English Boy
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Parte 1
Tudo bem, eu sabia que não deveria ter feito aquele garoto ser perseguido pelos demoninhos vermelhos. Mas ele mereceu, vai. Marco era a pior pessoa que já conheci em toda minha vida nessa escola. Ele fazia uns trem muito besta, desde brincadeirinhas até humilhar outros alunos. Ninguém o suportava, principalmente eu. O que ele fez com a minha amiga, Catalina, foi a gota d’água.
Pena que a direção da escola não pensava que minha travessura foi um grande feito. Exatamente por isso, que estavam me ‘punindo’ com a função de guiar um aluno de intercâmbio que chegaria em poucas horas. Até que se for refletir, antes isso do que ficar em detenção na cozinha lavando pratos ou pior, ser expulso.
Quando o relógio bateu 15h fui para a sala da diretora Paloma Cuesta. A porta era de pedra dourada com antigas escrituras dos povos nativos, combinava com todo o resto da arquitetura da escola. Empurrei a porta pesada e lá estava minha querida diretora, batendo o maior papo com um garoto da minha idade. Esse deveria ser o garoto que veio da Europa. Ele era bem...como eu diria? Bem estrangeiro, sua fisionomia entregava facilmente que não era daqui. O que mais me chamou a atenção nele foram seus cabelos alaranjados, uma cor que eu raramente via na cabeças das pessoas de forma tão natural.
ꟷ Lucas! ꟷ a diretora exclamou ao me avistar. ꟷ Vem aqui.
Obediente, eu cruzei a imensa sala de pedra decorada com tapeçarias andinas cobrindo as paredes e o chão. Parei perto da mesa, especificamente ao lado do garoto sentado.
ꟷ Esse é o Lucas Silva, ele será seu guia durante o começo do ano. Vai te mostrar toda escola e te ajudar. Mas é claro que qualquer dúvida ou problema você pode me procurar. Certo? ꟷ a diretora Cuesta falou, em inglês, para o garoto.
Eu quis rir do sotaque forte da diretora que a cada “r” rasgava o ar como se ela falasse seu típico espanhol. Mas não ri, é claro, considerei que seria uma imensa falta de respeito. E de encrencas já bastava a última que me meti. Além do mais, o garoto parecia entender o que ela dizia.
ꟷ Lucas, esse é James Potter. ꟷ fomos oficialmente apresentados.
ꟷ Oi! ꟷ eu disse naquele língua e sorri para ele por educação.
James não sorriu, apenas me espiou brevemente e maneou a cabeça. Ele logo voltou-se para a diretora que continuava a falar comigo:
ꟷ Como te expliquei: Ele vai ficar um ano conosco e quero que o ajude a se familiarizar com a estrutura e a organização do Castelobruxo. Aqui estão os horários dele. ꟷ ela me entregou o pergaminho com uma tabela de horários semanais.
ꟷ Ok ꟷ respondi.
ꟷ Tem mais perguntas, James?
ꟷ Não, senhora. ꟷ ele respondeu com um sotaque que identifiquei como britânico
Eu já sabia de onde ele era, mas foi interessante reconhecer. A única pessoa do meu conhecimento, até então, que pronunciava as palavras daquela forma era meu amigo Danilo.
ꟷ Então um elfo irá deixar suas malas em seu quarto. Vocês estão dispensados. ꟷ a mulher deu seu típico sorriso carinhoso para James, enquanto, eu ganhei um gesto de “estou de olho em você, Lucas”.
Nós saímos da sala da diretora, ficava no quarto andar. Seguimos em silêncio por um amplo corredor que acabava na Grande Escadaria. Ela era toda de pedras, adornada com trepadeiras floridas em alguns pontos, e conectava todos os andares do imenso Prédio Principal. Iniciamos a descida dos degraus, James examinava tudo em volta curiosamente. De repente ele estancou espiando para um grande arco na parede dando vista para o exterior, até poderia se chamar de janela se não fosse um buraco tão grande.
ꟷ O que é aquilo? ꟷ ele me perguntou apontando um bicho empoleirado em um pilar.
ꟷ Uma ave ꟷ respondi simplesmente.
ꟷ É mágica? ꟷ vi que ele não aceitou muito a minha resposta.
ꟷ Só uma ave.
ꟷ Ela é diferente. ꟷ ele se justificou.
ꟷ É uma arara, tem muitas por aqui. ꟷ expliquei.
James passou as mãos pelo cabelo e continuou olhando o bicho até ele voar. Então eu desci uns dois degraus na frente, esperando que ele me seguisse. Quando estávamos chegando no terceiro andar, escutei a voz dele novamente:
ꟷ Da onde você é?
Estranhei a pergunta, pois achava que fosse bem óbvio a minha origem.
ꟷ Daqui mesmo, por quê?
ꟷ Ah! Nada. É só que você fala muito bem minha língua.
