Enigma - Segredos e Mentiras
15 Capítulo 14
Notas iniciais
Naquela mesma tarde de domingo, Bella foi com Emmett até o portinho. Depois das despedidas, com um abraço fraterno e um beijo no rosto, ele seguiu para York Harbor e ela para sua casa. Sua intenção era subir ao quarto, dormir... Esquecer. Contudo foi obrigada á sanar a curiosidade do pai que desejava saber se ela e Emmett sempre mantiveram um romance adolescente. O líder comunitário reafirmou que estava feliz com a escolha da filha, afinal, “agora”, o jovem McCarty era um bom partido; igual ou melhor até do que James, pois gerenciava os negócios de família e não simplesmente corria atrás de oportunidades políticas que talvez, nunca viessem.
Bella respondeu á todas as perguntas; mostrou-se satisfeita com a pronta aceitação paterna e então logo conseguiu uma brecha, se desculpou, alegou cansaço pela agitação dos últimos dias e correu para o quarto. Infelizmente chegar á ele lhe mostrou que estava longe de conseguir a paz desejada. Rosalie estava acordada e a encarou com expressão de poucos amigos assim que fechou a porta atrás de si.
– Posso saber que palhaçada é essa entre você e Emmett? – perguntou azeda.
Desejando deitar e descansar ela cogitou revelar a verdade, mas não considerou certo com o amigo, então respondeu simplesmente.
– Não há palhaçada alguma. Ontem, quando ele me levou para mostrar o veleiro que comprou, acabamos nos beijando e descobrindo que gostamos um do outro.
– Mentira! – ela vociferou entre dentes, com certeza sem querer fazer uma cena que chamasse a atenção de seus pais. – Você o está usando! Só porque papai lhe disse que lhe arranjaria um noivo. Como pode?
A moça chegou á conclusão que aquela era um explicação plausível; mais do que tentar fazer a irmã acreditar que estava subitamente apaixonada pelo amigo. Assumindo um ar indiferente, confirmou.
– É, você me pegou nessa!... – e para provocá-la, acrescentou. – Ele é melhor que qualquer outro, mas não diria que estou usando Emm... Gosto dele. É agradável, um bom amigo. Podemos nos dar bem juntos... E beijá-lo não foi nada mau...
– Safada! – a irmã sibilou. – Mimadinha de merda!... Eu exijo que acabe com isso “agora”. Se quer usar alguém faça com aquele seu cachorro particular... Jacob cabe melhor nesse papel do que Emmett... Ele não merece isso.
– Está maluca? – perguntou sem se importar com as ofensas ditadas pela raiva. – Sabe que não suporto Jacob... E mesmo que ele fosse um “bom partido” aos olhos de papai eu jamais ficaria com ele.
– Não suporta é uma ova!... Se não o suportasse já teria acabado com essa perseguição. Você gosta de tê-lo por perto e agora, vendo do que é capaz, acredito que até fique se esfregando nele nessas suas idas á praia, como a boa cadela no cio que é.
– Não vou responder para você Rosie. – Bella anunciou indo em direção ao banheiro. – Está magoada, triste... Imagino que não deva ser fácil ver o amor da sua vida começando a se relacionar com outra.
– Não com “outra”! – a moça corrigiu mordaz. – Mas com uma irmã vagabunda que num dia me apóia e incentiva e no outro resolve que quer o “amor da minha vida” para ela e o que é pior... Por puro capricho, proveito próprio... Mostrando bem a egoísta que sempre foi.
– Agora é que nunca a responderei. – ela disse do limiar da porta do banheiro. – Não tenho argumentos.
Quando a moça retornou ao quarto minutos depois, após tomar um banho demorado onde seu coração se dividiu entre sua paixão impossível pelo padre e a decepção que causava na irmã, ela não encontrou Rosalie em parte alguma. Agradeceu mentalmente ao fato e se lançou sobre os lençóis. Diferentemente do que imaginou, conciliou o sono quase que imediatamente. Acordou horas depois, quando a tarde já havia findado e a luz de uma lua nova entrava pela porta da varanda.
Ainda se espreguiçando, foi até ela e olhou diretamente para a lua. Depois permaneceu á olhar o mar, obrigando-se á não pensar em nada, antes que entrasse, trocasse de roupa e descesse. O jantar com a família foi um prova de resistência, pois Charlie voltou á carga, comentando á todo minuto como estava satisfeito com o relacionamento das filhas. Quando estava prestes á terminar o pouco que colocou em seu prato e se preparava para se refugiar novamente em seu quarto a mãe lhe pediu.
