Notas iniciais
Antes de tudo, desculpem pelo atraso. A vida real me absorveu e, puff, acabou meu estoque de capítulos prontos :~ Mas já estou resolvendo isso. Obrigada ao carneiro-beta, Orphelin, pelas revisões~

Capítulo X

Every time I hold you, I begin to understand
No one can do the things you do
I know you feel the way I do
You Got It — Roy Orbison

***

Havia um rapaz de cabelos compridos surpreso, um rapaz de olhos azuis que talvez fossem verdes irritado e uma grande confusão de pessoas.

Não importava quantas vezes parasse para analisar aquela situação, Mu continuaria incerto sobre a ordem dos acontecimentos.

Em um momento, Saga havia erguido a camiseta de Aiolos e, no seguinte, Aiolia avançara na direção deles. Shura tinha surgido não se sabe de onde – da cozinha, supôs, porque Hilda chegou logo depois, vinda de lá com uma taça de vinho na mão – e se misturou à baderna. Pandora, por sua vez, tinha saltado para fora do sofá, tentando não ser atingida por ninguém...

Ou, talvez, Shura tivesse aparecido antes de Aiolia se mover, foi tão rápido... Ou Pandora tinha escapulido primeiro...

Qualquer que tenha sido a ordem, era fato que Kanon preferiu se sentar na poltrona, como um imperador assistindo ao espetáculo que seus gladiadores proporcionavam, em vez de se envolver.

Aiolos ria. A risada ébria e inocente de alguém que não faz a menor ideia do que está acontecendo, daquele jeito que muitos consideravam encantador.

— Pra que essa zona, gente? – perguntou, em voz alta para ser ouvido sobre a balbúrdia de reclamações, erguendo as mãos em um pedido de paz.

Mu, que tinha se distraído ao sentir Neil Peart se enroscar em seus tornozelos, levantou a cabeça a tempo de reparar que o rapaz de bandana vermelha possuía uma flecha tatuada na parte interna do antebraço.

Vendo que Shura tinha arrastado Saga para o outro lado da sala, Aiolia preferiu puxar o irmão para perto de Mu.

— Sério, não foi nada grave – Aiolos esclareceu. – Vocês chegaram assim que o Saga falou que estava com calor, só isso...

— Irmão, olha o que você está falando... Se o Saga está com calor, ele deveria tirar a própria camiseta... e não a sua!

Enquanto a luz da compreensão clareava devagar o cérebro alcoolizado de Aiolos, Saga desviou a atenção de Shura e concordou:

— É verdade! Então, tire a minha camiseta, Aiolos.

O rapaz de poucas palavras emitiu um grunhido de raiva muda e apertou-lhe o braço com rispidez, em advertência.

— Okay, eu tiro sozinho – decidiu Saga, desvencilhando-se de Shura. Deu vários passos para longe dele e começou a se despir.

Distantes da sobriedade, Pandora e Hilda soltaram exclamações de incentivo.

Aiolia se divertiu ao ver Kanon se levantar da poltrona e ralhar com Saga, mandando-o se vestir, tendo a vez dele de se mostrar um irmão preocupado.

— Ah, Kanon, por favor! – Pandora revirou os olhos cor-de-violeta. – Todo mundo aqui já viu o Saga sem roupas.

— Isso não é motivo pra...

— O Mu não viu – Saga interrompeu, indiferente.

— E vai continuar sem ver! – acrescentou Aiolia, soltando o irmão e se colocando à frente do rapaz de cabelos compridos, na tentativa de poupá-lo de uma cena imprópria.

Saga soltou uma gargalhada, como se ele tivesse acabado de criar um plano para dominar o mundo, e deu uma olhada em Shura, que tinha ido parar ao lado de Aiolos, cercando-o igual a um cão de guarda. Aí, apertou a bochecha do gêmeo, afastando-o, e se aproximou de Aiolia com um sorriso...

