Engano

1 Parte um.


Notas iniciais
Então, eu acabei por dividir a oneshot que eu tinha feito porque a estava achando grande (pelo menos, para os meus padrões q). Demorei umas três madrugadas escrevendo isso + uma noite, espero que tenha ficado razoável de ler. q

— Karamatsu! — Osomatsu disse de forma despreocupada, enquanto se jogava sobre o irmão.

— O que foi, brother? — Karamatsu disse, tirando o espelho de perto de seu rosto e focando no outro.

— Hoje você me conta, não é? — Seu sorriso não diminuiu, mesmo ao ver a expressão confusa de Kara. — Há um tempão que quero saber disso e quando te pergunto você não faz nenhum sentido! Falando sério: ‘tá saindo com o Ichimatsu ou não?

Oso já o havia perguntado aquilo antes. Quando houve os problemas com a independência deles, as perguntas pararam. Contudo, vieram com tudo quando voltaram a morar juntos. Entretanto, diferente das outras vezes, todos os irmãos estavam no quarto. Naquele momento, a indelicadeza de Oso quanto a local e hora para tocar em alguns temas beirou ao ridículo.

Choromatsu não respirava. Por isso, Ichimatsu acabou por usar seu brinquedo de gato no nariz dele para que espirrasse e voltasse a si, o que não foi agradável para nenhum dos dois. Todomatsu ficou um tempo com um olhar neutro na tela de celular para então continuar com um olhar neutro, só que dirigido aos dois mais velhos do quarto. Jyushi olhou também. No entanto, não muito tempo depois voltou ao desenho que fazia.

No silêncio mortal que se seguiu, pode-se ouvir bem o som do espelho de Kara se quebrando ao tocar ao chão, quando o dono esqueceu em sua surpresa que ainda o segurava. Kara segurou um grito e Oso acabou por exclamar um “Ops”. Era algo fora de seus planos.

— Osomatsu. — Kara disse aquele nome pausadamente, uma irritação transbordando em sua voz.

— Ora, eu compro um novo se você quiser. — Oso disse, vendo como o outro se virava para ele com os olhos um pouco hostis demais. Então, fez aquela proposta com as mãos em frente ao corpo, em sinal de rendição. — Não precisa ficar zangado...

— Tudo bem. — Kara disse em um tom aborrecido. — Mas ainda temos que conversar. Lá fora.

— Uhum, claro, eu já ia sugerir isso! Vamos? — Osomatsu disse, sabendo que era melhor seguir o ritmo do outro se tinha alguma esperança de conseguir a resposta que queria.

Quando os dois desceram as escadas para a saída, Ichimatsu viu como todos soltaram o ar que seguravam, menos Jyushi que estava em seu próprio mundo mais que o normal.

— O que foi isso, hein? Osomatsu-nii-san tem cada ideia... — Todomatsu disse, balançando a cabeça em negativa.

— Talvez ele tenha chegado no seu limite de tédio... é uma possibilidade. — Choromatsu disse com um suspiro, antes de voltar ao jornal que tinha em mãos para buscar empregos.

— Verdade. — Jyushi disse, sem prestar atenção na conversa, e Ichi não deixou passar isso também.

— O que está desenhando, Jyushimatsu? — Ichi espiou por cima do ombro do irmão.

Jyushi foi rápido em bloquear a visão do irmão mais velho, colocando as mãos sobre o pedaço de papel. Ainda havia um sorriso em seu rosto, só que o tom que veio de sua voz foi mais agressivo:

— Não está pronto ainda!

— É só uma olhada rápida, não precisa ‘tá perfeito. — Ichimatsu fez uma tentativa.

Para a surpresa de todos, Jyushi entrou em seu modo analítico, em que usava para investir em ações. O de moletom amarelo balançou a cabeça em negativa antes de dizer naquele tom mais sério e afiado:

— Você não entende Ichimatsu-nii-san. Tenho uma reputação a manter.

Dessa forma, Jyushi pegou os materiais que precisava e saiu do quarto. Provavelmente tinha ido para o sótão, onde fazia as coisas que não queria que os outros soubessem.

— Está bem... então não é só o Osomatsu-nii-san que está estranho. — Choromatsu disse, franzindo as sobrancelhas.

— Karamatsu-nii-san também estava uma fera. — Todomatsu fez questão de lembrar.

— Bem, acho que você também ficaria se quebrassem seu smartphone. — Choromatsu disse, pensando um pouco. — O que acha Ichimatsu?

