Acordei naquela sábado por volta das 9h. Danilo ainda dormia, em dias sem aula ele se recusava a acordar antes do meio dia. Levantei e fui ao meu armário pegar minhas vestes. Elas eram de um azul suave com detalhes amarelos e a capa cinza, o tecido bastante gasto do uso excessivo. Acontece que eu tinha poucos trajes adequados para serem usados no Mundo Bruxo. A maioria das minhas roupas eram trouxas demais para desfilar por aí e eu jamais usaria meu uniforme da escola sem necessidade.

Desci para o Viveiro de Aves carregando uma carta endereçada aos meus pais. Quando cheguei lá, encontrei com James enviando uma carta também.

ꟷ Oi! Tudo bem? ꟷ James me perguntou em português assim que me viu.

Com nossos encontros na biblioteca ele estava pegando o jeito. O desgramado aprendia rápido, além disso, ele se afeiçoou ao livro do Chico, de forma que até pegou emprestado da biblioteca.

ꟷ Família? ꟷ perguntei apontando a carta. Estávamos nos dando melhor ultimamente.

ꟷ Sim ꟷ ele respondeu com baixo astral.

Inesperadamente ele sorriu e me perguntou como deveria falar para expressar que tinha um problema. Olhei para ele com curiosidade diante da pergunta.

ꟷ O que aconteceu? ꟷ questionei.

ꟷ Bom, minha namorada… ꟷ James hesitou parecendo pensar se deveria me contar. ꟷ Ela esta gravida e meus pais estão furiosos. ꟷ acabou falando com um suspiro.

ꟷ Vish! ꟷ exclamei.

ꟷ Vish? ꟷ ele riu com a expressão.

Ponderei por alguns instantes como deveria reagir ao problema dele. Vendo seu sorriso resolvi dizer algo mais descontraído:

ꟷ No caso desse problema eu diria: deu ruim ou estou lascado.

ꟷ Gostei do: deu ruim ꟷ ele disse com um sorriso franco.

Eu o conhecia a menos de uma semana e já tinha reparado que James sorria o tempo todo. O que não era ruim, já que o deixava com um ar mais descontraído. Bem melhor que a cara de gato assustado e o jeito deslocado que ele tinha nos primeiros dias.

James soltou a coruja, uma tyto alba, para levar sua carta. Ela desapareceu no horizonte. Em seguida eu fiz o mesmo com outra coruja, cuja carta entreguei em seu bico. Fiquei observando a ave voar para longe na direção de onde deveria ficar meu estado. Ela levaria dias para cruzar o país, infelizmente não tinha outra forma de comunicar com a minha família.

ꟷ Meu pai está doente ꟷ contei. Achando justo dizer depois de James ter desabafado sobre o seu problema. ꟷ Ele não está podendo trabalhar e… a situação na minha casa está difícil.

James soltou uma exclamação de consolo. Ou pelo menos era o que eu pensei que significava. Eu nunca tinha escutado aquelas palavras em inglês que ele disse. Então, dessa vez, eu quem perguntou o significado de uma expressão.

ꟷ Nós vamos em Nova Oxóssi hoje a tarde, gostaria de ir? ꟷ o convidei.

ꟷ Que lugar é esse?

ꟷ É uma cidade aqui perto, fica no rio. Está tendo uma feira de artesanatos por causa do feriado, as meninas querem ir para gastar dinheiro. ꟷ expliquei sucintamente.

Considerei que, aquela altura, James já entendia que quando eu dizia "meninas", me referia a Lina e Iara. As visitas em Nova Oxóssi pelos alunos do Castelinho era comum, principalmente em datas festivas. Na real, acho que éramos um dos grandes movimentadores do comércio da cidade.

ꟷ Parece legal. Eu vou. ꟷ James aceitou o convite.

A tarde, ao invés de irmos para o Bandejão almoçar, saímos da escola com meu grupo de amigos e outros alunos, sob a supervisão de alguns professores.

Seguimos uma trilha larga no meio da mata. Em alguns trechos a trilha se transformava em uma ponte para atravessarmos sobre alguns riachos. A caminhada durou um pouco mais de uma hora. No caminho todo James olhava encantado para tudo, ele ficou feliz como uma criança ao ver alguns macaquinhos pulando entre as árvores da vegetação de borda. Ele, ainda, morreu de rir quando alguns dos bichinhos nos tacaram gravetos (O que era um comportamento comum). Danilo riu de James até perder o fôlego depois disso.

