Notas iniciais
Olá! Pedimos desculpas pela demora, o problema foi com o nosso computador (grande novidade). O novo, que ganhamos recentemente, ainda não tem Word, por isso ainda dependemos do antigo. Esperamos que todos tenham tido um excelente Natal. Boa leitura!

As portas da Igreja St. George rangeram antes de se fecharem. Johanna fitou o exterior da construção em tons de bege por alguns instantes, o local havia sido muito importante para ela. Haviam sido muitos meses lá dentro desde o início do apocalipse, e a freira nem desconfiava que fosse a última vez que veria sua igreja. Sarah, alguns metros adiante, apenas observava enquanto a ruiva terminava de se despedir do lugar que fora seu lar por tanto tempo.

– Estou pronta, já podemos ir – a freira falou quebrando o silêncio.

– Não vai trancar? – a médica indagou ajeitando a bolsa, onde guardava alguns alimentos retirados da cozinha da igreja.

– Não, alguém pode precisar de um abrigo. A casa de Deus sempre deve ter as portas abertas para seus filhos.

– Então podemos ir – ela concluiu.

As mulheres seguiram pelo norte, saindo da cidade depois de atravessar uma avenida e outras ruas menores. Johanna ia à frente, indicando o caminho que deveria ser seguido. Sarah permanecia próxima, se mantendo em estado de alerta para uma possível ameaça na rodovia. No dia anterior, depois da última refeição, as duas tinham planejado a viagem, separando alguns mantimentos. Johanna explicara que elas passariam por um parque abandonado, repleto de uma mata densa e fechada. A Igreja St. Sarah seria encontrada depois dos trilhos de trem, em algumas horas de caminhada.

Depois de passarem pelos portões enferrujados, as mulheres adentraram no Chattahoochee National Forest. As florestas da reserva possuíam vários pinheiros, distribuídos de forma irregular pelo terreno levemente inclinado. Alguns ainda estavam cobertos por neve nas partes inferiores. Raramente alguns pássaros eram vistos, os animais haviam se tornado algo incomum desde o início do fim do mundo.

– Em que área da Medicina você se especializou? – Johanna questionou num tom baixo enquanto caminhava pela ponte que atravessava o lago.

– Eu fiz Medicina de Urgência. Antes de isso tudo começar, eu trabalhava em um hospital bem grande na minha cidade.

– Como você interpreta o que estamos vivendo? – a freira perguntou logo depois de notar o desprezo na voz de Sarah ao se referir ao fim dos tempos, não que a ruiva não desgostasse da situação em que o mundo se encontrava, apenas não sabia o que pensar daquilo.

– Isso? Você quer dizer o fim do mundo? Acho que a melhor palavra seria odiar, perdi tudo que tinha. Não tenho mais minha família, meu marido, meu emprego. E de uma coisa eu sei, não vou deixar que eles tirem a minha vida, nem a minha esperança. E você, gosta da sua nova vida?

– Não, claro que não! – havia dois lados para Johanna. A primeira parte era a pior, todas as vidas perdidas, coisas que ela presenciara com os próprios olhos e a maldade que tinha tomado conta das pessoas. Por outro lado, ela sabia que tudo aquilo possuía um motivo, Deus sempre tinha um objetivo em tudo que fazia. – Eu só penso que alguma coisa nós fizemos para merecer isso. O Senhor não abriu as portas do Inferno à toa. Ele não permitira uma atrocidade dessas em vão.

– Acha que todos mereceram isso?

– Sabe, a humanidade tinha mudado muito antes disso, as pessoas perderam a compaixão, se tornaram mais individualistas. A morte e a ressurreição de Jesus não atingem só a humanidade, mas toda a criação, o cosmos. Haverá novos céus e nova terra. No fim dos tempos, o cosmos será transformado, em virtude da morte e da ressurreição de Jesus. Será purificado e recuperará a bondade original, segundo o sonho originário de Deus. Ferido pela queda original do ser humano, o cosmos também aguarda salvação. Acredito que tudo isso é necessário e que tempos melhores virão para aqueles que construírem um mundo melhor, assim como Deus queria.

– Acredita mesmo que vamos ser recompensados no final?

