Encounter

3 All The Way Home


Notas iniciais
Obrigada ao Orphelin, meu carneiro-beta, que é ligeiro e vira e mexe está re-revisando os capítulos :3

Capítulo III

It's getting late
And if you don't feel leavin' alone
Well, maybe I can walk you baby
All the way home
All The Way Home — Bruce Springsteen

***

Havia uma expressão de surpresa no rosto do rapaz de cabelos compridos, uma expressão vitoriosa no rosto do rapaz de olhos azuis-ou-verdes e expressões desconfiadas idênticas nos rostos dos gêmeos.

— O que vai fazer? – perguntou Kanon, quando, assim que desligou o carro ao voltarem para a festa, Aiolia surrupiou as chaves da ignição.

— Ora, vou dar a volta que pretendia antes de vocês nos sequestrarem.

Saga não se incomodou, apenas pediu que o rapaz tivesse extremo cuidado e saiu do carro, levando as bebidas consigo.

Kanon levantou o queixo de Aiolia com as pontas dos dedos, encarando profundamente todo aquele verde e azul nos olhos dele com frieza.

— Se aparecer até mesmo uma mísera manchinha suspeita, Aiolos e eu teremos uma conversa muito, muito longa. E o assunto não vai se limitar aos cigarros, ok?

Aiolia estalou a língua em aborrecimento.

— Que seja, sai logo!

Ele saiu, não sem antes lançar olhares de aviso para os dois rapazes. Mu os achou particularmente malignos. Quando os gêmeos sumiram de vista, Aiolia pulou para o banco do motorista enquanto Mu saía de trás para se sentar no lugar que ocupara até então.

— Muito esperto – disse, sorrindo com admiração e prendendo o cinto de segurança. As músicas de Elvis tinham acabado, mas as de Bruce Springsteen estavam só começando. – Pra onde vamos?

Aiolia deu de ombros. Não sabia muito bem. Batucou os dedos no volante por um instante pensativo e, enfim, deu a partida. Costumava dirigir tão rápido quanto Kanon, se não mais, mas daquela vez foi com tranquilidade. A madrugada começava, trazendo um vento frio para dentro do carro, deixando seus rostos gelados. As ruas estavam quase desertas. Bruce Springsteen cantava baixinho só para eles. Não tinha razão para pressa.

Agora que estava sozinho com Aiolia, sem a expectativa de alguém aparecer, Mu sentia-se tolo. Queria tanto interagir mais com ele que não sabia nem mesmo por onde começar. Olhou para as próprias mãos, ainda mal acreditando na ousadia de tê-las deslizado pelo braço e torso dele. Tinha chegado a alcançar o botão dos jeans surrados no instante em que os gêmeos voltaram, mas... E se eles não tivessem?

— Pois bem, acho que massagem conta... – Mu se ouviu dizendo do nada, antes de perceber que estava perigosamente perto de mencionar o momento interessante que haviam compartilhado. – Quero dizer, suponho que é mais fácil achar alguém que não goste de massagem do que alguém que não goste de estourar plástico-bolha...

Aiolia sorriu e Mu soube que tinha dito a coisa certa. A partir dali, a conversa fluiu de forma tão natural quanto podia ser, um assunto se ramificando em vários outros, mudando com tanta facilidade que eles nem saberiam dizer como tinham chegado em determinados tópicos. Alguns eram mesmo confusos, como quando eles estavam falando sobre sonhos, porque Aiolia tinha sonhado que estava dormindo.

— Quando acordei, eu não sabia se estava sonhando que tinha acordado ou se estava acordado, mas achando que estava dormindo quando, na verdade, estava dormindo acordado e me vendo sonhando e dormindo, sendo que poderia estar acordado... entende?

Mu fez uma expressão confusa e não teve certeza se entendia, só conseguiu rir. Aiolia riu também e logo eles já nem sabiam direito do que estavam rindo, mas se divertiram mesmo assim. Tão simples e fácil era a interação que o momento interrompido pelos gêmeos sequer pesou em forma de tensão embaraçosa entre eles.

Talvez fosse por terem amigos em comum, talvez não, mas a sensação era de que se conheciam há muito mais tempo do que durante aquelas últimas quatro horas.

