Enigma
1 Tempestade
Notas iniciais
Aguardem, pois o segundo capítulo tem bastante ação!
Segunda-feira, 3 de março de 1930
0h32
O cheiro de uísque escocês envelhecido envolvia o pequeno e empoeirado quarto como uma manta. Havia uma sinfonia no cheiro. Podia-se sentir o aroma enfumaçado de turfa, utilizada no processo de maltagem. Mas havia algo mais. Daniel Smith trouxe o copo com a bebida próximo ao nariz e inspirou profundamente. Havia um cheiro sutil de alcaçuz. Apenas o cheiro, que pairava no ar, era inebriante.
Daniel sentiu-se sufocado. E, enquanto tomava um gole da bebida suave e seca, abriu a janela. Uma lufada de ar frio invadiu o ambiente, dispersando o cheiro do uísque. Olhando pela janela, viu um céu nublado. Apesar da névoa densa e congelante, podia-se ver certo brilho no céu. A lua estava quase totalmente cheia. Tão sozinha quanto a casa de Daniel. O lugar isolado assustava-o. A grande casa, cercada por um bosque, era praticamente isolada. Os Beckers eram os únicos vizinhos com uma propriedade, ainda assim, distante de sua casa. Não se ouvia um barulho. O silêncio preenchia o ambiente. Daniel sentia o gole final da bebida escocesa cortar sua garganta, enquanto ouvia a porta bater-se atrás dele.
– Você sabe que não deveria beber isso – a voz de Ruby chegou aos ouvidos de Daniel com frieza, mas, ao mesmo tempo, aquele tom doce acalmava-o, quase que o induzindo ao sono. As estrelas venciam a pesada névoa, brilhando, enquanto ela falava. Sua voz era tão macia e cativante. Melodiosa. Daniel se virou. Ela tinha cabelos negros e olhos verdes que hipnotizavam. Daniel se perdia neles. Ruby andava em sua direção elegantemente e sorriu. Um sorriso tão alvo que finalmente o tirou da escuridão. Daniel limpou a garganta, finalmente despertando dos encantos de Ruby.
– Por que haveria eu de respeitar ordens de um governo que não nos respeita? – Daniel perguntou, soando indignado.
– Oh, Daniel... Não se trata do governo – Ruby inclinou-se, de modo que ela sentisse o forte cheiro da bebida que envolvia Daniel. Ele sentia o perfume de Ruby, um aroma ameno que o lembrava de um jardim florido – Nem mesmo de que forma você conseguiu essa garrafa. Mas me inquieta o dinheiro que você gastou nisso – Ruby passou a mão por sua barba.
– Pois que não se inquiete, Ruby... – Daniel colocou o copo vazio sobre a escrivaninha e envolveu a amada pela cintura. Sussurrava, enquanto se aproximava cada vez mais dela. – Não é a vida que você merece. Você merece o melhor... Desculpe-me... Eu acredito ter um plano. Vou consertar tudo isso.
– Só... Pare de beber. E saia um pouco, Daniel. Não tem sido o mesmo – Ruby lamentou-se. As coisas só haviam piorado desde o ano passado. Com a crise, Daniel se desempregou e sobrevivia com a ajuda dos pais de Ruby. O silêncio, mais uma vez, predominava e apenas ouvia-se a respiração de Ruby.
Os segundos passaram como em uma lentidão interminável. Silenciosos. Daniel sentia a pele de pêssego de Ruby e o seu cheiro, agora, dirigia seus sentidos. Tão inebriante quanto o uísque, Daniel finalmente esqueceu todos os problemas. Focou-se naquele instante. Confiava em Ruby. Amava-a perdidamente. Daniel beijou-a. O hálito forte da bebida simplesmente não combinava com o aroma fresco de Ruby. Sempre tão diferentes... Mas, de certa forma, pertenciam um ao outro.
– Darei um jeito – ele prometeu, perdendo-se nos olhos verdes de Ruby.
