Por Anita...

Enquanto eu esperava no aeroporto, lembranças antigas se misturavam com lembranças do presente... Definitivamente eu estava péssima para processar qualquer coisa que fosse, com o mínimo de racionalidade possível naquele momento.

Pra ser sincera, era isso que o Ben me trazia, como nenhuma outra pessoa, ao lado dele, perto dele, eu era totalmente irracional, eu era emoção pura, meu coração que me guiava, movido por batidas fortes, que enchiam meu peito de esperanças, toda vez que meu olhar cruzava com aqueles olhos verdes que para mim, eram os mais sinceros do mundo, mesmo que hoje pudesse existir uma única gota de dúvida dentro de mim. De repente eu fui invadida por um sentimento, de que eu estava prestes a fazer uma enorme burrada pela segunda vez, eu estava partindo sem nem olhar para trás, só que com uma única diferença, quando eu fui embora há um pouco mais de três anos, era em busca da minha liberdade, dignidade, que pareciam coisas que tinham sido arrancadas de mim, eu as perdi com toda exposição que aquele vídeo me trouxe. Mas, agora eu não sabia? Talvez eu estivesse bancando a responsável, e segurando meu orgulho também. Mais o que eu faria também? Largaria tudo por ele e se essa fosse a única forma de me libertar de todo meu passado, seguir em frente sem medo. Eu seria capaz de abrir mão do meu extinto, que me dizia que eu precisava viver aquele momento, até minha alma e meu corpo se desfazerem em cinzas e nada mais. Se eu tinha ido em busca de liberdade, porque agora eu estava reprimindo meu querer, estava sufocando minhas vontades. Porque no fundo tê-lo de novo para perdê-lo na primeira dificuldade, seria minha ruina, eu não queria ter que ver isso acontecer novamente eu não conseguiria suplantar a dor e a tristeza de vê-lo indo embora da minha vida como aconteceu no passado, eu não seria tão camaleoa e conseguiria me reinventar novamente, eu seria sufocada pela falta de noticias da garota que um dia eu fui.

Todas essas incertezas e angustias se misturavam, com a voz tranquila que vinha dos auto falantes do aeroporto, que anunciavam a chamada do voo para Londres, como era de praxe. Essa confusão de pensamentos só podia dizer uma coisa, o medo que se apossando dos meus sentidos, só significava aquilo que eu não queria ver ou preferia que fosse assim, ignorava os alertas das pessoas a minha volta, e até aqueles que eram dados por mim mesma, em momentos de total lucidez, porque eu não queria saber, não queria ter certeza. Mas, eu o amava, eu sempre o amei e eu continuaria o amando com todas as minhas forças, eu nunca conseguiria arrancar esse amor de mim, ele era parte de mim. Entre lágrimas e olhares para o nada, fui invadida por um sentimento de retomar ao Grajaú e isso estava me deixando cada vez mais inquieta e sem saber o que fazer.

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– Ah Ben vamos com a gente, vai ficar aí sem fazer nada mesmo, o pessoal todo já se debandou. – Marcelo queria convencer o amigo a sair com ele e Meg.

– Gente vão vocês, eu nem to nem com cabeça pra sair. – Ben alegou vendo que seus pensamentos estavam aéreos além do normal. – E ainda mais, eu vou acabar atrapalhando vocês e segurando vela. – afirmou ele.

– Hãm, aí que besteira Ben. – Meg desconversou para esconder.

– Também acho. – Reforçou Marcelo.

– Gente eu pareço ser desligado, mas só não percebe quem não quer, o que tá rolando aí. – Retrucou Ben, achando graça de toda negação dos dois.

– Oh Ben olha só, vamos com a gente jantar. – Marcelo desviou do assunto, querendo coagi-lo a aceitar seu convite.

– Meu deus, como vocês são insistentes, deixa eu ir lá em cima pegar um casaco pelo menos. – Ben acabou se dobrando, talvez fosse bom parar de pensar em tantas coisas ao mesmo tempo.

– Você não vai falar nada pra ele. – Meg fitou Marcelo com certa ira.

– Hum qual o problema, primeiro o Ben é meu amigo e segundo não acho que ele contaria pra alguém, e você para de me enrolar tá, e assume logo que você está apaixonada por mim. – Ele sorriu travesso.

– Deixa de ser convencido. – A loira desgostou do jeito exibido do garoto.

– Eu sou um pouco mesmo, mas acho que dessa vez não é só convencimento, é quase certeza. – Afirmou Marcelo, puxando a americana para um beijo empolgado que ela não recusou.

