Encounter
3 Fim De Festa
Notas iniciais
"Quando a festa acabar
Cê vai me procurar
Com teus problemas"
Enquanto procurava o amigo no meio da multidão, Eduardo questionou a própria sanidade. Que diabos ele estava fazendo?
Recapitulando viu que: eram 2 da manhã, ele acabara de conhecer uma mulher interessante e iria acompanha-la no resgate do ex dela. Parecia a receita perfeita para problemas e uma péssima noite. Mas ainda assim ele queria ir.
Fazia muito tempo em que ele não se permitia viver algo novo, arriscado e ele não diria não. Avistou o amigo e o seguiu.
Gabriel estava sorrindo para o fotógrafo, enquanto posava junto com um grupo de pessoas. Ele o viu quase de imediato e acenou com a mão, se desvencilhando das pessoas caminhou até o amigo. Gabo parecia elétrico, exibia um olhar orgulhoso no rosto e um sorriso irônico que era a marca registrada do amigo. O cabelo preto e liso caia nos ombros, tinha uma cor quase azul devido as luzes. Dando lhe uns tapinhas na costa, ele suspirou.
— Uma noite e tanto, acho que vou precisar de botox depois que fecharmos hoje. — disse massageando as bochechas e continuou.
— Minha cara está dolorida de tanto sorrir, eu não comi nada e nem consegui alguém pra hoje. Me diga que você está melhor que eu e que já bateu foto com metade da população feminina daqui.
Ele teria que mentir. Gabriel não o deixaria ir se soubesse, e também não pararia até saber o contexto inteiro. Que ele o perdoasse, mas ele iria com Catarina.
— Infelizmente sim e por isso eu estou indo mais cedo. Sem mais explicações. — piscando, abriu os braços em um gesto de defesa.
— Seu sonso! Me passou um super sermão mais cedo e olha só você... Todo saidinho. Ok. Posso perdoar, mas você vai me contar todos os detalhes, idiota.
Com um último abraço, Eduardo se despediu. O amigo não mudava mesmo. Conhecera Gabriel no ensino médio e se odiaram de primeira. Sempre que tinha educação física eles faziam questão de acertar um ao outro de alguma forma. E de tanto irem juntos para a diretoria devido a esse brigas, ficaram amigos. Gabo, como o chamava estava na faculdade de Relações Internacionais, mas a trancara para abrir a boate. E por isso e muito mais admirava-o. A coragem e determinação de Gabriel foram fundamentais para que esse negócio fosse aberto e dependendo dele continuaria sendo um grande sucesso. Nos negócios o amigo era imbatível, mas em relacionamentos... Apesar de amar o amigo, Edu tinha a impressão que ele era levemente cínico em questões sentimentais, mas extremamente leal nas amizades.
Indo para recepção o celular tocou. O nome na tela brilhou. Berê estava ligando, mas ele realmente não queria falar com ela. Provavelmente viria alguma cobrança ou drama... Ele não queria estragar a noite assim. Desligando o telefone, Edu continuou até descer as escadas. Catarina estava encostada no balcão, segurando um casaco e com o olhar perdido. Ela aparentava estar anos luz dali. Imediatamente arrependeu-se de ter desligado o celular, queria bater uma foto dela.
Sentindo que era observada virou-se na direção dele.
— Oh, olá. — oferecendo um sorriso de lábios
— Oi! Eu demorei muito?
— Não, claro que não. Estou aqui há uns 5 minutos. As meninas me prenderam lá em cima. — deu ombros. — Elas não queriam me deixar ir com você, porque aparentemente nem o seu sobrenome elas tem...
Ele não pode evitar de rir e com um levantar de sobrancelhas disse:
— Essa é a maior questão? Para sua segurança, querida Catarina, meu nome e sobrenome são: Eduardo Ventura. — pegando a mão dela, ele elevou os dedos aos próprios lábios e os beijou.
