English Boy
10 Capítulo 10
Finalmente era sexta-feira e eu me sentia um trapo. Nunca estive tão ocupado antes. Fora as aulas, eu me desdobrei em dois para conseguir comparecer nas reuniões do Conselho, fazer algumas rondas noturnas e meus deveres de casa junto com James, que me pedia ajuda. Oia que estávamos na primeira semana de aula, em!
Eu atribuía a culpa do meu cansaço todinha a James, ele me tomava muito tempo. Sei que ele não fazia de propósito, mas verdades sejam ditas. Chegou um ponto, ali pelo final da semana, que eu já estava jogando parte da minha responsabilidade de auxiliar James para Danilo. Até tive que escutar meu amigo dizer irritado:
ꟷ Mano, você que tem que cuidar dele.
Mas eu sabia que no final Danilo nunca recusaria ajudar alguém.
Naquela manhã eu estava na mesa do café com os meninos. Eu fazia um esforço monstruoso para manter os olhos abertos e Tião falava alto demais para minha cabeça latejante. Eu não tinha dormido direito naquela noite, porque um aluno do primeiro ano passou mal de madrugada. Os outros Representantes não quiseram fazer nada a respeito, então, bufando, eu levei o garoto para a enfermaria.
Eu estava na minha quarta xícara de café quando senti mãos carinhosas em meus ombros.
ꟷ Desse jeito vai te dar tremedeira. ꟷ escutei a voz da minha namorada no pé da orelha. Estremeci e me virei para vê-la.
ꟷ Hum, se pelo menos eu ficar acordado até meio dia…
ꟷ Não vem com essa. ꟷ ela me cortou.
Sorri e da minha posição me inclinei para beijá-la. Lina me deu um selinho rápido e afastou sentando ao meu lado. Ela não gostava de demonstrar muito afeto na frente de Tião, porque ele sempre vinha com brincadeiras desaforadas depois. Eu sabia disso, mas ela estava tão radiante e parecia fazer uma eternidade desde que tive tempo para ela.
ꟷ Já conversamos sobre seu excesso de café. ꟷ Lina insistiu em me repreender.
ꟷ Eu sei, quer conversar mais? ꟷ a provoquei com um sorriso.
ꟷ Deixa, Lina. Ele vai ver quando atacar o estômago de novo. ꟷ disse Iara do meu outro lado. Não tinha visto ela chegar.
ꟷ Não vou visitar ninguém na enfermaria. ꟷ afirmou Lina.
ꟷ Mas que chatice vocês duas. ꟷ reclamei e continuei bebendo meu café.
ꟷ Sextou! ꟷ escutei a voz James e com isso prestei atenção na conversa que ele estava tendo com os outros meninos.
ꟷ Isso, é assim! ꟷ Tião aplaudiu feliz e Danilo revirou os olhos.
ꟷ O que você tá fazendo? ꟷ perguntei indignado ꟷ Não ensina essas coisas idiotas para ele.
ꟷ Por que não? Talvez ele seja um idiota também. ꟷ o garoto arregalou os olhos falando como se fosse óbvio.
ꟷ Hey! ꟷ James protestou ꟷ Idiota é você.
Sorri para James enquanto os outros na mesa riam de diversão. Aos poucos James estava pegando mania de mesclar os dois idiomas para falar, como eu e Danilo fazíamos às vezes. Eu não sabia se essa era uma boa forma de aprender uma língua, mas quem se importa?
James e Tião continuaram falando um monte de bobeiras e rindo. Eu estava descobrindo que James era um bobo também. Assim ele estava se dando muito bem com meu amigo. Eu ficava feliz por Tião finalmente ter um colega de quarto agradável.
ꟷ Fala assim: Bota a cara no lumus, mona. ꟷ Tião continuou ditando frases para James repetir.
Quando deu o horário, fomos para a aula de Herbologia nas estufas atrás do Prédio Principal. Herbologia era de longe meu assunto preferido, assim como Ecomagicologia, eu só achava mais suportável que o segundo. Para o meu desamparo, Lina e Iara faziam Herbologia de Vegetais Vasculares no lugar da matéria convencional. Portanto, significava que eu teria que dar meus pulos naquele ano sem a ajuda delas durante as aulas.
