EndGame
10 Nível IX. Fácil
Notas iniciais

"Nós tomamos diferentes rumos e viajamos por diferentes estradas
Eu sei que sempre vamos acabar na mesma quando estivermos velhos
E quando você estiver nas trincheiras
E estiver sob o fogo, eu te darei cobertura
Se eu estivesse morrendo de joelhos
Você seria aquele que me salvaria
E se você estivesse afogado no mar
Eu te daria meus pulmões, para que você pudesse respirar
Eu estou com você, irmão"
Brother – Kodaline
REY
SE me lembro bem, a última vez que o vi joguei um tamanco na direção dele. Não foi o melhor dos meus momentos, é um dos erros que me envergonha e assombra de madrugada. Fui temperamental e levemente imatura, o que é compreensível visto que tinha acabado de fazer dezoito anos. As coisas que mais gritam após o nosso término, e continua até os dias de hoje, são a culpa e o orgulho, mas não qualquer orgulho. O orgulho mal é aquele orgulho que nos corrói; porque sabemos que estamos errados, mas não queremos admitir e, então, surge a culpa.
— Oi, Rey. – Poe soa tímido e isso é algo que nunca imaginei ver. – É bom te rever.
— Oi, meu amor. – Finn me recepciona, na minha própria casa, com um beijo. – Eu e o Poe viemos conversar com você, senta aí. – sua mão aponta para o sofá mais próximo. – Temos bebidas e tirinhas de frango.
— Poe. – digo entre risos.
Creio que não estava preparada para o momento em que o encontraria novamente. A culpa e o orgulho mal ainda me assombram vez ou outra, dando aquela vergonha aleatória do mês. Tenho ciência de que errei com o que disse a ele; ao mesmo tempo o que ele disse estava certo, o tempo provou isso, mas é vergonhoso admitir isso.
— Rey. – Poe diz meu nome entre risos nervosos. Somos o reflexo um do outro.
— Finn. – Finn diz colocando na mesa os pedaços de frango empanado. – Agora que todos se cumprimentaram; vem, Rey, senta aí que temos muito que conversar.
— Percebi. – deixo a mochila em cima da mesa e caminho até eles.
Amadurecer é entender que nem tudo é preto ou branco, o mundo e as ações das pessoas são cinzas. As vezes é necessário ver os dois lados da história para seguir em frente, sem nenhuma mágoa ou peso na consciência. E nessa história nenhum dos dois viu o outro lado; colocamos para fora o que sentíamos e fim – literalmente. Acumulei inúmeras histórias sem desfechos ao longo da minha vida, Poe é uma das que eu gostaria de dar desfecho e resolver qualquer ponta solta.
Nossa história começou boa, dois inconsequentes que caíram de amores um pelo outro. Deveríamos ter levado em consideração que éramos dois cabeças duras, que a cada discordância brigávamos. Mas éramos jovens cheios de desejo e tesão, levamos somente a distância em consideração e, quando ela não foi um empecilho, seguimos em frente nessa montanha-russa.
O negócio das montanhas-russas é que, uma hora ou outra, ela chega ao final. Tudo tem um final. Mas Poe e eu não tivemos um fim legal, no final da nossa Montanha-russa havia um abismo para o centro sombrio e escaldante da terra.
— Como você tá? – Poe pergunta cutucando a cutícula, claro sinal de ansiedade da parte dele.
— Você já sabe a resposta, agiliza. – Finn sussurra, nada discreto, perto da orelha de Poe, seu sorriso forçado chega a ser cômico.
— Finn e eu somos os seus parceiros no Star Wars e viemos te contar isso antes da nossa reunião amanhã. – dizendo tudo isso em um único fôlego e sem parar, meu ex consegue a incrível reação de fazer tanto Finn quanto eu arregalar os olhos lentamente em descrença.
— Porra Poe! – depois de segundos em silêncio, meu amor esperneia no máximo que sua voz pode alcançar.
— O que? Você falou para agilizar e eu agilizei.
— Não tanto! Você sequer se resolveu com ela antes.
E eles desatam a discutir entre si sobre como tinha planejado me contar que durante todos esses anos estivemos jogando juntos no jogo como um time disfuncional e inabalável.
— Mas que porra é essa? – interrompi a discussão ao elevar a voz.
— Viu, resolve sua merda agora. – Finn levanta do sofá e segue para a cozinha. – Tínhamos que ter feito o que planejamos.
— Mas você mandou agilizar. – Poe revidou no mesmo tom. – Rey, você estava sentada aqui na nossa frente, você viu ele falando para agilizar, certo?
