A viagem até Nova Oxóssi foi chatinha e pacata como sempre. Eu, James e Lina caminhamos na trilha ora conversando, ora em silêncio apreciando a paisagem. Chegamos nas canoas, as quais James já não tinha mais medo e não precisava se agarrar em nada. Subimos na cidade flutuante. Os professores anunciaram que estávamos livres para irmos onde quiséssemos e deveríamos voltar às 18h ao ponto de encontro.

Eu, James e Lina caminhamos juntos até a praça do Chafariz e rapidamente localizamos a pessoas que esperavam por Lina.

Não é necessário descrição para imaginar que os familiares de Lina se pareciam muito com ela. Além disso, eles se distinguiam dos demais bruxos caminhando na cidade pela forma que se vestiam e se pintavam ostentando sem medo sua cultura. Eles estavam em quatro, um casal e duas crianças. A mulher era a irmã mais velha de Lina, Maya, enquanto o homem era seu companheiro, a bebê que ela trazia no braço, filha deles, e o garotinho ao lado era seu irmão.

ꟷ Anahí! ꟷ Maya sorriu ao ver sua irmã e a recebeu com um abraço.

Por sua vez, o homem (cujo nome eu nunca lembrava) olhou feio para mim e James. Ele chiou em outra língua e foi repreendido pela mulher. Eu sabia um pouco da língua dos Kapauikos, pois Lina às vezes me ensinava, mas não o suficiente para me permitir compreender o que diziam. De qualquer forma, deduzi que ele estava reclamando sobre Lina se envolver com “brancos”.

Lina teve uma longa conversa com Maya, a qual eu não entendi devido ao idioma delas. Eu e James apenas ficamos ao lado observando, sem ser devidamente cumprimentados por nenhum dos familiares de Lina. Nada fora do habitual. Maya nunca falou comigo, mas pelo menos ela sorria discretamente para mim quando nos víamos.

Atrás dos dois adultos, eu podia ver Anori, o irmãozinho mais novo delas, se segurando de ansiedade para brincar. Ele me olhava sorrindo e eu olhava para ele me comportando para não demonstrar nenhum tipo de interação com o menino enquanto o homem nervoso ainda me encarava de braços cruzados.

Enfim o assunto infinito das duas irmãs acabou e Maya entregou a bebezinha nos braços de Lina antes de sair com o homem para comprarem mantimentos. Assim que os dois estavam longe, Anori deu um abraço apertado em Lina, depois em mim e até em James.

ꟷ Er...ah. Hi! Oi, prazer! ꟷ James gaguejou sem saber como reagir à criança o agarrando.

Anori não se importou em responder, ele era apenas entusiasmado demais e fazia coisas por impulso. Num minuto ele abraçava as pessoas ao redor e no outro corria em direção a água que jorrava do chafariz no centro da praça.

ꟷ O que significa anahi? É uma palavra bonita.

Eu ri que de todas as palavras desconhecidas que foram ditas, James prestou atenção nessa em particular. Talvez porque Maya e Anori a repetiram várias vezes nos últimos minutos. Traduzi o que James falou para Lina e a garota riu também.

ꟷ É meu nome, obrigada!

ꟷ Seu nome? ꟷ os olhos dele se abriram de surpresa e confusão ꟷ não é Lina?

ꟷ Não. ꟷ ela continuou rindo.

ꟷ Lina é abreviação de Acalina. ꟷ expliquei para James ꟷ Todos os filhos do chefe recebem esse termo no nome. Então é como se a chamássemos de princesa o tempo todo.

ꟷ Princess? Eu não sou princesa. Não é assim que funciona para nós. ꟷ Lina negou, atenta ao que eu falava. ꟷ Acontece que Lucas e Cat inventaram de me chamar de Lina no primeiro-ano e agora a escola inteira me chama assim.

James acenou sorrindo e iniciou um questionamento sobre o funcionamento da hierarquia social da tribo. Esse assunto entre os dois não foi longe, pois Naiá, a bebê, começou ficar agitada no colo de Lina e ameaçava chorar. Nós procuramos o banco mais próximo para sentar e, desse modo, Lina poder segurar melhor a menina. Minha namorada ficou no meio enquanto eu e James nos sentamos de cada lado dela.

Logo que sentamos Naiá esticou os bracinhos para tocar em James dando um gritinho. E James fez gracinha de volta para ela, arrancando mais risos da criança.