– Poderia levar um pouco da sopa que fiz para sua irmã ao padre Cullen?
– Por que eu? – ela inquiriu encobrindo o alarme.
– E por que não você? – o pai quis saber, encarando-a avaliativo. – Sua mãe precisa organizar a cozinha e sua irmã está á espera de James... Não deseja que seja eu á ir até a casa do padre, não é mesmo?
– Desculpe-me... – ela pediu. – Apenas me expressei mal... Não quis dar á entender que não levaria, era para perguntar por que levar sopa para ele?
– Porque o padre não veio almoçar em nossa casa hoje por estar doente. Já preparei á sopa pensando nele, então quero que leve a sua parte.
Mesmo que o padre mentiroso não necessitasse da sopa de sua mãe, não havia escapatória, então disse apenas.
– Prepare tudo que eu levo.
Bella seguiu até a casa de Edward á pé, contando os passos e acalmando o coração para a hora de vê-lo. Rogando aos céus que a recebesse com a mesma educação dissimulada que facilitaria se acostumar á esses encontros. Já que aquilo era tudo que lhe restava, o quanto antes acontecesse melhor.
Foi com a mão trêmula que bateu á porta dele. Alguns minutos depois ouviu uma voz cantada, carregada com o sotaque italiano, mas não de seu padre.
– Quem é?
– Bella, senhor... – ela falou alto para ser ouvida através da porta. – Minha mãe mandou um pouco de sopa para o padre Cullen.
Imediatamente ela ouviu a chave girar na fechadura. O tio do padre a encarou seriamente, mas sua voz era amável.
– Foi muita gentileza de sua mãe. – depois de tomar a vasilha das mãos da moça, pediu. – Agradeça á ela pela atenção em nome de meu sobrinho. Boa noite!
A resposta da moça foi dita á porta. Bella ainda permaneceu diante dela por alguns segundos até entender que ele praticamente a havia batido em sua cara. Sabia a resposta, mas ela nem ao menos teve a oportunidade de atuar na mentira contada pelo padre e perguntar se estava melhor, nada. Conformando-se, fez o caminho de volta. Era melhor assim.
Chegava á sua porta, ainda dizendo á si mesma que tudo estava como deveria, quando sua boca foi tapada por uma mão grande e sua cintura envolvida por um braço forte que a ergueu no ar. Bella esperneava, mas era em vão. Seu captor era alto e muito mais forte do que ela. Seus pés nunca tocaram o chão até ele a depositasse sobre ele já no meio da trilha que levava á praia. Tão logo ficou livre se voltou para encarar aquele que a raptou.
– O que pretende Jacob! – perguntou furiosa.
Estava escuro, mas desde que foi carregada sabia se tratar dele. Conhecia seu toque de cor, seu cheiro de almíscar.
– Pretendo saber que porcaria está fazendo com o gorila loiro.
– Como sempre meu caro... Não é da sua conta! – ela falou tomando o caminho de volta á casa. Não deu mais do que dois passos. O rapaz moreno a pegou pelo braço e, conhecendo sua agilidade em se soltar, o girou e a prendeu numa chave de braço, mantendo-a cativa. Indiferente às pisadas agressivas que recebia sobre sua bota, sibilou.
– Para seu governo é da minha conta sim... Fico aqui, como um filho da puta idiota esperando para ficarmos juntos e você se engraça com qualquer um... Até com um “padre”... Mas não comigo. Isso já está me cansando Bella.
– Não posso fazer nada á respeito! – ela anunciou sentindo seu braço doer. – E você não é um filho da puta idiota... É um filho da puta surdo, pois estou cansada de repetir que “nunca” vou ficar com você!... Sempre lhe ofereci minha amizade, mas está conseguindo mirar até mesmo ela... Veja o que está fazendo comigo agora... Veja o que vem fazendo há dias... Está me machucando!... É esse tipo de amor que me tem?
Após um instante, o rapaz soltou-lhe o braço, mas não a liberou. Abraçou-a por trás, prendendo-a fortemente pela cintura junto ao seu corpo, emoldurando-se á ela. Depois de encaixar seu queixo no ombro da moça ele lhe disse junto ao ouvido.
