English Boy
25 Capitulo 25
Notas iniciais
A professora Welvicha subiu no palco e pigarreou usando um feitiço que amplificava sua voz. A mulher era uma das professoras mais jovem da escola, era alta e usava um vestido chamativo cheio de estampas e babados. Logo que ela pediu silêncio, voltei todo minha atenção para ela. Welvicha era sem dúvida minha professora preferida e eu sempre estava disposto a ouvi-la. Ela anunciou que o casamento iria começar e todos nós (ou grande maioria) ficamos envolta do local, mantendo uma distância considerável para a encenação acontecer.
Welvicha costumava ser responsável pelo roteiro da peça e o ensaio dos atores. Todos os anos eram feitas as audições, alguns meses anteriores a festa, e os alunos do Casamento eram selecionados. Eu nunca ousei participar do teatro, já bastava a vergonha alheia que sentia ao assistir.
Quando o silêncio se estabeleceu na plateia/convidados, a professora leu a introdução da peça apresentando os personagens. Assim que ela terminou, o padre surgiu caminhando até o altar que estava posicionado no centro do espetáculo. Vale ressaltar que a Vossa Santidade se tratava de um garoto com dez anos de idade que mal cabia nas vestes sagrada. Ele trazia nos braços um banquinho e o posicionou atrás do altar antes de subir. O simples ato fez a plateia rir.
A banda da escola estava preparada no palco com seus instrumentos em mãos. Quando a professora deu sinal que poderiam começar, uma música foi surgindo das sanfonas, rabeca, pandeiro, agogô e outros. Mas não foi a famosa marcha nupcial, ainda não. Casais começaram a caminhar sobre o tapete vermelho estendido no chão, e eu suponho que esses deveriam ser os padrinhos, madrinhas e pais dos noivos.
Para a minha surpresa, Naldo entrou em cena por último assumindo o personagem que deduzi como o noivo. Ele estava sorridente e acenando para seus “convidados de casamento”, completamente satisfeito com a atenção que recebia.
ꟷ Você não disse que seu irmão iria se casar. ꟷ sussurrei para Iara que estava em pé na minha frente.
ꟷ Eu também não sabia. ꟷ ela sussurrou de volta em um tom agudo e igualmente surpreso.
Naldo se posicionou com uma postura orgulhosa na frente do padre equilibrando no banquinho. O garoto pôs as mãos para trás a espera de sua noiva. Quando finalmente a marcha nupcial tocou, Naldo fingiu emoção ao enxugar lágrimas falsas. A garota de vestido branco entrou pendurada no braço do seu “pai” (um aluno do sexto ano).
A música parou quando a noiva estava no altar e foi entregue ao noivo por seu suposto pai. Assim, o pequeno padre com as mãos tremendo no livro sagrado, ergueu a voz aguda, o mais alto que conseguiu, e falou todo engasgado:
ꟷ Se-senhoras e Senhores, estamos re-reunidos...
Algumas crianças, que deveriam ser da turma do padrezinho, estavam rindo e se divertindo à custa do pobre garoto. No entanto, os alunos mais velhos permaneciam em silêncio e prestando atenção, afinal, não tinha graça nenhuma num garotinho pelejando para falar em público. Era até bonitinho.
ꟷ PAREM! Parem já esse casamento!
E o barraco do casamento estava iniciando. Não existe casamento caipira sem barraco. Então, uma cópia idêntica à noiva entrou em cena, porém essa estava toda desgrenhada com o vestido sujo e a maquiagem borrada. Quando ela surgiu todos os atores fizeram um “Oh!” cômico de surpresa, incluindo a noiva ao lado de Naldo.
Cada ano o teatro era diferente, portanto, eu não sabia o que estava preste a acontecer. Fiquei impressionada com a semelhança entre as duas meninas vestidas de noiva, eram praticamente a mesma pessoa. Me perguntei se haviam gêmeas na turma do quinto-ano e eu não me lembrava.
ꟷ Chico! Como pode? ꟷ a noiva maltrapilha gritou para Naldo.
ꟷ Teresinha? Mas...mas... ꟷ o garoto olhava espantado entre as duas meninas idênticas e a plateia riu da atuação dele.
Em seguida, houve um silêncio onde todos os atores ficaram parados na mesma posição até que uma das madrinhas cutucou o pequeno padre.
