English Boy
30 Capitulo 30
Nós todos, meus irmãos, meus amigos e eu, fomos caminhando para os fundos do terreno. Em direção ao pomar. Passamos pela minha vó na horta, assim, chamando sua atenção e ela nos perguntou aonde íamos.
ꟷ Cuidado lá, em. Não entra n’água que ta fri. Cês vão tudo resfriá! ꟷ vovó mandou e voltou cavucar na terra.
Lê foi pulando na frente de todos como uma gazelinha. Leo e Luana caminharam juntos conversando sobre opções de cursos na Universidade. Naquele ano, Leonardo iria tentar, pela segunda vez, passar em um vestibular. Um pouco atrás, eu acompanhava meus amigos. Eu andava ao lado de Iara e o mais longe possível de James. Nitidamente, eu ainda não estava sabendo lidar com a presença dele.
ꟷ Isso é jabuticaba, James ꟷ Danilo apontou uma arvorezinha do pomar.
James se aproximou da jabuticabeiras, observando o fruto preso ao redor dos troncos da árvore.
ꟷ Ah! Posso comer? ꟷ ele perguntou em dúvida olhando a bolinha preta.
Danilo colheu uma fruta e deu a James, confirmando sua pergunta. O observei do meu canto perto de Iara. Senti um sorriso de simpatia tomar o meu rosto quando James comeu a jabuticaba e fez careta. Talvez fosse o gosto ou a textura. Não importa. Sua reação foi o bastante para me atrair e caminhar até ele.
ꟷ Também não gosto muito ꟷ declarei, mas sem olhá-lo diretamente agora que estávamos perto.
ꟷ A bebida do seu pai é melhor.
Eu sorri para os meus próprios pés como resposta. Permaneci ao lado de James, ignorando o quanto eu meu coração acelerava com isso. Logo chegamos no final da propriedade que terminava em uma simples cerca de arame farpado. Do outro lado havia uma extensa plantação de café, cujo dono deveria ser algum fazendeiro rico que nunca conhecemos.
Luana e Leo fizeram o primeiro movimento em direção a uma parte específica da cerca. Naquele local o arame era mais frouxo. Leo puxou o arame para cima, tomando cuidado para não machucar a mão e abrindo o espaço necessário para uma pessoa atravessar. Lê foi a primeira a se encolher entre a cerca, depois Luna, Iara, Danilo, James e eu. Leo, exibido, escolheu saltar por cima do arame usando um dos tocos como apoio.
Dessa forma, estávamos dentro do cafezal. Mas nosso objetivo não era invadir ou coisas do tipo. Apenas precisávamos passar por alí, então descemos lateralmente a colina até chegar numa pequena mata ciliar. Nesse ponto, meus irmãos entraram no meio do mato seguindo a trilha de terra e eu fui atrás deles guiando meus amigos.
A trilha era completamente diferente da que usávamos no Castelinho durante as aulas de Eco. Até porque estávamos no Cerrado e esse possuía a vegetação mais fácil de adentrar.
Dado certo momento, busquei James atrás de mim. Lembrei que ele não gostava muito de andar no mato. O encontrei alguns passos atrás agarrando-se na lateral da blusa de Danilo. Eu podia dizer que James não estava muito feliz com essa parte do passeio. No entanto, resisti a vontade de ir até ele perguntar se estava bem e prossegui no trajeto da trilha.
Pouco tempo de caminhada, após descermos um leve barranco, chegamos na cachoeira. Ela era uma pequena queda d’água (três metros mais ou menos) entre rochas de basalto, que desaguavam no riozinho. Nada muito grandioso.
Leo, ignorando prontamente a vovó, tirou sua camiseta, o boné, o tênis e pulou no rio que batia na cintura. Lê também entrou na água usando maiô. Nesse momento lembrei de alguns perigos de nadar em rios, como trombas d'água. Mas estávamos no período de poucas chuvas então não havia risco naquele dia.
ꟷ Que lugar lindo! Olha, um barbatimão ꟷ Iara disse e puxou Danilo com ela para verem a planta.
Luana se arrastou para o alto de uma rocha exposta na margem do riacho e eu a segui, sentando perto dela. Não precisei olhar ao redor para perceber que James veio comigo e sentou ao meu lado. Isso me fez dar um sorriso bobo, mas logo o reprimi.