– Perdoe-me Bells... Não é minha intenção machucá-la. Mas você me cega!... Quando a vi na praia com aquele idiota, enlouqueci. Sei o que está fazendo...
A moça alarmou-se. Queria atingir o padre, mas acabou se expondo para Jacob que poderia ter ouvido sua conversa com Emmett e conhecer a verdade. Imediatamente descartou á possibilidade, se ele soubesse não estaria cobrando-lhe nada. Em sua mente torta, ele havia criado uma explicação á parte, como aconteceu com Rosalie.
– O que eu estou fazendo Jacob? – incentivou-o a contar tentando ignorar o contato incomodo daquele corpo grande junto ao seu.
– É uma substituição... Como tentou fazer comigo na noite de sexta. Está com ele para esquecer o padre.
Não era nada daquilo, mas aquela também lhe pareceu uma boa desculpa. Até porque não adiantava negar seu interesse pelo eclesiástico, pois Jacob sabia como se sentia.
– Se for o caso continua não sendo da sua conta. – ela disse simplesmente.
– “É o caso”! – enfatizou convicto; então a apertando mais, cheirou-lhe os cabelos demoradamente e sussurrou em seu ouvido – Escolha á mim Bells... Não me importo. Você me pegou de surpresa quando disse o nome do outro, mas agora estou preparado. Se deseja esquecer o padre esquisito eu ajudo... Apenas me escolha.
Dito isso lhe beijou a nuca, antes de voltar á dizer junto ao seu ouvido.
– Prometo não me meter mais em sua vida... Nunca vou reclamar de suas idas á boate. Mesmo que me incomode vê-la nua diante de todos, nada farei... Apenas fique comigo. Preciso de você Bells – anunciou comprimindo seu quadril ao dela para que sentisse sua excitação. – Pode me usar á vontade...
Ao dizer isso, insinuou uma das mãos pelo decote do vestido e cobriu um dos seios da moça possessivamente.
– Sinta o tesão que tenho por você. – ele pediu esfregando o volume enrijecido contra as nádegas dela. – Eu te amo tanto Bella!
– Acho que poderia dar certo. – ela disse após um gemido forçado.
– Jura? – ele perguntou esperançoso.
– E por que não? – ela inquiriu depois de cobrir a mão em seu seio e a incentivar no carinho. Estimulado, o rapaz a soltou e a voltou para si. Bella não conseguia vê-lo com nitidez, mas o conhecia o suficiente para saber sua altura. Então, sem nem ao menos dar-lhe chance de abraçá-la novamente, ergueu o joelho com toda sua força e o acertou na excitação que a enojava. Imediatamente o rapaz caiu ao chão urrando de dor.
– Desgraçada! – vociferou roucamente.
– Sinceramente não quero magoá-lo Jake; nem machucá-lo, mas não me deixa alternativa... Hoje você ultrapassou todos os limites e acredite, essa é a última vez que lhe perdôo a ousadia.
E sabendo que logo ele teria condições de se levantar e segurá-la, Bella correu pela trilha que conhecia de cor, o mais rápido que pôde até chegar á sua casa. Quando entrou com o rosto suado e corado o pai perguntou preocupado.
– O que aconteceu?
Sua mãe e a irmã olharam para ela, que disse apenas.
– Lembrei que Emm ficou de me ligar... – e rumou para a escada, antes de subir se voltou pára a mãe e disse. – Não vi o padre, mas o padrinho dele recebeu a sopa e a agradeceu em seu nome... Agora boa noite á todos... Vou esperar pelo telefonema de Emmett, depois pretendo ler um livro que deixei pela metade e dormir. Nos veremos amanhã...
– Bella espere. – pai pediu quando já subia os degraus; quando teve a atenção da filha caçula, pediu. – Se importa em ir comigo ao centro comunitário amanhã. Preciso ver como estão as coisas por lá, resolver pendências... Gostaria de sua ajuda como sempre.
– Claro papai! – ela disse automaticamente. – Será um prazer.
E então ela se foi. Quando entrou em seu quarto seu coração praticamente batia em sua garganta. Realmente não queria ter machucado Jacob, mas ele não lhe deu alternativas. Parecia que tudo começava á fugir de seu controle e entre todos que deveria zelar, o amigo que conhecia seus maiores segredos era o mais importante. A moça esperava que quando sua raiva arrefecesse Jacob visse o erro cometido e não a perturbasse mais, ou antes, não desejasse se vingar. Talvez ligasse para ele no dia seguinte e lhe pedisse desculpas, mas pensaria á respeito somente pela manhã.
