Depois de deixar James no Aloja, peguei minha mochila no quarto e parti de volta para o Prédio Principal. Fui para o quarto andar, onde ficava o Auditório e aconteceria a Reunião do Conselho. Todos os Representantes tinham que participar, para que o corpo estudantil tivesse voz e também para sermos instruídos em nossas funções. Parece bonito, mas pensa num treco chato.

Entrei na sala e sentei no fundo. Os professores sempre tomavam os lugares da frente e conduziam as pautas. Começaram as discussões sobre a grade curricular, seguiu-se com os pedidos de aberturas de vagas nas matérias para alunos repetentes e terminou com dois professores tretando sobre a permanência da Pisadeira na escola. O quebra pau entre docentes era comum nas reuniões.

Só para informar, a Pisadeira é um fantasma (quase um demônio do caralho) que ronda os corredores e o campus do Castelinho durante a noite. Sua função é vigiar e dar cagaço em aluno desobediente, porque ela corre atrás de quem tentar perambular fora do Aloja durante a madrugada e pisa neles. Sério! Literalmente ela pisa neles.

Geralmente ela é bem assustadora para os alunos mais novos, enquanto, os mais velhos aprendem a driblá-la cedo ou tarde.

ꟷ Essa coisa traumatiza as crianças! ꟷ dizia alto a professora Núria.

ꟷ Que nada! Semana passada dois alunos foram pegos em uma sala de aula fazendo vocês sabem o que. ꟷ rebatia o professor Marcelo.

ꟷ Então ela não está resolvendo e ainda é ruim para os alunos menores. ꟷ Núria insistia.

ꟷ Mas a Pisadeira é uma tradição, isso tem que ser muito bem analisado… ꟷ outro professor intervinha.

Bla, bla, bla... Eu não tinha opinião sobre nossa querida assombração. Na verdade, eu gostava mesmo era de ver um professor levantando a voz com outro. Afinal, era por isso que valia exercer a função de representar, fora que seria registrado no meu histórico escolar, é claro.

Saí da reunião às 13h30min, corri para o refeitório e almocei. Depois corri para a biblioteca. Cheguei ao Piso 2 um tanto ofegante. James estava lá, sentado em uma mesinha e parecendo bastante deslocado.

ꟷ Está atrasado. ꟷ ele falou quando me aproximei.

ꟷ Não estou. ꟷ chequei o relógio na parede.

Eram 14h15min. Quinze minutos não era nada. Até parecia que ele estava afim de implicar comigo.

ꟷ Então. Que tal começar por expressões do dia-a-dia? ꟷ sugeri. Poderia ser uma boa ideia já que foi assim que aprendi inglês.

ꟷ Pode ser.

Fiquei olhando para dele e ele esperando que eu começasse. Tava na cara que não ia dar certo, eu não era muito bom em ensinar os outros. E junta que eu nem sentia vontade de ajudá-lo. Ficava difícil.

ꟷ Melhor ver se achamos um livro. ꟷ tive a brilhante ideia. Levantei e desci até a recepção.

Debrucei no balcão e a bibliotecária me olhou por cima dos óculos.

ꟷ Boa tarde, Dona Quita. Tem algum livro de expressões em português? ꟷ dei meu melhor sorriso.

Normalmente os funcionários da escola não gostavam de ser incomodados por alunos, mesmo sendo a função deles nos atenderem. Mas aprendi com os anos que um pouco de carisma sempre os deixavam mais receptivos.

ꟷ Vamos ver. ꟷ ela pegou um dos guias que ficavam embaixo do balcão e abriu para procurar. ꟷ Temos: Expressões Nordestinas. Gírias Paulistas. Vocábulos do Mundo Trouxa. O Portunhol: uma forma de comunicação. ꟷ Dona Quita foi me dizendo as opções, esperando que eu dissesse qual queria.

ꟷ Não. Tinha que ser algo mais...pra aprender português. Para Iniciantes.

Ela torceu o nariz para mim, mas voltou a procurar.

ꟷ Temos: Dicionário espanhol/português...

ꟷ E do inglês?

ꟷ Hum... Aprenda Inglês. Volume 1?

ꟷ Tá, olha só. Esse é o James, ele é aluno de intercâmbio, veio da Europa e precisa de aprender a nossa língua. Tem algum livro que possa ajudá-lo? ꟷ resolvi explicar de uma vez a situação.

