English Boy
18 Capítulo 18
Era um dia muito quente, como sempre. Eu e James estávamos na aula de Artefatos sentados lado a lado no balcão. A professora Yolanda estava diante dos alunos e, com seu forte sotaque sulista, dava a aula sobre restauração de artefatos mágicos.
ꟷ ...No caso de objetos enfeitiçados a restauração envolve muito mais do que a aparência dele. Um simples feitiço de limpeza é capaz de tirar a sujeira ou se estiver quebrado algo como Reparo funciona muito bem…
Eu estava com meu rosto apoiado nas mãos, tentando prestar atenção, enquanto James ao meu lado balança freneticamente a perna, uma mania dele. Não era uma aula ruim, pelo contrário, soava muito interessante, mas eu tinha dificuldade de me concentrar em extensos monólogos. E Yolanda continuava:
ꟷ ...Vocês já devem ter aprendido nas aulas de Feitiço que a magia tem uma vida útil. Sim?...bom, alguns feitiços possuem duração instantânea e logo desaparece, outros são feitos para durar por mais tempo e podem ser retirados a qualquer momento. No entanto, quando se trata de artefatos mágicos como um lembrol, uma luneta, bolas de cristais, um quadro ou uma escultura que seja, nós os enfeitiçamos para durar o máximo possível. Escolhemos feitiços de longa duração, os quais a meia-vida pode levar século. Vocês entendem o que estou falando, já viram isso em Feitiço? Sim?... Então vamos recordar rapidamente.
Ela foi até o quadro, pegou um giz e desenhou um gráfico com uma curva de decaimento exponencial. Ela apontou os elementos no gráfico enquanto explicava:
ꟷ Neste eixo temos o tempo e nesse aqui eficiência mágica de um feitiço. A curva é a duração do feitiço. Suponhamos que esse é um feitiço de Sorte colocado em um amuleto, por exemplo. Vemos aqui a eficiência do feitiço em 100%, no instante que ele foi feito, e com o passar dos anos essa eficiência cai até atingir 50%, isso pode levar séculos ou até milênios. Notem que isso é uma assíntota ou seja essa curva nunca vai chegar a zero e tende ao infinito. Dessa forma, a magia nunca vai desaparecer, mas chega um momento que ela se torna vestigial e pouco funcional, quando um artefato possui uma função nesse ponto ele se torna praticamente inútil. ꟷ ela apontou a parte da curva que representava quase zero.
ꟷ Pode ser que alguns de vocês trabalhem com antiguidades no futuro. E quando falamos de antiguidades nós queremos conservá-las com perfeição e não descartá-las. Ou, mesmo os que não seguirão essa profissão, podem um dia se deparar com a situação de precisar restaurar uma fotografia ou um artefato de família. Então nessa aula vocês aprenderão como é feito esse processo. Como restaurar um feitiço e reiniciar seu tempo de duração.
Yolanda foi até uma cerâmica que estava sobre o balcão mais próximo e apontou para ela.
ꟷ Primeiro, é necessário que o mesmo feitiço seja refeito ou, pelo menos, algo muito próximo disso. Imagino que vocês já aprenderam técnicas de identificação de feitiço, Sim?... Ótimo! Portanto, aqui temos algumas cerâmicas da época colonial e grande parte delas possuem feitiços de aura decorativa. Cada um de vocês irá receber uma, farão a limpeza externa das peças e irão investigar qual o feitiço original de cada uma. Antes de executarem a restauração me chamem para eu verificar se estão fazendo a escolha certa. Além disso, vale lembrar que muitos feitiços antigos caíram em desuso com o passar do tempo. Logo, os feitiços que aprenderam hoje na escola podem não ser os mesmo que foram utilizados anos atrás. Então, eu trouxe alguns livros de feitiços antigos para vocês consultarem. Qualquer dúvida me chamem e podem começar.