Ah, aquilo fez Mu se espantar. Já devia ser mais de duas horas da madrugada e ele teria coisas importantes – ainda que nem de longe tão interessantes – para fazer logo cedo. Deveria ter ido para casa bem antes, na verdade.

— Sério? – perguntou Aiolia, fazendo um muxoxo.

— Pois é. É a primeira vez que permaneço até tão tarde... – E, observando aquela expressão orgulhosa que se seguiu a esse comentário, Mu concedeu: – Okay, pode se vangloriar por ter me feito ficar todo esse tempo sem nem se esforçar.

O rapaz de olhos verdes que talvez fossem azuis riu.

— Sou incrível, não é? – disse, piscando antes de olhar pela janela do seu lado. – Caramba! Foi quase todo mundo pra festa mesmo.

Mu olhou para fora, constatando que tinham voltado para a praça em que haviam se conhecido e que Aiolia tinha razão. O local estava praticamente vazio, tendo apenas um punhado de bêbados mais velhos no bar. O som alto conflitava com a música de dentro do carro. Aiolia fechou os vidros e estacionou perto de algumas árvores, onde quase não havia iluminação.

— Como você veio pra cá? Quer carona?

— Com o Afrodite. E, embora ele tenha sumido logo que chegamos, era pra voltarmos juntos – explicou Mu, pegando o celular no bolso da calça em seguida.

Não tinha nenhuma mensagem ou chamada perdida de Afrodite. Era evidente que ele não tinha pressa em partir. Talvez até tivesse se esquecido de que o combinado era darem só uma passada na praça e voltarem cedo para suas casas.

— Se não for um incômodo, eu aceito a carona.

O único incômodo foi que Mu não morava muito longe, de modo que bastaram alguns minutos para que chegassem lá, por mais que tivessem se divertido ao não conseguirem se lembrar do nome da praça.

— Acho que ninguém se lembra do nome dela, mas tanto faz. Todo mundo chama de "praça do passa mal" mesmo. Estou até surpreso de não ter visto ninguém passando mal lá hoje...

— Já aconteceu com você? – Mu quis saber, arregalando os olhos quando Aiolia encolheu um pouco os ombros, parecendo um tanto desconcertado. – Sério?

— Uma vez só. Cometi o erro primário de beber sem ter comido nada antes.

O rapaz de cabelos compridos não pôde conter uma risadinha baixa mais pela fisionomia de Aiolia do que qualquer outra coisa. Isso lhe rendeu os dedos dele apertando sua coxa, logo acima do joelho, de um jeito parecido com o que ele havia feito com a garota de saia escocesa. Exceto que não doeu, ainda que o simples contato tivesse lhe causado um ligeiro sobressalto.

Porém, Aiolia logo afastou a mão e começou a estacionar o carro em frente à casa indicada. Aí, tirou o cinto de segurança e virou-se para Mu.

— Hmm... Você vai no festival de bandas amanhã à noite?

— Por amanhã você quer dizer hoje? – perguntou Mu, confuso. Como tinha passado da meia-noite já era sábado, certo?

— Eu ainda não dormi, então ainda não virou o dia. – Aiolia deu de ombros, todo ele o centro do universo. – Mas, sim, na sua lógica é hoje.

O rapaz de cabelos compridos estreitou os olhos. Ele disse na sua lógica, assim, como se Mu fosse um esquisito ou algo do tipo. Apesar da pouca iluminação, que não era muito melhor ali do que na praça, Aiolia deve ter visto seu olhar porque arqueou uma sobrancelha petulante.

— Você vai tocar lá? – Mal terminou a pergunta, Mu percebeu que sabia a resposta. Suas mãos se livraram do cinto de segurança, buscaram a mão que Aiolia mantinha apoiada na própria coxa e a envolveram, os polegares deslizando por aquela palma fria em reconhecimento tátil. Não era apenas um pouco áspera, tinha também alguns calos. – Ahn, baterista?

— Uhum, mas não é minha banda, só vou quebrar um galho. – Aiolia encarou a própria mão com uma careta. – Depois de amanhã, vai ficar pior.

