English Boy
16 Capítulo 16
Danilo ficava enfiado dentro do quarto a maior parte do tempo. Nessa altura do campeonato todos sabiam que ele e Iara estavam brigados. Exatamente por isso, Danilo não estava comigo, Tião, James e Lina no Centrinho numa tarde de domingo. Os dois garotos, e colegas de quarto, jogavam snap explosivo enquanto eu os observava e Lina trançava pulseiras com sementes de açaí.
Eu estava muito entediado, pois domingo era sempre monótono, por isso eu chamava de "dormingo" de tanto sono que eu sentia. Passei meu braço ao redor dos ombros de Lina e encostei meu rosto no topo da cabeça dela sentindo seu cheiro de relva molhada. Dei um beijinho de leve alí e comecei a descer até chegar na ponta da orelha. Fiz um carinho suave nos braços dela e Lina estremeceu me fazendo sorrir. Ela ajeitou o corpo para me olhar, mas sem sair dos meus braços.
ꟷ O que está fazendo? ꟷdisse com uma desconfiança forçada.
ꟷ Te beijando. ꟷ respondi com simplicidade.
ꟷ Por quê? ꟷ ela cruzou os braços ainda fazendo seu teatro.
ꟷ Preciso de um motivo para isso? ꟷ perguntei achando estranho que eu precisasse me explicar.
Então, Lina abriu um sorriso carinhoso e se aconchegou mais em mim.
ꟷ Não. Só que você não costuma me beijar assim do nada. ꟷ ela explicou.
ꟷ Como assim do nada? ꟷ questionei confuso com a afirmação dela.
ꟷ Ah, sei lá. ꟷ Lina respondeu e voltou sua atenção para a pulseira.
Não conversamos mais por um tempo. O tédio não me abandonava e eu queria que Lina me desse atenção. Assim, puxei o rosto dela devagar e aproximei nossas bocas dando um beijo suave. Lina enrijeceu e colocou a mão no meu peito para me afastar e deu um olhar atento para Tião pelo canto do olho.
ꟷ Você quer subir? ꟷ sugeri para que tivéssemos privacidade.
ꟷ Danilo não está lá?
ꟷ Sim, podemos ficar no seu quarto.
Lina sorriu envergonhada e seu rosto ficou levemente magenta. Eu observei a reação dela e tentando entender juntei as sobrancelhas.
ꟷ O quê? ꟷ perguntei e segundos depois percebi o raciocínio que ela teve. ꟷ Hey! Eu não tava pensando nisso. Só quero te beijar e podemos ficar abraçados na cama. ꟷ me apressei em explicar sem querer que ela entendesse errado minha pergunta.
ꟷ Só? ꟷ Lina arqueou as sobrancelhas e eu não sabia dizer se ela parecia desconfiada ou surpresa.
ꟷ Sim. ꟷ afirmei com convicção, pois era verdade e em nenhum momento tive segundas intenções.
ꟷ Mesmo? ꟷ Lina afastou de mim para sentar corretamente e me olhar melhor.
Ela intensificou a expressão que estava em seu rosto e isso só me fez acenar com toda certeza.
ꟷ E se eu não quiser só isso? ꟷ por fim, aquela expressão desapareceu e foi substituído por um sorriso malicioso.
As palavras sumiram da minha mente, não passou pela minha cabeça que ela pudesse sugerir que fossemos além de beijos naquele dia. Não seria nossa primeira vez, não havia nada de novo nisso, mas eu sempre ficava nervoso com a situação. O desconforto se estampava na minha cara e na minha voz, de modo, que era impossível esconder quando eu respondi:
ꟷ ... Oh!...hum, tudo bem.
Lina me olhou atentamente me examinando até a alma. A cada dia esse olhar dela se tornava mais comum direcionado a minha pessoa.
ꟷ Você não quer. ꟷ ela não perguntou foi uma afirmação.
ꟷ Quero. ꟷ confirmei falhando em transmitir certeza.
ꟷ Luca... ꟷ Lina usou o seu tom de "não minta para mim".
Com isso, fiz carinho no rosto dela tocando suas bochechas e a puxei para um beijo tentando mostrar que estava certo do que queria.
ꟷ Oxi! Mas vocês tão pegando fogo, em? ꟷ Tião falou alto olhando para nós e provavelmente sendo ouvido por metade das pessoas no Centrinho.
Imediatamente Lina se afastou de mim com o rosto carmim.
ꟷ Eu vou subir. ꟷ ela me disse e beijou o meu rosto.
Lina era uma pessoa muito serena e calma. Por isso, não era fácil ler os seus sentimentos negativos, mas eu a conhecia o bastante para perceber que no fundo Lina estava muito magoada com Tião e, naquele dia, estava sem paciência para ele.