Dona Quita suspirou e folheou seu grande guia com todos os títulos dos livros da Bibicom.

ꟷ Learning Portuguese: conversation and grammar. É o único livro nesse sentido. Temos um exemplar. ꟷ ela falou com sua voz fanhosa e me olhou por cima dos óculos enrugando a boca.

ꟷ Parece perfeito. ꟷ sorri para ela.

A mulher acenou a varinha e o livro veio voando do Piso 5 direto para suas mãos. Ela abriu, deu uma folheada para verificar se era o livro certo e me entregou.

Voltei com James para o Piso 2. Abri o livro velho, fedia poeira e era encantado para ensinar as pronunciar das palavras. Dessa forma, o livro falava. A voz dele tinha um sotaque carioca bem marcado, o timbre me lembrava o do Chico Buarque. Fiquei contente que não teria que perder muito tempo tentando ensinar James, o livro faria por mim.

Sentamos em uma mesa e dei o livro em suas mãos. James o abriu, espirrou com o cheiro velho e eu decidi ficar por perto caso ele tivesse dúvidas. Era o máximo que eu faria. Peguei meus materiais na bolsa e comecei estudar.

ꟷ Olá! Como vai você? ꟷ a voz do Chico saltava do livro.

James repetia tudo que ouvia várias vezes, até conseguir uma pronúncia que julgava perfeita.

ꟷ Estou dizendo certo? ꟷ ele me perguntava de vez em quando.

ꟷ Sim.

O livro tinha esse tópico de cumprimentos e despedidas bem longo. Estava cheio de frases, um tanto formais, para serem ditas nessas situações. Logo eu me concentrei nas minhas anotações de Herbologia sobre Damianina e esqueci de James. Essa planta até que eu gostava, o líquido interno de suas raízes subterrâneas eram usado para fazer poções que agiam no cérebro.

De repente me dispersei um pouco dos estudos e escutei a voz de James. Não me aguentei de rir quando ele disse:

ꟷ Até maix! ꟷ chiou exatamente como o livro falava. ꟷ Falei errado? ꟷ ele questionou me vendo rir.

ꟷ Não, só...esse livro é engraçado. ꟷ controlei minha risada.

ꟷ Herbologia? ꟷ ele me perguntou espiando as figuras de plantas do meu livro.

ꟷ Sim.

ꟷ Eu gosto de Herbologia, mas meu assunto favorito é História da Magia.

ꟷ Sério? O meu também. ꟷ falei surpreso. Era difícil conhecer alguém que gostava do assunto.

ꟷ É incrível, não é? Todas as coisas que já aconteceram ao redor do mundo. ꟷ ele disse distante com um sorriso no rosto.

ꟷ Sim, e como eles influenciaram em nossas vidas hoje. ꟷ eu disse assumindo um ar meio empolgado.

ꟷ Geralmente as pessoas não entende isso. Em Hogwarts meus amigos detestam História, claro que nosso professor não ajuda, mas eles não entendem porque eu gosto. ꟷ James juntou as sobrancelhas ao me dizer como ele era incompreendido.

ꟷ Sei bem como é.

Finalmente achei algo em comum com James. Até comecei considerar que ele poderia ser legal, só por esse fato. Nenhum dos meus amigos gostavam de História. Por esse motivo, todos fugiram da matéria naquele ano quando ela se tornava optativa no currículo escolar. Menos eu, que estava ansioso para as aulas da professora Welvicha regressarem após o recesso. Eu ia comentar mais com James sobre a disciplina, mas fui interrompido pela chegada de uma pessoa.

ꟷ Oi! ꟷ escutei a voz de Lina. Me virei para encontrá-la parada atrás de mim. ꟷ Estive te procurando o dia todo.

ꟷ Eu tive reunião do Conselho mais cedo. Esqueci de avisar que vinha para cá depois, desculpe. ꟷ me justifiquei.

ꟷ Não tem problema. Posso ficar com vocês? ꟷ ela perguntou já puxando a cadeira ao meu lado.

ꟷ Pode não. ꟷ respondi sorrindo.

Lina deu um tapinha na minha cabeça de brincadeira. James a encarava de uma forma estranha, eu não gostei disso.

ꟷ Então, estão se dando bem agora? ꟷ Lina me perguntou enquanto abria sua bolsa para tirar seus materiais.