Sorriso que sugeria que ele pretendia ser o único a se divertir.

— Aiolia, Aiolia... – disse, em tom de tsc, tsc. – Para que o ciúmes? Eu aprecio você também...

O rapaz de olhos azuis quase verdes saltou meio metro ao receber um inesperado aperto no traseiro.

— Hey, qual é? Eu estou saindo com o Mu... Não faça essas coisas!

O olhar de Mu ia de Saga para Aiolia e de volta para Saga, repleto de perplexidade.

— Claro, não se preocupe. – O sorriso de Saga se mostrava aberto e perigoso. – Posso apreciar o Mu tamb-...

— Sai pra lá! – ordenou Aiolia, arrastando Mu para perto da porta da sala, abraçando-o como a um bichinho de pelúcia. – Kanon, controle seu irmão.

— Sem chance! A última vez que tentei... ele me prendeu – Kanon bufou, aborrecido, ignorando os olhares de curiosidade que todos, com exceção de Saga, lhe direcionaram.

Apesar disso, envolveu a cintura do gêmeo e passou a murmurar no ouvido dele, tentando sossegá-lo com – esperavam que fossem – palavras reconfortantes.

O rapaz de cabelos compridos continuava tão abismado com a situação toda que nem ficou sem graça por estar sendo abraçado com fervor diante de todos ali.

Aiolia não quis ficar para ver o que aconteceria dali em diante, até porque precisava levar Mu embora.

— Eu volto logo... Vocês tratem de manter o juízo – demandou, sem esperanças. Até Hilda, constatou, estava ébria. Quem deixava Saga e Hilda bêbados ao mesmo tempo? Era terrível.

— Sim, volte logo, pois vimos as provas de que você fez brigadeiro e nós queremos – observou ela, agitando de leve a taça de vinho na direção dele.

— É, vamos lambuzar o corpo do Aiolos e nos divertir a noite inteira! – Saga complementou, animado.

— Mas faria a maior bagunça... – Aiolos pensou alto, demonstrando não ter entendido as implicações da ideia.

Se olhares pudessem matar, ele teria caído aos pedaços com o olhar afiado que Shura lhe deu.

Aiolos resolveu ficar quietinho, sem entender o que tinha dito ou feito de errado. A fisionomia de Shura se mostrava tão beligerante que a única atitude sábia a se ter era não testar a paciência dele.

Aiolia inspirou fundo e expirou com força, balançando a cabeça em desolação à medida que pegava sua jaqueta de couro e o casaco de Mu. Abriu a porta para saírem... e quase pulou de novo.

— Aff, é óbvio que não podia faltar você!

— Credo! Boa noite pra você – cumprimentou o rapaz com a tatuagem de escorpião, ofendido, abaixando a mão que estava prestes a bater na porta. – Fique sabendo que eu vim aqui porque o Camus precisa acordar cedo amanhã e me dispensou, 'tá?

O rapaz de olhos azuis que tendiam ao verde o analisou por um instante, fazendo-o se remexer em desconforto, e concluiu:

— Ah, você brigou com o Camus.

— Por que é você brigou com o Camus, e não vocês dois brigaram?

— Ué, é sempre você quem briga, Milo. Pelo que já vi das discussões, a participação do Camus se resume a um vago interesse científico, ou algo assim...

— O que quer dizer? Aliás, não sei do que você está falando, não teve briga nenhuma... – Fingiu não ouvir o aham que Aiolia soltou e completou: – Enfim, saí da casa do Camus e fui na praça. Não tinha ninguém legal lá...

— É porque nós estamos todos aqui, Milo! – anunciou Kanon, após convencer o gêmeo a se sentar quieto, mesmo que continuasse sem camiseta. – Chega aí.

— Que bom que tem gente que fica feliz em me ver – Milo alfinetou com azedume.

Aiolia revirou os olhos verdes-ou-azuis, decidindo relevar. Afinal, por um milagre, Milo não havia interrompido Mu e ele daquela vez.