Com isso a professora encerrou a explicação. Minha peça de cerâmica parecia uma espécie de tigela. Por baixo da poeira que se depositou por anos e impregnou no objeto dava para ver sombreados de uma pintura azul e vermelha, além disso havia lascas perdidas por toda a circunferência do objeto. Com as mão cobertas por luvas, peguei a tigela e aproximei do meu rosto, dava para sentir uma leve aura que lembrava um sentimento de elegância. A partir disso, mesmo antes de fazer a identificação do feitiço, eu conseguia ter uma hipótese do tipo de feitiço que poderia ser.
Recoloquei a peça na mesa com cuidado e senti dois pares de olhos presos em mim. Virei a cabeça e James me encarava, fiquei um pouco sem graça quando nossos olhares se cruzaram.
ꟷ O quê? ꟷ perguntei casualmente.
ꟷ O que estava fazendo? ꟷ James perguntou dando um sorriso. Ele olhava entre a cerâmica e eu, logo percebi, ele ria do que eu tinha feito.
ꟷ Só estava olhando mais de perto. ꟷ dei de ombros, sentindo uma leve vergonha da situação.
ꟷ Ah, sim! ꟷ ele não disse mais nada e eu agradeci por isso.
Começamos a trabalhar na nossa tarefa em silêncio. Não achei difícil fazer a identificação do feitiço, logo eu já estava buscando em um dos livros velhos quais os feitiços antigos de elegância. Quando encontrei o feitiço mais provável chamei Yolanda e perguntei se estava correto. A professora baixinha de cabelos brancos e pele muito clara se curvou ao meu lado lendo a parte do livro que apontei com o dedo. Ela pegou a própria varinha, apontou para a minha cerâmica e iniciou algumas verificações, após alguns segundos ela apagou as luzes azuis que saiam da varinha e virou-se para mim.
ꟷ Está correto, Lucas. Pode executar a restauração.
Com essa aprovação, me concentrei para iniciar o feitiço. Provavelmente, essa era a parte mais difícil porque, sim, ele era bem antigo e tive medo de fazê-lo errado. Comecei com calma a execução, pronunciei as palavras e luzes saiu da minha varinha envolvendo a cerâmica.
ꟷ Está conseguindo, James? ꟷ escutei a professora, atrás de mim, falar com o garoto ao meu lado na língua dele.
ꟷ Sim, senhora. ꟷ ele respondeu com seu tom polido.
De repente eu estava quase entrando em uma reflexão de como os professores estão sempre em cima de James, perguntando se ele estava bem...Enfim, joguei longe os pensamentos e ignorei a conversa dos dois para me concentrar no que estava fazendo sem errar.
ꟷ Terminei. ꟷ falei virando na direção da professora que ainda conversava com James. ꟷ Está certo?
Ela veio e usou novamente a varinha para verificar.
ꟷ Sim. ꟷ com um sorrisinho esboçado, ela bateu de leve no meu ombro ꟷ Está perfeito, Lucas. Só termine de restaurar o objeto com feitiços de reparo e limpeza. Depois você se importa de ajudar o James?
ꟷ Ajudo. ꟷ respondi e com isso Yolanda foi atender outros alunos de braços erguidos.
Deixei minha tigela brilhando como nova, mal parecia que aquela coisa era mais velha que eu e meus avós juntos. Então puxei meu banco para mais perto de James e perguntei onde ele havia parado. Comecei a ajudá-lo a encontrar seu feitiço que parecia ser uma aura de conforto, quando ele disse do nada:
ꟷ Hey! Coira te mandou obrigada.
ꟷ Como assim? Coira? Eu? ꟷ perguntei completamente perdido na situação.
ꟷ Ela gostou muito do lobo guará, aquele brinquedo da feira, e eu escrevi a ela que foi ideia sua.
ꟷ Ah... ꟷ eu não soube responder.