— Não essa parte! – Finn arremessa uma tira de frango em Poe.
E eles recomeçam a mesma briga de gritos que estavam tendo não tem nem um minuto. É impossível não assimilar as brigas dos meus dois amigos do jogo com essa; Poe é como Damen, provoca e sempre sabe de tudo, Finn é como FN-2187, sempre cai nas armadilhas de Damen. A ficha demora para cair, mas quando cai, cai levando tudo que vê pelo caminho. Respirar torna-se difícil a cada segundo, é como se o calor enviasse ventos abafados e quentes em direção ao meu nariz.
— Por que vocês não me falaram? – sinto algo indescritível no meu peito e uma vontade louca de chorar.
— Ai oh! – Finn aponta para mim com as narinas dilatadas e uma gritante impaciência estampada no rosto. – Como vamos falar do tópico sete antes do tópico um?
— Vou enfiar esses tópicos bem no fundo do seu.
E novamente eles discutem sobre a forma de me comunicar sobre o que eles têm feito há mais de dez anos. É perturbador saber que dá para me enganar facilmente. Toco as pontas dos meus dedos repetidas vezes com o intuito de senti-las, estão tão dormentes e frias.
— Por que vocês não me falaram? – voltei a perguntar, mas dessa vez gritando.
— Porque eu tinha medo de você se afastar! – a franqueza e o medo Poe fica estampada em seu rosto e isso me desarma.
— Por que vocês estão gritando? – Finn pergunta, também gritando.
— Porque eu amo a sua prima! – tanto o meu amor quanto eu encaramos atônitos ele. – Não dessa forma, seus maliciosos do caralho. Eu te amo como um irmão. – Poe caí exausto no sofá. – Eu sempre te amei assim, mas não percebi porque eu nunca tive um familiar além da minha mãe. – seu sorriso melancólico é seguido por mais palavras – Vocês eram os únicos no mundo para mim, a família que eu desejava toda noite. Eu nunca quis te perder ou magoar, Rey. – seus dedos batucavam ritmados uma sinfonia conhecida como “Nervosismo”. – Eu li uma vez, em um livro muito interessante e super adulto intelectual, o que cada membro da família significava emocionalmente e relatos de várias pessoas sobre o que sentiam em relação a irmãs e, em todas, eu reconheci esse amor bizarro que tenho por você. Todo o carinho e proteção que um irmão mais velho tem com suas irmãs mais novas.
Não sei o que falar diante disso, porque, por mais que a minha mente ansiosa crie milhões de motivos e justificativas, em nenhuma das minhas teses mirabolantes fora levantado esse tópico. É inesperado até para o meu transtorno de ansiedade.
Erguendo trêmula com as mãos suadas, caminho para o banheiro enxergando tudo amarelado e lento. Poe e Finn vem em meu enlaço se explicando, mas não consigo compreender porque é como se estivesse embaixo D’água. Claramente estou tendo uma crise de ansiedade, o frio que surge do nada e a dificuldade em respirar só confirma isso.
Não sei como consigo trancar a porta do banheiro quando entrei – e isso é algo digno a se admirar neste instante de puro caos. Amparando o meu corpo na porta, me permito o luxo de deslizar até o chão ainda hiperventilando. Não é a primeira vez que tenho uma crise, e com certeza não será a última. Além da morte, a outra certeza da vida que possuo é que até a morte terei ansiedade e a outra é que sempre irei fazer de tudo para amortecer as suas vindas brutas. Por isso, sei exatamente o que fazer e foi combinado com a minha antiga psicóloga, tomar o remédio e contar os objetos no local para controlar essa sensação incontrolável de falta de ar.
São tantos pensamentos me afogando, tantas perguntas e sentimentos, que até eu me tocar que estou começando uma crise e precisando do remédio ou de contar para me acalmar, já passou um tempo de puro terror mental. A minha sorte é que mamãe conhece a filha que tem, por isso em cada cômodo há uma cartela do meu remédio.
Tomando o remédio com água da bica do banheiro, consigo, por bondade do criador, contabilizar, catalogar e criar uma lista do que devo comprar e a quantidade. Meio que me acalmei aos poucos quando o foco mudou, de forma forçada, para algo mais palpável e rotineiro. Enquanto essa bênção acontecia, Finn perguntava, com Poe a tiracolo, a cada vinte segundos se eu estava bem. Mesmo depois de anos Poe continua péssimo em sussurrar, dá para ouvir ele surtando e mandando Finn perguntar se estou bem a cada cinco segundos. Ele está beirando uma grande síncope.