E era até conveniente Milo estar ali, sóbrio, pois poderia ficar de olho naquela cambada durante o tempo em que estivesse fora.

— Bom, estou indo levar o Mu pra casa dele. Ah! – Fez um gesto que indicava todas as pessoas na sala para Milo. – Eles estavam dizendo que não lembram direito como funciona a Agulha Escarlate, acredita? O Kanon esqueceu até a parte da Antares...

— O quê? Logo a parte principal? – Milo lançou toda a sua indignação para cima de Kanon.

— Você deveria explicar tudo pra ele de novo. Fazer uma demonstração, sei lá...

Com um ar inocente, Aiolia saiu, ignorando com perfeição o olhar assassino de Kanon.

Do lado de fora da casa, caminhando em sentido à garagem, Mu estava curioso com aquela história. Desistiu de questionar ao ver duas garotas se aproximarem. Uma era Shina e a outra – que ele reconheceu como a ruiva que foi sentada no colo de Milo ao irem de carro para aquela festa de aniversário, na noite em que conheceu Aiolia – estimou que deveria ser a tal Marin.

Os quatro trocaram cumprimentos e despedidas rápidas, entre as quais o rapaz de cabelos compridos percebeu que a ruiva olhava Aiolia com ternura. Para o azar dela, ele estava distraído com os próprios pensamentos e mal reparou nas duas entrando na casa.

Além disso, ele continuava agarrado a Mu, daquele modo protetor, apesar de estarem andando.

— Quanta gente – Aiolia resmungou, sem vivacidade. – É o que dá deixar o portão destrancado. Esse lugar vai acabar virando um bordel...

— Espero que não... – Mu franziu o cenho, cogitando se deveria desistir de partir. Com Saga disposto a apalpar Aiolia e com Marin demonstrando afeição por ele, não achou boa a perspectiva de que ele logo estaria ali, sozinho, entre eles.

Todavia, ao se sentarem nos bancos do carro, Aiolia lhe deu um sorriso tão alegre e atencioso que resolveu dar um voto de confiança a ele.

E a si mesmo.

*

Havia um rapaz de cabelos compridos encabulado, um rapaz de olhar solene desconfiado e uma pilha de livros sobre a mesa que dividiam.

— Ele tentou estrangular você? – indagou Shaka, assim que Mu voltou à sala de banho tomado.

— O quê? Oh, não! – Cobriu o pescoço com as mãos, pensando em como explicar que Aiolia tinha feito aquelas marcas com a boca, de um jeito agradável. Sem falar que tinha retribuído o gesto com louvor. – Isto...

O rapaz de cabelos compridos havia passado boa parte da tarde de sábado em sua casa, estudando com Shaka, usando uma blusa de gola alta. Acontece que próximo ao horário em que Aiolia havia combinado de vir encontrá-lo, pediu licença a Shaka para se arrumar e acabou colocando uma blusa que deixava o pescoço descoberto, esquecendo-se de que o amigo veria os hematomas.

Shaka percebeu que, ao se perder em pensamentos, Mu tocava a garganta com as pontas dos dedos e sorria.

— Entendi... É que conhecendo a fama, não pude evitar de pensar primeiro no pior – explicou, checando a hora no celular e juntando seus livros para ir embora.

— Pois é, você conhece a fama, não a pessoa. Portanto, poderia fazer a gentileza de ficar até ele chegar, para que eu possa apresentá-los direito?

— Não me agrada a ideia de ficar, por um minuto que seja, no meio de um encontro alheio.

— Você está dizendo isso porque não quer ter suas certezas contrariadas, Shaka...

O rapaz de olhar solene apoiou os cotovelos sobre a mesa e entrelaçou as mãos sob o queixo. Queria que Mu tivesse noção do tamanho da encrenca em que estava se metendo. Mu, no entanto, era determinado e não costumava ser impressionável.