Nem Todomatsu, nem Choromatsu sabiam sobre a confusão daquele dia. Ichi tinha suas dúvidas quanto a Jyushi, pois aquela pessoa era bastante imprevisível. Podia ou não saber, dependia de sua sorte ou azar. Contudo, não o temeria no momento quando nada disse aos demais.

Dessa forma, ficavam aqueles dois que, como não sabiam, foi mais simples definir aquela conversa de Oso como absurda. Ichi não afirmaria diferente da versão que criaram, uma vez que preferia morrer a ter que contar a eles que um dia Oso tinha flagrado ele e Kara seminus.

— Não acho nada. — Ichi disse com um tom meio morto. — Osomatsu-nii-san e o Kusomatsu que resolvam o que tenham que resolver.

— Vamos, Osomatsu. Já disse que não ia fazer nada, não precisa ficar nervoso. — Kara assegurou, apesar que seu tom continuava sério.

— Eu sei disso. Só estou com frio, não está sentindo nada? — Oso reclamou.

— Estou congelando. — Karamatsu admitiu. — Mas é melhor assim, não quero ter que conversar isso na frente de nossos brothers.

— Ah. — Oso disse, finalmente entendendo o ponto daquele receio. Colocou uma das mãos na nuca, constrangido, antes de continuar. — Quer dizer que eu não preciso mais comprar o espelho?

Kara poderia ter reclamado, mas apenas ficou batendo um dos pés no chão, expressando impaciência. Oso franziu as sobrancelhas para aquilo. Poderia ter debatido a respeito de opções mais interessantes de desperdiçar o seu dinheiro como, por exemplo, o pachinko. Porém, no fim deu de ombros. Em um tom despreocupado, só que ainda incentivador, disse:

— E então?

—... one moment. — Kara disse, e pegou a caixa de cigarros e o isqueiro que trazia consigo. Então, trouxe um dos cigarros aos lábios. Todavia, quando ia acender o isqueiro, Oso o parou, tomando o item para si.

— Deixa que eu faço isso. — Oso disse com um sorriso.

Kara viu como Oso tentava ascender o isqueiro. Quando conseguiu, o inesperado: as chamas vieram altas perto de seu rosto, só que principalmente das roupas do primeiro irmão. A conversa teve que parar ali, antes mesmo de começar, pois o incêndio não parecia que ia terminar tão cedo. Os gritos de Oso chamaram a atenção dos demais irmãos, que foram ajudar como podiam.

Por isso, sem contar o fato de que Oso teve que dar entrada no hospital, a noite seguiu tranquila. Karamatsu e os outros irmãos não vieram visitá-lo durante a semana por mil e uma desculpas, mas Oso entendia os irmãos, porque ele mesmo teria preguiça de fazer isso. Contudo, mais do que qualquer coisa, passar aquele tempo deitado em uma cama era entediante demais.

Oso preferia agir, mas como isso não lhe era possível no momento acabou por se aventurar em algo que não fazia com frequência: pensar. E não foi muito difícil pensar em um tópico que o interessasse. Karamatsu, aquele dia, aquela decepção...?

Primeiro de tudo, nada daquelas 24 horas lhe pareceu fazer sentido: com a sorte que sentia quando acordou, não havia como não tivesse ganhado um iene sequer no pachinko. Karamatsu tinha aquele comportamento que não parecia certo. Então veio aquela declaração. E “não era uma piada”. Só que teve aquela situação com o Ichi, e tinha uma boa memória quando queria. Kara e Ichimatsu. Aquilo não saía de sua cabeça não importasse se pensasse nisso ou não.

Oso estava louco para saber aquela verdade. Kara às vezes lembrava da declaração, às vezes não. O nervosismo e incerteza em Kara em todas as vezes que perguntou lhe fazia duvidar do que era certo. Excluindo a última vez, pois até Oso podia perceber que devia estar pressionando muito. Quanto a Ichimatsu, não estava nem um pouco inclinado a cooperar com ele. Poderia até dizer que Ichi tinha se fechado mais do que naturalmente era.

Estava chegando ao seu limite, não podia viver mais tempo com aquela dúvida. Tinha que saber se era mais uma causa perdida ou não, porque se Kara realmente o amasse como o irmão havia dito tinha que tomar umas providências sérias, como irmão mais velho e futuro amante. E qualquer que fosse a resposta de Kara, Oso sabia que sofreria de alguma forma.

Sinto muito

—... aprecio seus sentimentos. — Choromatsu havia lhe dito com um sorriso triste. — Mas você sabe que isso não daria certo, Osomatsu-nii-san.