Uma parte de mim se sente mal por fazer eles se preocuparem e se sentirem mal por ter escondido a verdade de mim. No entanto, há outra parte que se sente traída, a verdade crua como um sushi é que eu esperava bastante coisa de uma volta de Poe, algumas até ruins, só que não isso. Creio que o fato de ser inesperado é que me assusta, porque eu estou me sentindo amada – o que me deixa confusa.
Fico feliz que Poe superou o que eu disse, com o intuito de machucá-lo, durante o término. Por mais que tenha me machucado na época, ouvir que eu tinha criado uma personalidade para se enquadrar na minha família, o que de fato era verdade e me machucou por ser algo que negava até para mim – mas estou tratando com a psicóloga, ou pelo menos tratava. Em contrapartida eu disse que ele tinha síndrome do personagem principal igual ao pai dele que o abandonou e não me surpreenderia em nada com ele estar me abandonando também. Eu disse que tinha sido filha da mãe com todas as letras em maiúsculo e ele também foi. Aquilo foi um show de horrores doloroso, só de lembrar me bate uma sensação gélida e quente de vergonha.
— Eu sei que eu fui infeliz nas minhas palavras naquela época, – confessei com a voz fraquejando. – desculpa.
Por alguns segundos fica um silêncio mórbido, até meu coração vai se acalmando com o intuito de ouvir o que se seguirá ao silêncio sepulcral. Ou talvez seja só o remédio fazendo efeito.
— Não somos santos, Rey. – a porta rangeu quando Poe apoia as costas nela. – Eu errei, você errou, Finn errou.
— Eu não! – Finn grita ofendido, de certa forma isso me faz rir. – Eu nem briguei com vocês, fui imparcial nesse término.
— Eu estou tentando dizer que todos erram na vida.
— Mas aí você não foi claro, né. – o baque de algo caindo no chão e o sonoro “ai” de Finn, me leva a crer que Poe arremessou algo nele.
— Vai sentar ali, vai. – o suspiro cansado de Poe é alto, ou talvez seja alto porque estamos a uma porta de distância. – O que eu quero dizer, Rey, é que nós dois erramos porque é algo normal do ser humano. Assim como o perdão é o outro gume da faca chamada vida. Eu te perdoei há muito tempo porque conheço a sua índole, conheço o seu caráter e a sua bondade. Acima de tudo, sei que naquele momento queríamos machucar um ao outro, porque, no fundo, temos isso em comum.
De fato éramos bastante parecidos na hora de brigar verbalmente, fisicamente quando fomos brincar de lutinha eu quebrei o braço dele – sem querer, é obvio.
— Rey, eu sinto muito pelo que disse naquela época. – Já perdoei isso faz tempo, o que me deixa surpresa são as palavras que se seguiram após isto. – Me desculpa por mentir para você todos esses anos, eu não queria te enganar nem nada. Eu só queria ser seu amigo, como éramos antes da briga. Por favor, me perdoe. E perdoa o Finn também, você nos conhece, sabe que nunca faríamos por mal.
O término era algo certo naquela época, assim como a briga. Mas perder aquela amizade que tínhamos não era algo esperado, pelo menos não por mim. Confesso que fiquei furiosa nos primeiros anos, mais furiosa ainda quando queria conversar com ele e o meu orgulho não deixava. Os piores momentos eram quando eu via algo que somente nós dois iriamos rir e conversar horas sobre, mas não podíamos porque eu o machuquei e sabia que seria recebida com hostilidade, pelo menos era isso que pensava. No fundo sabia que a culpa da explosão do vulcão era minha, eu que taquei a pedra na cratera.
Fico dividida entre uma luta daquela minha versão orgulhosa que não perdoava e a que aprendeu com o tempo a perdoar e a ver o lado bom das coisas. Quando se é machucada tantas vezes na vida, meio que se cria uma casca de desconfiança. Mamãe gostava de dizer que eu agia como um cachorro agredido pelos antigos donos, era desconfiada e sempre esperando o próximo tapa. Só que agora eu sei que nem todos querem me agredir e prezam pelo meu bem – algo que Poe demonstrou inúmeras vezes como Damen.
A parte de mim que nunca se vai, desde que eu era criança, grita para não perdoar, que ele só irá me machucar mais e me trair como todos os outros. Mas a parte que perdeu a avó e foi consolada até superar o luto, diz que o Damen que eu conheço jamais faria isso. Supremo saberia o que me dizer nessa hora.