James colocou o tradutor na orelha correndo ao ouvi-la falar.

ꟷ Desculpa, eu não entendi. ꟷ ele disse para Lina.

Eu suspirei angustiado, as coisas estavam indo bem até aquele momento.

ꟷ Tava. ꟷ respondi a pergunta dela.

Lina abriu seus cadernos de Herbologia para estudarmos juntos. Vale ressaltar que minha namorada era muito boa nessa matéria, o que me ajudava bastante todos os anos. James voltou para seu Learning Portuguese falante e ocasionalmente espiava Lina por cima dele. Ele podia pensar que era discreto, mas eu via tudo.

ꟷ Bonito onça. ꟷ James disse de repente em português

ꟷ O que? ꟷ eu perguntei. Estranhei as palavras que vinham dele, pois não soavam natural e tão pouco faziam sentido.

ꟷ O colar. Como posso dizer? ꟷ ele me pediu ajuda.

Ele apontou para o pingente de Lina. Era uma peça feita em madeira no formato de duas jaguatirica se abraçando, um presente dos pais dela.

ꟷ Pingente ꟷ respondi sem esconder minha careta de desaprovação.

ꟷ Pin-gen-te. Assim? ꟷ ele repetiu.

ꟷ Aham. ꟷ confirmei a contragosto.

ꟷ Bonitou pindiente...del onça. ꟷ James voltou-se para ela sorrindo.

Eu ri maldoso, sem dó, de como as palavras se embolaram ao sair da boca dele. Fiquei satisfeito quando James ficou vermelho, quase se misturando aos cabelos. Quem dá em cima da namorada dos outros assim? Fiquei indignado com a audácia dele. Entretanto, ganhei um chute de Lina por baixo da mesa pela minha atitude.

ꟷ Obrigada! Está aprendendo rápido. ꟷ ela disse a ele.

Mentirosa! Revirei os olhos.

ꟷ Eu posso ver? ꟷ James pediu. Vidrado no acessório.

ꟷ O que ele disse? ꟷ ela me perguntou.

ꟷ Ele pediu para ver seu pingente. ꟷ falei tentando não deixar transparecer meu incômodo com a situação.

ꟷ Ah, claro.

Lina era muito simpática com qualquer pessoa. Ela tirou o colar do pescoço e entregou a ele. James pegou e analisou o objeto com devoção. Era até engraçado a cara que ele fazia.

ꟷ Na verdade são jaguatiricas, elas são o símbolo da minha tribo. ꟷ ela disse ꟷ Todos temos um desse pingente, ele deve ser um presente dos pais para simbolizar o amor da família.

ꟷ Qual tribo? ꟷ ele perguntou.

ꟷ Qual a minha tribo?

Eu ia traduzir, mas Lina tinha entendido.

ꟷ Sim.

ꟷ Kapauiko. Fica na margem do Rio Negro.

ꟷ Uow! Isso é incrível. Ouvi dizer tanta coisas dos bruxos nativos americanos. ꟷ James falou para mim e devolveu o colar para Lina. ꟷ É verdade que todos são animagos?

Eu não sabia muito bem como reagir a interação deles. Porque eu sentia um leve ciúmes, mas não tinha nada de errado na curiosidade dele. Decidi traduzir a pergunta para Lina que sorriu achando graça.

ꟷ Sim e não. Depende do povo, em algumas culturas a forma animal de um bruxo é a mais pura que pode existir, então... ꟷ ela explicou como funcionava a transfiguração em bichos na visão de vários povos. James escutou tudo atento.

Ele fez intermináveis perguntas para Lina sobre a cultura do povo dela, estilo de vida, a magia e tudo que se pode imaginar. Eu fui a ponte entre a comunicação deles. Meu ciúmes inicial passou quando reparei que James estava mais interessado nos Kapauiko do que em Lina em si. Isso me deixou aliviado e um pouco envergonhado por ter rido quando ele tentou elogiar o colar dela. Era estranho da minha parte, pois eu não costumava ser ciumento com a minha namorada. Acontece que aquele garoto parecia me deixar um pouco fora da linha e então eu me pegava tendo reações que normalmente não teria.

Notas finais
Esperamos que tenham gostado. Continuem comentando. :) Apenas para deixar claro e evitar confusões: Kapauiko não existem,ok. Esse povo seria como os bruxos nativos do país e por isso vivem em aldeias escondidas com magia em todo o território.