Junto com os meninos, sentei em uma das mesas da estufa, com James sempre ao meu lado. Naquela aula nós iríamos retirar as sementes de Guaraná Pestanejeiro. Essa planta parecia com um guaraná comum, a diferença é que eles piscavam e seguiam nossos movimentos com seus frutos em forma de olhos.
James ficou encantado com a plantinha, mas essa animação logo passou quando a professor Afonso nos passou as instruções... Pois é, a semente da planta era justamente a bolinha preta no centro do olho. Eu vi James ficar nauseado com isso.
Com muito custo ele conseguiu fazer a coleta. Não era nada fácil, com a planta fechando os "olhos" o tempo todo e nos "olhando" com tanta inocência (se é que elas sentiam algo). E ainda deveria-se ter cuidado para não machucá-la senão a planta fechavam os olhos e não abriam mais.
As sementes retiradas foram guardadas em potes para serem usadas nas aulas de Poções. Eram utilizadas como ingredientes nas Poções de Reanimação. Ao término, James saiu da aula prendendo a respiração, ele estava tenso e na primeira bica jorrando água no caminho ele lavou as mãos por longos minutos.
Troquei um olhar com Danilo que deu de ombros. Ele e Tião não pararam e continuaram seguindo caminho. Eu me encostei na borda da fonte, ao lado de James, e esperei ele me dirigir sua atenção. No entanto, o garoto não parava de esfregar as mãos uma na outra.
ꟷ Tudo bem? ꟷ perguntei talvez um pouco preocupado.
ꟷ Sim. ꟷ respondeu com um suspiro alto.
ꟷ Temos o horário vago agora. ꟷ destaquei o óbvio.
ꟷ Eu sei.
ꟷ Você quer...que eu te ensine português nesse horário a partir de agora?
Quando as aulas começaram tínhamos parado com os estudos na biblioteca. Não sabia o que me deu para oferecer tal coisa e arrumar mais uma tarefa no meu único horário livre.
ꟷ Pode ser. ꟷ ele confirmou finalmente tirando as mãos da água e as chacoalhando no ar.
James ainda parecia meio atordoado quando tomamos o rumo para Bibicom. Fiquei me questionando o quê tinha deixado-o assim. Será que foram apenas os guaranazinhos desolhados ou havia mais? Queria saber, mas não encontrei formas de perguntar. Quando estávamos chegando na base da Grande Escadaria, James endireitou a postura e parecia ter melhorado o semblante.
ꟷ Estava pensando em jogar quadribol. ꟷ ele comentou casualmente.
ꟷ Hum, legal! ꟷ até tentei reagir de forma animada, mas eu simplesmente não conseguia.
ꟷ Sabe como entro em um time? ꟷ ele perguntou.
ꟷ Acredito que é só fazer o teste. ꟷ respondi com pouco-caso.
ꟷ Mas eu poderia jogar em qualquer um deles?
ꟷ Eu não entendo direito, mas sei que alguns times não aceitam qualquer pessoa tão fácil. ꟷ tentei buscar na memória o pouco que sabia sobre o funcionamento dos times da escola.
ꟷ Então é difícil entrar? ꟷ pude sentir uma ponta de decepção vindo dele.
O olhei de cima a baixo e então caindo a ficha de "quem" ele era afinal. James não ia ter dificuldade nenhuma se quisesse realmente jogar. Me lembrei de uma conversa que escutei entre ele e Tião, onde James contava sobre a mãe ter jogado quadribol profissionalmente. Parece que todos na família dele tinha aspirante à celebridade.
ꟷ Bom, você não é qualquer um… Conversa com o Danilo, ele joga no Mirim, vai saber te ajudar melhor.
ꟷ Ah, ele joga? Legal. ꟷ ele se animou.
Ficamos em silêncio subindo os degraus da escada. Eu estava bem disposto agora, mas sabia que mais tarde o sono ia me pegar de jeito.
ꟷ Qual é aquele time amarelo e preto com um bichinho narigudo de mascote? Tem umas bandeirinhas no Aloja. ꟷ James voltou a falar, insistindo naquele assunto.
ꟷ Acho que você está falando do Tamã Mirim. É o que Danilo joga.
ꟷ Ah sim! Gostei mais desse, porque me lembra uma casa de Hogwarts, a Lufa-Lufa. Não é a minha casa, mas eu gosto dos lufanos. ꟷ James explicou com um olhar distante, talvez lembrando da sua escola.