ꟷ Ah! É...é... ꟷ ele começou a suar frio enquanto todos esperavam sua fala. ꟷ O-o quê está acontecendo aqui? Teresinha se explique. ꟷ o menino conseguiu dizer com uma voz robótica e sem expressão.
ꟷ Ela não é Teresinha! Eu sou! ꟷ continuou gritando, exageradamente, a noiva histérica e suja.
ꟷ Oh! ꟷ fizeram todos os atores surpresos.
A cena prosseguiu com uma discussão acalorada entre os personagens do casamento. Observei que Danilo e Iara se encontravam imersos em risadas silenciosas e sussurrando entre eles, provavelmente fazendo piada com Reginaldo. Ao meu lado, Tião assistia com os olhos encantados, ele realmente gostava de tudo isso. Por sua vez, James trazia uma expressão confusa escondida atrás daquela barba. Parecia que o garoto estava vendo algo tão bizarro quanto elefantes fazendo acrobacias. A reação dele me fez sorrir involuntariamente.
Voltei minha atenção para a peça no momento em que a noiva de Naldo foi atingida por um feitiço e sua aparência começou a se alterar. Ela tomou a forma de uma garota mais baixa e de cabelos curtos no ombro.
ꟷ Joaquina! ꟷ todos os atores disseram surpresos, em uníssono.
Naldo se fez de espantado e correu direto para sua Teresinha histérica, que deveria ser a verdadeira. A maneira como o garoto fez isso, parecendo um gato assustado, arrancou mais risadas do público.
ꟷ Você tentou me enganar com polissuco, Joaquina! ꟷ Naldo acusou a garota, que do outro lado, forçava um olhar psicótico.
ꟷ Quem está te enganando é essa dissimulada... ꟷ ela apontou Teresinha e depois se virou para a plateia dramaticamente ao dizer ꟷ ...que usou amortência para ganhar o coração de Chico Junqueira.
ꟷ Oh! ꟷ fizeram, mais uma vez, todos os atores.
Senti uma pontada de vergonha alheia ao assistir essa cena.
ꟷ Pelo espírito sagrado do rio! Esse ano está mais brega que o anterior. ꟷ Lina sussurrou no meu ouvido e tapou a boca com a mão, escondendo seu sorriso. Mas eu ainda podia ver seus olhos se espremerem enquanto ela ria em silêncio
Finalmente, após alguns atos, o teatro estava acabando e a quadrilha iria começar. Para quem está curioso, no final da história Chico e Teresinha descobriram que nunca houve amortência entre eles, foi apenas o amor, e Joaquina foi presa por tentar matar os noivos.
Uma palavra: Dramático.
Os pares da quadrilha estavam se posicionando lado a lado esperando os noivos terminarem seus votos. Eu segurei a mão de Lina e a puxei para longe da aglomeração, uma vez que não iríamos dançar. Lina aceitava participar da festa e se vestir a caráter, mas ela nunca dançava. Durante meus seis anos na escola o meu par sempre foi Catalina e, obviamente, no sétimo ano eu não tinha mais meu par.
Por mais que eu nunca admitiria em voz alta, eu gostava de dançar quadrilha. Me senti triste ao cair a ficha que não poderia fazer isso pela última vez. E fiquei pior ainda ao pensar que Cat também não.
ꟷ Está pensando nela também? ꟷ Lina apertou minha mão um pouquinho e vejo nisso um gesto de carinho.
ꟷ Sim. ꟷ eu confessei. Não tinha porquê esconder, Lina já sabia e estava exposto isso em um sorriso triste.
ꟷ Ei, Luca, quer ser meu par? ꟷ Iara veio até nós, trazendo Danilo junto.
Fiquei surpreso com o pedido, dado que eu não esperava recebê-lo.
ꟷ Uai, Danilo? ꟷ eu procurei meu amigo com o olhar.
Não que eu estava pedindo a permissão dele, não, isso seria terrivelmente machista. Só queria entender o que estava acontecendo.
ꟷ Não tô muito afim de dançar hoje. ꟷ ele explicou espreguiçando o corpo e bocejando. Uma clara exibição de pouco caso. ꟷ E essas coisas da roça é mais importante para você do que pra mim.
ꟷ Vai te catar!
Era clássico dele zombar de mim por ser do interior. Tentei empurrá-lo de brincadeira, mas eu só consegui fazer Danilo dar um passinho desajeitado para trás, que o fez rir. Meu amigo passou por mim, parou ao lado de Lina e estendeu o antebraço educadamente.