ꟷ Ela é tão fofa. ꟷ ele disse deixando a menina agarrar sua mão e chacoalhar no ar.

ꟷ Quer segurar? ꟷ Lina perguntou.

ꟷ O quê? Não!

ꟷ Pega. É bom que já vai treinando.

Lina quase jogou a sobrinha no colo de James que, diante disso, foi obrigado a segurá-la.

ꟷ Oi. ꟷ ele disse inserto para a bebê e ela sorriu de novo.

ꟷ Ela gostou de você. ꟷ Lina falou para ele.

James ajeitou a menina nos braços e eu acabei sorrindo com a visão dele aninhando um bebê. Ele parecia muito contente com isso, passado o susto inicial ao ter uma criança empurrada nos braços.

Depois de um tempo, Naiá voltou para Lina e começou a chorar. Lina se levantou e andou em voltas na tentativa de acalmá-la. Como nada adiantou, ela levou a sobrinha até o chafariz e a deixou colocar as mãozinhas na água espirrando.

ꟷ Você já pensou em ser pai?

A pergunta me pegou despreparado e me fez congelar por um momento. Eu não sabia o que responder. No momento eu era novo demais para isso, só que um dia deixaria de ser então poderia ser uma possibilidade. Não é como se eu já tivesse considerado ou contestado a ideia na minha vida. Simplesmente era uma daquelas coisas que você internaliza quando vai crescendo e nunca se questiona.

ꟷ Talvez.

Quando olhei para ele percebi que James deveria estar pensando mais em si mesmo do que na minha resposta. Ele encarava a praça com crianças brincando de cenho franzido e um olhar meio perdido.

ꟷ Você se sairia bem. ꟷ a voz dele saiu rouca e baixa. Em seguida, ele pareceu engolir em seco.

ꟷ Como sabe?

ꟷ Você é um bom pessoa. ꟷ e deu de ombros com um sorriso sutil ꟷ Falei certo?

ꟷ Sim ꟷ concordei, afinal nunca precisava ser perfeito para ser certo.

O sorriso dele se ampliou, seus dentes perfeitos a mostra, com aquele brilho nos olhos que ele tinha às vezes. Ele olhava para mim, aquela alegria era direcionada a mim, e com isso senti meu coração dar um pulso mais forte e meu ventre contorcer. Aquela sensação era quase familiar e principalmente assustadora. Por isso me fez levantar do banco em um pulo agitado.

ꟷ An...e-eu vou...Quer dá uma volta? ꟷ me atrapalhei nas palavras e perguntei a primeira coisa que passou na minha cabeça.

ꟷ E Lina?

James me olhava como se eu tivesse enlouquecido e isso me fez corar de vergonha pela reação exagerada.

ꟷ Vou avisá-la.

Sai correndo na direção da minha namorada que agora brincava com Naiá e Anori sem se preocupar em molhar suas vestes no chafariz.

ꟷ Ei, vou dar uma volta por aí com James.

ꟷ Tudo bem. Por que está assim?

ꟷ Assim como?

ꟷ Ansioso. ꟷ ela me examinou preocupada.

ꟷ Não sei, deve ser o tédio de ficar sentado.

Lina me encarava pouco convencida e eu detestava quando ela fazia isso. Parecia que estava me escaneando inteiro em uma análise minuciosa.

ꟷ Vai com ele então. ꟷ por fim ela me respondeu com um sorriso.

Dei um beijo rápido no rosto dela antes de voltar para o banco onde James ainda estava sentando.

ꟷ Quer ver os botos? ꟷ perguntei sem esperar a resposta dele e comecei andar na direção do Pesqueiro.

Obviamente ele veio atrás de mim, porque eu teria voltado caso ele não viesse. Logo chegamos ao Pesqueiro, onde alguns botos inteligentes e mal acostumados ficavam para receber comida. Debrucei sobre a cerca observando alguns dos lindos mamíferos se aproximarem com a nossa presença esperando ganhar alguma coisa. James imitou minha posição e sorriu para os animais que faziam charme e barulhos bonitinhos. Ficamos em silêncio por um tempo agoniante onde eu não sabia o que dizer e James estava distraído com os animais nadando.

ꟷ Conhece a lenda do boto cor de rosa? ꟷ decidi puxar assunto para quebrar aquele clima que eu tinha criado.

ꟷ Não.