Cat reprimiu um suspiro. Que cara estranho. Ela mandaria mais tarde o nome completo dele para as amigas, era uma forma de segurança para si mesma. Levando aos mãos ao peito suspirou de forma teatral.
— Gentil Eduardo, encantada. Me chame de Srta. Catarina Martins. — rindo com a provocação.
Ele a olhou com um misto de humor e os dois continuaram na provocação. Cat sentia que a noite, mesmo com a ligação do ex, seria incrível. Enquanto pedia um uber, mandou no grupo das amigas o nome e sobrenome do homem ao seu lado.
Descendo as escadas eles resolveram esperar do lado de fora, já que o carro estava há um minuto de distância. Catarina já sentia que grande parte do álcool tinha evaporado de seu corpo e agora restava apenas um desanimo e um pouco de sono também. O carro chegou e chamando Edu, eles entraram. A viagem era um pouco longa e dava tempo suficiente para que ela pensasse numa saída e entendesse a situação.
— Está tudo bem?
— Sim, já consigo pensar com mais clareza.
O celular de Cat vibrou mais uma vez. A chamada era do síndico de seu prédio, ou ex síndico devido ao término. Sua cabeça latejou. Aquele cara era um porre... Sem muitas escolhas ela atendeu o telefone.
— Oi Roberto, pois não?
O volume do celular não era muito alto, mas Eduardo conseguia claramente ouvir o timbre de quem falava do outro lado da linha. Pelo tom quem quer que fosse não estava nada feliz. Cat concordava com a cabeça e franzia cada vez mais a testa parecendo extremamente irritada. A voz dela cortou o silêncio.
— Ai, fala sério! — e bufou.
— Não, eu entendo... Sim, claro! No entanto se algo assim acontecer novamente, por favor não me contate. Nós terminamos e eu vou me mudar. Por mim você pode expulsá-lo.
Soltando um arzinho pelo nariz em clara indignação, Cat desligou o telefone e parecia incrédula. Ela o fitou por alguns instantes, decidindo se deveria ou não contar a conversa para Edu. Era no mínimo engraçado e muito absurdo. Ele a encarava e erguia uma sobrancelha em questionamento. Ergueu uma das mãos pedindo um tempo. Ela precisava alterar a rota, depois contaria tudo. Se ele saísse do carro ela não o julgaria. A noite já estava demais até para ela.
O motorista viu o desvio da rota no aplicativo e a questionou. Explicando que estava certo a alteração, ela se virou para Edu e disse: — Meu ex é burro.
— É óbvio, por isso ele é seu ex.
Cat riu.
— É sério! Basicamente estamos indo para uma delegacia. Lucas, o meu ex, está sendo levado agora por desrespeitar a lei da perturbação do sossego. O síndico me ligou muito chateado com a situação. Basicamente ele deu uma grande festa no apartamento, era um karaokê pelo o que eu entendi. Aí ele recebeu chamadas de advertência do síndico e em vez de ser maduro, ele simplesmente mijou na porta da casa do Roberto.
Eduardo assobiou e tinha as sobrancelhas levantadas.
— Ele devia ter parado por aí, mas além de continuar a festa, também foi nadar pelado na piscina do condomínio.
— Seu ex seria o rei das festas se fosse estadunidense... Você não parece o tipo de mulher que se envolveria com alguém inconsequente, pelo o pouco que observei em nossa incríveis horas de conversa. — Catarina sorriu e o empurrou de lado.
— A verdade é que eu estou mais chateada pela forma como o síndico falou comigo. Como se eu devesse ter tomado conta da situação e controlado o Lucas. Sinto que eu era a mãe e não namorada dele.
Edu a encarou profundamente por alguns segundos, ela se mexeu desconfortável no banco sob o olhar dele, encaixou uma mecha de cabelo atrás da orelha e riu meio nervosa. Ela queria que sua última frase tivesse soado como uma piada e não como um desabafo, já era constrangedor o suficiente que estivesse indo resgatar seu ex numa delegacia junto de um desconhecido.
— Você não carrega essa responsabilidade, sabe disso né? — ela assentiu em concordância.