No momento, com o coração mais calmo, a moça se deixou levar pela lembrança do padre, dividida entre o alívio e a decepção por não tê-lo visto. Desejou naquele momento ser uma feiticeira capaz de adivinhar o futuro e até mesmo alterá-lo. Como não era, deveria esperar para ver como seria sua semana e o dia de sábado. Até lá, tentaria se ocupar com toda sorte de serviços que seu pai lhe desse no centro comunitário. Eles lhe povoariam a mente pelas manhãs assim como suas aulas durante as tardes, então... Somente se preocuparia com as noites insones e seus sonhos molhados.
– Quem esteve aqui? – Edward perguntou minutos depois quando entrou na sala para se juntar ao padrinho.
– Vieram lhe trazer um pouco de sopa... – ele respondeu sem erguer os olhos do hinário que folheava. – A vasilha está sobre o fogão.
Edward olhou para a cozinha como se fosse possível ver o utensílio de onde estava, perguntando.
– Quem trouxe?
Após alguns segundos de silêncio o tutor respondeu laconicamente.
– A caçula dos Swan.
– Ela disse alguma coisa?... – o padre sentiu seu coração pular no peito, sem pensar inquiriu. – Perguntou por mim?
– Não. – Carlisle respondeu após outro período breve de silêncio. – Apenas deixou a sopa enviada pela mãe e se foi... – então, erguendo os olhos em sua direção, perguntou. – Fez como lhe pedi?... Sente-se mais aliviado após a remissão de seus pecados?
Imediatamente Edward entendeu o recado velado e refreou sua curiosidade inadequada.
– Sinto-me melhor. – mentiu.
– Então vá tomar sua sopa...
– Estou sem fome... Vou me recolher mais cedo. Amanhã é um novo dia!
– Que trás com ele a oportunidade de seguir pelo caminho devido. Espero que aproveite.
– Aproveitarei. – dito isso Edward voltou para seu quarto.
Ao se estender sobre a cama, experimentava o leve sabor do arrependimento. Mentiu ao dizer que estava melhor, mas também não se sentia de todo ruim. Era como se externar tudo que o afligia tivesse retirado um pouco do peso que carregava em seu coração. Assim mais leve, acreditava que deveria ter guardado seu segredo para si. Não deveria ter se desesperado ao ponto de entregar-se ao padrinho. Agora mesmo que seria constantemente vigiado e cobrado. Sua vida se transformaria num inferno; vazio, perturbador e solitário, pois padeceria sem Bella.
Suas previsões se mostraram verdadeiras, pois chegou á noite de sexta sem vê-la um único dia. Não foi á praia onde se encontravam, então não sabia se ela havia lhe esperado. Duvidava que tivesse acontecido baseado no tratamento que vinha recebendo dela, mas seu coração alimentava a esperança de que ela tenha ficado sobre a pedra aguardando sua chegada. O mais próximo de contato que teve com a moça foi ouvir, todas as noites – com exceção de quinta feira – as buzinadas de Jacob e infalivelmente as dela como resposta, como havia acabado de acontecer.
Como em todas as outras noites, seu coração foi tomado por uma dor aguda, uma saudade desesperada. Sua vontade era ir até a casa dela para fazer uma visita mesmo que breve. Contudo não podia. Mesmo que se rebelasse contra suas determinações e resolvesse fazê-lo, o padrinho não lhe permitiria. Carlisle controlou-lhe todos os passos durante aquela semana, prestando-se até mesmo o papel de acompanhante, pois foi com ele todas as manhãs á praia que frequentou para suas corridas. Esperava de pé, sob um sol escaldante, que fosse e voltasse para juntos regressarem á igreja.
Em todos esses momentos se mostrou tenso, olhava em seu entorno com expressão preocupada, como se eles fossem ser abordados pelo próprio demônio. Parecia relaxar apenas quando ambos estavam em casa; na segurança de suas paredes. Nem mesmo ficar na igreja parecia acalmá-lo, ainda assim ficava com o sobrinho todo o tempo quando este cuidava de suas obrigações e orações que acompanhou também durante todos os dias, cuidando que as fizesse todas e corretamente.