ꟷ Pro mundo trouxa, é a lenda de um boto que se transformava em um homem atraente, encantava as meninas jovens das vilas e as engravidava.

James soltou uma risada estrangulada.

ꟷ Uou! Isso é horrível.

Sim, era horrível. Não tem como discordar então eu ri também.

ꟷ Pois é, o pior é que não é só uma lenda, isso realmente acontecia antigamente. Alguns bruxos tinham esse costume de se aproveitar dos trouxas, nesse caso em especial ele era um animago.

ꟷ Ele não foi punido por isso? ꟷ James fez uma careta para os botos abaixo de nós que continuavam pedindo comida.

ꟷ Não que eu saiba. Isso aqui já foi uma grande terra sem leis. Sei que algumas famílias mais antigas realmente descendentes desse tipo de...sei lá, atrocidade. ꟷ não havia definição melhor na minha cabeça. ꟷ Tipo os Oliveira, eles são uma família relativamente antiga. A avó de Danilo diz que os primeiros antepassados deles foram um animago e uma garota trouxa. Eu não tenho certeza se a garota teve escolha de ficar com o cara ou não. Se tratando dessa época, é difícil dizer.

Aquela era uma história bem vaga e confusa, que Danilo não se importava, mas eu demonstrei interesse quando conheci os avós dele. Por isso sempre que eu passava as férias na casa do meu amigo a vovó Maria me enchia de tudo quanto é história dos antepassados deles.

ꟷ Eu entendo. Nós sempre tivemos leis para impedir interação com trouxas, mesmo assim coisas desse tipo eram comuns antigamente. As leis eram feitas para proteger nosso sigilo e não a segurança dos trouxas. ꟷ James fez uma pausa e eu refleti sobre aquilo percebendo que as pessoas do mundo todo deveriam ser mais parecidas do que eu imaginava ꟷ Sabe, é um assunto complicado. Eu cresci em uma família tolerante, mas pra sociedade bruxa em geral a Inquisição é difícil superar.

ꟷ Isso não deveria justificar mais violência. ꟷ falei indignado.

ꟷ Não! Claro que não. ꟷ James rapidamente concordou comigo. ꟷ Não estou justificando.

ꟷ Eu não gostaria que alguém abusasse de um parente meu simplesmente porque pode fazer isso. Porque pode fazer magia e se acha melhor. Isso não nos torna melhor. ꟷ pensei na minha família e como eles seriam vulneráveis por serem trouxas.

ꟷ Com certeza não. Pelo menos, atualmente muitos bruxos são contra essas ideias de soberania. Hoje somos melhores do que já fomos, e digo sobre ambos os lados. ꟷ ele falou suavemente com um tom otimista que eu não costumava ter do mundo.

Por dentro eu ri ao perceber que minha tentativa de puxar assunto havia gerado uma brisa interessante. Eu gostava de devanear sobre questões históricas e sociais às vezes. Não costumava ser algo que meus amigos me acompanhavam com frequência, eles não se importavam muito com essas coisas. Por outro lado, James tinha completo interesse. Dava ter conversas assim com ele o dia todo e ele sempre teria seus pontos de vistas para expor e argumentar.

ꟷ É engraçado como animagos é uma realidade comum aqui. ꟷ James voltou a falar, me tirando dos meus próprios pensamentos ꟷ Meu avô foi um animago. Quando eu era mais novo achava isso tão incrível.

ꟷ Mas é incrível. ꟷ rebati. Não é porque a prática animaga era recorrente aqui que a tornava ordinária ꟷ Qual animal era a forma dele?

Me debrucei mais sobre a cerca e mirei as águas calmas embaixo. Os botos já haviam desaparecido, provavelmente ao perceberem que não ganhariam nada de nós.

ꟷ Um cervo e... ele era ilegal. ꟷ James contou com um sorriso travesso no rosto que pude ver pelo canto dos olhos. ꟷ Quando meu avô ainda estava em Hogwarts ele tinha um amigo lobisomem, então...

ꟷ Lobisomem? ꟷ o interrompi completamente surpreso ꟷ Um de verdade? Eu nunca ouvi falar de um. Você sabe, na época das ditaduras e todo aquele caos, mandaram exterminar todos.

Essa era uma parte triste da nossa história. Mas a população da época estava totalmente convencida que lobisomens eram a maior ameaça que já existiu ao nosso mundo. Então, isso aconteceu... bruxos matando bruxos em uma confusão sem sentido.