Ele continuou.
— Catarina, ouça com atenção o que eu vou te dizer, mulheres não são centros de reabilitação, você não tinha que sabatinar o seu ex e se ele fez o que fez a culpa é dele, e somente dele. Seus atos não o obrigaram a jogar fora o bom senso, ele escolheu isso sozinho. — ela abaixou a cabeça, mas Edu ergueu seu queixo e olhou no fundo de seus olhos.
Cat sentiu tanta verdade naquela hora. Tinha os olhos fixos em Eduardo, eles pareciam um oceano, e ela acreditou nas palavras dele. Sem perceber tinham se aproximado, ela foi a primeira a quebrar o contato e se afastar, mas algo ainda pairava no ar.
O uber aumentou o volume do som e cantarolava baixinho, ainda tinham dez minutos de trajeto e ela achou seguro puxar assunto com ele, era terra neutra. Logo embarcaram em um assunto ameno, Edu as vezes contribuía fazendo um comentário ou dois e nesses momentos, Cat o espiava pelo canto do olho.
Chegaram a delegacia e luzes piscavam em cima das viaturas, tinha algumas pessoas do lado de fora conversando enquanto fumavam. Edu seguia o lado de Cat. Seu perfil era irritado, e ela caminhava à passos longos. Ele podia compreendê-la, afinal tivera sua cota de relacionamentos ruins. Mais tarde perguntaria a ela como entrou nessa relação. Ao entrar no espaço havia apenas dois homens, um olhava concentrado para a tela do computador e anotava em um bloco, o outro falava ao telefone e nenhum dos dois pareceu perceber que mais alguém adentrava o recinto. Cat tossiu levemente para chamar a atenção. Nada. Ela fez um som mais alto, o moreno que estava no computador a olhou de relance. Decidida se encaminhou no balcão e se encostou para encara-lo. Após alguns segundos onde ele tentou ignora-la descaradamente, soltou um suspiro resignado e a encarou de volta.
— No que posso ajudar. — o tom seco
— Recebi a ligação de Lucas Moraes, vim saber como proceder. — O homem arregalou os olhos e ficou em silêncio.
— Ah... O delegado está numa ligação, quando finalizar ele te atende, mas o advogado do sr. Lucas é você?
O moreno no balcão esperava que ela respondesse, mas Cat buscou pela sala o tal delegado, ao encontra-lo o analisou e ele era um homem baixinho com um bigode enorme. Gesticulava freneticamente enquanto tomava um copo de café, era barrigudo e calvo. Honestamente a energia que emanava dele era cigarro, irritação e muita cafeína. Ela não estava empolgada para conversar com aquele homem. Virando-se de volta para responder, disse:
— Não... Sou apenas azarada e vim acudir o infeliz.
Emudecido e um pouco sem graça o rapaz assentiu e voltou a trabalhar no computador.
Eduardo queria rir da careta que Catarina fazia, ela o puxou para se sentar e esperar o delegado. Ela tinha os lábios repuxados e se mostrava emburrada, ele riu e aproveitou que a morena parecia distante para analisá-la sem culpa.
O vestido estava abarrotado, a maquiagem ainda permanecia a mesma, as bochechas estavam coradas devido ao calor na sala. Os cabelo caiam rebeldes, mas Cat nesse momento os prendeu em um coque alto. Ela percebeu o olhar e o devolveu. Os olhos estavam vermelhos e isso destacava ainda mais a cor deles, a respiração de Edu começou a pesar e soava alta aos seus ouvidos. Continuando a brincadeira de não quebrar o contato visual, ele se remexeu e apoiou o queixo em sua mão.
Catarina sorriu. Eduardo era muito bonito. Agora com uma luz melhor ela conseguia ver claramente a cor dos olhos dele, o cabelo era mais claro e pálido do que parecera na boate. Uma brinco em forma de cruz pendia em sua orelha esquerda e acima tinha um piercing. Ele tinha as unhas pintadas com carinhas sorridentes, em seus dedos tinha anéis de variadas formas, seu braço tatuado estava apoiando o queixo e ela pode distinguir os desenhos. Os traços eram muito bem feitos. No pescoço havia um colar em forma de medalhinha, Cat quis esticar as mãos e mexer no objeto, mas uma voz grave e arrastada soou.