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Anita ainda pensava em que decisão tomar, o avião estava quase de partida, daqui a pouco o portão de embarque se fecharia, mas a menina só conseguia ficar mergulhada em seus pensamentos, no fundo ela queria estar em seu país, queria estar em sua casa novamente, dormindo em seu quarto, queria resgatar aquele futuro que ela tanto sonhou e foi levado de si por uma correnteza do destino, que não a poupou em nenhum momento, ela passou a cultivar a curiosidade de saber como teria sido se o amor dos dois tivesse resistido a todas as provações que passou. Qual seria o futuro dos dois, naquele instante se a vida e as escolhas de ambos tivessem sido outras, ela queria tentar, queria arrancar de si aquela frustração contida, que não era um empecilho em sua vida, mas que também nunca a ajudou nos momentos mais difíceis, quando se perguntar como teria sido se as escolhas não fossem aquelas, se o caminhou não fosse aquele, como seria o resto. Anita sentia que precisava despencar do abismo, sentir apenas aquela sensação de curiosidade lhe rondando, aquela inquietude que a fazia sentir que podia mudar o mundo, onde sonhar era a coisa mais simples que se poderia fazer. Ao lado de Ben isso sempre parecia tão fácil, tão pleno, parecia que tudo se realizaria da forma mais leve possível, era essa a sensação que sempre esteve presente entre os dois e mesmo hoje com tantos empecilhos, anos de separação, milhares de acontecimentos, dos quais os dois não partilharam mais nada, além da lembrança do que um dia ambos planejaram, ao lado um do outro que deu errado, brigas e mais brigas. No fundo Anita ainda podia sentir aquela paz, aquela leveza, como se o sol estivesse apenas se pondo iluminado e majestoso depois de um longo dia, aquela sensação de que o mundo realmente podia parar, ela ainda estava ali, estava no meio dos dois, os unindo, os dando esperanças, os fazendo querer encontrar um novo caminho, onde os dois pudessem caminhar juntos e sonharem juntos novamente. Anita desejou aquilo tudo de volta, desejou que pudesse ser assim, de que toda a escuridão que inebriava o caminho que os dois pudessem terem, um até o outro fosse claro e iluminado novamente, que os dois pudessem sonhar com aquele futuro que foi adiado até ali, por longos anos.

A ansiedade e um impulso incontrolável lhe dominava, enquanto ela fitava o telão do aeroporto, que anunciava o horário de seu voo, juntamente com a última chamada, que era feita com pressa pela atendente da companhia em algum lugar daquele enorme amontoado de prédios e espaços. No entanto, ela só pensava que embarcar de volta para sua vida, era abrir mão dessa vez para sempre, de todos aqueles devaneios que a rondavam naquele momento, talvez dessa vez era pra nunca mais pensar, tudo aquilo ficaria somente como lembranças, planos, rascunhos de um projeto que nunca foi botado em prática e ela como uma eximia arquiteta, sabia que não havia algo mais frustrante do que abrir uma gaveta e ver um projeto com grande potencial, ser desperdiçado, mesmo que aquilo tudo fosse muito maior pra tão somente se guardar em uma gaveta, era sua vida, sua realização, sua felicidade e talvez ela ainda estivesse com Ben, por mais que agora o odiar parecia mais fácil, mas ela também se deu por conta de que o amar era mais fácil ainda, ela o amava somente com um olhar e aquele amor nunca seria igual, ela não acharia outro, mesmo que isso pudesse ser só um pensamento tolo de uma romântica, que hoje prefere dizer que houve e da mais valor para aquilo que sua cabeça profana, do que para aquilo que seu coração determina a cada batida. E ele determinava que ela enfrentasse, que ela se jogasse, mesmo que isso significaria se jogar de um enorme abismo, sem se quer ter consciência do tamanho dele, mesmo com todo sofrimento anunciado, a felicidade que aquela loucura poderia obter, parecia ser maior do que qualquer sofrimento que pudesse existir, sua alma e seu coração conheciam muito bem o sentido da palavra sofrimento, as cicatrizes não eram poucas, mas ela parecia não se importar, ela queria estar ali, queria ficar com sua família, queria se estressar com as brigas, rir com elas também, chorar de emoção e de tristeza quando fosse preciso, ela queria e tinha a necessidade de escrever aquele capitulo do livro de sua vida, ele podia estar atrasado, mas ela achava que ainda podia resgata-lo, podia reescrever algo em cima de tantos rabiscos, mesmo que esse não fosse o tema inicial, ela sentia necessidade de resgatar alguma coisa.

– Foi mal, Reino Unido, mais eu preciso ficar na minha terra, meu lugar continua sendo aqui. – declarou Anita levantando do banco de espera do aeroporto em um rompante, antes que ela mesmo desistisse, sorrindo aliviada, para logo depois correr para a saída do aeroporto.

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– Gente oiiii! – Voltei! – Anita chegou de volta e percebeu que a porta de casa estava apenas encostada e a casa silenciosa. – Giovana, Vitor, Meg, Pedrinho, dá pra alguém vir aqui em baixo. – ela gritou, deixando a bolsa no sofá. – Não tem ninguém, assim que eles sentiriam minha falta, foram todos pra farra. – A menina frustrou-se em encontrar a casa vazia, sua ideia foi apenas procurar algo para comer na geladeira. – O pudim da mamãe ainda vive, ah mais quem vai assaltar a geladeira e lograr todo mundo dessa vez sou eu. – ela afirmou animadamente puxando o prato da geladeira até a mesa, talvez precisa-se mesmo de um aliado que a fizesse traçar com calma o que faria a partir dali.