Para Edward, apesar dos dias sem sobressaltos, a semana foi verdadeiramente um inferno. Nem mesmo fazer orçamentos para as obras o distraiu. Pelo contrário, ao receber Charlie Swan que veio lhe oferecer a ajuda voluntária dos operários da cooperativa e alguns andaimes que usavam para os reparos do galpão, sentiu-se sufocado pelo desejo constante de saber notícias da moça. Desejou fervorosamente que ela irrompesse pela porta da sacristia carregando seu caderno de anotações para ajudá-lo na tarefa de encontrar os melhores preços para os reparos. Ou apenas o assistisse trabalhar; ficasse perto.
Nada aconteceu. Agora estava sobre sua cama, tentando conciliar o sono e superar a ansiedade pelo dia seguinte. Como não havia conversado com Bella, não sabia se ela cumpriria com sua parte do leilão. Segundo sua mãe – que apareceu na manhã de quarta para pegar sua vasilha de volta – a moça viria. O padre ainda acreditou que o padrinho o obrigasse á liberá-la, mas ele não emitiu uma única palavra sobre o assunto então, baseado em suas próprias palavras, Edward deixou as coisas como estavam, pois não deveria evitá-la para não agravar sua saudade.
“Como se fosse possível”! O padre padeceu desse mal todas as horas. Contava os minutos para vê-la na manhã seguinte. A falta que Bella lhe fazia era tão grave, que nem ao menos sofria com as malditas buzinadas. Ao invés disso as apreciava, pois era a prova que ainda a veria, pois nada havia mudado em sua rotina.
Quando a manhã o encontrou, o padre não havia fechado os olhos um único minuto. Já estava de pé, tomado banho e arrumado para enfrentar o que viria. Ao chegar á sala, Edward estranhou encontrar o padrinho igualmente pronto, anunciando que iria sair.
– Aonde vai? – perguntou com o cenho franzido.
– Eh... Tenho algo á resolver em Wells. – ele disse simplesmente, dirigindo-se para a porta.
– Em Wells?! – o padre estranhou mais ainda. – O que pode ter para resolver em Wells? E justamente hoje?
O jovem padre não apreciava a vigilância constante, mas havia certo conforto na companhia e naquela manhã em que estava sensibilizado ao extremo sentia que precisava de Carlisle mais do que nos outros dias.
– É algo que preciso fazer. – ele explicou superficialmente antes de afirmar. – Será breve. Talvez volte no mesmo ônibus que for. Acredito que não tenha problemas com a moça... Sei que é forte e antes que sinta minha falta estarei de volta. Agora não me retenha mais Eddie... Quanto mais demorar á sair, mais demoro á voltar. Fique com Deus!
E sem mais palavras ele se foi, deixando o afilhado se sentindo sozinho; desprotegido para enfrentar algum perigo iminente. Dizendo á si mesmo para ser forte, pois Bella era somente uma moça e não o mal encarnado, ele se dirigiu á cozinha e se obrigou á comer, arrependido por não ter determinado a hora que ela viria e por saltar na cadeira á cada ruído mais alto que ouvia do lado de fora de sua casa.
Às oito horas – quando o padre estava no limite de sua ansiedade – Bella finalmente chegou. Vestia-se decentemente, com uma bermuda jeans que lhe cobria as coxas inteiramente e uma camiseta que devia pertencer á outro dono, talvez ao irmão. Os cabelos castanhos estavam presos, mas para alívio do padre, o rabo de cavalo que tanto o perturbava estava enrolado num coque no alto da cabeça. A moça não revelava nenhuma parte de seu corpo que pudesse tentá-lo, ainda assim, Edward considerou-a absurdamente linda; desejável. E então, seu corpo completamente desestabilizado, reclamou sua falta como se ela não estivesse finalmente diante de si.
– Bom dia senhor. – ela cumprimentou sem nenhuma nota de frieza na voz doce e trêmula.
– Buongiorno!... – ele respondeu roucamente dando-lhe passagem sem desprender o olhar do rosto dela. O padre não pôde deixar de reparar que Bella não lhe tomou a benção, mas não se ressentiu por isso. Não seria a mesma coisa sem que ela o tocasse. E definitivamente ela não deveria tocá-lo, Edward pensou enquanto a seguia sem desviar os olhos de sua nuca delgada e nua enquanto ela seguia até o meio da sala. Quando Bella se voltou bruscamente e seus olhares se cruzaram, ambos permaneceram em silêncio por alguns instantes.