Doeu, como se de fato tivesse me jogado do vigésimo andar e caísse de cara em cima de um monte de vidro. Eu não tenho moral alguma para criticar eles, porque eu estou fazendo o mesmo que eles neste exato momento. Estou na mesma posição que eles, com motivo de partida diferente, mas no mesmo barco com motivo parecido: Querer o bem do melhor amigo, no caso deles a amiga.
Sendo franca, olhar por essa perspectiva torna-se bem mais fácil de perdoar, porque eu entendo o que motiva a mentira, os sentimentos por trás e cada um dos demônios que aterrorizam a cada instante do dia a dia. É um verdadeiro ir do céu para o inferno constantemente. Sejamos francos, ninguém aguentaria isso por anos, é como ferrugem se alastrando lentamente, e o ato deles aguentarem anos é admirável e, especialmente, levando em conta que terminamos de forma horrível. Mas Poe passou por cima de tudo para não me deixar só, um medo que me acompanha desde que era menina, e Finn fez de tudo por mim e para evitar que esse medo se realizasse. Eles dois cuidaram de mim na alegria e tristeza de longe e ao mesmo tempo tão perto.
Quanto mais penso sobre isso, mais percebo que sou amada. Poe odiava Star Wars, implicava que eu era uma nerd que jogava quase todo dia e não via motivos para jogar tanto assim; e no final das contas ele se tornou um por mim, para não me abandonar e não me perder.
— Você não é como o seu pai, você é incapaz de virar as costas para alguém. – disse com as mãos molengas caídas ao lado do meu corpo. – Ele sequer é a sombra da sua sombra.
— E você tem personalidade, bastante até, e ela é sua e de mais ninguém.
Poe poderia passar anos e anos me pedindo desculpas, explicando cada um dos pontos que levantou na briga, e nada disso chegaria perto de tudo que ele me fez esses anos todo. Poe me apoiou incondicionalmente, esteve do meu lado em cada vitória dentro e fora do jogo, me animava nos meus dias tristes enviando vídeos idiotas somente para rir e se preocupava se já tinha me alimentado. Ele é um dos meus melhores amigos e fez de tudo para estar ao meu lado e para que eu estivesse bem, nenhuma palavra existente chega perto do ato dele de ficar ao meu lado mesmo que anonimamente. Os atos de Poe dizem mais do que palavras ou qualquer desavença que tivemos.
Erguendo exausta, guardei o remédio na gaveta da pia e abri a porta, o que fez Poe cair de costas no chão.
— Você está bem? – agacho ao seu lado preocupada.
— Sim, sim. – seu sorriso de canto continua extremamente charmoso, mesmo sem intenção.
— Vem. – ajudo-o a se levantar e de braços cruzados o acompanhei até o sofá. Respirando fundo encarei Poe bem no fundo de seus olhos castanhos. – Não é algo fácil de lidar, eu me sinto levemente enganada e, ao mesmo tempo, agradecida pela amizade e zelo de vocês. – pisco para afastar as lágrimas. – Eu acho bonito, eu me sinto tão amada. Só que é difícil digerir no início, bem estranho. Creio que seja porque é algo que a minha mente ansiosa nunca criou, bem inesperado mesmo.
— Nós queríamos ter te contado antes, porém, a vida, porra! – Poe sorri taciturno. – A vida é uma eterna desventura em série.
Fato, isso é um eterno fato. Nada é constante, não seria a vida a única a quebrar essa lei. A cada momento surge uma desventura, como Poe disse, que nos atordoa no meio da eterna mutação da vida. Porque no final, quem se transforma com as desventuras da vida somos nós, a vida ela só sofre uma leve mutação em si.
Se fosse antes, eu não entenderia o ponto de vista deles, não ia descer tão facilmente. Entretanto, a equação Kylo Ren entra em cena e me coloca em uma posição idêntica à deles. Assim como conheço minhas intenções, e espero que Kylo as reconheça, são tantos anos de amizade e irmandade que eu compreendo as intenções deles e, talvez, fizesse o mesmo por eles.
— Não vou fingir que não entendo, porque aí estaria mentindo para vocês. – pela milésima vez cutuco o cravo perto do meu ouvido. – Eu entendo bem mais o ponto de vista de vocês, principalmente agora, e, levando em consideração o que está acontecendo comigo e as minhas ações, eu meio que entendo o porquê de não terem falado antes.
— Como assim? – Finn segura minhas mãos finas e trêmulas.
— Já, já eu conto. – respiro fundo. – Eu perdoo vocês por terem escondido de mim todos esses anos, eu só peço para que não mintam ou escondam coisas de mim novamente.