ꟷ Sim, eu sei. Mas na Europa ainda tem alguns por aí.

ꟷ Isso é legal! ꟷ e logo percebi que minha animação podia ser inapropriada ꟷ Quero dizer, eu sei que são perigosos, mas eles também não têm culpa do que são. O amigo do seu avô não machucava as pessoas quando se transformavam?

ꟷ Não exatamente... ele poderia, é claro, não é como se lobisomens tivessem controles durante a lua cheia. Mas pelo que meu pai me contou sobre Remus, ele sempre fez de tudo para não ferir ninguém. Aliás quando meu avô e os outros amigos deles estavam na forma animal eles conseguiam ficar perto de Remus sem serem atacados, até controlá-lo um pouco.

ꟷ Bons amigos. ꟷ comentei sentindo um apreço pelas pessoas que eu nem conhecia.

ꟷ Bom, pelo menos meu avô e Sirius foram bons amigos. ꟷ James murmurou mais para si mesmo.

ꟷ Sirius? Conheço esse nome. Não foi um cara que passou anos naquela prisão de As-As...

ꟷ Azkaban.

ꟷ Isso! E ele conseguiu fugir… ꟷ espiei James rapidamente e vi que ele tinha um sorriso bobo na cara, que me fez revirar os olhos ꟷ Ok, você está fazendo aquela cara.

ꟷ Que cara?

ꟷ A cara de "Oh! Claro que sei, ele era meu vizinho". ꟷ tentei uma imitação do sotaque britânico dele. Saiu horrível e nos fez gargalhar por um longo tempo.

ꟷ Isso foi tão ruim que foi quase fofo. ꟷ James limpava uma lágrima no canto do olho de tanto rir. ꟷ Sirius Black não era meu vizinho, mas foi amigo do meu avô e padrinho do meu pai.

ꟷ Hã?

Me perdi no assunto, é claro. James acabava de me chamar de “cute”, sem mais nem menos, e pelo que sei não existia outra tradução naquela frase senão “fofo”. Eu não tinha tempo para processar aquilo ficando com cara de sequelado na frente dele, então pisquei algumas vezes, e retornei ao que ele falou. Padrinho do seu pai? Sim, foi isso.

ꟷ Ouvi dizer que ele era louco. ꟷ assim que falei percebi que não era o melhor para comentar dos parentes dos outros. Por sorte, James não se importou.

ꟷ Talvez, eu não sei. ꟷ ele deu de ombros ꟷ Meu pai gostava dele. Tanto que também ganhei seu nome.

ꟷ Sirius? Você se chama James Sirius?

Eu só me perguntava como ainda não sabia que ele tinha nome composto, e diga-se de passagem que não combinava em nada.

ꟷ Sim, muito estranho?

ꟷ No geral nomes estrangeiros são estranhos para mim. ꟷ desviei da pergunta, porque eu achei sim um nome estranho. Mas não tinha a necessidade de dizer na cara dele. Quem sou eu pra julgar o nome dos outros?

ꟷ Seria melhor se eu chamasse Tiago?

ꟷ Não, acho que prefiro Jamie mesmo.

Descobri em pouco tempo que nada valia mais apena do usar aquele apelido em todos os momentos oportunos. Por um simples fato, toda vez que eu o chamava assim aquela careta engraçada surgia no rosto dele me fazendo rir.

Notas finais
Olá!! Agradeço pelos últimos comentários e a todos que estão aqui lendo. E Bella, querida ♥ , muito obrigada mesmo pela sua recomendação fiquei emocionadíssima!!! Gente, só um esclarecimento: Eu estava relendo todos os capitulos e então percebi um erro. Como acabei fazendo uma pausa grande antes de retomar a fic, acabei deixando o seguinte erro acontecer. Em um cap mais antigo afirmei que Luca e Iara se tornaram amigos antes de Luca e Danilo. Até ai tudo bem, mas em um cap bem pra frente acabei afirmando o contrário, que Luca e Danilo se tornaram amigos primeiro. Um erro meio bobo, não sei se vocês perceberam (não influencia na trama central). De qualquer forma fica oficialmente sendo: Luca, Iara e Cat desenvolvendo uma amizade enquanto Danilo (por ser colega de quarto de Luca) acaba se entrosando com o grupo um tempo depois. É isso ♥ e já foi corrigido. Bjs, até o próximo. :)