Oso gostaria de ter perguntado o motivo para Choro ter aquela opinião. Era porque não gostava dele da forma como Oso gostava? Ou tinha medo do que podia acontecer mesmo que se sentisse como ele? Só que Oso não conseguiu trazer aqueles questionamentos a luz, pois aquelas palavras do outro lhe pesaram como se houvesse metal em seu estômago.

Tentou sorrir, mas o que saiu disso foi algo quebrado com risadas de dar pena. Choromatsu ainda lhe disse algumas novas palavras, possivelmente de conforto. No entanto, isso era tudo o que ele não queria ouvir. E não ouviu, uma vez que anulou tudo e fez de conta que aquilo era apenas um conto de fadas cruel, que se desintegraria de seu cérebro quando atingisse seu sono.

Irmãos tinham aquela ligação incrível que até nos melhores casais poderia faltar: não só não se quebraria nem após a morte como era uma ligação que existia desde o nascimento. Sendo gêmeos então: ele poderia se olhar em um espelho e ter a ilusão de que era acompanhado a todo momento por aquela pessoa, mesmo que isso não fosse possível. Dessa forma, Oso nunca se sentiria sozinho.

Mas por isso mesmo, por essa ligação ser tão incrível, que não lhes permitiriam, não a maioria, a atravessar a linha que Oso almejava. Era uma situação conflituosa em que estava: ele gostava de ser irmão de Choromatsu, ter aquele papel de cuidar dele, apesar de tudo. Só que em algum ponto aqueles sentimentos apareceram, e se juntaram ao que já havia antes. Não queria deixar de ser irmão dele, mas também não queria aquela rejeição.

Principalmente, não queria aquela rejeição. Chegava ao ponto de que Oso podia mesmo considerar quebrar aquela relação em pedaços para ter Choromatsu para si. Mesmo que essa nova relação que almejasse fosse vista como imprópria, Oso poderia fazer aquele esforço por eles, mas a questão era que Choro não queria que ele fizesse isso fosse qual fosse o motivo.

Oso nunca tentou procurar a fundo as motivações do outro. Queria manter apenas aquelas últimas palavras, porque Oso não era forte o suficiente para tomar a iniciativa se a declaração de seu amado era ambígua, pois ele não sabia lidar com isso.

Não sabia lidar e a ambiguidade aparecia outra vez para acabar com sua sanidade. Oso não esperava estar vivo para ver um de seus irmãos se declarar para ele como uma vez fez. Entendia até então que era o único que devia estar podre o suficiente para pensar em algo assim. Só que isso aconteceu, e tinha logo que ser Karamatsu. Dessa vez, tinha que saber, pois apesar de ter feito sua escolha, ainda se arrependia. Também, devia a Kara essa atenção especial.

Era por causa dele que sua mente não tinha ficado tão vazia quanto achava que tinha.

—... não pode ser o irmão mais velho. — Kara tinha lhe dito. O punho dele tremia para segurar a irritação que continuava ali. A expressão era intensa.

Oso tinha uma sombra em seu rosto naquele momento. Mantinha um sorriso enquanto massageava a bochecha que tinha levado o golpe do outro. Disse em um tom humorado:

— Por que não? Eu só estava tentando ajudar, apenas isso.

— Ajudando-o a pular? Como pensou que algo assim pudesse ser bom? — Kara fraquejou em suas palavras, sem motivação para prosseguir. — Se algo pior tivesse acontecido...

—... ele teria conseguido o que queria. — Osomatsu disse, repentinamente sério. — Essa decisão é dele, Karamatsu. Como um bom irmão mais velho que é, você devia entender isso.

Viu como algumas gotas de sangue escorriam do punho de Kara, por estar fechando as unhas na palma com mais força do que deveria. O segundo mais velho apenas percebeu isso quando Oso se levantou de onde estava e se aproximou dele, para então pedir para ver o ferimento. Então, Osomatsu apertou o machucado com o lenço que tinha consigo.

— Você disse que eu podia contar contigo, Karamatsu, aquele dia. — Oso disse, olhando de forma demorada para o lenço na mão de Karamatsu, que parava o ferimento.

— Aquela era uma situação diferente. — Kara disse mais calmo, só que ainda com desconforto. — Se acredita mesmo que a decisão é do Ichimatsu, não interfira dessa vez. Devia acreditar mais nele.

Como eu acreditei e acredito em você e como você acredita em mim, não é?