Por fim chegamos no final da trilha que dava no rio. As canoas que levavam para a cidade já estavam posicionada nos aguardando. Espiei James esperando a reação dele. Ele estava boquiaberto com a cidade. Eu entendia sua expressão, pois também foi a minha na primeira vez que estive ali.

Nova Oxóssi flutuava nas águas do rio com magia. Tudo nela era uma compilação de madeira e palha: cada casa, passagem e rua. O lugar estava sempre bem enfeitado com flores e artesanatos por todos os cantos. Mas naquele dia, devido a Festa da Luz, a cidade parecia ter levado um banho de cores e brilho.

Entramos na canoa. Cabiam três em cada uma, enfileirados, mais o canoeiro em pé. Lina subiu primeiro, eu me sentei em seguida e James atrás de mim. Nas primeiras remadas do bruxo que conduzia, James se assustou com o balanço da canoa e segurou no meu braço. Me espantei com as mãos dele em mim. Ele estava com medo o suficiente para não perceber que fiquei incomodado com seu toque.

Sem pensar muito sobre, cheguei mais perto de Lina a minha frente e James teve que me soltar pela distância. Vi que suas mãos buscaram a borda da canoa para se segurar. Toquei nos ombros da garota de cabelos escuros e ela olhou para trás sorrindo, devolvi o sorriso.

Quando chegamos, James foi o primeiro a se jogar para o pesqueiro de madeira de Nova Oxóssi. Eu achei graça de como a cara dele conseguia ficar ainda mais branca que o normal. Saí da canoa de mãos dadas com Lina. Aguardamos Iara, Danilo e Naldo desembarcarem também, eles vinham juntos na canoa de trás.

A festa na cidade comemorava a época de passagem da escuridão para a luz… algo assim. Eu não entendia exatamente o motivo de tantas festas nessa época, mas elas sempre aconteciam e estavam lá. Na cidadezinha, totalmente bruxa, faixas decoravam as bordas das casas, a população usava máscaras coloridas e roupas brilhantes ao invés de suas usuais vestes brancas. Alguns ainda estavam pintados das cabeças aos pés com tintas coloridas, a maioria eram crianças.

Fomos em direção as barraquinhas da feira. Iara e Lina logo se enfiaram num estande para ver vestidos e outras roupas.

ꟷ Esse lugar é incrível! ꟷ James admirou tudo ao seu redor.

ꟷ Está com fome? ꟷ Danilo perguntou.

ꟷ Bastante. ꟷ ele respondeu.

ꟷ Que tal bolinho de mendubi? ꟷ sugeri.

Eu adorava bolinho de mendubi e queria, no fundo, que James experimentasse algo que eu gostava. Assim poderíamos achar mais coisas em comum.

ꟷ Bolinho de mendubi. ꟷ escutei ele repetir e sorri com isso.

Compramos um potinho para cada na barraquinha. Eu contei meu dinheiro, tinha o suficiente para pagar o meu e talvez sobrasse um pouco para gastar com uma pulseira comemorativa.

ꟷ Tá de boa? ꟷ Danilo sussurrou para mim.

Ele sabia dos meus problemas pessoais e eu sabia que meu amigo estava preste a oferecer pagar para mim.

ꟷ Tranquilo. ꟷ respondi dando o dinheiro para a senhora da barraca.

Sentamos em uma mesinha perto da barraca esperando os pedidos ficarem prontos.

James e Danilo conversam animados sobre a feira e a cidade. James gostava de fazer perguntas sobre nossos costumes, principalmente os que envolviam tradições históricas. Ele e Danilo se entrosaram muito bem, tipo uma amizade à primeira vista. Dava um pouco de ciúmes da minha parte, pois Danilo era meu melhor amigo ou talvez fosse porque eu não tinha a mesma facilidade de conversar com James.

Quando os bolinhos chegaram, Naldo levantou da mesa e disse:

ꟷ Vou caçar minha irmã. Não sou obrigado a ficar escutando rareu der ichi iu sem entender nada.

Eu e Danilo rimos. James parecia confuso, ele estava com o tradutor, mas duvido que a fala de Naldo tinha feito sentido para ele.

ꟷ Isso é ótimo! ꟷ James disse enfiando um bolinho na boca. Eu sorri contente por ele ter gostado ꟷ O que é isso dentro? ꟷ apontou para a substância marrom claro e pegajosa.

ꟷ Doce de leite e a massa é feita com amendoim. ꟷ respondi.

ꟷ Amendoim? Que combinação louca e incrível.

ꟷ Da onde eu venho quase tudo que comemos tem amendoim ꟷ comentei.

ꟷ Ou polvilho. ꟷ Danilo acrescentou divertido.

