Engel
1 Único
Notas iniciais
A garganta estava seca, ele havia corrido mais do que as pernas pareciam suportar e quanto mais dor sentia, mais corria.
O coração acelerado, o oxigênio faltando e o tênis desamarrado, se corresse mais acabaria caindo. Seria um grande vexame, mesmo já não tendo mais ninguém por perto.
Ele parou ofegante, caminhava lentamente agora, pensava nos olhos. Na primeira vez em que viu aqueles olhos.
Eram castanhos, mas não um castanho comum, eram profundos, calmos e ao mesmo tempo atrevidos. O olhar penetrava seu ser e perfurava sua alma.
Depois reparou no sorriso, no dente levemente torto que exibia, era um charme perigoso. E as maçãs do rosto que se impunham, sentia vontade de cravar seus dentes ali. Os lábios eram finos e ainda assim eram traiçoeiramente atrativos, cada palavra que saia dali era suave.
Ele reparou nos cabelos também, eram castanhos com cachos tão perfeitos, parecia um anjo como aqueles que via nos vitrais da igreja.
Os braços, as mãos, as pernas e tudo mais, não sabia como se comportar diante de tanta perfeição.
E quando teve sua primeira oportunidade de falar em meses tudo o que conseguiu pronunciar foi um ‘não.’
“Você fez a tarefa que a professora passou para hoje?” “ Não.”
E quando o sinal tocou seu coração ainda batia, parecia desesperado, parecia que jamais iria parar de perfurar seu peito daquela forma.
Então ele correu, até onde ninguém pudesse vê-lo, correu para comemorar sua vitória, uma palavra havia sido direcionada à ele. Sua voz suave havia se pronunciado para falar com ele.
E tudo o que ele disse foi ‘Não’. Não.Não.Não.
Aquele amor não era para ele. Não.
Em sua alma ele lamentava, mas sabia que tinha que enfrentar o fato de que talvez aquele anjo não fosse feito para ele amar, que talvez seu amor jamais fosse aceito.
Dilacerava sua alma saber que Miguel jamais pertenceria a Gabriel.
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