Novamente me ocorreu que ele escrevia sobre mim para as pessoas. No entanto, o sentimento de Coira saber da minha existência não me causava ondas tão positivas quanto saber que os irmãos de James sabiam...eu não conseguia definir o que sentia e James parecia bem alegre, então decidi apenas ignorar qualquer reflexão.
ꟷ Ela está respondendo suas cartas? ꟷ me lembrei que da ultima vez que ele falou dela, eles estavam aparentemente brigados.
ꟷ Está. ꟷ James sorriu ꟷ Parece que estamos bem agora.
ꟷ Isso é ótimo. ꟷ sorri com sinceridade, pois era agradável vê-lo feliz.
ꟷ É sim, eu gosto dela. ꟷ James disse e eu acenei em compreensão ꟷ Quando pensei que nosso relacionamento terminaria por causa dessa... confusão, fiquei muito mal.
ꟷ Seus pais ainda estão bravos com você? ꟷ continuei mantendo a conversa enquanto folheava o livro em busca de algum feitiço que descrevesse o que James identificou.
ꟷ Não, ninguém mais está irritado com isso. ꟷ ele falou transparecendo estar aliviado.
ꟷ Isso é bom. ꟷ aprovei contente ꟷ Eu nunca me imaginaria tendo uma criança agora, mal consigo cuidar de mim. ꟷ comentei disfarçando um arrepio que me ocorreu com o pensamento.
ꟷ Eu também, mas... ꟷ James deu um sorriso nervoso deixando a frase em aberto.
Percebi que ele deveria ser tão despreparado quanto eu. Me repreendi por fazer um comentário assim, não é como se eles tivessem escolhido ter uma criança
ꟷ Você vai se sair bem. ꟷ e dei uma batidinha motivacional no ombro dele.
ꟷ Assim espero. ꟷ James disse ꟷ A propósito, é menino. ꟷ ele deu a notícia animado.
Nossa! Eu sentia que aquela conversa estava além da minha maturidade. Eu não sabia o que sentir sobre uma criança e tão pouco imaginar James sendo pai. Dessa forma, eu me sentia num episódio de novela e tudo parecia ficção. Talvez se eu visse a garota grávida bem na minha frente seria mais fácil entender a realidade, mas eu tinha que me contentar com a imaginação dessa cena sempre que James a trazia à tona.
O complicado é que a minha falta de percepção sobre a situação me fazia ser indiferente a ela. E eu não queria parecer indiferente com um James sorridente ao meu lado contando sobre o sexo masculino da criança. Por isso me forcei a reagir e falei:
ꟷ Legal! Quando nasce?
ꟷ Setembro. ꟷ falou em português e sorriu.
ꟷ Já? ꟷ perguntei espantado.
Parecia que foi a pouco tempo que nos encontramos no Viveiro de Aves e James me contou o seu "problema". Afinal, estávamos a quatro meses de Setembro.
ꟷ Sim, o ruim é que não vou conseguir estar lá quando o bebê nascer.
Reparei que essa foi a primeira vez que ele usou a palavra "baby" e não estava incomodado com isso.
ꟷ Poxa! ꟷ lamentei, mostrando que entendia que era ruim.
ꟷ Poxa? ꟷ ele repetiu e sorriu para a expressão ꟷ Gostei dessa.
***
No final da tarde eu e James fomos juntos para o Centrinho. O lugar estava quase vazio, por isso foi fácil avistar Tião deitado em um pufe bem ao fundo. Meu amigo tinha ficado quase duas semanas internado por intoxicação depois dos últimos episódios com seu vício em poções. Segundo o que ele mesmo nos contou, os medibruxos disseram que seu corpo não aguentou tanta magia na circulação e ele estava entrando em um quadro de overdose. Eu e Danilo ficamos muito irritados com ele por ter feito algo tão irresponsável, mas Tião apenas resmungou nos ignorando. Após isso, pedi a James que ficasse de olho nele caso começasse a se entupir de poções de novo, mas não foi tão preciso, já que a direção da escola recolheu todas as poções que Tião tinha e passou a ficar no pé dele.