ꟷ Vamos, Lina, te pago uma pipoca.
Lina aceitou seu acompanhante sem hesitar. Antes de saírem para as barraquinhas, ela me deu aquele sorriso que uma mãe dá ao filho quando o permite brincar no parquinho. Logo, Iara estava na minha frente com uma mão estendida e apressada, pois a cerimônia estava acabando. Eu agarrei feliz aquela mão e corremos juntos para o meio do povo.
Como eu havia dito, nunca irei admitir que gosto da quadrilha, mas mesmo assim meus amigos sabem.
ꟷ Vamos lá pessoal. ꟷ a professora Welvicha estava de volta com a voz ampliada e anunciou: ꟷ Caminho da festa.
A banda da escola começou tocar a música característica que jamais poderia faltar naquele momento. Os noivos e os padrinhos se posicionaram de braços dados, as damas à esquerda. Atrás deles, aos poucos, a plateia/convidados do casamento se juntavam à fila em movimento.
A dinâmica da quadrilha era muito simples, a professora ditava os passos e nós seguíamos. Balance. Túnel. Coroa de Rosas. Caracol. Um após o outro a dança ia acontecendo ao som da música interminável.
ꟷ Caminho da roça.
Ficamos um atrás do outro, formando uma comprida fila, e os noivos iniciaram a caminhada em um círculo.
ꟷ Olha o dragão!
E virávamos, mudando a direção.
ꟷ Voo para longe.
E retornávamos ao caminho anterior.
ꟷ Agora, vai começar o Grande Baile.
Os pares, que antes estavam enfileirados, se reuniram para simplesmente dançar. Esse era o momento mais descontraído. Os noivos ficaram no centro daquela bagunça organizada de casais ao redor.
Iara pousou a mão no meu ombro enquanto a minha foi para sua cintura. Tendo que ficar cara a cara, acabamos soltando alguns risos desajeitados até acostumarmos. A proximidade era estranha no começo, mas depois foi ficando normal. Iara dançava muito bem o que tornou nossos passos bem naturais. Dançar com ela era fácil e suave. Bem diferente de Cat, que ficava tropeçando em mim.
ꟷ Olha aqueles dois. ꟷ Iara apontou com o queixo o casal alguns metros ao nosso lado.
ꟷ Jesus! ꟷ exclamei e começamos a rir cúmplices de James e Tião.
Pelo que pude sentir quando dancei com James, não dava para esperar grande coisa dele. Não que precisasse de muito, metade dos casais da quadrilha não sabiam ao menos o que estavam dançando e nem por isso deixavam de estar alí. Mesmo assim, continuamos rindo de um James muito rígido sem saber se mover e um Tião feliz demais para se importar com qualquer coisa.
ꟷ Quer arriscar outros passos? ꟷ Iara me perguntou. Até aquele momento estávamos apenas no “dois pra cá e dois pra lá”.
Confirmei acenando e a guiei para os passos na lateral soltando a mão. Repetimos isso algumas vezes, depois um passo atrás e a fiz girar. Iara riu se divertindo me fazendo rir também. Estava funcionando tão bem que arriscamos até alguns passos mais difíceis que conhecíamos.
ꟷ Agora, a Despedida ꟷ a professora anunciou o fim do baile de curta duração.
Ao invés da tradicional fila de despedida, nós paramos onde estávamos, as meninas cruzaram as pernas em um sútil cumprimento com a saia e os meninos tiraram o chapéu. Assim, finalizado, alguns aplaudiram, outros só se retiraram e os padrinhos do teatro tacaram arroz nos noivos. Iara sorriu para cena do seu irmão sendo atacado por uma chuva de grãos brancos.
ꟷ Seu cabelo ta muito legal. ꟷ eu elogiei enquanto estávamos caminhando até Danilo e Lina sentados em um canto.
Os cabelos de Iara, naquela ocasião, caiam azuis pelas costas em milhares de tranças. Desde que consigo me lembrar nunca tinha visto eles tão bonito.
ꟷ Obrigada!
ꟷ Que bonito você dois dançando, em. ꟷ Tião vinha dando uma corridinha até chegar ao nosso lado. James estava um pouco atrás dele e passava as unhas no rosto um pouco frenético.
Eu e a garota lançamos um olhar interrogativo para Tião.
ꟷ Decidiram humilhar todo mundo na hora ou já tava planejado? ꟷ o garoto continuou a provocação.