— Eu prometo, meu amor. – Finn aperta minha mão, dando mais convicção às suas palavras, e ao mesmo tempo coloco uma tirinha de frango na boca, descontando toda a ansiedade nas tirinhas.
— Eu prometo também, eu li em um livro que a verdade é a peça fundamental em qualquer relacionamento.
— Poe. – sorrindo complacente questiono algo que, além de me intrigar muito, sei que irá ajudar a deixar mais leve toda essa situação para todos. – Você lê?
— Vai a merda garota. – lentamente suas mãos se erguem somente com o dedo do meio em riste.
— Talvez seja um daqueles panfletos de religiões que dão na rua. – os olhos de Finn brilham em pura travessura após o seu sussurro.
— Vocês são dois idiotas.
— Cala a boca, Jaime Lannister. – respondi rindo a Poe.
— Jaime Lannister? – sua risada indignada deixa tudo mais suportável.
— Me amar como irmã e tirar a minha virgindade.
— Algo que Jaime Lannister fez. – Finn completa rindo.
— Vão a merda os dois.
— Viu, eu disse que ia funcionar. – Finn dá uma mordida na tirinha de frango.
— Mentira, você só quer comer as tirinhas sozinho. – Poe verbaliza meus pensamentos. Ficando extremamente sério, suas mãos suaves tocam as minhas com ternura. – Como você está se sentindo? A verdade.
— É estranho de assimilar tudo, mais estranho ainda a sensação de amor e raiva pela mentira. – pego uma das tirinhas e enfio de uma vez só, com a boca ainda cheia de frango continuo a me expressar, porque está melhor do que me afogar em mim. – Também estou me sentindo burra por não perceber antes, mas entendo que às vezes até o óbvio é invisível. Não direi que não senti fúria, porque senti bastante no turbilhão de sentimentos conflitantes que tive. Só que vendo da perspectiva de vocês, eu compreendo que às vezes a vida dificulta e coloca empecilhos atrás de empecilhos a cada segundo. Citando Poe, a vida, porra! E só isso basta para ser compreendido.
— Eu realmente não queria mentir para você ao longo dos anos, eu só queria o seu bem e estar aqui para o que você precisasse. Pensamos em falar com você depois que a sua raiva passou, mas aí a sua vó morreu e decidimos esperar. O Finn ficou averiguando quando conversar com você depois dessa perda, mas você sabe que Finn é péssimo em averiguar e, depois de uns quatro anos da averiguação de merda dele, a sua mãe e eu nos esbarramos no aeroporto e ela falou que você já tinha superado tudo. Nos preparamos para dizer, durante uns meses, mas aí a minha mãe descobriu o câncer e ficamos dois anos fazendo de tudo para ela melhorar, mas, como você sabe a mãe do Damen morreu devido a um câncer de útero tem sete anos.
— E não tocamos no assunto de te contar tudo até o Poe ficar bem e o luto diminuir, você ajudou muito ele como Somente Rey. – Finn completa Poe. – Iamos te contar três anos atras, mas ai a minha mãe morreu naquele maldito acidente de carro e novamente o luto caiu sobre nós e você me ajudou dentro e fora do jogo, sou muito grato por isso, Rey.
— A gente ia te contar ano que vem, depois das festas de final de ano, quando você estivesse na casa dos seus pais. – Poe coça a nuca. – Achávamos que seria melhor com a sua mãe presente.
— Só que, o criador e seus planos mirabolantes, adiantaram tudo para esse mês e, devido a demandas no trabalho, só conseguimos vir hoje e conversar com você um dia antes do encontro.
Me recordo de cada empecilho que eles falaram, de como sofri com eles, andei pelo vale da morte com eles e comemorei em cada vitória contra o luto. Damen não levantou da cama durante semanas, era só ele e a mãe no mundo; constantemente me esforçava para ajudá-lo, porque ele era o meu amigo e eu sabia que ele faria o mesmo por mim. A vida é cheia desses planos mirabolantes, ala Dr. Doofenshmirtz, e vez ou outra somos arrancados daqueles que mais amamos.
Eu vivi dois luto tentando ajudar Finn, o curioso é que eu usava tudo que podia com Finn com o FN-2187. Parando para pensar eu posso ser a melhor amiga online dele, a que ele vivia elogiando e agradecendo por ter na vida dele.
— Fazendo o que você nos pediu, falando a verdade, achei que você não ia compreender nosso lado e optar por se afastar, sem deixar que a gente explicasse tudo. Estava até marcando psicóloga, porque, sendo franco, ia ser uma perda grande e inestimável para a minha vida. – Poe respira fundo.