7h50
Ruby acordou, sentindo-se um pouco desorientada. Seus olhos piscaram algumas vezes até se acostumarem com a luz da manhã. Virou-se, sem encontrar Daniel ao seu lado. Levou alguns segundos até se levantar. Sentia o cheiro forte de café no andar de baixo. Seus sentidos não a haviam enganado. Encontrou um pouco da bebida em cima da mesa da cozinha, junto de um pão velho. Como odiava aquela mesma rotina. Amava Daniel, mas, por vezes, sentia-se merecedora de uma vida melhor, a qual fora prometida. “Uma vida luxuosa em Atlanta ou mesmo Nashville”, ela pensava, “não a pobreza de uma cidade interiorana como Enigma”. Saiu de seus devaneios e olhou à sua volta. Contas para pagar em cima da mesa, ao lado do café. A Grande Depressão era palpável. E agora Ruby tocava-a.
14h13
– Não, ele não se encontra no momento, senhor Adams – Ruby soava nervosa.
– Escute-me, senhorita. É um atraso de oito meses. Não há mais como eu empurrar isso com a barriga. Espero que esteja ciente que...
– Sim – ela o interrompeu – sobre a casa... É... Eu sinto muito. O dinheiro dos meus pais só é suficiente para mantermos o básico. A terra não tem sido tão generosa também. O senhor deve reconhecer que não é uma das melhores épocas.
– Sim, senhorita... Posso entender isto. Mas deves atentar para suas prioridades. Tenho visto devedores morando em pianos e carros. Pode entender, senhorita, o quanto sua situação é delicada?
– Senhor Adam... – Ruby, desconcertada, não acostumada a encarar tais situações, tentou extrair o melhor do seu charme – Daniel saiu cedo. Deve estar procurando trabalho. Mas... Enigma é complicado, o senhor deve saber. É uma cidade muita pequena.
– Eu voltarei logo, não tenho mais tempo. E é melhor que eu veja algumas notas verdes. Encontre seu jeito, senhorita Morgan – o credor disse, virando as costas, finalizando a conversa. Ruby fechou a porta. Suspirou, aliviada. Contudo, ainda tensa. Passou a mão no pescoço, não conseguindo evitar sentir certa raiva de Daniel.
Descortinou a janela. O sol, um tanto tímido, enveredou pelos vãos que podia encontrar entre as nuvens até que chegasse à janela empoeirada, iluminando-a. Também oferecia luz e calor à paisagem de árvores baixas e retorcidas a poucos metros da frente da casa, rente às quais Ryan Adams se embarafustava.
Um tanto gordo, o senhor de 40 anos caminhava a passos lentos e despreocupados. Mas algo em seus olhos, achava Ruby, guardavam certa juventude. Conservava certa altivez na postura e deixava-a escapar num tom de austeridade. “Velho ranzinza”, disse a si mesma, enquanto o via caminhar em direção à casa da viúva Becker.
Ruby sentou-se numa poltrona, em frente à janela, absorta em pensamentos. Havia um livro de Hemingway numa mesinha ao lado. Ruby esforçou-se para pegá-lo, sem querer sair da poltrona. Após alguns segundos, conseguiu. Ruby retomou a leitura.
19h25
Violentas batidas na porta despertaram-na de seu sono profundo. Ruby perguntava-se quem estaria batendo tão furiosamente. Colocou o livro de volta à mesa e se levantou, espiando pela janela. Apesar de um pouco sonolenta, tentou pôr o melhor sorriso possível ao abrir a porta.
– Senhora Becker... Está tudo bem? – Ruby perguntou.
A senhora Becker era uma senhora baixinha. Em sua vida conturbada, devotava-se quase que totalmente à família. Sempre fora muito generosa com Ruby, embora mantivesse certo distanciamento de Daniel Smith. Morava com os dois filhos numa grande propriedade rural a alguns metros. O marido, Henry, era um alcoólatra abusivo, que frequentemente espancava-a. Trouxe paz à família e, em especial à senhora Becker, apenas em sua morte. Submissa, Rose Becker não o confrontava. Apenas se preocupava com Megan e David, os dois filhos, agora em seus 20 anos. Embora não tivessem sido maltratados por Henry, não tiveram o ambiente familiar mais saudável. E isso deixou certas seqüelas em suas personalidades. David tornou-se extremamente introvertido. Era apegado à Rose de modo excessivo. Tentava agradá-la de todas as formas possíveis, mas tinha um ar sombrio. Carregava infelicidade pelos caminhos que passava. Daniel sentia muita pena do rapaz. Por vezes caminhavam pela cidade, conversando. Ruby nunca o perguntou sobre o quê, apesar de vê-lo envolvido com alguém de ar tão desanimador. Muitas vezes sentia que David deixava Daniel depressivo. David, porém, não era de todo uma má influência. Sempre foi reconhecido por ser muito “certinho”. Era um rapaz ajuizado. Já Megan tornou-se de comportamento rebelde. O oposto do irmão. Bebia muito e, por sua vez, vagava pela cidade o dia inteiro, só retornando para casa de madrugada. Adquiriu um comportamento violento, de modo que a senhora Becker se queixava de que ela era muito fria e distante.
