Encontros, desencontros e novos encontros
42 Capítulo 42:
Notas iniciais
– Nossa quanta louça, meu deus, esse povo não tem limites mesmo. – Disse Anita, encarando toda bagunça sobre a pia, sem nem ao mesmo saber por onde começar.
– Ai vamos lá, louça, vamos bater um papo, eu e você, já que o pessoal parece que se esqueceu que não tem empregada. – Anita afirmou para si mesma, arregaçando as mangas da blusa, pegando a esponja e detergente para começar.
– Bom os pratos já foram, ai só o resto, o resto mesmo. – Disse ele juntando os pratos e caminhando até o armário para guardar. – Quantos anos faz que a mamãe não arruma isso aqui, desde que eu fui embora, que bagunça. – Ai meu deus, que droga. – Assustou-se ela, quando um prato escorregou se espatifando ao chão. – Ótimo, Anita você tinha que realizar uma daquelas façanhas, que só você consegue. – Irritou-se a garota consigo mesma, abaixando para juntar os cacos. – Ai, ai, ai, ia, caramba. – Reclamou ela com dor, cortando a mão com uma das partes do prato espatifado. – Ai, e corto mesmo, a julgar pelo sangue. – Anita se espantou se alevantando, olhando em volta para ver o que faria, vendo gotas de sangue ficarem espalhadas ao chão da cozinha junto a uma mistura de cacos de vidro, ela só conseguiu ter a reação e pegar um guardanapo sobre a mesa, percebendo que não parava de sangrar sua mão.
– Anita o que aconteceu aqui, ou ouvi um barulhão lá de cima, fiquei preocupado. – Falou Ben chegando à cozinha, com cara de espanto, a garota escondeu a mão atrás das costas de imediato.
– Não, é nada, eu coloquei um prato no armário, escorregou, voltou e quebrou, uma bagunça nisso aqui, coisas que só acontecem comigo. – Disfarçou ela, tentando esconder o corte e a dor, dando um sorriso como álibi.
– Ah claro, tem certeza que tá tudo bem. – Indagou Ben, percebendo a cara de aflição dela, pensando em se mover até ela.
– Não, não, não vem aqui, tá cheio de caco por todo lado, se vai corta o pé. – Anita argumentou com ele, ao vê-lo com os pés ao chão somente.
– Tá bom, eu já vi, relaxa, vou passar do lado. – Falou ele, indo até ela, desviando dos cacos.
– Se pode subir, tá tudo bem. – Alegou Anita, tensa em meio à dor do corte na mão.
– Isso aqui, é sangue, o que houve Anita, você se cortou. – Questionou o garoto ao olhar ao chão, com algumas gotas de sangue espalhados.
– Não, tá tudo bem. – Anita negou, não querendo preocupa-lo. – Deve ter sido alguma porcaria que a molecada virou aí. – Ela mentiu.
– E você mente mal, já te disseram isso, pelo menos pra mim, vai o que houve. – Perguntou Ben, tentando convencer ela a contar a verdade. – Vai Anita, eu to aflito. – Ele preocupou-se muito realmente.
– Não foi nada, eu fui juntar os cacarecos aí, e cortei a mão um pouco, acidente doméstico, básico, normal, acontece. – Anita confessou, tirando a mão de trás das costas, pressionando com a outra mão o pano contra o corte.
– Deixa eu vê isso vai. – Pediu ele.
– Não, Ben, vai dormir, eu to bem, não foi nada. – Relutou ela, tensa com a insistência dele.
– Anita, por favor, não custa vai, deixa eu ver. – Ben insistiu irredutível, vendo a cara nervosa dela.
– Não foi nada, é sério. – Ela afirmou estendendo o braço a ele.
– Então não vai fazer diferença, eu ver ou não. – Disse ele, segurando a mão dela. – Sangrou demais, isso aqui pra não ser nada, você não acha. – Ele falou, referindo-se ao pano quase todo ensanguentado.
– Não foi nada, coisa chata você, virou médico agora. – Anita ficou nervosa com a situação. – Ai, ai, não precisa terminar o serviço não. – Esbravejou Anita, quando ele pressionou o pano contra a mão dela novamente.
– Calma, Anita você precisa estancar esse sangue todo, deve ter cortado alguma veia da tua mão, ou quase isso, é um lugar que sai muito sangue mesmo. – Afirmou Ben preocupado com ela.
– Por que isso mata, não né. – Anita questionou, ficando preocupada com a cara dele, encarando sua mão cortada.
– Não, pelo menos não se cuidar direito, fica tranquila. – Falou ele, com um sorriso, como meio de acalma-la. – Você não é daquelas pessoas, que cai dura quando vê sangue não, né, ou pelo menos você não era. – Ben murmurou, acariciando o rosto dela, por um instante.