ꟷ Planejamos é óbvio. ꟷ eu respondi e Iara apoiou a mentira afirmando estivemos ensaiando escondidos durante meses.
Quando chegamos onde os outros estavam, Iara se sentou ao lado de Danilo e o abraçou. Eu fiquei em pé atrás de Lina, pois não tinha mais lugares para sentar. James ficou ao lado de Tião e estava completamente alheio ao que falávamos por causa do incômodo que a barba o causava. Ele passava a mão sem parar no rosto e coçava deixando algumas partes de pele exposta mais vermelha. Pensei em perguntar se estava tudo bem, mas James se encontrava um pouco longe da minha posição e eu precisaria praticamente gritar. Através da minha mão posicionada no ombro de Lina, pude senti-la rir, e acabei voltando minha atenção ao que meus amigos conversavam.
ꟷ ...foi tão divertido. ꟷ Iara estava falando para Danilo.
ꟷ Eu vi. ꟷ ele sorriu para a garota. ꟷ Ficamos assistindo daqui, vocês pareciam meus avós dançando forró.
ꟷ Ei! ꟷ Iara protestou ofendida, mas em seguida não teve argumentos para rebater.
Danilo e Tião começaram gargalhar enquanto Iara os mandava parar e dizia que não era dança de velho. O clima e a conversa estavam divertidos. A gente ria de Danilo tentando afirmar que eu só sabia dançar porque cresci na roça. Não me ofendeu, mas eu ainda ficava indignado, pois minha família era da cidade. Tudo bem que de vez em quando podia surgir uns cavalos vagando na rua de casa. Porém, um desconto? Morávamos num bairro afastado.
Então apareceu Rafael nos fazendo calar com sua presença repentina.
ꟷ Oi. ꟷ ele disse hesitante, ignorando todo mundo e focado apenas em Tião ꟷ Posso falar com você?
ꟷ Me erra. ꟷ o garoto respondeu sem rodeios, sem olhá-lo, sem vacilar.
Tião permaneceu frio como nunca antes e Rafael ficou paralisado onde estava. Um silêncio desconfortável se estabeleceu. Não dava para retomar o assunto anterior e tão pouco começar algo novo com o garoto plantado ali todo esquisito. O primeiro movimento veio de Tião que agarrou o braço de James como se estivessem prestes a recomeçar a quadrilha. Isso foi o suficiente para atrair um olhar raivoso de Rafael.
ꟷ Perdeu alguma coisa aqui, Rafael? ꟷ eu perguntei quando vi que ele estava prestes a dizer algo para James.
Dessa forma, todo aquele ódio se voltou para mim. Dava para ver nos olhos castanhos o quanto ele queria me xingar. Provavelmente, ele iria fazer isso se a nossa amada diretora não tivesse chegado no time perfeito.
ꟷ James! Que barba bonita! ꟷ Paloma falou toda entusiasmada com seu sotaque marcado.
Ela fez um tchauzinho para todos do grupo, mas seu foco estava em James. A presença da diretora fez Rafael sumir em segundos, eu nem vi pra onde ele foi. Logo após também fez James sumir, pois a mulher arrastou ele para longe fazendo perguntas sobre o ano letivo.
***
Não faço ideia quantas horas eram, com certeza bem tarde. No entanto, eram poucos alunos que iam para suas camas. Ver o sol raiá fazia parte da tradição. Pulei os degraus que ficavam na porta do Aloja e entrei no Centrinho. Precisava ir ao banheiro depois de tomar muito quentão (aquela versão sem álcool destinada aos alunos com menos de dezessete anos). Assim que abri a porta do banheiro térreo me deparei com uma pessoa desaparecida, James.
ꟷ Ei, Tião está te procurando.
O garoto havia sumido depois do surgimento de Paloma o que deixou Tião muito aflito por estar sozinho. James estava na frente do espelho segurando sua varinha. Ele coçava o rosto feito um louco e tinha dificuldade de direcionar a varinha no local certo.
ꟷ Lucas, ajuda ꟷ James falou aliviado em me ver ꟷ Consegue tirar isso de mim? Acho que Tião fez alguma coisa errada.
ꟷ Você foi louco de deixar ele transfigurar sua cara. ꟷ falei com uma careta pros pelos que começavam parecer com palha conforme a magia se dispersava ꟷ Vem aqui.
O puxei pela manga da blusa para fora do banheiro. O Centrinho estava deserto, sem uma única alma penada passando. O levei para o sofazinho mais próximo que ficava embaixo de um lampião onde eu conseguiria ver melhor o seu rosto.
