English Boy
7 Capítulo 7
Naquela segunda de manhã a escola ficou cheia, todos os alunos estavam de volta e eles eram responsáveis pelo barulho estrondoso de conversa que dominava o Bandejão logo no café da manhã.
James estava na minha cola. Quando subimos a Escadaria com Iara e Danilo para o refeitório, disse a ele para ficar perto de mim o tempo todo, pois nossos horários eram os mesmos. Assim ele não corria o risco de se perder.
Tião naquela manhã decidiu faltar a primeira aula, aparentemente algo nada bom aconteceu em sua casa durante o recesso. Lina estava com seus outros amigos, nada fora normal, pois nós não tínhamos o costume de estar sempre grudados. E quanto a Naldo, com a chegada de seus colegas de turma, ele quase não passava mais tempo conosco.
Sentamos na primeira mesa com quatro bancos vagos que encontramos após nos servimos na pista do café.
ꟷ Meu, acha que o Marcelo vai mesmo dar prova na semana que vem? ꟷ Danilo me perguntou mordendo um pedaço de pão.
ꟷ Ele não disse nada antes do Carnaval, deve ser boatos. ꟷ respondi com a sabedoria de seis anos convivendo com lorotas sobre provas surpresas.
ꟷ Quem é Marcelo? ꟷ perguntou James confuso.
ꟷ Nosso professor de Poções. ꟷ falei e ele enrugou o nariz.
ꟷ Vocês tratam um professor pelo primeiro nome também? Não é desrespeitoso? ꟷ ele perguntou em tom apreensivo.
ꟷ Ná! ꟷ dei de ombros e tomando uma golada do meu café quentinho.
ꟷ Certo, só para saber, chamo todo mundo pelo nome e está tudo bem?
ꟷ Sim...e não. Para professora de Transfiguração usamos o sobrenome. ꟷ Danilo se perdeu no raciocínio e voltou-se para mim ꟷ O professor Maretti também. Por quê?
Sério que ele estava me perguntando isso? Logo eu.
ꟷ Sei lá. Deve ser porque soa melhor que o primeiro nome. ꟷ inventei.
ꟷ Não faz sentido. ꟷ Danilo zombou.
ꟷ Como vou saber a forma certa de me dirigir a um professor? ꟷ James parecia realmente preocupado com isso.
ꟷ Hey, calma! Não estamos em um tribunal de justiça ou algo assim. Chame-os da forma que eu ou Danilo chamar. De qualquer maneira todos sabem que você não é daqui. ꟷ o tranquilizei.
ꟷ Ok. ꟷ James voltou a comer sem abandonar o ar tenso.
Saímos do refeitório e nossa próxima aula foi logo a de Poções. As carteiras da sala já eram agrupadas para sentarmos em dois. Danilo e Iara tomaram seus lugares juntos como de costume.
Normalmente eu fazia dupla com Tião ou Lina, mas o primeiro estava ausente e a segunda… Bom! Lina era muito inteligente, mas sempre teve dificuldades com Poções e no ano passado Marcelo acabou reprovando-a. Por isso, ela estava na turma do 6º ano e tinha que cumprir aulas de recuperação no período noturno caso quisesse se formar em dezembro. Fiquei muito mal por ela, pegar reprovação era sempre ruim, mas pegar no último ano conseguia ser pior ainda.
Enfim, na falta dos meus habituais parceiros de Poções me sentei com James. O que era ótimo para ele, pois assim facilitaria sua primeira aula.
O professor Marcelo já estava na frente da sala andando em círculos, uma mania que ele tinha antes de iniciar suas falas. O bruxo era alto, moreno e de olhos esbugalhados.
ꟷ Muito bem. ꟷ Marcelo falou estridente e bateu uma palma fazendo a conversa cessar. ꟷ Estamos de volta apesar dessa besteira de Carnaval atrapalhando nosso ano letivo como sempre, ein. Mas eu sei que vocês gostam. Gostam de ficar vadiando, né?
Houveram risadinhas na sala.