Quando ela pegou seu potinho de semente, levantou arrumando o vestido e saiu, eu senti um alívio por ela não me puxar junto. Por mais que afirmei que queria subir com ela para o quarto com "segundas intenções", era mentira, e acho que Lina sabia disso. No entanto, eu ainda queria passar o tempo com ela abraçando e conversando. Só que Tião tinha feito Lina ir embora de cara amarrada.
Acho que eu nunca tinha visto Lina tão irritada depois dos ocorridos com Catalina, mas dessa vez a culpa dela estar assim era de Tião e não de Marco. Por isso, encarei Tião em uma ameaça mortal, peguei uma almofada, ajoelhei no chão e bati nele várias vezes.
ꟷ Foi mal, Luca! ꟷ Tião falava tentando se defender com os braços ꟷ Arre, pare!
Ele ria sem remorso pelo que fez. As vezes eu me perguntava se um dia ele teria maturidade. Continuei batendo nele com a almofada, mas já chegou um ponto que não passava de brincadeira para ambos. James a nossa frente apenas ria da situação. Dei uma última almofadada na cabeça dele e disse:
ꟷ Imbecil!
ꟷ Eu não imaginei que ela ia sair correndo. Não foi minha intensão ser empacafoda. ꟷ Tião falou com um sorriso maldoso nem um pouco arrependido.
ꟷ Empaca quê? ꟷ James perguntou.
Assim que James perguntou eu fechei os olhos para respirar. Isso me deu vontade de acertar a almofada mais uma vez em Tião e foi o que fiz.
ꟷ Você sabe que ela não gosta dos seus escândalos. ꟷ adverti Tião em tom sério, mas ele ignorou e se virou para James como se responder a pergunta dele fosse mais importante.
ꟷ Empacafoda é quando alguém… ꟷ Tião começou a explicar para ele.
Eu vi os olhos de James se iluminarem com compreensão e divertimento. Logo os dois estavam rindo e esse foi o limite para mim. Me levantei com um “Me poupe.” e saí de perto deles.
Logo avistei Iara sozinha em um canto do Centrinho, lendo um livro, decidi ir na direção dela. Fazia um tempo que eu não falava com ela, porque eu estava sempre com Danilo e quando estava com ele, ela ficava longe.
ꟷ Oi! ꟷ cumprimentei considerando ser cauteloso, pois não sabia se ela gostaria de falar comigo.
Iara levantou o olhar do seu livro e sorriu ao me ver.
ꟷ Oi! Tudo bem? ꟷ ela devolveu o cumprimento e eu me senti aliviado.
ꟷ Sim, só Sebastião enchendo o saco como sempre. ꟷ falei com desprezo forçado e ela sorriu de novo.
Considerei seu sorriso como um aval para me sentar ao lado dela.
ꟷ O que ele fez? ꟷ Iara perguntou.
ꟷ Botou a Lina pra correr com aqueles comentários. ꟷ respondi e ela revirou os olhos.
ꟷ Tião não tem jeito. ꟷ Iara disse fechando o livro. ꟷ Ah! Eu finalizei o trabalho de Eco, está no meu quarto depois te entrego para vocês lerem.
ꟷ Que mania de fazer os treco sozinha. A gente deveria ter ajudado. ꟷ danei com ela, mesmo sabendo que nesse ponto ela era incorrigível.
ꟷ Sem problema, Luca. Eu só terminei. ꟷ Iara deu de ombros fazendo pouco caso.
ꟷ Uai! Tá bom, né.
Ficamos conversando um pouco sobre o trabalho, mas eu queria mesmo era perguntar o que estava acontecendo entre ela e o Danilo. Meu amigo sempre mudava de assunto ou fingia não escutar quando eu o questionava.
Entretanto, refleti se não seria invasivo fazer essa pergunta. Eu conhecia Iara muito antes dela namorar com Danilo, na verdade, ela foi minha primeira amiga no Castelinho, antes de Danilo e Tião. Ao longo dos anos acabei ficando mais próximo de Danilo, por sermos colegas de quarto, mas eu não via Iara apenas como namorada do meu melhor amigo, pois ela era minha amiga também. Dessa forma, concluí que eu podia me importar com ela no meio dessa briga e perguntar:
ꟷ O que tá acontecendo? ꟷ Iara me lançou um olhar interrogativo ꟷ Entre você e o Danilo. ꟷ completei.
ꟷ Ele não te contou? ꟷ Iara desviou o olhar e suspirou.
ꟷ Ele não toca no assunto. ꟷ expliquei.