Enquanto Mu calculava que o depois de amanhã dele queria dizer amanhã, Aiolia inclinou-se e encostou a testa na sua sem preâmbulos. A franja bagunçada pressionando seus sinais vermelhos com tons de ouro e bronze; a mão ainda entre as suas, bastando tocar-lhe o pulso para sentir as batidas daquele coração leonino. Mesmo baixa, a música estava quase alta demais para que pudesse ouvir o que ele murmurou em seguida, porém, tamanha proximidade permitiu que Mu compreendesse:

— Diga que vai.

O rapaz de cabelos compridos inspirou devagar; shampoo, cigarros e couro. Era evidente que iria ao tal festival. Assim como era evidente que se começassem a se beijar não seria capaz de sair daquele carro tão cedo. E Mu realmente tinha que ir tanto quanto realmente queria ficar. Aquele momento suspenso no tempo, criando uma sensação de antecipação, acabaria assim que dissesse o que ele queria, pois o beijo aconteceria com naturalidade. Mu não conseguiria explicar direito como sabia disso, mas ele sabia. Ele queria – céus, como queria –, mas não devia. Quase três horas da madrugada. O amanhã já era hoje.

— Olha... – começou, a pontinha do nariz tocando de leve na dele. – Eu vou, mas... – Então, moveu a cabeça, o rosto indo se esconder na curva do pescoço de Aiolia, respirando fundo contra a pele dourada de sol. Suas mãos apertaram a dele com um pouco de força desnecessária.

Desnecessária porque o rapaz de olhos verdes quase azuis entendeu. Claro que entendeu, uma vez que estava pensando mais ou menos a mesma coisa sobre se beijarem. Não tinha a menor chance de deixar Mu ir embora fácil se aquilo acontecesse. O que seria bem egoísta de sua parte e tudo mais. Fora que, se dependesse de Aiolia, não parariam no beijo, o que violaria a proibição de Kanon. O que também seria egoísta de sua parte. Para não falar no caos quando o maldito enfiasse Aiolos na história... Portanto, até que o desvio estratégico de Mu tinha sido bom. Certo, não exatamente bom, já que tinha sido meio frustrante, mas era válido, compreensível e evitava alguns problemas.

Bagunçou o topo daquela cabeça de cabelos compridos com a mão livre, o que foi suficiente para Mu sorrir contra sua clavícula, e disse:

— Okay, nos vemos na praça.

Mu assentiu e o soltou, abrindo a porta do carro para sair. As mangas compridas demais de sua blusa ainda estavam enroladas até os cotovelos, seus antebraços pálidos à mostra. Era só envolver um deles e puxá-lo de volta. Por mais pretensioso que pudesse soar, a verdade era que ele não resistiria e Aiolia sabia muito bem disso. No entanto, cerrou os punhos, decidindo que era melhor não. Foi difícil. Tamanho esforço para não tocá-lo o deixou psicologicamente exausto. Não estava acostumado a refrear seus impulsos.

Por um momento, Aiolia sequer teve disposição para virar a chave na ignição. Apenas ficou largado no banco com os olhos fechados, incapaz de registrar até mesmo o fechar da porta. Tinha acabado de respirar fundo quando, de repente, o carro estremeceu. Aiolia arregalou os olhos, sentindo-se agarrado pela camisa xadrez e puxado para a frente enquanto uma boca macia pressionava a sua com força. Um monte de cabelos compridos pousou sobre seu colo, espalhando aquele cheiro que o fazia pensar em lavanda, apesar da fumaça que se impregnara neles.

Foi rápido até demais. Antes que Aiolia pudesse reagir – corresponder, fechar os olhos ou tocá-lo – Mu se esquivou e deixou o carro, enfim batendo a porta antes de sumir correndo até sua própria casa.

O rapaz de olhos verdes-azulados só pôde observá-lo partir, boquiaberto e desnorteado. Podia ter sido só um selinho forte de uns três segundos, mas seu corpo não estava esperando por aquilo. Passou a língua pelo lábio inferior, a sensação da boca macia ainda estava lá e trouxe de volta a lembrança da mão dele em sua pele, tateando seus músculos... Seu coração estava pulsando com força e ele se viu respirando rápido. Só um selinho. Encheu os pulmões e o diafragma de ar, tentando amenizar o que sentia. Quase bradou uns impropérios no meio da madrugada. Nunca teria imaginado que Mu poderia ser tão... cruel?