Kara viu Osomatsu em um canto isolado do auditório, sem estar prestando atenção ao que era dito no ensaio. De início, Kara achou que se tratava de Ichimatsu pela atmosfera depressiva que sentia. Contudo, ficou surpreso ao notar que havia se enganado e ainda mais por ser Oso.

— Qual o problema, Osomatsu-nii-san? — Kara perguntou em um tom confuso.

— Ah, não. Só por hoje sem esse honorífico, Karamatsu. — Oso disse, encolhendo-se mais em seu canto. — E eu não quero falar sobre isso.

Karamatsu franziu as sobrancelhas. A confusão aumentou junto com a preocupação.

— Tudo bem. O que preferir... logo vou ser liberado. Então, se me esperar um pouco mais, podemos voltar juntos. Se quiser.

Oso apenas fez um movimento com a mão para que o outro se apressasse em sair dali, e Kara tomou aquilo como uma concordância. Momentos depois, estavam caminhando ao lado do outro. Karamatsu tinha um sorriso em seu rosto, pois havia feito uma atuação satisfatória aquele dia, e Oso estava um pouco menos sombrio, contagiado pelos ganhos do dia do irmão.

Talvez Oso pudesse ter aproveitado mais a apresentação se não entendesse que o empenho extra era para vê-lo fora daquela atmosfera em que se enquadrou. Como sabia disso, o riso ficava menos espontâneo, porque se via na obrigação de fazer o plano de Kara dar certo. Quer dizer, Oso se via na obrigação de ficar feliz não apenas pelo irmão, mas por si mesmo. Se ele ficava triste, não sabia como lidar com isso.

Oso sempre teve o dever de ser o pilar mental dos outros, acabando por não entender como fazer isso a si próprio, pois nunca teve tempo de pensar nessas coisas, ou não queria pensar. Ele devia ser o modelo para os demais irmãos, liderar, então Oso teria de estar certo. Detestava rejeição, pois isso era contra o que ele deveria ser.

Todavia, tinha acontecido o que mais temia. O amor estava ali, certo, só que não havia uma destinação para ele. Não poderia fugir daquela verdade, não importasse quantos mangás lesse. Não estava chorando, tinha certeza disso, só que Kara ainda lhe estendeu um lenço, em um tempo que não soube precisar, com as bochechas vermelhas.

— Você joga sujo. — Oso disse, meio contrariado, enquanto sentia seus olhos começarem a arder. Não demorou a usar o lenço que Kara lhe ofereceu.

— Você não me deixou escolha, Osomatsu... — Karamatsu disse com um sorriso — tem problema se eu continuar te chamando assim?

— Tem sim. Sou seu irmão mais velho. — Osomatsu disse como se fosse óbvio. Secava as lágrimas com o lenço antes que chegassem perto de sua bochecha, porque seria problemático se isso acontecesse.

— Por um segundo. — Kara fez questão de lembrar — E nesse momento você parece mais meu irmão mais novo que o mais velho.

— Hã? O que quer dizer, Karamatsu? — Osomatsu questionou entre um tom indignado e confuso.

— Você está me parecendo o Todomatsu. — Kara disse nervoso de início, mas depois mantendo o tom firme. — Ele está ficando melhor em esconder, mas ainda é um bebê chorão quando dá algum deslize.

— E o que acha que devo fazer com essa comparação? — Oso disse em um tom sarcástico.

— Quero que entenda que pode contar comigo, como faz o Todomatsu, quando sentir que não consegue mais lidar com isso sozinho. — Karamatsu disse com um sorriso. — Não acha que é bom motivo para não te chamar com o honorífico?

Aqueles honoríficos, que mostravam aquela relação de irmãos de forma tão evidente, poderiam atrapalhar. Osomatsu entendia bem isso.

— Tudo bem..., mas nem pense em voltar atrás!

— Eu não vou. Na verdade, nunca entendi direito o porquê de começarmos a usar esses honoríficos. Você sempre foi um irmão de merda agora e antes Osomatsu.

— Espera...! Esse comentário foi mesmo necessário? — Osomatsu disse meio ferido.

— Ah, com certeza foi. It wasn’t a mistake. — Karamatsu disse com uma risada sonora.

Osomatsu ouviu o outro aborrecido, até notar que as lágrimas tinham parado. Mais tarde, quando nenhum dos irmãos estavam olhando, tentou devolver o lenço ao segundo mais velho. Kara não lhe permitiu a devolução, uma vez que disse que era uma lembrança. Osomatsu acabou por sorrir. Podia contar com Karamatsu. Não estava sozinho.

Notas finais
Até ~