Ninguém nunca tinha me dito isso antes. Na verdade, era até muito raro eu precisar usar esse idioma. Geralmente eu só falava inglês com meu amigo Danilo, porém, sempre em situações lúdicas para passarmos o tempo.
ꟷ Obrigado! ꟷ agradeci e recordei do sotaque da diretora Paloma ꟷ Você entendeu algo do que a diretora te disse?
ꟷ Ah, sim…. mais ou menos…. algumas partes.
Foi uma gradação engraçada que me fez rir silenciosamente. Aparentemente ele precisava mesmo de ajuda.
ꟷ Talvez se tivesse usado o tradutor teria entendido melhor. ꟷ brinquei apontando o artefato mágico nas mãos dele
O objeto era feito de metal, fino e em forma de arco. Deveria ser encaixado na parte superior da orelha. Um tradutor tinha a óbvia função de traduzir idiomas, ele era encantado para identificar o idioma ao seu redor e sussurrar na orelha do usuário, simultaneamente, a tradução.
James sorriu com a minha piada sobre o sotaque da diretora, mas sem comentar nada.
Chegamos no final da Grande Escadaria, pulei os dois últimos degraus aterrizando no amplo saguão térreo. Tirei os horários dele do bolso para das uma olhada. Suspirei, pois eram iguais aos meus, todas as aulas incluindo as opcionais. Parece que ele estaria sempre no meu pé aquele ano.
ꟷ Eu tentei aprender um pouco de espanhol antes de vir para cá. Espero não precisar muito disso. ꟷ ele comentou do nada, animado, me mostrando o tradutor.
ꟷ Legal! Só que você vai fazer aulas com a minha turma e nós falamos português, cara.
Não vou mentir que senti um prazer cruel em dar aquela notícia, porque esse costumava ser o erro de metade do mundo que não sabia nada sobre a América Latina.
ꟷ Sério? ꟷ ele pestanejou como se tivesse levado um susto.
ꟷ Sim.
ꟷ Oops! ꟷ James fez uma careta e coçou atrás da cabeça.
ꟷ Se quiser pode ver se a diretora Cuesta te transfere para a turma dos outros países. ꟷ eu sugeri.
ꟷ Não, tudo bem, eu que escolhi essa turma. Acho que só me confundi um pouco. ꟷ ele deu um sorriso amarelo.
Guiei ele para fora do Prédio Principal pela saída oeste. O grande arco da saída dava direto em uma área gramada. Dali, onde estávamos, era possível avistar o campo de quadribol bem distante à esquerda, as estufas de Herbologia a direita e à nossa frente um outro prédio quadrado, menor que o Principal.
ꟷ Aquele é o alojamento, o chamamos de Aloja. ꟷ apresentei o lugar, apontando o prédio em frente.
ꟷ Fica meio...afastado
ꟷ Sim, é ruim quando chove e você tem que correr para aula. ꟷ concordei com ele
ꟷ Aqui chove muito?
ꟷ Cara, estamos no meio da Amazônia ꟷ eu ri com a pergunta dele.
Atravessamos o gramado até o Aloja. Em frente a grande porta de entrada, que normalmente ficava aberta, haviam três degrauzinhos safados que viviam fazendo alguns alunos tropeçarem. Entramos no saguão do alojamento, por dentro ele era bem colorido de decorações. Haviam mesinhas de estudos em alguns cantos, bancos, sofás, pufes, almofadas e tapetes fofinhos. Nas paredes, pilares ou presos no teto haviam bandeiras de vários países e dos times de quadribol da escola. Alguns alunos, uns gato pingado, ocupavam o lugar fazendo exatamente o que expliquei a James a seguir:
ꟷ Esse é o Centrinho, funciona como uma área comum de todos da escola. Você pode estudar, ler, conversar ou só passar o tempo por aqui.
ꟷ Confortável.
Cruzamos o saguão, atraindo alguns olhares curiosos para James, em direção a escada que levaria aos dormitórios. Em cima da escada penduraram uma tapeçaria bordada com o brasão da escola. Subimos os degraus e topamos com uma menininha do primeiro ano correndo, ela quase estatelou no chão quando tropeçou em nós.
ꟷ Cuidado! ꟷ a adverti.
ꟷ Discúlpame!
Ela arregalou os olhinhos escuros quando viu o bordado dourado na minha capa. Ele era uma letra ‘R’ azul turquesa dentro de uma estrela brilhante. Normalmente os mais novos sentiam muito medo dos Representantes, pois achavam que seriam advertidos por qualquer erro. E eram, sei disso por experiência própria de quando entrei na escola. Falávamos muito mal dos Representantes nos primeiros anos e então, ironicamente, me tornei um.
Analisei a menininha, apenas esperando receber a ficha vermelha por correr na escada. O que era sabidamente proibido, pois havia uma plaquinha bem ao lado dizendo tudo que não podíamos fazer no Aloja. Eu me virei, continuei subindo com James e a deixei para trás sem nenhuma ficha.