– E dá pra ter medo de sangue, quando se tem um bando de irmãos que vivem aparecendo com a cabeça rachada o tempo todo, ou você já esqueceu do pique de todo mundo aqui. – Respondeu Anita com um sorriso encarando os olhares de Ben, ela quis se manter calma.
– Totalmente difícil. – Ben riu. – É, é melhor você ver isso aí, vem cá. – Aconselhou ele, puxando Anita pela outra mão até a sala.
– Será que a Vera, guarda a caixa de primeiros socorros no banheiro ainda. – Falou ele com os dois na sala.
– Ai, não sei, eu vou ver. – Anita disse.
– Não, eu te ajudo vai, não custa. – Ben se dirigiu ao banheiro com ela também. – Você, senta aqui, que eu vou procurar. – Pediu ele.
– Ai que foi, vai me dar ordens agora, to fora tá bom. – Anita resmungou, sentando na cadeira perto da pia.
– Vou sim, pelo menos hoje, tá eu tenho um problema com isso, e você tem um maior ainda em me ouvir, admite vai. – Respondeu Ben, remexendo nas gavetas do bidê. – Achei, Vera ainda cultiva antigos hábitos. – Afirmou ele, pegando uma caixa.
– Tá e agora, se pode ir embora, eu me viro. – Anita afirmou, negando-se a deixá-lo, ajuda-la.
– Anita sem chance, eu não vou deixar você precisando de ajuda, e olha que chato, eu ainda tenho duas mãos e você uma. – Ele ironizou.
– Afff, você é insuportável às vezes, ou será que sempre. – Achincalhou ela, irritada com tanta insistência.
– Ótimo pode me xingar, o quanto você quiser, mais eu vou te ajudar. – Ben não se deixou vencer. – Coloca a mão aí, debaixo da torneira vai. – Ordenou ele.
– Sabia que insistência às vezes não é uma qualidade, é um defeito, Benjamin, ou muito pior burrice. – Anita bufou, concordando, ligando a torneira para lavar a mão.
– É, pode até ser, mais quando a outra pessoa em questão, é a pessoa mais teimosa do universo, a gente faz o que, desiste, eu tenho esse problema, eu não desisto, mesmo quando as pessoas me mandam embora, apesar de que as vezes eu pague um preço alto por isso. – Falou Ben sorrindo.
– Olha só, se isso foi uma indireta, volta amanhã, porque hoje, porque hoje eu já to pagando um pecado com essa situação aqui, tá de bom tamanho. – Anita retrucou, em meio à dor.
– Não, você que achou, e se você achou você sabe do que eu to falando, você não se transformou em uma pessoa tão diferente assim de mim, e você sabe disso, talvez a gente se conheça muito mais do que a gente imagina. – Ele disse pegando uma toalha limpa.
– Talvez eu seja, o que você não gosta, porque você sabe que a Anita que você conheceu não existe mais, se conforma com isso. – Anita afirmou, o fitando por um momento.
– É, e por que, de onde vem à ligação, que eu sinto ter com você, ninguém muda tanto assim, a gente esconde mais não apaga Anita. – Falou ele ajoelhando-se diante dela.
– Apaga, e apaga muito, quando as lembranças mais maravilhosas e intensas da nossa vida, é o principal motivo de nosso sofrimento e fracasso, a gente esquece e apaga, pra seguir em frente, e pra ter o mínimo de dignidade e amor próprio que seja – Exclamou ela, vendo uma lágrima instalar-se em seus olhos.
– Dá mão aqui vai. – Respondeu ele com um sorriso.
– Se não vai me xingar não, vai cair um temporal. – Afirmou Anita, surpresa.
– Pra que, você é maior turrona, entra por um ouvido e sai pelo outro que eu sei. – Disse Ben, com um sorriso, enxugando a mão dela.
– E você não, contra outra, isso me culpa, aproveita, que eu to mais zonza que um bicho preguiça. – Debochou ela sarcástica.
– Se tá sentindo alguma coisa. – Perguntou ele.
– Não, não vou morrer não, relaxa. – Anita sorriu irônica.
– Bom pelo menos, parou de sangrar. – Afirmou ele mais aliviado.
– Você já percebeu que você me ataca, e me culpa por tudo, e me julga mal pra caramba. – Ela paralisou por um segundo. – Que você vai fazer com esse vidro de álcool, nem pensa. – Disse Anita, tensa.
– Anita, você se cortou com um prato, quer morrer, com uma mão infeccionada. – Resmungou ele, molhando um algodão no álcool.
– Não, mais você quer me matar, to fora. – Anita rebateu, tentando levantar-se sem sucesso.
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