– Claro que sim! – a ruiva sorriu, percebendo o quão incrédula estava a mulher ao seu lado. Johanna já havia encontrado pessoas assim, que não acreditavam mais em uma salvação no mundo em que se encontravam, que mesmo antes da chegada dos mortos já era um caos. Não era a primeira vez que tinha essa conversa com alguém, entretanto, dessa vez, dava a Sarah toda a razão de ter desconfiança, a mulher de cabelos castanhos passara por muita coisa e a ruiva sabia disso. – Ele com certeza vai fazer isso. Você, Sarah, é a prova. Depois de tanto tempo cultivando a esperança, você está próxima de alcançar seu objetivo. Deve ter sido por esse motivo que Deus nos uniu, para que eu te guiasse até seu irmão.

– Espero que você esteja certa.

– Já devemos estar chegando. Essa deve ser a última casa do parque – a mulher apontou para uma pequena construção à frente. A cabana era pequena e aconchegante, seu telhado estava coberto de neve e a porta estava entreaberta, facilitando a saída do som dos gemidos. Pelo ruído, não era possível identificar a quantidade de mordedores, no entanto certamente haveria mais de um.

Sarah se preocupou com o fato, se elas tinham notado a presença deles, os errantes deveriam ter percebido o mesmo. Apesar de não serem inteligentes, aquelas criaturas tinham audição e olfato bem apurados, de forma que poderiam muito bem ter ouvido a fala de Johanna, ou simplesmente detectado o cheiro delas. De fato, os quatro caminhantes que habitavam a casa tinham captado aquilo. Aqueles seres haviam morrido juntos, um ano e meio antes, passando o resto de seus dias dentro da cabana, à espera de qualquer sinal de alimento. Eles estavam tão deformados que não era mais possível distinguir o sexo dos errantes, alguns não passavam de pele e ossos.

– Fique aqui, eu vou ver o que tem lá dentro – a médica informou, apesar de já ter conhecimento do que encontraria.

– Acho que você vai precisar disso – Johanna entregou à mulher uma faca longa de cozinha. Não trouxera muita coisa da igreja, apenas uma Bíblia, um pouco de comida e seu terço. Havia outras coisas que ela gostaria de ter levado, como seu violão, todavia era algo supérfluo e poderia ser até mesmo prejudicial, uma vez que era pesado e dificultaria a caminhada.

Sarah adentrou na casa com cautela, observando atentamente seu interior. A médica tentou não fazer muito barulho no piso de madeira desgastado, as paredes, diferente do exterior, possuíam papel de parede em uma cor clara e desbotada. No chão, era possível ver alguns cacos de vidro e objetos quebrados. Próximo ao sofá, em frente à televisão caindo aos pedaços, Sarah se deparou com uma cena bizarra. Dois corpos estavam sentados alinhadamente no móvel, com os crânios perfurados por balas. Ao se aproximar mais, ela notou que eles haviam sido parcialmente devorados na região abdominal, revelando alguns órgãos internos e partes das costelas. A mulher sacou sua arma presa ao cinto, aprofundando mais na habitação e tentando ignorar o que vira.

Contudo, algo a deteve. O odor de carne morta pareceu invadi-la instantaneamente, assim que se aproximou da cozinha. Ela recuou alguns passos, suas pernas pareceram fraquejar com a tontura, enquanto a cabeça latejava implorando para que Sarah saísse daquele lugar. Aquele cheiro de decomposição e sangue apodrecido, que saíra do estado líquido tempos atrás, a deixava enjoada, sempre deixara.

Seu primeiro encontro com um errante fora no próprio prédio. Não tinha sido preciso se aproximar muito do vizinho morto e reanimado para que seu corpo fosse tomado pelas náuseas, o que a fizera vomitar todo o seu ralo café-da-manhã. Com o tempo, tinha começado a controlar aquilo, um mordedor não era mais um problema. Por outro lado, seis cadáveres em uma única cabana pequena e abafada eram algo completamente diferente. Não havia muita opção de fuga, àquela altura ela só possuía duas opções: matá-los ou morrer.

Protegida pelo balcão que separava a sala de estar da cozinha, Sarah optou por trocar sua arma de fogo pela branca. Seria mais silencioso e, além disso, a médica ainda não possuía muita precisão nos disparos. Enquanto estivera na estrada, o único modo de matar os errantes sem atirar fora usar o cabo da pistola para perfurar seus crânios, o que não era tão letal assim.

