Encruzilhadas
1 Morte em Vida
Notas iniciais
“A existência tem suas regras.
Aos personagens resta resignar-se a elas...
Mesmo quando ela muda as regras”
Haiku modificado de um
autor fracassado de Otogakure
A garota corria por sua vida.
O clichê que lhe vêm à mente não se aplica. Isto não era um romance barato e tornar-se a garota idiota, correndo trôpega a escolher um beco sem saída, não era uma alternativa razoável. Isto era vida real. Não haveria um herói para salvá-la no último minuto.
Já testemunhara a morte. Na verdade, ela sabia perfeitamente o que era morrer. Duas de suas irmãs já partiram desta para melhor.
Fugir. Ambiente hostil. Sobreviver. Precisava se controlar. Fugir desesperada era a forma certa de morrer.
Enfrentar seus adversários? Sozinha e sem saber do que seus adversários eram capazes? Ironicamente o raciocínio lógico reconduzia a moça ao pânico.
Por este motivo, apesar do calcanhar quebrado, corria. Apesar da preocupante hemorragia em seu braço (deve ter pego uma artéria), ela corria.
Era preferível correr e morrer, do que ficar parada e morrer.
Ela só tem 15 anos...
*******
Ela se lembrou...
‑Eu sei que já está ficando chato...
Foi o que a moça de cabelos de fogo disse para a garota de preto, que apenas sorriu gentilmente. Como se fosse sua melhor amiga.
Não aquele melhor amigo das horas boas, mas aquele que conhece você tão bem que mesmo quando você é um tremendo sacana e filho da puta com ele, ele ainda continua gostando de você, porque te conhece bem demais.
‑Não, eu não gosto disso. E não sou masoquista.–disse a ruiva abraçando-se como se suas entranhas estivessem a ponto de explodir.
‑Você sabe que não precisa continuar nessa posição, não sabe? – a garota de preto respondeu.
A ruiva fechou seus olhos sorrindo. Realmente não precisava continuar daquele jeito: ‑E agora?
‑Agora – respondeu a garota de preto apontando para algum lugar. Por entre uma espessa névoa algo tomava forma. Construções... Montanhas... Casas...
Uma cidade. Como tantas outras.
A ruiva suspirou: ‑E qual seria a ocasião?
A garota de preto sorriu novamente dando de ombros. Seu olhar continuava sincero, mas travesso: ‑Acho que teremos de pagar para ver.
O universo então pareceu rodopiar de ponta cabeça. Quando finalmente parou de girar e ela olhou ao seu redor... não reconheceu absolutamente nada.
Ela devia entrar em pânico.
Ela devia estar confusa e com medo.
No céu azul, alvas nuvens desfilavam calmamente para oeste. Ao seu redor, árvores verdejantes e frondosas.
Vida.
Mesmo o protesto da sua garganta clamando por água não quebrou a harmonia e calma que invadia sua mente. Seu olhar dirigiu-se para a suave sinfonia que tinha origem ali perto. O fluir de um claro riacho. Compreendeu o que era sede. Era a primeira sensação que tinha deste mundo.
Alívio. Simples prazer proveniente de água fresca. Sorriu para si. E então fitou a superfície cristalina do riacho. Com um pensamento moldou um espelho com a água à sua frente.
Esta sou eu.
Uma garota de cabelos de fogo e olhos de esmeralda retornava-lhe o olhar. Sorriu por um momento.
Compreendia tudo agora. Mas sabia que logo tudo voltaria a ser limitado por sua própria existência. Devia dirigir-se rápido onde era necessária. Uma vez no caminho, mesmo considerando-se pequenos desvios não seriam significativos. Os protagonistas não sabiam ainda seus papéis, mas estavam presentes. Se cumpririam o seu papel no drama... nem ela podia saber.
Mas ela se lembraria no momento certo. Tudo ficaria bem.
Notas finais
Agora começam as dores, os amores, os sofrimentos, as derrotas e as vitórias.
Começam os jogos e as guerras, onde atletas morrem e soldados ganham troféus.
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