Meu olhar foi atraído para o riacho quando meus irmãos, que estavam nadando, iniciaram uma batalha de água. Um espirrava pingos violentos no outro. Leo sem importar que Lê fosse menor, a sufocava com jatos repetidos de água. Não demorou muito para a menininha render-se pedindo trégua. Esperta! No segundo seguinte, assim que Leo se distraiu, Lê o atacou novamente acertando água em seu rosto.
ꟷ São bobos, né? ꟷ Luana comentou sorrindo, observando os outros dois brincando.
ꟷ Demais
ꟷ Você é da onde? ꟷ Luana de repente se inclinou, perguntando diretamente para James.
Acho que ele assustou momentaneamente, porque sua resposta não foi imediata. Quando virei a cabeça em sua direção havia surpresa nele, que foi rapidamente substituída pelo seu sorriso simpático.
ꟷ U.K ꟷ James respondeu.
A partir disso eles conversaram bastante, comigo sentado no meio em silêncio. Luana era tão fluente quanto eu e minha hipótese é que James não esperava por isso, então o susto anterior. Ou ele não esperava que alguns dos meus irmãos mais velhos tentassem comunicar com ele. Não sei e não importa, porque nos minutos seguintes eu tive uma desculpa para observá-los, ou melhor, observar James discretamente.
Luana quis saber tudo sobre o sistema de intercâmbio de James. Não que ela entendesse realmente sobre o funcionamento das escolas mágicas, no final, eu sei que Luana só fingia compreender. Minha irmã só gostava de conversar mesmo.
De repente um bocado de água gelada voou na gente nos molhando. E antes que eu pudesse me dar conta do que houve escutei Luana gritar:
ꟷ LEONARDO!
ꟷ Nó! Não era pra pegar em vocês ꟷ Leo se justificou, mas ria tanto que era difícil acreditar.
ꟷ Pera aí, seu rampeiro!
Minha irmã entrou na água de roupa e tudo atrás de Leo. Ele fugiu dela tentando tacar água para desviá-la. Lê mergulhou atrás deles entrando no meio da briga e espirrando água. Eu ri um pouco deles, mas logo tremi de frio com meu moletom molhado. Droga, Leonardo!
James se moveu ao lado atraindo minha atenção. Vi ele puxando sua varinha e fazendo um feitiço prático secando as próprias roupas. Dava para ver a água, que escurecia o tecido, desaparecendo do seu...como chama? Ah é, suéter.
ꟷ Eu posso? ꟷ ele perguntou apontando a varinha para mim.
Acenei com a cabeça dando permissão. Descruzei os braços, que antes tentavam me esquentar, e deixei o tecido esticado. James chegou um pouco mais perto e moveu a varinha executando o feitiço. Prendi a respiração ao sentir a magia dele percorrer meu corpo. Fiz o meu melhor para não corar. Não era o melhor momento para pensar nisso, mas fiz nota de como sua magia era reconfortante.
ꟷ Eu gosto desse filme.
ꟷ Filme? ꟷ questionei confuso. Então percebi que ele encarava meu moletom, segui seu olhar e também observei o personagem azul de cabeça para baixo. ꟷ Stitch?
ꟷ Isso! Ele é fofo ꟷ James sorriu alegremente me fazendo espelhar seu sorriso e sentir meu rosto esquentar. Logo sacudi a cabeça levemente envergonhado e lembrando que o elogio não foi para mim, e sim, ao bichinho da minha roupa. James não pareceu notar minha reação, porque ele continuou falando normalmente. ꟷ Sua família me lembra um pouco a minha.
ꟷ Jura?
Encarei os machucados da rocha, passando os dedo ao longo das rachaduras. James começou a falar sobre seus familiares e eu escutei atentamente absorvendo todas as informações expostas. Eu já sabia muito da vida dele, mas sempre havia mais para saber sobre os tios, primos e irmãos.
No começo me senti ansioso por estarmos perto e conversando sozinhos. Sem outras pessoas ao redor meu foco era apenas nele, enquanto o dele era em mim. Mas conforme ficávamos assim eu fui me acostumando. Até porque James era extremamente amigável e carismático, de forma que em algum momento meu constrangimento desapareceu. Foi como se a presença real dele levasse embora as minhas últimas semanas de confusões e reflexões (principalmente sobre ele). Nada disso importava. Estar meio que...apaixonado por ele, poderia ser esquecido por hora. Como se a percepção de sermos amigos já fosse o bastante para substituir minha ansiedade por felicidade naquele momento.