— Não, eu entendo o que motivou vocês a continuarem escondendo de mim e não me afastaria jamais por causa disso. – peguei uma das tirinhas de frango para comer. – Eu sei como é infernal emocionalmente, até um pouco exaustivo, e que a vida às vezes endoida e você não consegue falar para ele que você é você, então a culpa te corrói e tudo que você quer fazer é ser franca e teme pelo dia que a verdade vier à tona.
— Rey, você quer falar alguma coisa para nós? – Finn volta para a conversa após comer umas sete tirinhas seguidas, teve uma hora que ele colocou na boca três ao mesmo tempo.
— Sim, algo parece fora do lugar. – as mãos quentes de Poe envolvem a minha. – Estamos aqui do seu lado.
— Não, eu estou ótima. – peguei um frango para distrair eles e dar mais naturalidade a minha resposta. Como o silêncio é longo, decidi implementar para não mudar o foco da questão aqui. – Por que FN-2187? Sempre tive essa dúvida, porque não parece ser números aleatórios.
— FN é Finn sem um I e com um N a menos. Os números são datas importantes para mim, 21 é o dia do seu aniversário e 87 é o ano que Jannah nasceu.
— Não consigo ficar com raiva de você depois disso.
— É muito apelão. – entre risos provocativos, Poe se joga no sofá.
— Perdão se eu sou criativo e não coloquei o meu sobrenome de forma reduzida.
— Parando para pensar, estava bem óbvio que era Poe pelo nome.
— Não, não estava. – Poe diz tão ofendido que parece que xinguei a sua mãe.
— Dameron, Damen. – utilizo as mãos para fazer uma balança.
— A preguiça antes dela te matar, ela te humilha.
— O dela é Somente Rey! Mais óbvio que isso é impossível.
— É bem impossível alguém que me conhece associar o meu nickname comigo. – eu bem sei disso.
— Se você conseguir me provar que não é óbvio, eu te dou aquele box de livro caro que você tanto comenta e que custa quase duzentos e cinquenta.
— Eu conheci o Supremo e ele não me reconheceu, Ha! Ganhei! – sorrindo alegre, devido ao fato de ganhar meu box, digo com sede pela vitória algo que não deveria falar ainda com eles.
— O que? – os dois gritam ao mesmo tempo.
— Eu ganhei! – muda o foco, agora não é a hora para isso.
— Não isso. – Finn bate na minha mão para soltar a tirinha de frango que tinha pegado. – A parte do lider supremo dos idiota psicoticos.
— Ah, isso.
— É conte. – Poe cutuca minha barriga.
Se eu quiser mudar de foco, preciso acabar logo com o assunto e ser verdadeira. Não me restam muitas alternativas, até porque eles odeiam o Supremo e cada menção deve ser esclarecida para evitar que eles achem que estou possuída por ele.
— Na verdade, ele não é muito meu fã fora do jogo, ele é bem indiferente comigo e me chamou de enxerida. – a ficha de que não sou reconhecível nem se me esforçasse cai com tudo. Ainda com o sorriso alegre petrificado em meu rosto, digo indiferente esta pequena parte do meu caos. – Ou seja, eu ganhei!
— Como assim? – Finn toca minha mãe gentilmente.
— Ele te chamou de enxerida? Por quê?
é tão acolhedor, tão bom e leve. Sinto que se chorar, surtar ou rir sem parar não serei julgada e sim acolhida – e isso é bom.
— Eu o conheci na empresa tem um mês, mas ele não sabe que eu sou eu, mas eu sei que ele é ele. – fico rindo nervosa por minutos a fio, é meio preocupante a risada descontrolada. – Mas o foco aqui é vocês e eu, a minha vitória sobre o Poe.
— Por que você não falou nada antes? – a indignação de Finn é perceptível em seu olhar.
— Você ia falar com a gente sobre isso quando?
— Não tão cedo. – respiro fundo após responder rápido demais. Ficou meio estranha a resposta, como se eu desenhasse deles. Melhor falar mais amigável sobre outro assunto. – Mas, ein, eu ganhei e vou emprestar para vocês lerem o livro e não vai ter como fugir.
— Você não parece bem. – meu amor se ajoelha na minha frente com os olhos vidrados no meu.
— Você não perdoou a gente? – o rosto de Poe é puro suco de medo e melancolia. – Por isso não ia falar nada?