ꟷ O Aloja tem sete andares, um para cada ano, então o nosso é o sétimo. ꟷ expliquei a ele.
ꟷ Vocês separam os alunos em casas ou algo assim?
Precisei pensar um pouco para entender sobre o que ele estava falando, então me lembrei o que ele quis dizer com “houses”:
ꟷ Casas? Como fazem em Ilvermorny? ꟷ questionei para me certificar que havia entendido.
ꟷ Sim. Em Hogwarts também fazem assim.
ꟷ Bem, aqui não temos casas. A única separação são as aulas dos castelhanos dos brasileiros, por questões linguísticas.
ꟷ Castelhanos?
ꟷ Os alunos dos países hispânicos da ULAM. ꟷ assim que falei o observei. E pela cara dele confirmei, que provavelmente, ele não entendia bulhufas do nosso governo mágico. ꟷ Que falam espanhol. ꟷ complementei.
ꟷ Ah! ꟷ agora ele parecia esclarecido ꟷ Só o Brasil fala português?
ꟷ Basicamente.
ꟷ Por quê? ꟷ James franziu o cenho ao perguntar. Pelo jeito ele ainda não tinha se conformado com a descoberta.
ꟷ Longa história. ꟷ respondi. E era mesmo, cinco longos séculos de muita história.
Finalmente chegamos no último andar. A escada terminava em um corredor central que se bifurcava em mais quatro corredores, dois para cada lado.
ꟷ Do lado direito fica os quartos dos meninos e na esquerda das meninas. ꟷ apontei os lados, mostrando.
Pigarreei, a apontei uma placa na parede para ele e li, traduzindo:
ꟷ Atenção! É proibido: Correr; Fazer barulhos em excesso; Andar nu nos corredores; Fazer poções nos quartos; Duelar nos corredores; Voar nos corredores; E meninos nos aposentos ou banheiros femininos, vice-versa.
Pelo canto do olho vi James rir na parte de andar nu...Acredite, seria mais engraçado se não acontecesse de verdade.
ꟷ Tem algum tipo de feitiço nas portas que impede outros de entrarem? ꟷ James me perguntou.
ꟷ Tem um que só permite as portas serem abertas com as chaves dos quartos, nenhum feitiço é capaz de destrancar.
ꟷ Mas nada impede, por exemplo, se uma menina quiser deixar um garoto entrar no quarto?
ꟷ Não. ꟷ dei a ele um olhar desconfiado com a pergunta. ꟷ Mas é proibido, então te punem se for pego. De qualquer forma, não quebre nenhuma regra. ꟷ falei em tom de aviso, afinal era minha função como um Representante chato.
ꟷ Claro. ꟷ ele balançou a cabeça, aparentemente entendendo o meu alerta.
ꟷ Você tem a chave? ꟷ perguntei a ele.
James me estendeu a chave feita de cobre e amarrada a uma etiqueta. O número do quarto dele era 352, ou seja, segundo corredor a direita e quarta porta a direita também. O dormitório dele ficava bem próximo do meu.
ꟷ Vai dividir quarto com o Tião. ꟷ anunciei o nome do colega de quarto dele.
ꟷ Você o conhece?
ꟷ Sim, é meu amigo.
Parei em frente ao quarto 352, enfiei a chave no tambor da fechadura e abri. Estava vazio desde o início da semana, Tião passava o feriado de Fevereiro em casa com a família. Mesmo não estando ali, o lado da cama dele estava uma bagunça de livros jogados no chão e pergaminhos. Do outro lado, o direito, as malas que deveriam ser de James já haviam sido entregues.
ꟷ No final do corredor fica o banheiro masculino. ꟷ apontei a direção.
Dei um passo dentro do cômodo, para James conseguir entrar. Ele parou entre as camas, analisando tudo ao redor. Os quartos eram todos iguais no Aloja. Sempre tinham duas camas feitas de pedra, mas com colchões fofinhos embrulhados em lençóis verdes, colocadas em posições opostas. Duas escrivaninhas, uma para cada lado. Dois armários e dois criados mudos, seguindo a mesma divisão. No centro do quarto, entre as camas havia uma janela coberta por cortinas verdes.
ꟷ Não deve ser tão bonito quanto Hogwarts, imagino. ꟷ comentei diante da expressão indecifrável que ele fazia para o quarto.
ꟷ Oh é ótimo! Só é diferente. Parece ter mais privacidade que em Hogwarts, lá dormimos em cinco ou mais em um único quarto. ꟷ James falou sorridente.
ꟷ Eu vou deixar você organizar suas coisas. O jantar é servido das cinco às sete horas, então me encontre no Centrinho por volta das seis. ꟷ dei as últimas instruções antes de sair do quarto.
ꟷ Ok.ꟷ James respondeu. Já estava debruçado sobre suas malas para desfazê-las.
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