– Eh... – ela começou desajeitada. – Onde vou encontrar o que preciso senhor?
– O que precisa para...? – ele deixou no ar, sem atinar com o que ela dizia; estava realmente tão linda, pensou saudoso.
– Para limpar sua casa. – ela esclareceu mirando-lhe a boca. – Como o combinado.
– Ah sim!... – disse piscando para focar a atenção na realidade. – Na área ao lado da cozinha. Acho que lá tem tudo... Qualquer coisa é só me avisar que... eu providencio.
Novamente ambos ficaram em silêncio, cada um perdido em sua avaliação particular. Tentando perceber alguma novidade no rosto do outro como se naquela semana em que não se viram, algo pudesse ter mudado. Quando a falta de palavras começou á pesar o clima em torno deles, coube á moça quebrá-lo novamente.
– Se me der licença, preciso começar a fazer o serviço que comprou senhor... Senão não termino hoje.
Quando um sorriso incerto se desenhou no rosto feminino, imediatamente após suas palavras leves, ditas sem nenhum rancor ou má vontade, o coração do padre se aqueceu. Era como se não tivessem se desentendido, como aquele período de dor e indiferença não tivesse existido. Contudo, uma voz disse na mente de Edward que ele não deveria se deixar iludir; nada havia mudado. Ele ainda era quem era e ela não havia deixado de ser a moça comprometida com dois homens e que lhe roubava a paz.
Depois de respirar profundamente, Edward assumiu a postura que lhe cabia, abandonando aquele ar aéreo própria aos enamorados.
– Desculpe-me... Não quero atrapalhá-la ou retê-la além do necessário. Estarei na igreja, qualquer coisa que precise não se preocupe em procurar-me... – então acrescentou educadamente com certo receio de estragar a readquiria cordialidade. – Não irá me atrapalhar em nada.
– Combinado. – ela disse simplesmente.
Quando Edward se foi, Bella procurou pelo sofá com os olhos e seguiu até ele para se sentar antes que suas pernas falhassem e a derrubassem. Caminhar até o meio da sala exigiu certo esforço concentrado de sua parte, pois a moça não as sentia; apenas adivinhava o chão aos seus pés. Já acomodada, aproveitou para regular a respiração e os batimentos de seu coração descompassado.
A moça jamais imaginou que uma semana sem vê-lo fosse deixá-la daquela maneira. Depois de mais uma vez ter feito ás pazes com Jacob – que a procurou á saída da aula completamente arrependido – e de perceber que seu falso relacionamento com Emmett daria certo, ela acreditou que tudo correria bem. Que bastaria se ocupar e esperar o sábado. O que ela não contava era que a saudade se instalasse em seu peito roubando-lhe toda a possibilidade de ter paz enquanto estivesse ocupada. Que varresse toda á mágoa que dirigia ao padre, deixando apenas evidente sua paixão não correspondida.
Nada tirou Edward de seu pensamento fazendo com que aquele reencontro anulasse todos os seus sentidos básicos. Quando o padre lhe abriu a porta, não viu nada além de seu rosto; não sentiu outro odor que não fosse o do sabonete utilizado no banho, não saboreou nada que não fosse o desejo de beijá-lo. Não ouviu nada que não fosse a voz cantada e rouca e sim, desfaleceu mesmo estando consciente.
Depois de parcialmente recuperada, ela se pôs de pé. Estava na casa “dele”. Ao que parecia não o veria muitas vezes, pois Edward deixou-a educadamente, mas levemente distante. Contudo, não tinha muita importância. Durante as próximas horas respiraria o mesmo ar. Arrumaria seu quarto – se fosse possível se deitaria em sua cama –, estaria perto dele em cada objeto seu que tocasse. Animada com todas essas opções, ela seguiu até a cozinha e então para a área. Infelizmente encontrou todos os utensílios que necessitava e os produtos de limpeza sob a pia; não seria preciso pedir nada.
Resignada, fez como sua mãe. Rumou para os quartos para arrumá-los primeiro. Começou pelo último se perguntando se aquele seria o de Edward. Depois de varrer todo o chão de madeira, Bella seguiu até o guarda roupa para procurar por lençóis limpos. As roupas encontradas não lhe deram alguma indicação de á quem pertencia, pois tio e sobrinho se vestiam da mesma forma e possuíam o mesmo tipo físico.