— Espero que você saiba que vai ter que me compensar por isso... – resmungou para o nada, apoiando a testa no volante, mas estava sorrindo.

O rapaz de cabelos compridos provavelmente sabia.

Era tão bom que o amanhã já fosse hoje.

*

Havia um rapaz de cabelos compridos um pouco desconcertado, um rapaz com uma pintinha charmosa sob o olho esquerdo um pouco descrente e uma praça que estava começando a ficar um pouco movimentada.

— Quer dizer então que depois que recebi sua mensagem de madrugada, avisando que ia embora de carona com o Aiolia, só aconteceu isso mesmo?

— Por que é difícil de acreditar, Afrodite?

A noite estava mais fria do que a anterior. Pink Floyd soava alto do bar enquanto a fumaça cinzenta dos cigarros começava a se espalhar por ali. Afrodite a encarou com desagrado, sabendo que em breve seus cabelos ondulados estariam impregnados com ela.

— Da sua parte, não é. Mas ele não é conhecido pela paciência. Antes pela falta dela.

Mu descruzou os braços e apoiou o queixo no dorso da mão fechada. Depois de tudo, tinha até se esquecido da fama de Aiolia, embora Milo tivesse feito alusão sobre ela com aquela história de muito estouradinho. Mas, bem, Milo o havia desconcertado. Além disso, só porque uma pessoa era notável pela impaciência e afins, não queria dizer que também era dominada por seus hormônios e atacava sexualmente pessoas inocentes, certo?

Afrodite piscou devagar, seus longos cílios se movendo como as asas de uma borboleta preguiçosa, e não disse nada.

— Ele foi realmente legal o tempo todo.

Afrodite observou as próprias unhas, que estavam um pouquinho compridas, e continuou em silêncio.

— Você está pensando que é óbvio ele ter sido legal, já que seria burrice da parte dele agir diferente com a pessoa que ele queria pegar, não é?

Afrodite franziu o nariz levemente arrebitado em desgosto.

— Eu não usaria o termo pegar, Mu.

— Quem pegou quem? – perguntou Milo, aproximando-se deles, totalmente vestido e sóbrio nessa noite. Quando Afrodite respondeu ninguém, não sem um leve desprezo, acrescentou: – Caramba, Mu, que milagre é esse que te fez vir duas vezes seguidas pra praça à noite? Santo Aiolia...

Mu sorriu, só que foi o rapaz com a pintinha charmosa quem falou:

— Santo Milo também faz milagres. Aquele ruivo ali não é o Camus? É raríssimo ele aparecer.

Os três olharam para o outro lado da praça, onde um rapaz com um vibrante cabelo vermelho estava ouvindo algo que um dos gêmeos falava. Não dava para saber se era Saga ou Kanon, pela distância e parca iluminação.

A expressão de Milo se fechou e ele apontou um dedo acusador bem entre os olhos de Mu, de um jeito não muito educado.

— Espero que você tenha se divertido com aquele maldito ontem, porque eu vou acabar com ele hoje.

O rapaz de cabelos compridos achou melhor não questionar. Sentado ao seu lado, no banco de madeira, Afrodite esticou as pernas, cruzando os tornozelos, e olhou para o céu escuro. Seria uma daquelas noites bem longas.

Continua...

Notas finais
Antes que alguém pergunte "Com'assim não teve mais pegas depois daquilo no carro?", eu digo: eles estão de paquerinha, gente, não tem necessidade de pressa xD Muita calma nessa hora, as coisas estão fluindo rápido, se for ver :3 Ainda assim, que tal esse capítulo? Comentários são amigos, não mordem e não arranham :3 Eis aqui os queridos que comprovaram isso e tem todo o meu agradecimento: Orphelin, Svanhild, reneev, Bakanda, Suh, Bloody Rose, Diana Lua, MilaScorpions e Kiba-Ino ♥