— O que? Não! Eu perdoei vocês e não é porque eu tenho medo do Supremo não me perdoar depois da cagada que eu fiz; eu perdoo de coração e por entender o lado de vocês, o que fez vocês ficarem longe, porra, eu vivi o luto com vocês até vocês ficarem bem e, realmente, levou mais de um ano porque vocês perderam as suas mães. Eu perdoei 100% e até estou digerindo bem agora.
Minha garganta começa a arranhar de tão seca, talvez seja porque ri por muito tempo e depois desatei a falar sem parar. Ou talvez seja a vontade de chorar – por tudo. É muita coisa surreal para alguém aguentar por um mês e não surtar. Creio que o criador me confundia com um lutador de MMA, essa é a única explicação para tanta porrada.
— O que aconteceu exatamente? – Poe envolve o meu ombro e estranhamente isso é reconfortante, sentir que não estou completamente sem amigos.
— Ah, nada demais. – em um tique nervoso, fico alisando e arrumando a minha sobrancelha.
— Querida, você riu por quase cinco minutos ininterruptos e ainda falou sem parar e sem tomar um ar ainda agora, claramente não é nada demais.
— Nós somos seus amigos, Rey, está tudo bem contar para gente o que aconteceu. – como se farejar o meu medo, Poe completa a sua frase e dá um golpe fatal. – Jamais iremos te julgar ou algo do tipo, estamos aqui para te ajudar e cuidar de você.
— Deixa só eu comer umas sete tirinhas com maionese enquanto bebo está batida, que se bem me lembro, é deliciosa. – Poe é conhecido pelas batidas de frutas com álcool e faz horas que está parada em cima da mesa intocada. – Depois disso conto tudo.
— Tudo bem. – eles respondem juntos.
E eles esperam, sem falar um único “A” durante minutos; tinha esperança de começar uma outra conversa e esse seria o foco, não o meu rolo estranho com Kylo Ren. Só que tudo voa para os céus e eles esperam pacientemente igual a crianças levadas aguardando o tão esperado sorvete.
— Ok, é o seguinte.
E depois de uma hora, algo que levou quase dez minutos contado para o tio Luke, finalmente contei e tirei qualquer dúvida que surgiu no caminho. Algumas dúvidas pertinentes e corriqueiras foram: Ele não tem casco e chifres? O nome dele real não é Satã? Seus olhos não eram o puro fogo do mármore do inferno? Se estou possuída? Se eu sei que o padre deve benzer a água benta e que a água do bebedouro não é benta só porque está na igreja; Se eu estava distraída demais e por isso não percebi o cheiro de enxofre e seus chifres, casco e rabo de cobra traiçoeira; se minhas orações estão em dia, se a cabeça dele virou 360 graus, se lembro coisas da catequese que envolve formas de se manter segura contra demônios. O clima chega a ficar mais leve e a expressão de preocupações de Poe e Finn suaviza.
— E eu jurei ao tio Luke que só contaria depois das festas de final de ano e é isso que irei fazer. – termino meu sexto copo de batida de morango. – Fim, e só para reiterar mais uma vez, não, ele não é o mal encarnado que fede a enxofre.
— Você é uma alma de Deus, não perceberia o mal na sua verdadeira forma na sua frente. – Poe fala rindo.
— Bom ponto, Poe. – Finn ergue a taça para Poe, estranhamente sério. – O meu ponto é, por que caralhas você ouviu aquele velho doido do tio Luke?
— Finn!
— Ele levantou um bom ponto. – Poe aponta para Finn ainda rindo. É como o jogo, os dois se juntaram contra mim e cismam que Supremo é o mal encarnado.
— Ele é o meu mestre e eu prometi. – coloco um pouco da batida de morango no meu copo.
— Vai com calma, opala. – Poe pega a jarra da minha mão. Tá bom, talvez não seja tão pouco assim; na verdade, talvez, nem seja pouco.
— Eu estou precisando disso há semanas! – em um gole só bebo metade do copo, isso dá orgulho danado no papai. – Mal deu um mês e meio e eu já estou surtando.
— É difícil no começo, o medo de ser descoberto e perder aquilo que tanto ama. – Finn enche seu copo até a boca.
— A pulsante sensação de que irá destruir aquele que se quer proteger. – Poe faz o mesmo que o meu primo.
— A culpa e o medo da solidão é sufocante como um soco no estômago.
— Então porquê você não fala logo tudo para ele? Por que ouvir o tio Luke?
— Ele conhece o Supremo.
— Conhece como?
— Se conhecem há anos, ao ponto de vagas explicações ele já sacar quem era o Supremo e vocês sabem que o tio Luke não é muito bom em sacar as coisas logo de cara.
