Engraçado

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Em homenagem as minhas duas avós: aquela que cuidou de mim e que ainda está do meu lado como meu porto seguro, e aquela que eu já ñ posso mais ver.

Engraçado...

Já perceberam como as avós são pessoas engraçadas?

Elas contam histórias que fazem os seus pais ficarem vermelhos de vergonha, e elas fazem você rezar a oração do anjo da guarda antes de dormir sempre que você fica na casa delas. Elas usam roupas que ninguém mais usa, e falam de um tempo que devia ser muito chato, porque não tinha televisão. Mas elas dizem que tinham coisas muito melhores que televisão. Será?

A minha avó é engraçada, pelo menos. Ela usa uns aros grossos e umas lentes que dobram seus olhos azuis de tamanho. Como duas bolas de gude bem grandes e brilhantes. Ela sempre usa um terço, e às vezes fica murmurando enquanto troca as bolinhas. Ela me falou que ia me ensinar a rezar o terço, mas aí eu fico pensando: é pra rezar tudo ou só um terço?

Ela é a única pessoa que me chama de “Sarinha”, mesmo que eu diga, impaciente, que me chamo só Sara. Mamãe falou pra eu não responder pra vovó, mas ela não ia gostar se eu trocasse o nome dela de Maria pra Josefina, ia? Meu pai falou que ela me chama assim porque gosta de mim; ah, eu acho que é verdade, porque a vovó é muito carinhosa comigo, e me protege do Pedro, aquele bobo do meu irmão. Ta bem, eu deixo ela me chamar de Sarinha só porque ela é legal.

Mas a coisa mais engraçada que a minha avó faz é que ela prepara bolinhos de chuva quando não está chovendo. Pode isso? Bom, mas eu deixo porque é minha coisa mais preferida de todas as minhas coisas mais preferidas do mundo.

E ela fala que todos os netos têm que dividir as coisas, mas ela nunca faz bolinho se os meus primos estão em casa também. Se o André estiver então, ela nem fala do assunto. Eita, garoto esganado! Parece que nunca viu comida!

Vovó vai me ensinando como se fazem os bolinhos sempre que faz, porque eu vivo esquecendo. E eu tenho que subir no banco pra alcançar a bancada, e só então consigo ver. Tento assimilar como aquelas mãos de veias azuis e tão saltadas podem misturar coisas brancas, o leite, a farinha, coisas tão diferentes e transformar na massa que eu rolo no açúcar, mais preocupada em surrupiar do que realmente em enrolar.

Uma vez, quando percebi que chovia, disparei escada abaixo e implorei pra minha mãe me deixar fazer bolinhos. Eu fiz, e ficaram gostosos; mas não ficaram como os da vovó. Tudo fica diferente se a vovó quem fez. As flores que ela corta nos guardanapos são mais bonitas que as minhas, o perfume é muito mais cheiroso e os bolos bem mais gostosos.

Mas quando eu levei pra vovó experimentar, ela falou que era a melhor coisa que ela já tinha comido. Viu como avós são pessoas engraçadas?

Agora toda vez que chove eu fico pensando nos grandes olhos da vovó e me pergunto porque será que eles são tão azuis? Eu já vi muita gente com olhos azuis, mas nunca tão azuis quanto os da vovó. Minha mãe falou que eles são azuis como os dos meus tios, mas ela está é sendo boba, porque nenhum olho é tão bonito quanto o da minha avó.

Vovó tem muitos mistérios. Ela guarda uma foto do vovô que não conheci na gaveta da cômoda, mas tira toda noite e coloca no travesseiro ao seu lado. Eu perguntei porque e ela disse que é pro vovô não se sentir solitário. Mas ela também me disse que vovô está no céu com muitos anjos, então como ele pode estar solitário? Eu acho que vovó é que está solitária, mas ela não quer dizer.

Eu experimentei dar uma foto minha pra vovó botar com a do vovô, peguei também uma da mamãe, dos meus tios e meus primos. Mas quando eu disse pra que eram, não sei por que, mas acho que ela chorou. Uma lagrimazinha que eu vi. Mas eu queria fazer ela ficar feliz, isso lá é motivo pra chorar?

Avós são mesmo pessoas muito, muito carinhosas. E muito, muito boazinhas. Mas continuam sendo engraçadas, não acha?

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!