Sentamos e peguei minha varinha. Segurei o rosto dele para ficar parado e comecei a desmanchar a magia com cuidado. Foi difícil e quase pensei em sair para procurar Danilo ou Lina, os melhores em transfiguração que eu conhecia. Eu sabia que para os dois desfazer a bagunça de Tião seria simples e rápido. Entretanto, eu já tinha começado o processo então continuei.
Aos poucos aquele trem esquisito foi sumindo e dando lugar à pele irritada que parecia arder. Provavelmente a vermelhidão foi consequência de James não se controlar em coçar o rosto como se quisesse arrancá-lo fora. Passei o polegar sobre um vergão que cortava seu maxilar.
ꟷ Logo, logo esses arranhões somem. ꟷ sussurrei quase que para mim mesmo enquanto continuava passando o dedo sobre a elevação na pele com a esperança de sumir.
James ofegou...eu acho. Foi um som bem diferente do que eu já tinha ouvido vir dele. Isso me fez tirar os olhos da lateral do rosto para encontrar os seus olhos. O castanho esverdeado da íris era uma linha ao redor da pupila grande e evidente. Ele piscou e, contra a iluminação das chamas ao lado, seus cílios brilhavam tão ruivos quanto seu cabelo. O movimento das pálpebras me pareceu lento, quase preguiçoso, e me englobou nessa sintonia.
Me perdi nos detalhes diante de mim. Entre os olhos, descendo pelo nariz e espalhando pelas bochechas haviam incontáveis pintinhas. Era como se alguém tivesse arrastado os dedos pelas cerdas de um pincel e feito espirrar tinta por todo aquele rosto pálido. O impulso que eu tive de tocar cada um dos pingos de tinta e verificar se poderia borrá-los, fez minha mão subir devagar até a bochecha. O ar me faltava com tamanha a minha dedicação em buscar um padrão naquelas manchas.
Senti uma respiração bater no meu rosto e só então percebi o quanto tínhamos nos aproximado. E também acordei para a realidade que as pintinhas possuíam um dono cuja a mão tocava meu joelho dobrado no assento do sofá. Eu não conseguia pensar com clareza, mas conseguia ter noção que James estava a centímetros de mim e me observando.
Os lábios dele se curvaram em um sorriso, aquele que estica o canto da boca sutilmente. Então sua mão, que estava no meu joelho, subiu e parou sobre a minha que tocava sua bochecha. Calmamente, James afastou meus dedos da sua pele e trouxe minha mão para baixo em seu colo. Ele virou minha palma sobre a dele enquanto sua outra mão fechou por cima das duas.
Ele havia se inclinado para trás e eu fiz o mesmo, deixando entre nós uma distância aceitável para respirar adequadamente. Minha consciência estava descendo do universo paralelo dos pincéis e tintas e voltando para realidade. James ainda mantinha aquele sorriso, o qual eu conseguia distinguir incerteza nele, e seu rosto continuava vermelho onde esteve a barba. Seus olhos desceram para as mãos unidas sobre seu colo antes que sua voz mais grave que o esperado chegasse aos meus ouvidos, dizendo:
ꟷ Obrigado!
Como se responde um agradecimento? Eu não lembrava. Não com os dedos dele contornando suavemente meus ossinhos proeminente da mão.
Definitivamente, foi muito para mim. Minha mente já estava no lugar e os últimos acontecimentos me fizeram arregalar os olhos com espanto. Somado a isso, aquele toque insistente, desenhando os traços da minha mão, fez um arrepio percorrer pelo meu corpo. Senti medo, conforto, confusão, afeto... Sem me dar conta, puxei levemente minha mão quando veio a explosão de sentimentos. Isso foi o suficiente para fazer James paralisar qualquer toque.
ꟷ Desculpa! ꟷ ele me deu um olhar apreensivo e desesperado. ꟷ M-me desculpa.
Eu deveria falar, com certeza era o momento de falar. Mas o que eu diria se nada coerente surgia na minha cabeça? Meu silêncio não ajudou e o constrangimento estava crescendo rápido entre nós dois. Então, James se levantou dando fim à situação e correu na direção da escada subindo para os quartos.
Permaneci sentado onde estava, até ignorei que minha bexiga ainda estava cheia e causando desconforto. Não haveria pensamentos coerente da minha parte naquele momento, porque sem dúvida eu estava em pânico!
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