ꟷ Mas é isso aí... Só espero que tenham sido responsáveis. Vocês foram responsáveis? ꟷ Marcelo continuou e ganhou afirmações com risinhos para sua pergunta. O professor sorriu balançando a cabeça em descrença. ꟷ Aham, sei! Isso me lembra uma vez quando...
Marcelo era um brincalhão e contador de prosas. Ele costumava intercalar assuntos importantes da matéria com acontecimentos da sua vida. Como ele divagava demais durante a aula, eu sempre perguntava a James se ele estava entendendo. Quase lá pro meio da aula tivemos que fazer uma Poção de Revigoramento, algo simples. O objetivo: apenas começar o ano e porque estava em falta na enfermaria (Sim, éramos usados frequentemente como produção de poções para o estoque da escola).
James folheava o livro, que infelizmente estava em português, e checava os ingredientes o tempo todo. Percebi a agitação dele pegando os frascos sobre a mesa e analisando.
ꟷ O que foi?
ꟷ Eu nunca vi essas coisas. Pela forma que o professor descreveu, a poção parece ter o mesmo efeito da Poção de Wiggenweld, mas não é igual. ꟷ James franziu o cenho.
ꟷ Não conheço essa. Talvez sejam a mesma coisa feitas de formas diferentes. ꟷ ponderei que seria provável já que até mesmo entre os países da ULAM existiam muitas formas diferentes de produzir as mesmas poções.
ꟷ Claro, deve ser. Os ingredientes que têm aqui não devem ser os mesmos que os nossos. ꟷ ele bagunçou os cabelos ao concordar com minha sugestão.
ꟷ Quer que eu comece? ꟷ perguntei a ele, vendo sua insegurança em iniciar.
ꟷ Sim.
Trabalhamos juntos e nossa poção ficou perfeita, o que não era comum para mim acertar na mosca tão fácil. O sucesso podia ser atribuído a James, que apesar de ter que lidar com ingrediente e sistemas de medida diferente, parecia ter talento para coisa. No entanto, mesmo com o resultado bem sucedido, ele parecia atordoado quando saímos da sala.
ꟷ Tsk! Esqueci de pegar o tradutor de texto para colocar nos livros. ꟷ James chiou para sua falta de atenção.
ꟷ Isso existe? ꟷ eu perguntei surpreso.
ꟷ Diretora Cuesta me deu junto com o auditivo. É uma folha branca translúcida enfeitiçada para ao se colocar sobre um texto reescrevê-lo em inglês. ꟷ James me explicou dando um sorriso fraco.
Caminhei com ele até a beira da escadaria e estanquei ao lembrar que eu precisava subir ao invés de descer.
ꟷ Eu tenho reunião do Conselho de Representantes agora. Me encontra na biblioteca mais tarde, sim? Vamos juntos para a próxima aula. ꟷ me expliquei a ele.
ꟷ Beleza. Tchau! ꟷ ele disse em português.
Eu sorri. Era estranho sempre que ele começava a usar uma palavra nova, mas também era cativante. Só que às vezes eu temia que James estivesse pegando muito do meu vocabulário do interior e as gírias chatas de Danilo.
James desceu a Grande Escadaria e eu subi. Fui para minha reunião, onde o assunto da vez foi um desentendimento grave entre o professor Maretti e um aluno do quinto ano. Aparentemente o professor exigiu que o garoto fosse até o quadro e esse se recusou, causando um surto no senhorzinho bigodudo que ensinava Aritmancia. Eu não dei atenção ao barraco, pois tive o desprazer de ter aulas com o Signore Maretti no meu quinto ano (quando Aritmancia é obrigatória) e conhecia muito bem o gênio explosivo do professor. É claro que eu estava do lado do garoto.
Resolvido o caso com Maretti acalmado pela diretora, foram discutidos mais assuntos tediosos de coordenação. O mais interessante entre eles era o projeto da ULAM com o Castelobruxo para aumentar o número de alunos quilombolas na instituição. Aparentemente menos de 5% dos bruxos nesses povoados recebiam educação mágica formal e o objetivo era criar políticas para aumentar sua inclusão.