— Você se esquece de que eu vi a pessoa em ação, confirmando a fama toda, Mu – relembrou com calma, sem sinais de emoção ou dúvida.

— Você precisa considerar que o Aiolia não se resume a isso. Há tanto sobre ele... – replicou, espelhando a posição de Shaka. – Eu não me envolveria com um arruaceiro, não importa o quão atraente ele fosse. Você sabe. Até perguntou o que eu via nele...

Shaka franziu o nariz, de maneira semelhante àquela que Afrodite costumava fazer para demonstrar desgosto, e soltou um breve suspiro de desaprovação. Deveria saber, considerando todos os anos de amizade com Mu, que não tinha a menor possibilidade de não atender a um pedido dele.

— Você tem lá suas excentricidades...

O rapaz de cabelos compridos sorriu. Sabia que Shaka ficaria.

Contudo, quando Aiolia chegou um pouco atrasado e as apresentações foram feitas, Mu ficou intrigado. Shaka e Aiolia se encararam em silêncio por um longo tempo, medindo um ao outro. Mu imaginou que se aqueles dois fossem gatos, estariam com os pelos eriçados, silvando em desconfiança um para o outro.

Depois do que pareceu uma silenciosa e imóvel guerra de mil dias, Shaka estendeu a mão em cumprimento primeiro. Não sorriu, nem disse prazer em conhecê-lo, ou algo cortês do tipo. Aiolia tampouco se manifestou ao apertar a mão dele.

— Vocês... – começou Mu, disposto a resolver qualquer que fosse o problema.

— Estou indo – Shaka interrompeu, relanceando um último olhar para o pescoço marcado de Aiolia. Pegou os livros, meneou a cabeça em despedida e saiu pela porta sem olhar para trás.

O rapaz de cabelos compridos apertou os lábios. OK! Sabia a razão para a antipatia de Shaka, mas que motivo Aiolia teria para agir da mesma forma sendo que tinha acabado de conhecê-lo? Seria um reflexo?

Pensou com seriedade em especular, só que, ao fitar Aiolia, recebeu um sorriso e se pegou sorrindo de volta, esquecendo o que ia dizer. Estava tão entusiasmado por encontrá-lo durante o dia que não quis arriscar estragar o momento.

*

Havia um rapaz de cabelos compridos guiando um rapaz de olhos verdes mesclados de azul pela casa, rumo ao jardim nos fundos.

— Como estavam as coisas na sua casa quando você voltou?

— Um caos – respondeu Aiolia, olhando aquela mão pálida entrelaçada na sua, percebendo que a alegria misteriosa de Mu na noite anterior perdurava. – Sorte a sua não ter precisado aguentar aquilo. Foi discussão absurda atrás de discussão absurda, madrugada adentro.

— Admito que, à princípio, achei que você iria bater em alguém...

— Por quê? Eu estava com um humor excelente, graças a você. Fora que não bato nos meus amigos, lembra? E olha que o excesso de intimidade deles me deixa doido.

— A intimidade com o Aiolos?

— Não. Comigo. Eles me conhecem há tempos. Se você perguntar, o Kanon vai dizer até que me viu nascer, não importa que seja impossível porque não é tanto tempo assim. Os malditos se aproveitam pra me aborrecer porque sabem que eu não fico irado a ponto de cair na porrada com eles...

Mu considerou aquilo relevante e ia tecer um comentário, porém, chegaram ao jardim e tudo o que pôde fazer foi ficar parado de frente para Aiolia. Houve um silêncio cheio de encantamento, seguido pela confirmação de sua suspeita: ele era ainda melhor sob a luz do sol.

Desde as mechas de ouro e bronze que brilhavam bastante douradas, passando pelo calor da pele levemente bronzeada e pelo perfume que invocava memórias ensolaradas, e considerando até mesmo o signo... Tudo em Aiolia se associava ao sol, era inevitável.