Decepcionada por não ter descoberto de quem era aquele quarto extremamente organizado, ela pegou as roupas de cama e se pôs ao trabalho. Enquanto removia as roupas usadas e cogitava se deitar entre os lençóis nem que fosse um minuto, Bella encontrou um fio de cabelo descolorado então soube que estava nos aposentos de Carlisle. Reprimindo um sorriso divertido por se imaginar rolando na cama da pessoa errada, ela concluiu a arrumação. Não era uma faxineira profissional e nem aquela era a proposta, então, depois de espanar os móveis, juntou os lençóis e fronhas sujos, seguiu para o quarto seguinte. O de Edward.
Agora que tinha certeza de onde entrava, cruzou a porta com o coração aos saltos depois de ter deixado as roupas usadas no corredor. Depois de deixar a vassoura recostada contra a parede, ela colocou as mãos que tremiam nos bolsos traseiros da bermuda horrível que usava e se pôs á analisar o cômodo. A cama estava arrumada, apenas com a colcha amarrotada como se ele tivesse se deitado sobre ela a noite inteira. Uma muda de roupa preta estava displicentemente jogada sobre uma cadeira. Sob a mesma havia um par de sapatos sociais, também pretos. Ao ver-lhe o tamanho a moça se permitiu sorrir com o pensamento obsceno que teve. Imediatamente seu rosto ardeu, por estar ali, ao lado da igreja, no quarto de um padre á comparar mentalmente o tamanho de seu pênis ao número do pé.
Dando de ombros consigo mesma riu abertamente afinal, fazia coisa pior em sua cama ou durante o banho pensando no padre. Deixando que o divertimento de seus pensamentos a contagiasse, ela se pôs ao trabalho. Decidindo que a roupa sobre a cadeira estava usada depois de cheirá-la e sentir o cheiro bom de sabonete e leve suor, ela as deixou sobre as de cama Carlisle no corredor. De volta ao quarto, como não sabia onde colocar os sapatos, ela os deixou também no corredor somente pelo tempo de varrer todo o quarto, depois os colocou sob a cadeira novamente.
A cama roubou-lhe um pouco do tempo. Parada ao seu lado, a moça não sabia se trocava os lençóis ou não; eles lhe pareciam intocados apesar de estarem amassados. Na verdade o que ela queria mesmo era se deitar sobre a colcha. Caçar no travesseiro de Edward o mesmo odor de sabonete e suor. Depois de deliberar por alguns minutos, ela conferiu o corredor. Ao voltar, atirou-se sobre o colchão de bruços para afundar o rosto no travesseiro coberto pela fronha branca. Logo estava deitada em concha, abraçada á ele, cheirando-o e se excitando com aquela proximidade paliativa. Arrependeu-se de não ter levado sua bolsa, pois poderia levar a fronha consigo.
– Deixe de ser tonta garota! – disse em voz alta. – Era só o que faltava... O padre entrar aqui e te ver atracada ao travesseiro dele ou surrupiando uma fronha.
Rindo com a cena que projetou em sua mente, ela se pôs de pé. Sem retirar a colcha agora que havia bagunçado ou a fronha que não roubaria, ela foi até o guarda roupa para procurar peças limpas. A tarefa lhe tomou o tempo mais uma vez, pois passou a correr os dedos pelas camisas dispostas nos cabides. Edward possuía pouquíssimas roupas “comuns” sendo em sua maioria as habituais peças escuras. Depois de cheirar praticamente todas, ela se concentrou em procurar as roupas de cama.
Tateava pelos tecidos dispostos no fundo do guarda roupa quando seus dedos bateram contra algo duro. Logo descobriu ser uma caixa de madeira. Curiosa ela a puxou para fora e a analisou. Era pesada, alguma coisa estava solta em seu interior e na tampa quatro letras formavam um nome; Sade. “O que seria?”, pensou.
Como estava trancada, jamais saberia, pois perguntar ao dono estava fora de cogitação. Bella achou melhor a colocar no lugar e voltar ao trabalho; já estava no quarto de Edward praticamente o dobro do tempo que ficou no de Carlisle. Logo ele chegaria á porta e a flagraria fuçando suas coisas. Dividida entre o temor e a excitação de que sua ideia se confirmasse, ela recolocou a caixa no lugar e remexeu nos tecidos que estavam sobre ela; eram apenas toalhas e algumas fronhas; nenhum lençol. A moça então se pôs de pé e olhou em volta perguntando onde estariam. Logo que seus olhos pousaram sobre a cômoda disposta á uma das paredes do quarto ela foi até ela.
