fora de hora em minha presença. Não o quero doente, nem nada parecido. Olhe á sua volta. Temos muito que fazer aqui.
Fazendo como o padrinho havia sugerido, olhou em volta. Realmente a pequena igreja precisaria e reformas. As evidentes eram o verniz nos bancos e pintura das paredes. Desanimado Edward constatou que se as paredes estavam naquele estado, o telhado provavelmente precisaria de telhas novas. Seguindo até o altar mor, verificou aliviado que pelo menos naquele trecho não precisaria mais que a limpeza habitual.
Realmente não teria tempo para comiserações. Suas faltas já haviam sido cobradas quando se flagelou. Seu corpo não o obedeceu imediatamente, mas as dores em suas costas ainda persistiam. E como havia conseguido se recompor antes que errasse ainda mais, obedeceria ao tutor e não se privaria de comida. Também não desejava cair doente antes mesmo de começar suas atividades presbiterianas.
– Está certo... Nada de jejum antes da hora.
Carlisle pareceu ficar satisfeito e ver o padrinho contente também lhe alegrava. Sorrindo-lhe, começou á enumerar todos os reparos que teriam que fazer na igrejinha. Param apenas para rezar o ângelus como Edward havia pedido. O finalizavam quando ouviram alguém chamar timidamente da porta.
– Entre. – disse Edward.
A moça se aproximou explicando-se.
– Vim trazer o almoço á pedido de Esme.
– Então você deve ser a Rosalie, estou certo?
– Sim senhor. – disse lhe entregando as sacolas com as embalagens. – Soube que já conheceu minha mãe. Renée Swan.
– Ah, sim... Irei até sua casa amanhã.
– Isso... Papai não está, mas mamãe fez questão de convidá-lo. Bom... Se ela não chamar mais alguém seremos somente nós duas e Bella.
– Bella?
– Minha irmã caçula.
– Ah...
O padre exclamou assentindo com a cabeça; perguntara por puro reflexo, pois o nome nada lhe dizia.
– Bom... – ela começou sem jeito. – Vim somente entregar a comida... Tenho muito trabalho me esperando ainda.
– Transmita á Esme meu agradecimento.
– O farei.
Então se foi. Enquanto ela seguia em direção á porta Edward teve a mesma impressão de antes. A de que a conhecia de algum lugar. Ficou intrigado por um momento, mas não pôde pensar muito á respeito, pois, ao ver as portas abertas, alguns moradores começaram á entrar e á puxar conversa. Com sua visão periférica, Edward viu quando o padrinho sumiu em direção á porta que só poderia ser da sacristia. Sempre dissociável, pensou com um sorriso condescendente.
As horas passaram corridas com o entra e sai na igreja. Edward se sentia cada vez mais á vontade no tratamento de todos. Agora acreditava que nem tão cedo decoraria os nomes dos moradores, mas não se incomodava com isso. O importante é que a comunidade se mostrou receptiva á sua chegada, mesmo que estranhamente não tivessem conhecimento dela. Fosse como fosse, o pároco se sentiu acolhido por todos. Como havia reparado antes, a maioria das pessoas que o procurou eram mulheres.
Á um comentário seu, soube que essa superioridade feminina se dava em dias de atividade. A comunidade era pesqueira, então boa parte dos homens da cidade estava em alto mar; como o marido da senhora Swan. Ele deveria ter inferido, mas estava realmente ansioso com toda a novidade para fazer associações óbvias. Ainda sobre a descoberta, imaginou como a cidade deveria ser movimentada quando todos seus moradores estavam presentes. Sua primeira missa prometia ter pouca audiência, mas em duas semanas previa que a pequena igreja estaria lotada.
Às sete horas daquele primeiro dia, Edward estava exausto já que seu padrinho o deixou sozinho para receber todos. Carlisle somente se juntou á ele quando o salão da igreja estava vazio. Aproximou-se com um caderno de notas onde colocou cada reparo que precisava ser feito. Depois marcaram os mais urgentes e tentaram achar soluções práticas. Resolveram que esperariam a primeira missa, assim teriam uma idéia de quanto dinheiro arrecadariam, então fariam uma espécie de fundo de obras. Edward se mostrou disposto á usar parte de sua renda pessoal para ajudar na reforma. Ao expressar seu desejo, Carlisle se mostrou totalmente contra.
Alertou-o para que não começasse a confundir as responsabilidades. Se fosse começar á gastar seu dinheiro nas obras da igreja logo seria o único á mantê-la. Edward não retrucou, pois achou a preocupação válida, porém não descartou á hipótese de contribuir particularmente. Tinha dinheiro. Não o usava para nada, então que mal haveria gastá-lo onde era preciso?... Sua mãe gostaria que usasse o que lhe deixou dessa maneira. Afinal, não era o próprio tutor que sempre lhe dizia o quanto Elisabeth se orgulhava sempre que ele, ainda criança, lhe dizia desejar seguir a vida eclesiástica?
Edward não havia feito voto de pobreza, pelo menos não o voto extremo em que se desfaria de seus bens. Não possuía imóveis, mas os juros da herança materna lhe rendiam uma soma considerável mensalmente. Se Carlisle fazia objeção que usasse seus rendimentos, poderia muito bem começar a usar sua côngrua como capital inicial de seu fundo de obras. Resolvido, achou por bem não entrar em conflito com o padrinho. Então tranquilizou-o assegurando que ainda pensaria á respeito. Depois disso o restante da tarde passou rapidamente. Agora estava em seu quarto – um cômodo pequeno mobiliado com uma cômoda, um guarda-roupa de mogno envelhecido e uma cama antiga de ferro fundido – terminando de arrumar o que Carlisle havia começado.