No final nós, os Representantes, recebemos orientações sobre como guiar os alunos do primeiro ano que chegavam perdidos na escola. No entanto, eu estava dispensado dessas funções naquele ano por um motivo simples: ganhei um intercambista de estimação. Minhas únicas funções de Representante que permaneceram eram as de: presenças nas reuniões e as rondas noturnas três dias da semana. Dessa forma, a reunião deu-se por encerrada.
Como combinado, foi para Bibicom encontrar com James no período da tarde antes da próxima aula. O localizei no Piso térreo da biblioteca, onde tinham vários sofás e tapetes para os alunos se acomodarem, alguns até dormiam ali (parecia com o Centrinho do Aloja).
James estava sentado no chão com Lina. Definitivamente foi uma imagem estranha, uma dupla fora do comum. Ver James de pernas cruzada e usando um colar colorido de sementes, que minha namorada vivia fazendo nas horas vagas, me causava uma sensação muito estranha no peito. Me aproximei deles um pouco desconfiado, acho que ciúmes não era um sentimento fácil de se abster.
James rabiscando um pergaminho com uma pena e entregou a Lina. Ela por sua vez colocou uma folha branca por cima dos escritos, eu estava perto o suficiente para vislumbrar o momento em que palavras começaram a brotar magicamente na folha.
ꟷ Oi, Luca. ꟷ Lina sorriu assim que me viu e se pôs de pé para me dar um selinho. ꟷ Olha, achamos um jeito de conversar.
Ela me mostrou a folha onde estava escrito:
Minha família também é muito grande. Tenho cinco tios e um monte de primos, mas não moramos todos juntos.
ꟷ Ah legal! ꟷ Tentei soar animado e sentei ao lado de James me jogando no chão. ꟷ Estão falando de família?
ꟷ Uhum, James disse que quase todo mundo na família tem o cabelo dessa cor de veado do pantanal. ꟷ Lina apontou para o cabelo dele.
ꟷ Quê? ꟷ eu gargalhei com a comparação.
ꟷ Eles são fofos. Aceitaria como símbolo da minha família, até lembram o patrono do meu pai. ꟷ James disse me mostrando a foto dos veadinhos com pelagem alaranjada no livro de Estudos Comparados da Vida, que pertencia a Lina.
ꟷ Já pensou que bicho simbolizaria sua família? ꟷ Lina me perguntou animada.
ꟷ A minha? Não sei… ꟷ pensei um pouco lembrando dos meus parentes.
Lembrei do jeito devagar do meu pai, de como minha irmã mais velha costumava ser calma, do meu irmão balançando na rede sempre que íamos para a chácara da vó e da própria vovó cavucando a horta no quintal tranquilamente.
ꟷ Uma preguiça talvez. ꟷ brinquei esperando que a garota, para quem já descrevi cada membro familiar, entende-se a escolha desse animal.
Lina riu, obviamente captando a piada, mas me repreendeu com um olhar. Ela sempre me dizia para não chamá-los de preguiçosos e que tranquilidade era uma dádiva. Eu mesmo, devo admitir, era muito calmo como todos meus parentes.
ꟷ Que animal é esse? ꟷ James perguntou.
Lina pegou o livro das mão dele e folheou até achar uma preguicinha agarrada em uma árvore. James fez uma careta para o bicho.
ꟷ Você não é feio assim. ꟷ ele me deu um sorriso amigável.
Se foi um elogio, eu não sei. Mas fiquei sem graça sem saber como responder. Pensei em possibilidades a serem ditas, entre elas: "e você não parece um veado". Mas desconsiderei sabendo que ele não entenderia o duplo sentido da frase mesmo. Sem contar que poderia ser um comentário muito desnecessário que só teria graça com meus amigos mais íntimos.
ꟷ Preguiças não são feias, seu intolerante. ꟷ finalmente pensei em algo. Fingi aborrecimento ao dizer e ganhei outro sorriso dele.
Assim, ficamos o resto do intervalo, na biblioteca, com Lina falando sem parar dos bichos em seu livro.
Fale com o autor