Me aproximei do garoto dormindo no puffe e agachei ao lado dele. James permaneceu em pé ao meu lado.
ꟷ Tudo bem? ꟷ cutuquei Tião para acordá-lo
ꟷ Não amola. ꟷ Ele resmungou sem abrir os olhos e virou para o lado oposto.
ꟷ Você foi na aula de Aritmancia hoje de manhã? ꟷ perguntei, já suspeitando que ele tinha faltado nas aulas.
ꟷ Mas que caralho, Lucas! ꟷ Tião brandiu se levantando ꟷ Me deixa em paz! ꟷ assim, ele andou batendo os pés para saída do Aloja.
ꟷ Vish! ꟷ escutei James dizer.
Apenas suspirei meio triste e me levantei. Eu e James subimos para o sétimo andar e seguimos para nossos respectivos quartos. Logo que abri a porta joguei a mochila perto da minha cama e peguei uma toalha e uma troca de roupa para tomar um banho.
O alojamento estava um silêncio maravilhoso, uma vez que praticamente todo mundo não havia terminado suas obrigações ainda. Segui para o banheiro e suspirei com a sensação boa de, ao menos uma vez no ano, encontrá-lo deserto. Na entrada do banheiro ficavam as pias, no fundo ficavam os chuveiros de ambos os lados da parede e entre as cabines de chuveiros havia um balcãozinho estreito e comprido.
Deixei minhas coisas no balcão e comecei a despir meu uniforme. Estava passando a blusa pela cabeça quando escutei alguém entrar no banheiro. Automaticamente olhei para encontrar quem era e vi James parado perto das pias me encarando.
ꟷ O que foi? ꟷ procurei algo de anormal no meu corpo que justificasse o jeito que ele estava me olhando.
ꟷ Nada. ꟷ James abanou a mão e veio até o balcão, ficando do lado oposto a mim, e colocou sua toalha sobre ele. Ele pigarreou e disse bem baixo: ꟷ Sua pele tem uma cor legal.
Eu o encarei, mas James estava de costas, apoiado no balcão e desamarrando seu sapato. Processei o que ele disse, tentando entender se poderia ser algum tipo de ofensa. Quando James endireitou o corpo, virou e ergueu a cabeça na minha direção, ele paralisou com a mão na barra da sua própria camiseta, pronto para tirá-la, ao encontrar o meu olhar fixo nele.
ꟷ O quê? ꟷ perguntou em um português que soou quase fluente.
ꟷ Cor legal? ꟷ deixei transparecer um tom levemente ofendido.
ꟷ Ah, eu só quis dizer que é...diferente. ꟷ ele coçou a cabeça ficando sem graça.
ꟷ Diferente?! ꟷ arqueei uma sobrancelha e acentuei a palavra.
ꟷ Não isso...tem muita gente da sua cor aqui, eu quis dizer… ꟷ James começou a gaguejar e parecia desesperado para conseguir achar uma forma de expressar o que deveria estar pensando.
ꟷ Da minha cor? ꟷ admito, nesse ponto eu estava me divertindo com o nervosismo dele, mas continuei fingindo estar ofendido.
ꟷ Eu quis dizer diferente de mim, bronzeado e não tão branco. ꟷ James falou tão rápido que quase não entendi seu inglês. ꟷ É bonito. ꟷ a última parte foi um sussurro constrangido.
Não deixei de reparar que ele usou a palavra "pretty", que aprendi como um termo associado à figura feminina. Não que eu tenha ficado ofendido, apenas achei curioso.
ꟷ Oh! ꟷ disse realmente surpreso, enquanto James estava mais vermelho que um pimentão. ꟷ Obrigado! ꟷ agradeci meio sem jeito.