— Isso quer dizer muito. – Finn diz de boca cheia.
Tio Luke é uma vergonha nesse quesito, por isso ninguém joga com ele Imagem & Ação. Tem que dizer o nome da pessoa, mostrar foto e explicar onde eles se encontraram; para finalmente meu tio se lembrar da pessoa e, com todo respeito do mundo, deixar de ser lerdo. Supremo é alguém tão marcante que nem tive que fazer tudo isso.
— E o que você vai fazer? – Poe pergunta ao colocar mais batida de morango no meu copo.
— Vou evitar ele até me decidir.
— Até amanhã?
— Não, Finn, eu vou conversar com ele sobre qualquer dúvida de vocês e as minhas em relação ao trabalho.
— Então você tá com sorte, porque ele não parece ser do tipo que se mistura ou se socializa.
Estapeio o seu braço rindo, como é bom fazer isso depois de tanto tempo. Realmente, Supremo não é sociável e muito menos se mistura com outras pessoas sem ser Leia, ou a eu do jogo. Mas sabemos que ele não consegue ficar muito tempo sem falar comigo, por isso usarei a proposta de trabalho para tapar o sol com a peneira.
— Vocês não possuem essa conexão estranha? – Poe pergunta do nada.
— E? – Finn e eu perguntamos ao mesmo tempo.
— E por que você não quer ver ele?
— Parando para pensar. – Finn vira a cabeça em minha direção, como se finalmente a ficha caísse.
— Vocês não querem saber.
— Queremos sim. – os dois respondem em uníssono.
— Por que?
— Porque ele me infernizou por semanas por sua culpa. – Poe cruza os braços, realçando os bíceps dos seus braços. Nossa, tinha me esquecido o quão gostoso ele é.
— Curiosidade. – Finn mente descaradamente.
— Finn. – pronuncio seu nome seria.
— Ele me fez perder quase quinhentos pontos! Ele é o mal encarnado com chifres e cheiro de enxofre.
— E também a gente se importa com você. – isso eu sei, eles literalmente viajaram e criaram uma conta em um jogo para cuidar de mim.
— Eu estou com medo de perder ele para sempre, a sensação sufocante de viver sem ele me assusta muito. – digo em voz alta pela primeira vez. – Eu não sei viver sem ele, é desconfortável e solitário, mesmo tendo vocês.
— Devo dizer que pelo inferno que ele fez durante o seu tempo fora do jogo, que ele sente o mesmo. – Poe segura a minha mão e dá um leve aperto. – Ele vai entender o seu lado maluco e não vai se afastar.
— É, – Finn faz o mesmo gesto que Poe com a minha outra mão. – esse homem sente o mesmo que você e vai te entender.
— Obrigado, meninos.
O negócio da ansiedade é que mesmo sabendo que eles estão 99% certos, ainda há aquele 1% que parece um buraco negro me sugando e jogando em direção a suposições apavorantes e mirabolantes. Não desejo isso nem para os meus pais biológicos, e olha que eles me abandonaram.
— Me fale de vocês, como tem digerido a proposta? – atônita com o que acabo de perceber, digo para Finn algo que acende uma inveja em mim. – Você fez parecer que não sabia de nada na ligação, como?
— Minha amada Rey, eu sou um ótimo ator na hora de fazer surpresas.
— Isso ninguém pode negar! Você agiu como se estivesse ouvindo tudo pela primeira vez.
— Não existe sequer um único prêmio para premiar tamanha atuação. – Poe ergue a taça rindo. – Eu, que estava ao lado dele, acreditei em tudo que dizia e que não sabia de nada.
— É digno de parabéns e muito mais. – por pura indignação, dou um tapa forte em seu braço. – Por que você não era assim quando a gente fazia merda na adolescência?
— Foram essas adversidades que me tornaram o que sou hoje.
— Me diga FN-2187, quais adversidades foram essas?
A noite seguiu entre risadas, fofocas e Poe me inteirando sobre a sua vida e, eu, sobre a minha. Pela primeira vez em muito tempo, me sinto confortável com a minha vida e animada com o futuro. Tenho a sensação que posso enfrentar gigantes desde que tenha meus amigos ao meu lado, ou talvez seja o efeito da bebida já que passei de nove copos. Mas seja o que for, a única certeza que tenho é que eu sou amada e a escolhida, para alguém que não foi escolhida nem pelos pais isso quer dizer muito.
Quando o relógio bateu às duas da madrugada, decidimos ir dormir. Levemente bêbados, levemente leves, levemente felizes e levemente ansiosos para o encontro de amanhã.
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