– Sim, claro... Bom... Desculpe-me te incomodar, Ruby. Mas... Por acaso... Você viu o David ... Andando por aí? – perguntou a senhora, de uma forma carregada, pausando excessivamente. Algo no tom dela era de sofreguidão. E quem quer que a ouvisse parecia compartilhar o sentimento por alguns minutos.
– Oh, senhora Becker... Eu acabei por cochilar esta tarde, logo, não o vi por aqui. Mas talvez ele esteja com Daniel... Ele saiu hoje de manhã – respondeu Ruby.
– Você... Incomodar-se-ia... De ir até minha casa... Se, talvez... Você o ver? – Ruby sentia-se impaciente com a senhora, mas manteve a calma diante dela. Afinal, Rose sempre se mostrou prestativa e Ruby era grata por isso.
– Claro que não, senhora Becker. Não será nenhum incômodo para mim – Ruby disse.
– Obrigada, Ruby. Obrigada... Por ser tão atenciosa – a senhora Becker dirigiu-se de volta à rua. Os passos eram lentos e pesados, os sofrimentos de uma vida inteira carregados nas costas. Ruby fechou a porta. Lá fora, o fraco sol se punha e o céu tornava-se cinza, como se fosse chover.
Ruby passava, então, a se preocupar com Daniel... Ah, Daniel. Onde estaria? Talvez estivesse com David, como apontara antes. Isso explicaria tudo. E, caso estivesse certa, provavelmente Daniel voltaria cheirando a uísque novamente. Esse pensamento fez o sangue de Ruby borbulhar. Caminhou pela casa. Indignou-se, novamente, ao olhar as contas a pagar que se acumulavam na mesa da cozinha.
Acendeu algumas velas, enquanto a escuridão passava a predominar. E aos poucos, era tudo.
20h59
As nuvens se amontoavam no céu, escondendo a lua por completo. Mas não se devia enganar. A lua ainda brilhava atrás das nuvens que se inchavam, cada vez mais carregadas. Ruby estava cheia. Sentia-se mal: preocupada com onde Daniel estaria, em desespero com a ameaça de credores e insatisfeita com as promessas não cumpridas do noivo. Ah... Como se sentia, neste momento, como a velha viúva Becker. Carregando tanto nas costas. Acumulando várias coisas dentro de si. Um sentimento que tomava conta dela, invadindo cada espaço de Ruby, ao ponto que manter uma aparência razoável era muito difícil. Em algum momento, ela iria explodir.
E assim eram as nuvens, porque elas estão cheias, cheias ao ponto de explodir. Carregam-se. As nuvens se agrupam, apenas aguardam, enquanto a tensão e a necessidade aumentam. Num instante, como que em um impulso, as nuvens que, antes, tão calmas e silenciosas, acalmavam a todos; iriam despedaçar a tranqüilidade da noite de uma só vez, emanando toda a tensão guardada. Tal alívio chegou.
Seria assim com Ruby?
Uma violenta explosão de luz rasgou a noite, revelando, pela janela, o bosque sombrio e a rua deserta. Seguiu-se, então um forte barulho. Ruby suspirou. Tudo sumiu na escuridão, apenas as velas iluminam a casa. Houve um súbito e quase-completo silêncio. Somente a chuva podia ser ouvida, além da respiração ofegante de Ruby. Então, pôde-se escutar batidas na porta. Quem seria? Ruby levantou-se enquanto outra explosão de luz iluminava a sombria noite.
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