Os olhos claros pareciam vítreos, continuando tão verdes quanto azuis. Não que Mu quisesse uma definição, gostava dessa característica dele. O sol iluminava, sem esquentar. Aiolia sorria, os cabelos balançando com a brisa fria. Ele era...

— ... incrível! Sério, você é incrível!

O rapaz de cabelos compridos pestanejou, sentindo-se enrubescer com a perspectiva de ter pensado alto.

— Oh, eu disse isso?

— Ahn, não, eu disse. – Aiolia riu, erguendo a mão de Mu acima da cabeça dele para fazê-lo girar sobre si mesmo, como em um passo de dança. – Você estava pensando o mesmo? Quanta sincronia...

Mu assentiu, rindo ao ser abraçado.

— Eu já falei que você é bobo, Aiolia?

Muito bobo, foram suas palavras... – Inclinou-se e o beijou na testa, na têmpora, passeando pela maçã do rosto até os lábios rosados.

Foi um beijo suave, um selinho demorado, que deixou Mu surpreso por sentir um conjunto de sensações que fez seu coração disparar e um arrepio percorrer a linha de sua coluna. Fechou os olhos em apreciação, prendendo um suspiro na garganta.

Entreabriu os lábios, deslizando a língua entre os dele, instigando-o a aprofundar o beijo, a aumentar as sensações. Apoiou as mãos nos ombros de Aiolia, apertando a camisa que ele usava, reconhecendo o tecido em xadrez preto e cinzento da noite em que se conheceram.

Daí, em um movimento preciso, fez a camisa deslizar pelos braços e costas dele, retirando-a.

— Ora, é assim agora? – gracejou Aiolia, soltando a cintura de Mu para que ele pudesse terminar de puxar as mangas.

— Eu... – Interrompeu-se diante dos antebraços de Aiolia, analisando as marcas e vergões na pele dele. – Céus, o que houve?

— Nada importante. Acabei envolvido em uma briga besta no caminho pra cá...

O rapaz de olhos verdes meio azuis fez uma careta. Foi por causa daquilo que havia se atrasado. Ia contar assim que chegou, não obstante, logo que se desculpou pelo atraso, Mu lhe apresentou o amigo e acabou esquecendo.

— Hmm... briga?

— Hey, dessa vez eu estava tentando separar! – tratou de explicar, evitando que Mu concluísse algo errado. – A Shina, louca, resolveu espancar o Seiya. Fui impedir e veja o que as garras malignas dela me fizeram.

Mu acariciou os antebraços dele com suavidade, sentindo um vago desconforto. Talvez porque Aiolia tinha sido marcado por outra pessoa ainda tendo as marcas que fizera nele na noite anterior. Saber que não fazia sentido – eram marcas causadas por motivos diferentes –, não amenizava a sensação.

— Ela vai me pagar caro – garantiu Aiolia, puxando-o para si pelos quadris. Não faria Seiya pagar também porque ele já tinha levado uns bons tabefes de Shina, antes que interferisse. – E aí... o que é que você estava fazendo mesmo?

— Ah! Eu ia procurar as tatuagens e possíveis piercings que você deve ter – informou, abraçado à camisa dele. – Achei melhor fazer agora que você chegou do que deixar para outra hora e arriscar não conseguir de novo... Ehrm, você disse que eu podia tirar suas roupas...

— Pode! Sempre! Mas se está pensando que basta tirar, olhar e pronto, está enganado, mocinho... Saiba que terá que encarar as consequências.

Sentindo uma parte específica do corpo de Aiolia comprimir seu quadril, Mu, sem querer, acabou dando uma longa olhada para baixo.

— Não era encarar em sentido literal... – Aiolia riu, seguindo o olhar dele.

O rapaz de cabelos compridos corou, desviando o olhar para um lado, mirando as flores. Em seguida, olhou para o outro lado, encarando o muro que cercava o jardim. Teve a leve impressão de que estava se esquecendo de algo importante e fez um esforço para lembrar...