Ela se aproximou da bancada, mantendo a menor distância que a segurança permitia para poder eliminá-los. O primeiro mordedor foi bloqueado pelo balcão, esticando seus braços deteriorados o máximo que podia, na tentativa inútil de alcançar a mulher à sua frente. Sarah deu um passo na direção dele, cravando a lâmina no olho do caminhante. Com certa dificuldade, retirou a faca para repetir o golpe no segundo. Assim, ela esfaqueou os demais, até que o silêncio voltou a reinar na casa repleta de um líquido pastoso no chão.

– Você está bem? – Johanna perguntou, preocupada com o silêncio repentino. Por alguns instantes, não obteve resposta, já que a morena tentava recuperar o fôlego.

– Sim. Vamos embora daqui.

As duas percorreram o resto do caminho sem que qualquer outra palavra fosse trocada. Terminando de passar pelo parque, as mulheres prosseguiram pelo caminho de terra até alcançarem os trilhos de trem. Chegando à estrada, se depararam com uma placa grande e suja de terra, com as palavras “Não Santuário” na parte superior, enquanto o restante estava ilegível. A freira se esforçou para não fazer algum comentário ou questionar sobre o fato, percebendo a confusão no rosto da médica.

O cansaço logo as atingiu, porém elas prosseguiram o caminho, já que mais ao longe era possível ser um grande construção. Alguns metros à frente havia uma grandiosa igreja, escondida pela densa floresta. A St. Sarah possuía uma arquitetura um tanto simples, principalmente por se encontrar em uma cidade do interior, mas não deixava de ter sua imponência, muito devido à extensão. Era feita de madeira pintada de branco, e parecia bastante conservada por fora. Divido em duas partes, o templo religioso ainda possuía, a alguns metros de distância, um celeiro, que antes do apocalipse era utilizado para guardar donativos vindos das mais diversas regiões da Geórgia e de outros estados.

O Sol estava se pondo quando as mulheres atravessaram a simples cerca de madeira que rodeava o local. Antes de tomar qualquer atitude, Johanna e Sarah dividiram uma garrafa de água e resolveram esperar alguns minutos para que a exaustão passasse. Não era necessário muita pressa e as duas mulheres precisavam recarregar as energias e recuperar o fôlego perdido graças aos extensos quilômetros de caminhada pela mata. A freira se sentou em um degrau da escada de madeira, seus pés estavam bastante doloridos depois da longa caminhada, devido aos saltos das botas. A ruiva sabia que algumas bolhas já deveriam ter se formado em seus pés depois de todo aquele tempo.

Enquanto isso, a médica se limitou a avaliar a entrada da igreja, silenciosa de mais para estar habitada. Um fato que chamou a atenção de Sarah foram as portas, elas não estavam fechadas ou encostadas, era visível que haviam sido trancadas. Outra coisa que denunciava a presença humana era uma sombra que se formava na torre do sino, devido à posição do Sol. Subitamente, o silêncio foi quebrado pelo som de passos e, logo em seguida, vozes. As pessoas, que deveriam ser um grupo pequeno, sussurravam como se não quisessem ser ouvidas.

– O que foi? – Johanna perguntou se voltando para trás.

– Tem pessoas lá dentro.

– Tem pessoas lá fora – Daryl disse ao terminar de descer as escadas que ligavam a torre do sino ao primeiro andar da igreja.

Todas as atenções foram voltadas para o homem assim que ele pronunciou as palavras. Próximos ao altar estavam Rick e Michonne, que conversavam com o Padre Gabriel. Eles pretendiam explorar mais a cidade, pois as maiores estavam fora de cogitação, devido à proximidade com o Santuário e a possibilidade de estarem infestadas. Do outro lado, mais perto dos primeiros bancos, Carol e Carl tentavam, em vão, colocar Judith para dormir, já que a pequena estava excessivamente agitada naquela tarde.

– Quantas? – Michonne questionou.

– Duas, são mulheres.

– Só duas? – Daryl respondeu a pergunta de Rick com um aceno de cabeça. A preocupação do xerife logo foi embora, não era nada que eles deveriam temer. – É só não fazermos muito barulho, se elas acharem que o lugar está vazio, vão sair.