Se fosse pensar numa escala de fisionomia e cor, eu era mais branco do que negro, mas também não era branco como Danilo e James. Meus pais brincavam que eu era "leite com café", pois era a mistura da cor branquinha da minha mãe com o negro do meu pai. Só que, além da minha mãe, ninguém nunca me disse que essa característica em mim fosse bonita. Por isso meu ar de surpresa deveria ser tão perceptível.
ꟷ Ninguém nunca me disse isso. ꟷ murmurei rindo, ainda sem jeito.
James simplesmente ignorou o meu comentário e puxou a camisa para cima. Eu já tinha visto ele sem camisa antes, mas nunca tinha reparado a constelação de sardas que ele possuía pelo torso inteiro.
ꟷ Suas pintinhas também são bonitas. ꟷ falei por impulso na necessidade de devolver o elogio dele.
Reparei que ele ficou ainda mais vermelho, o tingimento descendo pelo pescoço, e percebi que se a situação estava tensa, eu a deixei pior. Mas então, sem aviso, James mudou sua expressão parecendo mais descontraído e sorriu balançando a cabeça.
ꟷ Se você diz. ꟷ com isso ele tirou o tradutor, colocando-o junto com a capa.
Para sorte de ambos um grupo de garotos entrou no banheiro quebrando todo o clima de constrangimento que pairava sobre nós. Aproveitei essa quebra para me mover, assim, desabotoei minha calça e a tirei para rapidamente entrar no chuveiro.
Depois de fechar a porta, tirei a última peça de roupa que estava no meu corpo, entrei em baixo d’água e por alguns segundo nada passou na minha cabeça. Então de repente uma frase ecoou repetitivamente:
"O que foi isso?" meu cérebro gritava para mim e eu não sabia responder.
Fiquei um bom tempo processando nosso constrangedor diálogo e o jeito como ele tinha me olhado. As cenas repetiam constantemente até que, com um suspiro, concluí que não era nada fora do normal, porque James sentia atração por garotos...então...enfim!
Veja bem, às vezes Tião me olhava daquela maneira, principalmente se eu estivesse me trocando… apesar de quando se trata de Tião não me incomoda, mas James… não que eu estava incomodado… quer dizer... não significa nada, eu quem tava pesando de mais!
"James tem namorada e mais cedo ele me disse que estava feliz por estarem bem novamente." falei para mim mesmo. "Ele não tem atração por…"
Com esse pensamento inconcluso senti o ar me faltar. "Que absurdo! Não foi nada de mais!". Assim repeti essa parte final várias vezes na minha cabeça até me convencer e esquecer qualquer outra teoria sobre a situação.
***
Após meu banho e com as roupas limpas vestidas, reparei que os pertences de James ainda estavam sobre o balcão indicando que ele não havia terminado. Ao pensar nele, o momento estranho acontecido a poucos instantes começaram a voltar, mas então os sufoquei e ignorei, fingindo que eu não tinha ficado paranoico sobre aquilo.
Sai do banheiro e encontrei Danilo no quarto super animado. Ultimamente eu sabia que a única coisa que deixava meu amigo assim era o quadribol.
ꟷ Hey! Cadê o James? ꟷ ele perguntou assim que me viu.
ꟷ Tomando banho.
Danilo se posicionou na porta do quarto esperando o outro garoto surgir no corredor e eu sentei na minha escrivaninha, pois precisava responder uma carta da minha irmã.
ꟷ Ou, James! ꟷ escutei Danilo gritar para o corredor ꟷ Vem aqui.
Peguei minha pena e comecei a escrever em um pedaço de pergaminho:
Lelezinha,
Por aqui está tudo bem, como vão as coisas em casa? E o pai?
Diga ao Leonardo que...
ꟷ Oi. ꟷ escutei a voz de James.
Parei de escrever e virei para olhar os dois garotos na porta do quarto conversando. Ao ver James com os cabelos molhados, meu cérebro tentou mais uma vez me lembrar dos acontecidos e novamente ignorei com grande sucesso.
