Encontros com a Morte
1 Oneshot
Notas iniciais
Na primeira vez, ela estava atravessando a rua quando achou que passaria dessa para melhor.
Um carro vinha a toda velocidade e furou o sinal vermelho, a garota nem teve tempo de reagir. Entretanto, antes que a tragédia ocorresse, uma figura de capa preta encapuzada surgiu em sua frente se colocando no ponto de impacto. Com um movimento das mãos, desviou o carro que continuou acelerando até desaparecer no horizonte. Antes de sumir, porém, a figura sussurrou "hoje não".
A garota voltou a segurança da calçada sentando-se enquanto tentava processar o que acabara de acontecer. Ninguém parecia ter notado o estranho que a salvou pois continuaram seu caminho, não se ouvia o murmúrio que geralmente seguia um quase acidente nem se formou uma roda em volta da quase vítima. Ela provavelmente imaginou, o carro apenas desviou, só isso, disse a si mesma.
Na segunda vez, ela apreciava o céu deitada em um pano sobre grama. Nas proximidades, um maine coon observava seu alvo, os olhos brilhando em vermelho vivo já diziam que o felino não era normal, algum espirito maligno se apossara da pobre criatura.
Em um impulso, o gato pulou na vítima que, estando distraída, levou alguns preciosos segundos para registrar aquele monte de pelos atacando-a no pescoço visando acertar sua carótida.
Com um giro, ela saiu do ataque e rapidamente se jogou contra o grande felino conseguindo neutraliza-lo com o peso do seu corpo. Ela tentou alcançar o pano para amarrar o bichano, porém, o gato se soltou e antes que pudesse gritar por ajuda, a figura de capa preta apareceu.
A estranha criatura congelou a cena, levitou o maine coon para longe da garota e murmurou algo que lembrava um feitiço. Os olhos do gato aos poucos voltaram a uma tonalidade castanho esverdeado, uma gosma preta deixou o corpo do animal e foi sugada pela terra deixando um símbolo queimando na grama. Com um movimento das mãos, o felino sumiu em um redemoinho de fumaça, surgindo em sua casa encarando um dono bem preocupado.
A figura voltou-se para a garota, descongelando-a, olhou fixamente em seus olhos e novamente sussurrou "hoje não" antes de desaparecer.
Ela não sabia o que pensar, tinha apagado completamente aquela aparição da mente. As memórias do quase acidente há alguns anos atrás inundaram sua mente. Seria possível tudo aquilo ser real? Olhando a marca que o estranho símbolo deixou na grama, ela achava que sim. Como se seus sentidos apenas voltassem agora, uma dor agoniante se apoderou de seu corpo, o gato tinha feito um belo estrago. Ela cambaleou até a casa e foi levada ao hospital.
Na terceira vez, ela conseguiu falar brevemente com a criatura.
Seria uma morte estranha se tivesse de fato ocorrido. A garota, agora mulher, tinha uma alergia incomum, não podia comer orégano. Contudo, em um rolê com os amigos, ela acabou comendo um lanche que continha em seu recheio o condimento mortal.
Uma mordida bastou para seu coração acelerar e sua respiração ficar difícil e ruidosa. Sua garganta parecia estar se fechando, os olhos e boca começaram a inchar. Seus amigos entraram em pânico sem saber o que fazer, mas antes que pudessem tomar qualquer ação, tudo pareceu congelar.
A figura de capa elevou-se sobre a mulher, colocando as mãos sobre seu rosto, falou em um idioma desconhecido e aos poucos a alergia foi suprimida. Quando ela pôde se mexer, já não sentia mais os sintomas do choque anafilático. As pessoas continuavam congeladas.
— Quem é você? — ela murmurou fracamente, encarando admirada seu salvador.
— Sou aquele que evita que as almas sejam levadas antes do tempo. Sou aquele que leva as almas para seu descanso eterno.
A voz da criatura era profunda e pareceu vibrar todo seu corpo.
— Foi você que me salvou daquele gato maluco naquela vez, né? — ela perguntou, dessa vez lembrando-se instantaneamente da criatura.
— A alma que possuía o corpo do animal havia escapado do meu poder... era meu dever evitar qualquer problema que aquele errante causasse.
— Obrigada... Acho.
— Não me agradeça, aqueles que me veem sabem que devem morrer, pois quando a hora chega é a mim que recorrem. Tentam barganhar por mais tempo sem saber que o grande relógio da vida parou — ele disse, invadindo seu espaço pessoal na última sentença. — Hoje não — sussurrou e desapareceu.
O mundo voltou a se mexer, os amigos da garota a olharam confusos, pediram explicações que ela não pôde providenciar. Com o tempo o incidente foi esquecido, transformado em uma piada interna do grupo. A mulher, contudo, passou a contemplar mais o valor e a efemeridade da vida.
A quarta vez foi a última. Ela já estava velha e voltava de avião para seu país natal após uma longa estadia na Europa. Tinha vivido na Islândia por alguns anos, depois passou por vários países pertencentes a União Europeia não se demorando mais do que dois anos em cada lugar. Enfim era hora de dizer adeus ao velho continente e explorar o mundo novo que há tanto deixou para trás.
Durante o voo porém uma situação inesperada ocorreu. O avião foi sequestrado por fugitivos, houve uma pequena confusão até um dos fugitivos sacar uma arma e render todos os passageiros. A senhora começou a ficar com um pressentimento ruim.
Em um momento de descuido, um grupo dos passageiros se juntou e tentou neutralizar os fugitivos, tiros foram disparados, pessoas inocentes feridas. Subitamente, a porta do avião abriu, todos que estavam brigando saíram voando. Uma turbina explodiu e o avião começou a cair. Pânico e histeria se espalhou. Então, como a senhora já esperava, tudo congelou e a figura de capa surgiu.
A figura aproximou-se dela e estendeu a mão.
— Hoje não — sussurrou.
— E quanto aos outros? — ela perguntou.
— Apenas você.
— Você não pode salva-los?
— Uma troca. Você morre, eles sobrevivem. O equilíbrio deve ser mantido.
A senhora observou as pessoas com quem compartilhava o voo, crianças, idosos, jovens, adultos, inocentes ou não tão inocentes, cheios de possibilidades e oportunidades pela frente. Se ela pudesse evitar essa tragédia sua vida valeria a pena. Afinal, o que ela fez pelo mundo? Se dizia defensora da vida, militou por direitos iguais, defendeu suas crenças e agora tinha a chance de terminar fazendo algo nobre.
— Feito. Poupe a vida deles. Eu estou vivendo nos acréscimos há muito tempo — ela disse determinada.
— Se é o que deseja.
Dito isso a porta do avião fechou, foi como se o tempo voltasse. Os que saíram voando retornaram aos seus lugares, os fugitivos estavam amarrados. Todos perderam a memória do acontecimento, os jornais falariam de um milagre pois o avião aterrissou são e salvo.
A senhora, no entanto, seguiu a figura de capa preta. Um Anjo da Morte como ele finalmente se identificou.
Para o mundo ela havia desaparecido. Não tinha família, apenas alguns amigos. O Anjo a deixou se despedir deles no reino dos sonhos, era melhor que nada. Quando seguiram para o pós-vida, ela sentia-se realizada.
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