ꟷ …a Viela é muito bonita, bem diferente do que eu esperava. Só achei meio absurdo aquelas varinhas falsificadas sendo vendidas nas...nas...como Danilo chamou mesmo? ꟷ James me contava sobre seus diversos passeios com Danilo durante as férias.
ꟷ As barraquinhas? ꟷ eu adivinhei, deduzindo pela descrição que não podia ser outra coisa.
ꟷ É, barraquinhas! ꟷ ele repetiu a palavra animadamente.
James continuou me contando sobre a Viela. Ele me descrevia o lugar como se eu nunca tivesse estado na cidade bruxa antes. É claro, que eu conhecia a Viela de cabo a rabo, mas James estava muito feliz ao me contar. Por isso, não pude impedi-lo.
Nossa conversa sobre a Viela, a praia e o casarão dos Oliveiras, finalizou quando Danilo e Iara se juntou a nós na rocha. James se distraiu conversando com os outros dois e me esquecendo um pouco…Tudo bem, não estou reclamando sobre isso...Sério! Não estou.
Desviei o foco dos meus amigos, ficando um pouco em silêncio e observando meus irmãos brincar na água. Os três continuavam lá. Até parece que as criaturas não sentem frio! Bom, pelo menos nenhum deles tentou me puxar para água.
Joguei meus braços para trás e me permiti observar a natureza ao redor. Eu amava aquele lugar, as árvores e a cachoeira. O clima naquela região era completamente diferente da floresta do Castelinho. Durante o inverno tínhamos o ar sempre seco e gelado. Enquanto a vegetação tinha cores menos vivas e o solo era mais arenoso.
No final da tarde, foi Luana quem decidiu que deveríamos voltar. Aquela altura Lê estava de lábios roxos e batendo o queixo de frio. No caminho de volta minha irmãzinha me abraçou para se esquentar. Lê se agarrou tanto em mim que não soltava por nada e caminhamos tropeçando até a chácara.
Chegamos lá com o cheiro da janta atiçando nossa fome. Minha mãe mandou a gente, no caso eu e meus irmãos, irem se arrumar antes que algum convidado chegasse para a festa. Como eu era o aniversariante fui mandado na frente. Ainda era cedo, mas eu fui obediente sem questionar.
Saí do banho e decidi vestir algo quentinho, pois durante a noite na casa da vó sempre fazia mais frio que na cidade. Era de congelar o pé. Entretanto, minha mãe me mataria se eu não estivesse “ajeitado”, como ela dizia. Assim, peguei minha mochila onde estavam meus trens. Puxei dela minha melhor calça jeans e uma blusa aleatória que ficaria escondida o tempo todo embaixo do meu moletom novo (presente dos meus pais). Me vesti e penteei o cabelo, mas ficou ridículo então baguncei ele logo em seguida.
Uma vez pronto, saí do quarto e fui para a varanda. Minhas mãos que começaram a gelar foram enfiadas nos bolsos do moletom. Todos já estavam sentados à mesa comendo. Puxei uma cadeira ao lado de Danilo e peguei o prato para me servir.
ꟷ Agora é sua vez, Letícia. Termina de comer e vai se limpar ꟷ mamãe falou para minha irmãzinha que estava enrolada em duas toalhas.
Minha vózinha estava tagarelando com meus amigos sem parar. Ela amava contar histórias, principalmente sobre meu falecido avô, cada um dos meus tios e, é claro, sobre mim. Notei que James estava extremamente concentrado em minha avó, aparentemente, tentando entender o que ela dizia.
ꟷ ...os menino corria tudo aqui. Cof! O Luca mais o Leonardo. Eis ia até lá no fundo, na prantação de café lá. E o Luca vortava comendo os café do pé e dispois num dormia di noite. Lembra, fio? ꟷ ela me buscou para confirmação.
ꟷ Lembro, vó ꟷ respondi monotonamente.
ꟷ Já era viciado desde novo, Lucas? ꟷ Iara brincou comigo.
ꟷ Pois é ꟷ e me escapou uma risada de derrota.