– Espera, você pretende ignorar essas pessoas? – o tempo que ficara longe da prisão havia feito Carol perder parte da mudança do grupo. Apesar de também não ser mais a mesma, a mulher não possuía tanta desconfiança como Rick.

– Sim, é exatamente o que vamos fazer.

– Você acha mesmo que tem alguém aí? Talvez esteja abandonada. Pode ser que o Padre Gabriel foi embora, se Deus permitiu que ele sobrevivesse – Johanna supôs.

– Então por que as portas estão trancadas?

– Deveriam estar abertas... Talvez ele tenha trancado para que ninguém entrasse...

– É exatamente onde eu estou querendo chegar. As pessoas só trancam as portas quando não querem que alguém entre. Você disse que a casa de Deus deveria ficar aberta para todos.

– Então... O Padre deve ter ficado. Ele nunca foi muito corajoso, talvez tenha medo que algum caminhante entre – dizendo isso, a freira terminou de subir as escadas e bateu de leve na porta de madeira. – Padre Gabriel, está aí?

Ela não obteve resposta. Do lado de dentro, todos ficaram apreensivos, tentando segurar a respiração para não produzir nenhum ruído. Todas as atenções foram voltadas para Gabriel Stokes, já que uma das mulheres o mencionara. Deveria ser uma moradora da cidade próxima que frequentava a igreja, e o fato do Padre ter permanecido estático não foi capaz de surpreender ninguém.

– Você pode abrir a porta? Já está quase escurecendo... – a ruiva prosseguiu, e a resposta novamente não veio. Por fim, decidiu desistir, vendo que aquilo não levaria a lugar algum. – Não tem ninguém ali, temos que achar um lugar para passar a noite.

– Não. Eu sei que essa igreja não está vazia – Sarah tomou a frente de Johanna, batendo na madeira com mais força. – Abram a porta e parem de se esconder! Eu sei que estão aí!

– Sarah... Vamos embora, tem alguns errantes vindo.

– Vocês não podem nos deixar aqui fora! Não vamos sobreviver a uma noite! Vocês podem continuar sobrevivendo depois disso, sabendo que nos deixaram para morrer, mas não vão conseguir viver com a culpa. Sei que devem ser boas pessoas. Então, por favor, abram a porta – ninguém se pronunciou, ao fundo era possível ouvir os gemidos dos mordedores que se aproximavam. Ela voltou a falar, dessa vez mais para si mesma. – Estão nos matando.

Não havia outra saída para as duas, não havia outro plano. As mulheres só tinham pensado em ir até a igreja, sem isso, não teriam onde passar a noite. Mesmo que conseguissem abater todos os errantes, faltaria um abrigo e isso poderia acarretar sua morte. Sarah não se lembrara de seu irmão, e, até onde sabia, não havia como ele estar lá. No momento, o que importava era que elas entrassem.

A médica estava prestes a bater novamente quando ouviu um som vindo de dentro da igreja e, logo em seguida, a porta finalmente se abriu. A claridade vinda das velas tirou o foco da visão das mulheres, entretanto logo puderam ver o grupo formado por cinco pessoas mais ao fundo, próximas ao altar, e um homem diante delas. Ele possuía cabelos encaracolados, uma barba grande e olhos azuis.

Notas finais
Alteramos um pouco a igreja do Padre Gabriel, talvez vocês tenham percebido que ela não é igual à da série. Aumentamos um pouco as dimensões, mudamos a localização e colocamos o celeiro do lado. Depois vamos explicar o motivo disso. Sobre a formação do grupo do Rick, dá pra notar que não está igual à da série. Logo explicaremos por que só tem essas pessoas na igreja. Uma leitora nossa (Laís Pierce) sugeriu que fizéssemos um Tumblr de BTD. Como já estava no fim, resolvemos esperar e fizemos um Tumblr para End of the World: http://endoftheworldfanfic.tumblr.com/ Lá tem informações extras sobre os personagens (parentesco da Johanna também), e atualizaremos conforme as pessoas aparecem na nossa fic. Não deixem de dar uma passada lá, ler o que fizemos e ouvir as músicas. Esperamos que tenham gostado do capítulo, deixem seus comentários. Feliz Ano Novo adiantado para todos, e que 2015 seja cheio de realizações!