— A mocinha está me esperando?
O velho estava a sua frente de braços cruzados.
— Sim, Lucas Moraes me ligou, ele veio para esta delegacia?
— Você que é responsável pelo encrenqueiro? É advogada dele?
Cat bufou.
— Deus me livre, para minha raiva ele me ligou pedindo ajuda e como estou em busca da canonização eu vim ajuda-lo. — o delegado gargalhou.
— Bom... ele foi autuado por desrespeitar a lei do sossego alheio, depredação de propriedade privada e atentado ao pudor. Como eu gostei de você mocinha podemos entrar em acordo na fiança, 300 reais soa bem?
Se ela tivesse tomando algum líquido essa seria a hora em que derramaria tudo no chão. 300 reais? Era a poupança dela para o aluguel. Que maldito! Cat queria que Lucas apodrecesse ali, ela merecia se vingar e devia dar as costas à ele. Entretanto uma ideia lhe veio à mente.
— Podemos fechar assim? Eu pago a fiança, mas o senhor o mantém na cela até amanhã? Por favor? Ele me traiu, eu descobri hoje... e algumas horas depois eu tenho que tira-lo da cadeia, meu dia foi péssimo.
Edu a olhava com total atenção. Merda. Agora ele sabia o quão besta ela era. O delegado considerava a proposta e por um momento ela acreditou que ele diria não.
— Homens são os piores, acordo fechado.
Rindo os três foram resolver a papelada.
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Scream&Shout tocava na mente de Catarina, aquele era seu momento. Caminhava lentamente em direção a cela que seu ex estava. Lucas dormia encostado na parede com a cabeça pendendo, sendo aparada pelas grades. Bateu uma foto apenas para satisfação pessoal. Segurou o riso e gritou.
— Ah meu Deus! Sinto muito Lucas... — assustado ele olhou ao redor tentando se orientar, seus olhos brilharam aliviados e sua boca se gesticulou para falar, mas Cat levantou uma mão pedindo calma.
— Tentei falar com o delegado de plantão, mas ele está irredutível, o que você fez foi grave... Liguei para o Guilherme, aquele seu amigo advogado ele virá o mais breve possível. Lamento, mas acho que você irá ficar aqui hoje.
— O QUÊ????? Não! Fale com ele de novo, droga. Eu não posso ficar aqui Catarina, NÃO POSSO! Deve ter algo que me ajude a sair daqui, que merda preciso que você me ajude. Estou com problemas. Você é competente quando quer ser. — exasperado ele segurou a cabeça com as mãos.
Uma massa quente e fervente estava entalada na garganta de Cat. Ela não tinha obrigação nenhuma de estar ali, mas ainda assim estava e seu ex sendo o grande babaca que era achava que tinha direito de gritar com ela e a diminuir. Ele que se fodesse. Seus olhos ardiam, mas ela não choraria, não por ele. Ela cerrou os punhos e calmamente falou:
— Vai se foder seu merdinha. Você é um inútil! Quem você pensa que é, Lucas? Ligue pra mulher que você estava transando no meu sofá e peça que ela te resgate daqui, já que nem para ajudar a si mesmo você presta.
Ele parecia puto de raiva e agarrava as grades da cela com força.
— O que disse, putinha?
Aquilo doeu. Como ela pode amar aquele homem? Dois anos se arrastando num relacionamento que não valia a pena e nem o esforço.
— Quero que se lembre desse momento. Saiba Lucas, você tem sim uma utilidade. Sua utilidade é ser comida de vermes, adubo. Está com problemas? Que pena, eu não ligo. Durma bem na cadeia, até mais.
De cabeça bem erguida, Catarina deu as costas e seguiu em frente.
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