ꟷ Eu não quero falar mal do seu melhor amigo para você. ꟷ Iara disse voltando abrir o livro na tentativa de me despistar.
ꟷ Se ele fez merda, pode falar, que ainda dou uma bica nele depois.
Iara sorriu triste, fechou o livro, o jogou para o lado e respirou fundo.
ꟷ Nós brigamos...feio. ꟷ ela sacudiu a cabeça de um lado pro outro como se a lembrança a incomoda-se.
ꟷ Qual o motivo? ꟷ insisti para que ela me contasse melhor.
Iara ficou um tempo quieta contemplando as próprias mãos, por fim, ela começou a dizer:
ꟷ Temos vidas muito diferentes, Luca. ꟷ e respirou fundo ꟷ Danilo não vem de uma família qualquer, tem dinheiro e pode ter o que bem entender. Não é como eu e a minha comunidade. Ele não sabe o que é passar dificuldades… ꟷ a frase morreu inconclusa nos lábios dela.
ꟷ Realmente. ꟷ concordei, pois todos sabiam disso até Danilo concordaria com essa afirmativa.
ꟷ Ele fica com esse papo de querer voltar para Europa...O pai dele se casou de novo, nem quer saber dele e Danilo fica correndo atrás. ꟷ seu rosto tomou uma expressão indignada ꟷ Ai, isso me estressa, Lucas! Ele sabe que eu não tenho condições de ir para Londres junto com ele e minha vida é aqui.
ꟷ Ele quer que você vá?
ꟷ Sim, disse que não preciso me preocupar com o dinheiro, mas olha para mim, Lucas. Vê se tenho cara de mulher que vai ser sustentada por homem? ꟷ Iara apontou o próprio rosto e bateu a mão na perna fazendo um som de estalo soar.
ꟷ Não tem. ꟷ se tinha algo para afirmar sobre aquela garota, eu diria que era sua independência.
ꟷ Eu me esforço e estudo para ir bem no Efem no final do ano, conseguir me especializar como naturalista e ter um bom emprego aqui. Coisa que minha família nunca pode ter. Danilo não entende isso, ele não precisa se preocupar com o Efem, porque os avós dele podem pagar a sua especialização como medibruxo. ꟷ Iara desabafou soltando tudo o que pensava.
ꟷ Entendi. ꟷ falei como um bom ouvinte e mostrando que estava atento.
ꟷ Ele ainda me disse que sou paranoica, porque faço oferenda aos meus santos pedindo para ocorrer tudo bem na prova. ꟷ a frase saiu amarga.
ꟷ É sério que ele disse isso? ꟷ perguntei sem acreditar.
ꟷ Sim, mas… ꟷ Iara parecia arrependida de revelar a última parte ao ver a minha cara ꟷ Foi no auge da nossa discussão, não acho que ele quis me ofender.
ꟷ Não importa, eu vou descer o cacete nele. ꟷ falei me sentindo muito irritado com Danilo.
ꟷ Luca, não faz nada. ꟷ ela me pediu ꟷ Eu nunca me perdoaria se estragar a amizade de vocês. Por favor, uma hora a gente vai se entender.
ꟷ Está bem. ꟷ concordei relutante.
Continuei conversando com Iara. Ela desabafou sobre os problemas que tinha na família, como o pai e o irmão mais velho, que estavam presos, por se envolveram com magia negra para conseguir dinheiro e colocar dentro de casa.
Eu e Iara vínhamos de berços completamente distintos, a família dela era bruxa e a minha trouxa, mas tínhamos dificuldades semelhantes. Meus pais nunca fizeram nada ilegal para obter dinheiro, mas também sofríamos com a falta dele no mundo trouxa.
Meus pais eram pessoas muito simples e viravam a noite trabalhando com sapatos. Tudo para manter minha irmã mais velha na Universidade, eu na Escola de Magia e meus outros dois irmãos na escola até concluir o ensino médio. Me orgulhava muito do esforço deles.
Por isso tomei as dores de Iara com facilidade. Naquela noite quando fui para o quarto fiz de tudo para não transparecer minha irritação com Danilo. Por sorte ele não quis conversar também.
A madrugada veio rápida e eu estava encolhido em baixo da minha manta, porque chovia deixando o clima um pouco frio. Eu dormia com o barulho gostoso da chuva quando fui acordado por batidas na porta. Abri os olhos com relutância e ao me virar, avistei Danilo sentado na cama segurando a varinha acesa iluminando o quarto.
ꟷ Quem é? ꟷ meu amigo perguntou sonolento.
ꟷ Lucas. ꟷ escutei a voz aflita de James do outro lado me chamando.
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