Depois do jantar meus pais tiraram a louça e levaram para dentro da casa. Eu e meus amigos sentamos na mureta da varanda onde ficamos conversando. Iara e Danilo a minha esquerda enquanto James ficou a minha direita. Eu sentia que James estava muito perto de mim… Talvez não tão perto, mas com certeza o mais próximo que ele esteve aquele dia inteiro. Incrivelmente, eu não estava tendo um surto com isso. Quando nossos joelhos se esbarravam não existia desconforto no meu coração. Na verdade, era muito bom qualquer contato físico com ele, mesmo que fosse algo comum e superficial.
Tudo ia muito bem até Luana sair de dentro da casa segurando um pacote de bexigas coloridas. Lê veio correndo atrás dela com um rolo de fitilho. Juntas, minhas irmãs começaram a encher as bexigas e amarrá-las fazendo montinhos. Minha primeira reação foi ficar parado observando elas decorarem, mas logo a indignação me atingiu.
ꟷ Tsk! Não acredito nisso. Quantos anos vocês acham que tô fazendo? ꟷ reclamei expondo o que sentia.
ꟷ Mamãe comprou até chapeuzinho, Luca ꟷ Lê revelou super animada.
Eu gemi com desgosto e cobri meu rosto com as mãos.
ꟷ Oba! Chapeuzinho ꟷ Danilo bateu palmas me provocando.
ꟷ Cala a boca!
Torci um pouco o corpo para ficar mais de frente em nossas posições e dei um empurrão de leve em Danilo. E, é claro, ele me empurrou de volta. Foi assim que meu melhor amigo me fez passar pela situação mais embaraçosa do dia (até aquele momento, pelo menos).
Me permito considerar que Danilo não mediu a sua força quando revidou o empurrão. É a cara dele fazer isso. Que seja, a questão é que a falta de senso de Danilo desencadeou dois acontecimentos. Um, eu fui inclinado sobre algo que estava às minhas costas e esse algo era James. Dois, eu desequilibrei na mureta e quem me segurou? Isso! James!
Não teria sido uma queda grande. Da mureta da varanda até o chão, na parte mais alta, deveria ter cerca de dois metros. Com certeza eu sobreviveria à queda e seria menos constrangedor que ter as mãos de James ao redor da minha cintura. O contato foi rápido, brusco e desajeitado. Uma vez que eu estava equilibrado novamente as mãos dele me soltaram.
ꟷ Opa! ꟷ Danilo primeiro se assustou, mas em seguida já estava rindo.
ꟷ Não precisa tentar me matar pra usar um chapeuzinho, seu louco! ꟷ me concentrei no meu amigo para não deixar transparecer como fiquei afetado pelo que houve.
ꟷ Foi mal ꟷ Dan se desculpou sem realmente demonstrar remorso.
Iara e ele começaram a me zoar em seguida. Algo sobre eu ser “um saco de batata”, hahaha, muito engraçado...Não tive coragem de fazer contato visual com James nos minutos seguintes e o medo de ser óbvio demais sobre meus sentimentos me atingiu. Se meu rosto estava corado ele rapidamente deve ter pedido a cor. Num flash de desespero, olhei ao redor para ver quem possivelmente havia presenciado a cena. Meus pais estavam dentro da casa, ainda bem, e apenas meus irmãos se encontravam na varanda. As meninas completamente concentradas na tarefa de encher os balões e Leo sentado na mesa mexendo em seu notebook. Com sorte, nenhum deles reparou.
Reprimi um suspiro de alívio, decidi levantar e fui até minhas irmãs para ajudá-las com a decoração. Sentei no banquinho perto de Lê, peguei um punhado de bexigas e comecei a enchê-las. Perdi a noção do tempo enquanto fiquei fazendo isso. Soprar e amarrar. Soprar e amarrar.
O céu já passava do tom alaranjado para o azul escuro criando uma paisagem muito bonita no horizonte. Foi encarando o céu além da chácara que meu olhar se encontrou com o de James. Ele ainda estava na mureta junto com Danilo e Iara, mas ao invés de conversar com os outros dois ele estava olhando na minha direção. Foi meio hipnótico. Nos encaramos por um tempo, meu coração saltando, até que ele desviou e encarou o próprio sapato.
Voltei rapidamente para minha tarefa incumbida. Soprar e amarrar.
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