Encontros, desencontros e novos encontros
43 Capítulo 43:
Notas iniciais
– Senta ai, vai o que, se comportar com uma criança medrosa, se não tem mais idade pra isso. – Afirmou Ben, a empurrando na cadeira novamente. — Anita é sério, admite que isso aí, foi sério. – Ben argumentou. – O certo seria eu te levar num pronto socorro. – Acrescentou.
– Ai tá, admito ok, quase me suicidei. – Anita admitiu a gravidade, estendendo a mão a ele.
– Eu prometo que não vou te torturar vai. – Falou ele com um sorriso.
– Aham, e aí de você. — Tá, tá, já entendi, deu parei, mais ai de você se tentar se vingar de mim pela bofetada. – Ela falou, e Ben riu.
– Relaxa, ate porque você ainda tem a outra mão. – Respondeu ele, rindo.
– E não ri, que não tem graça, isso aí é álcool sabia. – Anita esbravejou sem paciência. – Ai, Ben eu to falando sério. – Resmungou ela, com dor.
– Calma, apressada, pronto deu terminei o curativo. – Disse ele, soltando a mão dela.
– Obrigada de qualquer forma. – Ela acabou agradecendo mesmo não querendo.
– Tudo certo, não precisa, mas eu ainda acho que você devia ir a um pronto socorro, ver isso, foi feio, pode precisar de pontos. – Ben afirmou.
– Não, foi nada, eu to bem, coisa boba, não precisa se preocupa. – Anita garantiu.
– Tem certeza. – Perguntou Ben mais uma vez.
– Tenho eu to ótima, desde que você não me venha com vidro de álcool pro meu lado, querendo despejar em cima da minha mão cortada. – Anita respondeu com um sorriso.
– Tá bom, mais me diz uma coisa, porque você é assim hein. – Ben indagou, sorriso confuso.
– Assim como, eu não fiz nada. – Anita ficou sem entender o porquê da pergunta.
– Se machuca desse jeito, não pede ajuda, não aceita quando te oferecem, não chama ninguém, esconde que tá mal, pode tá morrendo que não diz, você sempre foi assim, qual o problema de admitir que uma vez ou outra, quem precisa ser ajudada é você. – Exclamou Ben, a encarando, com a mão no joelho dela.
– Talvez nunca ninguém percebeu isso, quando é o caso, e eu me acostumei a só ajudar, e não a receber ajuda, quando eu preciso raramente as pessoas veem, mas isso, não é um problema, nunca foi, quer dizer só quando eu não estou muito surtada, não é, e fazendo mil coisas ao mesmo tempo, porque aí eu piro. – Disse ela. – Mais também não é dessa forma aí, que você tá colocando. – Afirmou desconversando. – E eu não gosto nem um pouco de me fazer de vitima, de usar a minha desgraça pra atingir ninguém, e muito menos preocupar, eu não sou exagerada, pra algumas coisas, e foi só um corte bobo, não tem motivo vai, eu não fui atropelada por um carro e nem quebrei um braço, pra nenhum alarde. – Anita respondeu calmamente.
– Tá bom pode ser, mais você podia de vez em quando deixar as pessoas se preocuparem com você. – Afirmou Ben, a encarando.
– Eu não lido bem, e não fico, eu não gosto, de ver alguém mal por mim. – Falou ela taxativa.
– Sempre forte, e você é, sempre foi, e eu só tenho que te admirar por isso. – Completou ele.
– Eu sou humana, prefiro pensar assim, faço minhas burradas, dou minhas cabeçadas, acerto de primeira. – Esclareceu ela tranquila. – E Ben, eu sei que, tem um clima estranho entre a gente, e eu queria muito ter evitado, eu quis mais não deu, escapou do nosso controle. – Anita desabafou, parecendo tirar um peso de sua consciência.
– É, mais isso, não dá hoje, quanto ao clima estranho acho que não é de agora, sempre teve, desde que eu descobri que a brasileira que eu conheci em Miami por acaso, era quase minha irmã, e que eu sou filho do cara que você sempre viu como um pai, e a gente se apaixonou perdidamente, loucamente, e viveu a relação mais forte e intensa possível, pra dois jovens de dezoito anos, que ainda sonhavam com um futuro feliz e acreditavam que isso era possível. – Ben colocou pra fora seus pensamentos.