Imaginando que talvez ali fosse como seu próprio quarto, começou olhando na última gaveta. Como nada encontrou seguiu para a de cima e assim fez até chegar á primeira, pensando que deveria ter se baseado na Lei de Murphy e olhado naquela desde o início. Antes que risse de mais aquele pensamento seus olhos pousaram sobre o objeto preto disposto sobre as camisetas brancas de Edward. Fascinada ela retirou o chicote de seu lugar, segurando-o firmemente pela base.
– Minha Nossa Senhora... – sussurrou correndo as correias sobre a mão livre até que elas caíssem uma á uma e balançassem livre pelo ar. – Para que Edward quer um desses?
Imediatamente as cenas de um dos filmes preferidos de sua irmã lhe vieram á mente; quando um homem extremamente branco e nu se punia com algo semelhante àquilo. Bella chegou á conclusão que o padre possuía o perfil perfeito para o tipo dos adeptos á autopunição. A bipolaridade, a seriedade extrema, o rosto expressivo e marcado que não indicava sua idade apesar de agora ela saber que ele tinha a mesma de Jasper. Edward possuía marcas de um homem mais velho ainda que fosse novo; um homem torturado. Diante de tais pensamentos seu coração sentiu mais ternura por ele, ela ficou mais apaixonada. E excitada, pois a visão de um Edward nu sempre a acenderia.
– O que pensa que está fazendo?! – ela ouviu a voz dele bradar da porta, furiosa.
Antes que pensasse em como responderia àquilo, ele já estava ao seu lado e tirava o chicote de sua mão bruscamente. Estava perdida; dessa vez Edward não passaria por ela como um rolo compressor. Seus olhos inflamados lhe avisavam que seria aniquilada sumariamente.
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Agora vamos ao famoso SPOILER...
– Quem lhe deu permissão de mexer nas minhas coisas? – inquiriu entre dentes.
– Eu não... – ela começou sem jeito, odiando que seu pensamento sobre um possível flagrante tivesse se tornado realidade. – Eu só... Eu...
– Pensei que tivesse vindo limpar a casa, não bisbilhotar minhas gavetas. – ele rosnou enquanto enrolava o chicote em sua mão.
A moça olhava para aquela tira de couro preto enrolada na mão do padre e estremecia sem encontrar palavras que a justificassem.
– Estou esperando! – ele avisou.
Bella fixou o olhar ás duas contas de granito azulado e se obrigou á falar.
– Eu juro... Juro que não estava bisbilhotando, senhor. Eu só... Estava procurando por lençóis limpos e como não encontrei em seu guarda roupa vim...
– Mexeu em meu guarda roupa?! – ele vociferou, cortando-a. Com três passadas largas marchou reto em direção ao móvel – obrigando-a á se afastar caso contrário a derrubaria – e parou diante da porta ainda entreaberta. Depois de escancará-la e conferir a caixa para se certificar que continuava fechada, ele se voltou lentamente para encarar a intrometida. O olhar amedrontado não apaziguava seu nervosismo.
Recriminava-se por não ter atendido antes á vontade de vê-la que o impulsionava de volta á casa. Antes vigiar-lhe os passos do que vagar pela igreja dizendo á si mesmo que aproveitasse a trégua entre eles e a deixasse fazer seu trabalho em paz. Se tivesse atendido á sua vontade, Bella não teria tocado em algo tão íntimo e particular. Reprimindo o desejo de sacudi-la para que nem ao menos ousasse mentir, indagou duramente.
– Mexeu nessa caixa?
Bella cogitou negar, mas era evidente que não convenceria. A caixa era grande demais para passar despercebida por ela.
– Sim... Mas sabe que não a abri.
– Se descobriu que está trancada é porque tentou ver o que tem dentro dela. – ele concluiu o óbvio. – Como pode ser tão invasiva?
– Não sou invasiva. – a moça se defendeu tão logo a emoção do susto arrefeceu. – Apenas quis olhá-la. Fiquei curiosa com o nome... O que é Sade?
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