ꟷ Interessante. ꟷ achei legal a coincidência e quase sorri com o nome afável da casa.
ꟷ Quais são os outros times?
Respirei um pouco fundo e me concentrei por alguns segundos para lembrar. Eu sabia o nome de todos, mas não era algo que ficava na ponta da língua.
ꟷ Temos o Pinhão de Vento é aquele que tem na bandeira uma pinha com asas de pomo de ouro. Já viu?
ꟷ Sim ꟷ ele riu pelo nariz ꟷ É muito engraçado.
ꟷ Temos o Esmeralda. Pelo que sei esse time foi criado porque não costumava ter espaço para as meninas jogarem nos outros. Então, ele é formado principalmente por meninas, mas aceitam meninos. ꟷ o Esmeralda era provavelmente o time que mais possuía o meu respeito por se tratar desse esporte insípido.
ꟷ Legal. Gosto de representatividade. Elas são boas?
ꟷ Não sei te dizer. Nunca assisti os jogos.
ꟷ Como não?! ꟷ James ficou boquiaberto me olhando como se tivesse um terceiro olho na minha cara.
ꟷ Não gosto muito de quadribol. ꟷ abanei a mão em descaso.
ꟷ Que absurdo! ꟷ ele disse ainda surpreso, mas seu sorriso gentil me acompanhava. ꟷ Sabe o nome daquele time que tem um animal quadrúpede de pescoço comprido todo envolto por chamas? ꟷ James seguiu com seu interrogatório.
ꟷ É o Llamafuego.
ꟷ Como? ꟷ ele riu alto e ficou piscando como se pedisse para ser repetido.
ꟷ Llamafuego. ꟷ falei novamente mais devagar.
ꟷ Ia-iamafego. ꟷ James gaguejou fazendo uma cara engraçada ao dizer.
ꟷ Quase isso. ꟷ ri dele ꟷ Ah! Tem os Montaraz também, mas eles são bem fechados. A maioria são argentinos e por isso não são amistosos com brasileiros.
ꟷ Sem problema, não sou brasileiro, lembra? ꟷ apontou para si mesmo como se eu tivesse esquecido.
ꟷ É, mas faz aulas e anda conosco. Não vão te aceitar.
ꟷ Qual o motivo disso? ꟷ questionou curioso.
ꟷ Não sei ao certo… É o uma rixa entre o Montaraz e o Mirim. Dizem que essa competição começou a muito tempo por causa de um balaço com espinhos. ꟷ tentei lembrar o causo que Danilo me contou, mas eu não tinha dado importância para armazenar na memória.
ꟷ Ouch! Deve ter doído. ꟷ James fez a cara de quem estava imaginando o ocorrido sem precisar de muitos detalhes.
ꟷ Você jogava em Hogwarts? ꟷ perguntei.
ꟷ Sim. Eu era capitão do time da Grifinória.
Que inesperado que você não era pouca bosta! Eu pensei ironicamente guardando esse comentário para mim.
ꟷ Grifinória é a sua casa? ꟷ perguntei já suspeitando a resposta, porque por mais de uma vez já tinha ouvido-o mencionar esse nome.
ꟷ Sim. É a casa dos corajosos e audaciosos, nosso brasão é um leão. ꟷ James disse todo orgulhoso.
ꟷ Uau! Que pretensioso. ꟷ debochei e ele sorriu ꟷ Quais são as outras?
ꟷ A Lufa-Lufa, que te falei, são dos leais e justos. A Corvinal é a casa dos inteligentes e perspicazes. E a Sonserina, dos ambiciosos e manipuladores.
ꟷ Achei tendencioso a sua explicação sobre a última. ꟷ falei suspeito.
ꟷ Talvez, eu não gosto muito deles. ꟷ James riu sem graça. ꟷ Então, de qual casa você acha que seria?
ꟷ Eu? ꟷ o encarei surpreendido com a suposição. ꟷ Não sei. O que você acha? ꟷ parecia difícil tentar me encaixar em somente duas características.
ꟷ Hum, não sei também. Alguma te parece mais legal? ꟷ James respondeu depois de pensar um pouco.
ꟷ Qual animal representa as outras?
Eu não era da vibe zoológica da escola, mas sempre gostei um pouco de bichos. Eles eram fáceis de se afeiçoar, seria uma boa base para fazer a escolha.