– Porque não sonha mais, a gente não tá tão velho assim né, pelo menos eu prefiro pensar. – Anita tentou quebrar o silêncio que ficou depois das palavras dele.
– Não sei, na idade talvez não, na cabeça muito mais. – Disse Ben sorrindo confuso.
– É pra eles, pode ter ficado tudo normal, mas pra gente, nunca vai ser normal, ficou uma marca. – Concordou ela melancólica.
– Não Anita, você nunca vai ser parte da minha família somente, você é parte do cara que eu fui um dia, que eu quis ser, que eu sonhei ser, do cara que eu era e que eu não sei se existe mais, ou quanto ele existe dentro de mim hoje. – Confidenciou ele emotivo, a uma Anita mergulhada nas palavras dele. – O cara que tinha um sentimento de amor mais forte, que alguém poderia ter por alguém, e eu, era capaz de dar minha vida, mais eu nunca ia deixar nada de ruim te acontecer, eu precisava de você bem, pra vida ser viva o suficiente. – Afirmou ele.
– Você não tá facilitando, desenterrando esse monte de coisa. – Anita paralisou.
– E quer saber hoje, eu sou uma resenha desse cara, uma folha rabiscada, um completou frustrado, e o fracasso de mim mesmo é a ponta de um abismo, que eu vejo às vezes quando eu olho pra dentro de mim. – Afirmou ele, ignorando as palavras de Anita.
– Não, eu não acredito em você, não em tudo, eu sei que não, tudo que houve na tua vida, na minha, você seguiu em frente, levantou a cabeça e continuo tocando a tua vida, eu posso imaginar mil defeitos em você, de hoje, do passado, mais você sempre foi integro e justo . – Anita falou, tentando entender o que se passava ali. – Pessoas que vivem, o que a gente viveu, que sentem o que a gente sentiu, ver uma ferida aberta, mal cicatrizada, não significa ausência de coragem, ao contrário, a coragem é tanta, que nós vencemos todos os dias, seguimos em frente, por isso que sobrou tempo pra se lamentar, porque a gente saiu do lugar. – Anita afirmou, fechando os olhos por um instante, para abafar as lágrimas.
– Mesmo que, eu deseje muito, meu passado de volta, meu passado no meu presente, eu quero você de volta, na minha vida como antes, eu nunca deixei de querer. – Se declarou ele.
– Então tenta, você só vai saber se tentar. – Anita respondeu olhando ele nos olhos, em meio às lágrimas que não secavam, nem pensando direito nas consequências das palavras dela, que saíram em um momento de emoção. Ben levantou não desviando seu olhar do dela, que fez a mesma coisa no instante seguinte, os dois olharam-se afoitos, o garoto ficou tentando entender o que ela disse com aquilo, parecendo não acreditar, levou suas mãos a cintura dela, Anita colocou a mão que não estava machucado no ombro dele, e os dois estavam prestes a trocar um beijo empolgado quando ouviram uma voz vindo da porta do banheiro.
– Que isso, o que vocês fazem aqui. – Perguntou Vitor intrigado, fazendo Ben soltar-se de Anita no mesmo momento.
– É, nada, nada de mais. – Anita ficou pensando o que realmente estava rolando ali, porque nem ela sabia mais.
– A Anita, ela, machucou a mão, e eu tava ajudando ela a fazer um curativo, por que. – Ben questionou, querendo passar verdade, negando que estava prestes a beijar a garota.
– Ah ok, não tinha outro lugar não, tinha que ser no banheiro. – Vitor disse, olhando para os rostos apreensivos dos irmãos.
– Não, a mamãe que guarda essas coisas aqui, não sei se você lembra. – Anita respondeu tensa.
– Certo, mais você podem sair, eu queria tomar um banho, fiquei até agora terminado um trabalho da faculdade. – Pediu ele.