Desistiu porque tinha algo melhor absorvendo sua concentração.

— Bem, se é assim... – Seus dedos seguraram a barra da camiseta preta que Aiolia vestia. Então, aproximou os lábios do ouvido dele, mordiscou o lóbulo e, mostrando que o que lhe faltava em experiência sobrava em capacidade de aprendizado, pediu baixinho: – Tira para mim...

Os olhos verdes repletos de azul cintilaram com tal intensidade que conseguiram fazer com que Mu se sentisse lido por inteiro. A respiração perdendo o ritmo conforme Aiolia tirava a camiseta.

A visão que tinha à sua frente combinava com tudo o que já havia conhecido através do tato – o abdômen bem delineado, o tórax forte, os ombros largos, braços com bíceps e tríceps firmes. Mesmo assim, Mu ficou admirado.

Ali estava o pendente que ainda não tinha visto, repousando sobre o esterno de Aiolia. Era prateado e possuía o feitio de um escudo. Demonstraria maior interesse nele em outra ocasião. Sua atenção se encontrava no lado esquerdo do tórax de Aiolia onde, sobre o coração, estava a tatuagem que tanto queria ver.

Como o rapaz de olhos azuis-ou-verdes havia deixado implícito, a tatuagem era de um leão. A cabeça e uma das patas, ao menos. Em um efeito 3D magnífico, ele parecia vir do interior de Aiolia, rasgando a pele com as garras para sair. Era perturbador à primeira vista, pois a pele dava a impressão de estar retalhada de verdade. Entretanto, quanto mais olhava, mais fascinante achava.

— Você não podia apenas tatuar um filhote fofo, não é? – brincou Mu, os dedos tocando a tatuagem com delicadeza.

Aiolia fez que não, com um riso que sumiu ao sentir a outra mão dele deslizar por seu abdômen abaixo.

O tempo que Mu havia passado com Aiolia, em especial na noite anterior, foi o suficiente para que tivesse a certeza tranquila de que poderia fazer o que quisesse sem que ele desrespeitasse seu ritmo. Por ter ciência disso, Mu não hesitou em desabotoar as calças dele.

Whoa!

Diante do olhar azul-e-verde estupefato, Mu encolheu os ombros. Tranquilidade à parte, após a primeira vez era menos complicado. Sabia como agir, até porque essa não era a parte preocupante.

— Que ótima notícia! – Aiolia ficou encantado de verdade.

O rapaz de cabelos compridos estreitou os olhos para ele, captando algo com a visão periférica.

— E o que temos aqui? – examinou, correndo a mão do tórax para o braço de Aiolia.

No alto, sobre o músculo deltoide, havia um raio tatuado em tinta negra. Era bastante simples em comparação com a outra tatuagem.

Aiolia baixou o olhar para o desenho e deixou escapar um suspiro ambíguo que fez a curiosidade de Mu crescer.

— É uma longa história...

— Que você vai me contar? – Mu sorriu, os dedos fazendo o zíper das calças dele escorregarem para baixo.

— Huh... não é muito interessante... – Aiolia balbuciou, mordendo o lábio inferior, tirando autocontrole somente os deuses sabiam de onde para não pular em cima de Mu.

Ele estava tão perfeito parado ali com os longos cabelos brilhando sob o sol e ondulando com o vento, as faces coradas pela própria ousadia, emanando aquele perfume que o fazia pensar em lavanda...

— Que tal se eu decidir o quanto acho interessante? – sugeriu Mu, encostando os lábios na clavícula dele.

— Bom... Meu irmão tem uma tatuagem idêntica, no mesmo lugar...

— Hmm? – fez Mu, em tom de e o que mais?, seu indicador se enganchando no elástico sob os jeans, puxando-o e soltando-o.

Puxando-o e soltando-o. Puxando-o e...