ꟷ Lufa-Lufa é um texugo. Corvinal, um corvo. E Sonserina, uma serpente. ꟷ James ditou cada um dos animais.
ꟷ Não tem a casa das preguiças? ꟷ perguntei de brincadeira e ele riu ao negar. ꟷ Se só posso escolher entre essas, quero a Sonserina.
ꟷ Certeza? ꟷ James fez uma careta de desgosto que achei engraçada.
ꟷ Cobras são legais. ꟷ me expliquei brevemente.
ꟷ São traiçoeiras e matam pessoas. ꟷ James rebateu ainda mantendo a careta.
ꟷ Ideia errada isso de animal traiçoeiro. Um leão caça por emboscada e estando faminto também mataria uma pessoa. ꟷ joguei o fato contra ele e vi seus músculos faciais relaxarem.
ꟷ ...É, mas cobras fazem de propósito. ꟷ ele insistiu.
ꟷ O que? Não! ꟷ cuspi sem acreditar no que tinha ouvido. Se eu estivesse tomando alguma coisa teria me engasgado. ꟷ Por acaso você já viu uma cobra?
ꟷ Sim. ꟷ ele respondeu, mas não senti firmeza.
ꟷ Pessoalmente e na natureza? ꟷ ergui uma sobrancelha para ele.
ꟷ Não…
ꟷ Aparecem muitas por aqui e na casa da minha avó também. Se a cobra não for peçonhenta não representa risco nenhum. As venenosas geralmente só atacam quando ameaçadas e antes de atacar sempre tentam alertar dando botes no ar, por exemplo. Para elas é um gasto desnecessário de veneno morder um humano, porque o veneno serve para imobilizar sua caça e elas gastam energia fisiológica para produzi-lo. Os acidentes com pessoas costumam acontecer quando pisam no animal sem querer ou quando ficam importunando-o mesmo depois dele alertar para afastar. ꟷ esclareci de acordo com a experiencia que já tive com os répteis.
ꟷ Uow! Entendi, Sr. Naturalista. Não vou mais ofender suas cobras. ꟷ James ergueu as mãos rendido.
ꟷ Só não atribua defeitos humanos aos animais.
Estávamos na porta da biblioteca. Caminhamos em direção ao Piso 2, onde sempre ficávamos.
ꟷ Talvez Sonserina combine mesmo com você...um pouco. Meu irmão é sonserino também. Em outra dimensão, com toda certeza vocês teriam sido amigos. ꟷ James previu com tanta naturalidade que era cômico.
ꟷ Está supondo um universo alternativo onde eu estude em Hogwarts e seja amigo do seu irmão? ꟷ balancei a cabeça de um lado pro outro sorrindo e descrente com viagem doida dele.
Eu não fazia ideia de como era o irmão de James, por isso imaginei um garoto igual ao próprio, com os mesmos cabelos e olhos castanhos.
ꟷ Exatamente. ꟷ ele confirmou alegre.
ꟷ Você é estranho, James. ꟷ acusei sem muita delicadeza.
ꟷ Não consegue imaginar? ꟷ ele insistiu enquanto afastava a cadeira para se sentar. Eu fiz o mesmo ficando na frente dele.
ꟷ Não muito...Imaginar não ter tido a minha vida é meio esquisito... Eu nem gosto de chá. Eu teria que tomar chá?
James começou a rir segurando sua bolsa junto ao corpo.
ꟷ Você é hilário. Já percebeu que não temos muito em comum? ꟷ ele disse puxando seu livro falante de dentro da mochila.
ꟷ Sim, e daí? ꟷ respondi. Também tirei meus materiais na esperança de conseguir estudar alguma coisa antes do sono me pegar.
ꟷ Acho engraçado, porque mesmo assim gosto de você.
Ergui a cabeça para visualizar James, sentia meu corpo vibrar. Ele folheava seu livro, entretido com as páginas, sem se dar conta do impacto que suas palavras me causaram.
Fiquei mudo, pensando, tentando entender porque algo tão simples tinha me deixado meio absorto. Não era nada demais, a essa altura do campeonato eu também tinha que admitir que gostava dele. E diferenças não era um problema, pois minha vida não se assemelhava com a de nenhum dos meus outros amigos e lá estavam eles: "sendo meus amigos". Com James era o mesmo e ainda sim parecia ter algo... distinto sobre ele.
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