Retirava as últimas peças de roupas de sua mala quando seus dedos esbarraram na velha caixa de madeira. Seu coração deu um salto no peito. Havia se esquecido completamente que ela estava entre suas coisas. Colocando as roupas sobre a cama, Edward a retirou e a depositou também sobre o colchão. Não a abriu, mas permaneceu olhando as tramas da folha de carvalho que a cobria. Como sempre desejou saber o que aquela caixa representava para ele. Ninguém sabia o que costumava guardar em seu interior. Ele mesmo somente havia descoberto quando finalmente decidiu arrombá-la dias depois de ter ficado com ela, aos vinte e dois anos.
Distraidamente correu os dedos pelas letras gravadas na tampa. SADE. Não sabia o que significavam, nem qual á ligação com o conteúdo da caixa. Conteúdo esse que mesmo não sendo visto deixava Edward abalado. Encontrou-a no sótão da casa que morou com seus pais quando resolveu doá-la á caridade. Edward se lembrava como o fato tivesse ocorrido há dias, não há anos. O então seminarista queria aproveitar a desocupação do imóvel para encontrar algo que lhe avivasse a memória.
Então mesmo que o tutor tenha se mostrado terminantemente contrário á sua presença durante a retirada dos móveis, Edward acabou por vencer sua resistência e ir até a casa. Infelizmente o esforço em convencer o padrinho á deixá-lo ir se mostrou inútil. Não foi feliz em seu intento, nada na residência impessoal e pouco familiar trouxe luz ás trevas que eclipsavam vários anos de sua vida. A casa que parecia nunca ter abrigado uma família não representou nada para ele.
Resignado – afinal, segundo os médicos não se lembrar era o esperado – desfez-se de tudo, menos daquela caixa. Não saberia explicar, mas ela o atraiu de tal maneira que não permitiu que Carlisle a jogasse fora junto com o entulho empoeirado. Depois de abri-la, já no seminário, simplesmente fascinou-se por ela. Dali, Edward retirou apenas seu instrumento de autopunição. No mais, mesmo que os objetos despertassem seu interesse e inquietação, nada lhe foi útil. Como havia forçado sua abertura, foi preciso ocultar os objetos até que arrumasse a fechadura na marcenaria próxima ao seminário.
Desde que a levou de volta e reorganizou seu conteúdo, ele a mantinha trancada. Vez ou outra a tirava de seu esconderijo e olhava demoradamente para todas as peças sem perder a esperança que, mesmo que fosse pouco provável, ela lhe trouxesse algo novo. Jamais aconteceu, talvez jamais desvendasse o mistério que aquele objeto representava, porém simplesmente não conseguia desfazer-se dele. Carlisle acreditava que continham seus livros. No que dependesse de Edward o tutor continuaria pensando dessa forma.
Como se atraído por seu pensamento, o padrinho bateu á porta.
– Eddie. Posso entrar?
– Sim. – respondeu pondo-se de pé para voltar á arrumar sua roupa.
– Vim desejar boa noite. Por hoje chega para mim. Vou dormir.
– Está bem... – disse lhe sorrindo. – Estava com vontade de caminhar pela praça, mas já desisti. Também estou cansado. Vou somente...
– Então ainda guarda essa coisa velha? – Carlisle o cortou mirando o objeto sobre a cama.
Edward seguiu seu olhar, receoso que ele pedisse que a abrisse. Não tinha como explicá-la e seu chicote também estava lá; não o revelaria. Era bem capaz que depois do assombro o padrinho tentasse confiscar todas as coisas. Controlando a voz, respondeu.
– Ainda... Ela é excelente para guardar meus livros e papéis velhos. Já lhe disse.
– Já disse. – ele repetiu agora analisando seu rosto. Após alguns segundos de silêncio, despediu-se. – Melhor me deitar de uma vez. Amanhã será outro dia cheio. – então completou de má vontade. – E ainda temos um jantar de boas vindas.
– Ao qual o senhor comparecerá sorridente e simpático como o bom italiano que é... E se esforçará para conversar, mesmo que tenha que fazê-lo em libras.
– Certo... Amanhã você me atualiza em alguns sinais... Durma bem.
Então saiu, mas não sem antes lançar um último olhar para a caixa. Assim que ele fechou a porta atrás de si, Edward foi até ela e a trancou. Depois voltou a se sentar no colchão e trouxe a caixa para seu colo. Retirando o cordão que trazia sempre ao pescoço, o pároco pegou a pequena chave que dividia espaço com seu crucifixo e a abriu. Retirou o velho chicote, era preciso deixá-lo sempre na primeira gaveta da cômoda. Sem que pudesse evitar, lembrou-se que por muito pouco não foi preciso recorrer á ele em menos de quarenta e oito horas.
Por sua força de vontade conseguira resistir e no que dependesse dele, continuaria firme em não se deixar levar pelos apelos do corpo. Suspirando resignado, depositou o chicote sobre a cama e correu os dedos pelo interior da tampa aveludada da caixa. Perguntou-se mais uma vez como seu plano de deixar os objetos pertencentes á ela nas mãos de Frederico antes de vir para os Estados Unidos, havia funcionado.
Sempre soube que o amigo jamais abriria a caixa lacrada que deixou para que ele lhe enviasse pelo correio. Seu temor tardio – e que depois de recebê-la se mostrou desnecessário – era que ela fosse interceptada pelo caminho e que ele ou o remetente da encomenda, tivesse que explicar para quê um padre precisaria de um chicote, dois pares de algemas e dezesseis punhais.
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