Mostrei a língua para ele. Em seguida meu amigo teve que explicar a um curioso James o que era polvilho.

Depois de comermos fomos para as barraquinhas de artesanatos. Haviam vários trens: toalhas, chapéus, amuletos da sorte, esculturas em barros... De tudo, o que James mais gostou foram as flautas e os apitos de bambu. Ele comprou um apito que ao soprar ou puxar a extremidade soava como um passarinho trinca-ferro.

Finalmente eu consegui avistar Lina entre as pessoa. Ela estava nas barracas de brinquedos.

ꟷ Cadê a Iara? ꟷ Danilo perguntou ao aproximarmos.

ꟷ Ela foi com o Naldo na casa da benzedeira tirar o mau olhado. ꟷ minha namorada respondeu.

ꟷ Tsk! ꟷ Danilo reclamou. ꟷ Que coisa! Ela ta ficando paranoica. Acha que ficar benzendo todo dia vai ajudá-la ir bem no Efem. Falta uns nove meses ainda.

ꟷ Deixe-a fazer o que precisa para se sentir confiante. ꟷ Lina repreendeu Danilo.

ꟷ Concordo. ꟷ eu disse.

ꟷ Quem te perguntou? ꟷ Danilo suspirou.

ꟷ Ocê tá brabo, é? ꟷ O provoquei forçando meu sotaque para irritá-lo.

ꟷ Cala a boca! ꟷ com isso ele saiu de perto de nós. Um pouco irritado de verdade.

ꟷ O que é Efem? ꟷ James me perguntou.

ꟷ Significa: Exames Finais de Ensinos Mágicos. É uma prova que basicamente define todo nosso futuro profissional depois do Castelobruxo

ꟷ Parece com nossos NEWTs em Hogwarts ꟷ ele comentou.

ꟷ Carma de estudantes. ꟷ dei de ombros.

ꟷ É! ꟷ James disse em português.

Ele estava gostando de usar nossas monossílabas, aquelas que eram capazes de expressar tantas coisas em pouco som.

Me voltei para Lina e a vi pagar por uma boneca de pano na barraca.

ꟷ Acho que Naiá vai gostar.

Naiá era a nova sobrinha de Lina, um bebê fofo que se tornou o assunto mais corriqueiro da minha namorada. Eu vi que ela segurava uma peteca, provavelmente esse era um presente para seu irmão mais novo, Anori, que estava agindo com ciúmes com o nascimento do novo bebê na aldeia. Lina tinha me contato mais cedo que queria achar um presente para agradá-lo.

Pairei alguns segundos sobre os itens da banca. Eu adoraria ter crescido com a magia ao meu redor e ter me divertido com brinquedos enfeitiçados. Vi um lobo guará de pelúcia, ele não fazia nada, mas era encantador. Se tratando de um item artesanal, ele tinha suas peculiaridades como os olhos um pouco tortos, mas não deixava de ser bonitinho.

ꟷ Hey! O que acha? ꟷ mostrei o lobinho para James.

ꟷ Uma raposa? ꟷ ele cerrou o cenho para o animal de mentira.

ꟷ Na verdade é um lobo. Bom, tecnicamente, não é um lobo também...É só um animal daqui. ꟷ corrigi.

ꟷ Parece uma raposa. ꟷ ele insistiu.

ꟷ Confia em mim, não é uma raposa.

ꟷ Ok. Vai me dar de presente? ꟷ ele me deu um sorriso desconfiado, levemente travesso.

ꟷ Não ꟷ respondi de imediato. Até porque eu não podia pagar pelo brinquedo. ꟷ Pensei no seu filho.

ꟷ Oh! ꟷ ele piscou várias vezes sem reação.

James fechou os lábios com força encarando o bicho de pelúcia. Percebi de cara que tinha pisado na bola com ele.

ꟷ Desculpa. Eu só pensei que... ꟷ não consegui encontrar justificativa.

Na verdade, pensei em nada. Eu não tinha parado para refletir antes de agir. Não levei em consideração que o assunto poderia ser delicado para ele.

ꟷ Tudo bem. ꟷ ele respondeu, mas senti que não estava.

James ficou olhando para o brinquedo um tempo e eu fiquei surpreso quando ele decidiu comprar. Depois disso, não consegui conversar com ele normalmente até a visita em Nova Oxóssi terminar.

Notas finais
Ooi. Espero que estejam gostando. Só queria desabafar que eu deveria estar fazendo um relatório muito importante para entregar amanhã, mas estou aqui escrevendo fanfic *O* kkkkk. Não devo ser nada responsável, socorro.