ꟷ Nosso jogo foi marcado para sábado, Bruna mandou te avisar.
Suspirei e voltei para minha carta, era óbvio que Danilo falaria sobre quadribol.
ꟷ Ok. ꟷ escutei James responder e dessa vez não virei para olhá-los.
Pela minha visão periférica percebi que Danilo passou por mim e depois escutei o som do colchão reclamar ao ter uma pessoa se jogando nele. Pelo canto do olho, vi que James ainda estava escorado no batente da porta.
ꟷ Nesse jogo você vai, Lucas? ꟷ James me perguntou.
ꟷ Desiste, mano. Ele não assiste um jogo de quadribol nem a pauladas. ꟷ Danilo disse de sua cama com tom divertido e ao mesmo tempo amargo.
ꟷ Por quê? ꟷ James me perguntou chegando perto da minha mesa.
ꟷ Acho chato. ꟷ dei de ombros.
ꟷ Mas não vai ser chato comigo jogando. ꟷ eu não o olhei, mas tinha certeza que James sustentava um de seus sorrisos presunçosos.
Por alguns instantes eu não soube interpretar o que sua frase significava. Ele estava realmente insinuando que eu gostaria de um jogo apenas porque iria vê-lo?
ꟷ Pode pá, James é o melhor apanhador que o Mirim já teve. ꟷ por fim Danilo intrometeu na conversa.
Ah claro! não vai ser chato assistir, porque ele é bom. Conclui, corrigindo meus pensamentos anteriores.
ꟷ Pois é... não, obrigado! ꟷ falei e voltei a escrever.
James se inclinou na minha mesa entrando no meu campo de visão e me impedindo de ver a carta. Com a proximidade dele, eu afastei na cadeira até o encosto e abandonei a pena no tinteiro antes que riscasse meu papel sem querer.
ꟷ Vai ser às 15h. ꟷ disse sorrindo arrogante.
ꟷ Eu não vou. ꟷ rebati com firmeza.
ꟷ Ah! Tenho certeza que vai. ꟷ James se endireitou saindo de cima da minha carta.
Eu fiquei sem resposta para insistência infantil dele. Com um último sorriso confiante ele saiu do nosso quarto.
ꟷ Dá pra acreditar? ꟷ me virei para meu amigo, indignado.
Danilo sorriu e me deu um olhar incomum.
ꟷ O quê? ꟷ perguntei.
ꟷ Nada, não. ꟷ ele disse pegando sua toalha junto com suas roupas limpas e saiu do quarto.
Eu não entendi foi nada. Com isso balancei a cabeça e voltei a me concentrar no queria escrever:
Lelezinha,
Por aqui está tudo bem. Como vão as coisas em casa? E o pai?
Diga ao Leonardo que vou sentar a porrada nele quando chegar em casa se ele pegar o meu celular de novo. Só porque não posso usá-lo aqui que ele pode apossar das minhas coisas. E diga à vovó que eu estou comendo direitinho.
Fico feliz por você estar tirando notas boas na escola, se continuar assim vai passar na faculdade igual a Luana. E falando nela, sabe se nessas férias ela vai passar em casa? Bem que podíamos brincar na cachoeira, nós quatro, como fazíamos antigamente.
Lina fez essa pulseira para você (estou enviando no envelope). Ela disse que tem o poder de ajudar pessoas inteligentes a aprenderem mais rápido, além de ser muito bonita. A propósito falei com Lina essa semana sobre ela nos visitar nas férias. Sei que está animada para conhecê-la, mas infelizmente o pai de Lina é muito rigoroso com as tradições da tribo, então é difícil ele deixar-la ir ao "nosso mundo". Em todo caso Lina prometeu que irá conversar com ele.
Desculpe a demora para responder, estive muito ocupado com as aulas.
Eu te amo!
Lucas.
Ps: Fale pro pai, esse véi teimoso, para continuar fazendo os alongamentos que o médico mandou.
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