– Claro. – Disse Anita, pensando apesar de ter mergulhado em uma sensação de decepção, se não tinha sido melhor assim.
– A gente tá indo. – Respondeu Ben, em total frustração, pela interrupção.
– É Ben, se pode ficar um instante. – Argumentou o garoto.
– Posso, fala. – Ben falou, receoso.
– Eu vou indo. – Anita saiu e fechou a porta.
– Eu não entendi direito o que tava havendo, mais cara, você não tava pensando em beijar a Anita não, ou tava, porque agora que tá tudo tão bem. – Disse Vitor, com um certo receio.
– E se eu tivesse, eu teria o que, ouvir sermão de você, Vitor a gente é adulto, o adolescente ainda aqui é você, eu não quero brigar com você, mas não se mete na minha vida. – Afirmou Ben, meio incomodado com a audácia do irmão.
– Ok, mais, você não me respondeu, você ia beijar ela, nunca achei aquele rolo de vocês normal, e depois teve a Sofia no meio. – Vitor reclamou.
– Não, eu não ia beijar ela, a gente tava conversando, mais se eu tivesse, eu beijava, até na tua frente, na frente de todo mundo aqui, eu não devo nada pra ninguém, e nem ela. – Afirmou Ben, negando qualquer coisa. – E cara eu ainda sou o mais velho aqui, eu exijo pelo menos que vocês me respeitem, porque toda vez que vocês faziam as burradas de vocês, eu nunca apontava o dedo, ao contrário, eu ajudava, a Anita ajudava, a vocês não levaram uma bronca do meu pai e da Vera, e o único erro que eu cometi, foi ter ficado com a Anita, bastou pra tudo mudar, e eu não me arrependo se é isso que você quer saber, mesmo dando errado valeu a pena enquanto durou. – Disse ele, taxativo.
– Tudo bem, velho esquece isso, foi besteira. – Vitor sorriu.
– Certo, foi mal seu eu me excedi com você. – Ben respondeu, alegre.
– Que isso. – Pronunciou ele de volta.
– Bom eu vou dormir, boa noite. – Disse Ben, saindo em seguida.
– Boa noite. – Gritou o garoto.
– Ben. – Anita saltou na frente dele no corredor.
– Nossa, parece fantasma, que susto. – Ben reclamou, distraído.
– O que o Vitor queria, te perguntar alguma coisa tá na cara. – Anita deduziu.
– Exato, ele é o mais desconfiado de todo mundo aqui, sempre foi. – Ele confirmou.
– É, o mais chato também não é, aliás, de quem ele herdou isso, porque o Ronaldo não é assim, de apontar o dedo pra ninguém. –Anita disse, impaciente.
– Da mãe, esqueceu que a gente é só irmão por parte de pai. – Retrucou ele.
– É mais aí, a tua também é outra, que deus me livre. – Disse Anita sincera, sem se importar.
– Olha aqui, você não fala mal da minha mãe, não hein, teu pai também não é muito diferente, aliás, é pior. – Ben bufou.
– Claro, golpe do baú, ainda não é considerado crime. – Anita debochou, cruzando os braços.
– Você já imaginou, minha mãe e o teu pai juntos. – Ben riu.
– É, seria tipo mamãe e Ronaldo assim, não é, feitos um pro outro. – Afirmou Anita, tendo que concordar.
– Total, só que em uma versão oposta. – Ben se viu as gargalhadas.
– Ai credo, nossa. – Anita falou rindo, em ojeriza, imaginando a cena em seus pensamentos.
– Melhor a gente parar por aqui, vai que funciona. – Ria ele.
– Verdade, bom eu vou dormir, que o dia valeu por dois hoje. – Anita proferiu, virando-se para ir embora.
– Hey, boa noite, e toma um remédio, se não amanhã você vai ver isso aí te incomodar. – Falou Ben, com um sorriso para ela, se referindo ao machucado na mão.
– Boa noite. – Anita entrou em seu quarto, sem prolongar mais o assunto, deixando Ben mais uma vez com a sensação, que ela havia escapado dele, sem ele conseguir impedir, e lhe vencido mais uma vez.
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