— Foi uma bobeira... – Aiolia prosseguiu, suas mãos entrando em contato com o traseiro de Mu, esperando não distraí-lo do que fazia. Recebeu uma mordida no ombro, a série de puxar e soltar continuou. – Uma dessas bobeiras em que a pessoa se mete... naquela fase em que todo mundo já bebeu pra caramba, mas não a ponto de cair... e que não consegue se safar... não com a dignidade intacta...

— É o tipo de fase que a pessoa vai se lembrar para o resto da vida, com vergonha do que aprontou? – considerou Mu, em vão tentando não arquejar ao senti-lo subir as mãos frias e um pouco ásperas sob sua blusa, alcançando suas costelas.

— Por aí... No meu caso, não chega a ser uma vergonha... Foi nessa fase que meu irmão me convenceu... a fazer esta tatuagem com ele...

— E o que elas simbolizam? – Os dedos de Mu adentraram os jeans, deixando o algodão entre suas peles, apertando-o. – Ou não significam nada?

— Ahn... Aff, se ele me fizesse... tatuar um troço que não significasse nada... além da lembrança infeliz de um porre homérico... eu ficaria puto...

Aiolia ergueu a blusa dele o máximo possível. O problema de tirá-la era que Mu precisaria afastar as mãos de si e essa ideia era péssima. O que queria já dava para ser feito: molestar os mamilos dele. Isso, como descobrira na noite anterior, deixava-o superexcitado.

Com efeito, a pulsação do rapaz de cabelos compridos se acelerou com os toques. Aiolia era o único capaz de causar aquela vontade de... aquele querer sem saber direito o quê... Beijou-o na boca, na bochecha, na mandíbula, na garganta, em tudo o que podia alcançar com os lábios, sempre voltando para a boca dele. Percebeu que não seria naquela ocasião que Aiolia terminaria de contar a história da tatuagem.

Antes que pudessem prosseguir, porém, um ruído familiar se fez ouvir por entre as brumas do torpor em que estavam.

— Ué... você tem cachorro? – Aiolia quis saber, inclinando a cabeça na direção do som.

— Tenho... e foi levado para passear... Oh-owh! – Assustou-se, afastando-se de Aiolia com rapidez, quase tropeçando no processo. – Sabia que estava esquecendo algo importante! Meu irmão chegou...

E atirou a camiseta e a camisa contra o tórax de Aiolia, fazendo-o se vestir com pressa, enquanto fechava-lhe as calças com certa dificuldade.

— Ahh, eis a sina de nossas vidas... sermos interrompidos nos melhores momentos... – lamentou Aiolia, tentando se recompor, incapaz de tranquilizar o coração agitado. – Bem que eu estava estranhando ter dado certo ontem...

Mu sorriu, segurando o rosto de Aiolia e pressionando selinhos sobre os lábios dele, acertando o piercing junto, querendo reconfortá-lo. Desculpou-se por ter se esquecido não apenas do irmão como do fato de que o jardim não era um local adequado.

— Que nada, achei aqui legal – declarou Aiolia, dando uma olhada ao redor. – É adequado, sim, hein... Espero que a gente consiga uma nova oportunidade pra aproveitar...

O rapaz de cabelos compridos deu um passo para trás e, antes que a porta que dava acesso ao jardim se abrisse, piscou um olho esverdeado e sibilou:

— Se você sobreviver ao meu irmão...

Continua...

Notas finais
Prepare-se para a encrenca! Não, pera... -q Bom, como na minha longfic anterior, Change of Heart, o lado evil do Saga aflorava devido a um ~probleminha de personalidade, aqui eu resolvi que a culpa seria simplesmente da bebida. O mesmo vale para a Hilda (em CoH, ela só apareceu na versão boazinha). Que tal este capítulo? ^^ Obrigada pelas reviews: Suh Domingues, reneev, Kass, Diana Lua, Svanhild, Raquel Ohara, Sakykah, arianinha, Bakanda, Orphelin, Suh, Ysoga e Bloody Rose ♥