Encontros, Acasos e Amores
14 Because You Loved Me
Notas iniciais

Por todas aquelas vezes que você me apoiou
Por toda a verdade que você me fez enxergar
Por toda alegria que você trouxe para minha vida
Por tudo de errado e você transformou em certo
Por todo sonho que você tornou realidade
Por todo o amor que encontrei em você, eu serei eternamente grata, meu bem
Você quem me sustentou
Nunca me deixou cair
Você é quem me acompanhou, através disso tudo
Você foi minha força quando eu estive fraca
Você foi minha voz quando eu não podia falar
Você foi meus olhos quando eu não podia ver
Você enxergou o melhor que tem em mim
Me ergueu quando eu não consegui alcançar
Você me deu fé, porque você acredita
Eu sou tudo o que sou, porque você me amou
Você me deu asas e me fez voar
Você tocou minha mão e eu pude tocar o céu
Eu perdi minha fé, você devolveu-a de volta pra mim
Você disse que estrela nenhuma estava fora de alcance
Você me apoiou e eu fiquei de pé
Eu tive seu amor, eu tive isso tudo
Sou grata por cada dia que você me deu
Talvez eu não saiba tanto, mas eu sei que isto é verdade
Eu fui abençoada, porque fui amada por você...
...Você sempre esteve lá para mim
O vento carinhoso que me levava
Uma luz no escuro brilhando seu amor na minha vida
Você tem sido minha inspiração
Em meio a mentiras, você foi a verdade
Meu mundo é um lugar melhor por sua causa...
Because You Loved Me
Celine Dion
Acordei com o barulho de passos no corredor e portas abrindo e fechando e por mais que não gostasse nada de ser acordado logo cedo deixei um sorriso escapar. A muito tempo não era acordado por esses sons já conhecidos.
E enquanto me aprontava para o dia deixei algumas velhas lembranças invadirem minha mente. Não que fosse alguém nostálgico longe disso, mas essa data em específico me levava a muitas memorias. De certa forma era uma data que marcava o inicio da minha vida ou da melhor parte dela pelo menos.
Ao me aproximar da cozinha as vozes foram ficando mais nítidas e as risadas mais altas. E não me surpreendi com a pequena algazarra do lugar.
—Bom dia. — cumprimentei tentando manter minha feição seria, mas o silêncio foi de apenas alguns segundos e após uma rápida resposta todos voltaram para suas conversas. Fui em direção à cafeteira e me servi de uma boa xícara de café antes de me aproximar dela, depositando um leve beijo no topo de sua cabeça sentei ao seu lado na única cadeira vazia da mesa circular.
—Não sei por que essa cara de poucos amigos, ela não assusta mais ninguém você sabe.
—Não sei por que tomar café todos amontoados na cozinha quando há uma mesa espaçosa na sala ao lado. — ela riu e a verdade é que parte do meu dia já estava ganho só por ouvir aquele som.
—Gosto assim, nos deixa mais próximos.
—Sim, sim muito próximos. — comentei observando a bagunça que era um café em família, os mais novos estavam em uma mesa dobrável no canto enquanto os mais velhos ocupavam a mesa circular no centro da cozinha, a parte jovem da família estava acomodada no balcão como dava. E embora não fosse admitir jamais eu realmente gostava desse velho costume, não apenas por gostar de ter minha prole por perto, mas por faze-la feliz, afinal o que muitas vezes poderia parecer um caos para ela era um velho sonho realizado. Durante muito tempo Effie havia se sentido sozinha e desde muito nova queria uma família numerosa.
O sol estava relutante em aparecer ainda sim o dia estava agradável para uma tarde de primavera e não havia outro lugar onde desejasse estar que não fosse ali. O lago era um dos poucos cartões postais da pequena cidade ainda sim não era nem de longe a razão para que estivesse ali. Recostada no meu peito estava o real motivo para não desejar estar em outro lugar.
— O que você está pensando? — perguntei estranhando todo o silêncio.
— Nada importante.- ela não abriu os olhos ao responder e soube pelo tom da sua voz que algo estava errado. Nunca levei muito jeito com as pessoas então há abracei um pouco mais. — Estou cansada, não fisicamente, mas as coisas em casa não estão na melhor fase. Papai não muda, sempre trabalhando demais, nunca está em casa. Sinto-me sozinha só isso. — O pai dela me detestava, mas para ser sincero não era seu maior fã, principalmente por ele não estar presente quando ela precisava.
—Você não está sozinha, tem a mim.
— Eu sei, mas quando estou naquela casa sinto como se o tempo não passasse acho que sinto falta da minha mãe. Ela sempre foi minha companhia, a cada cidade que íamos sabíamos que teríamos uma a outra e agora sou só eu.- a perda da mãe a dois anos sem duvida ainda mexia com ela, ainda sim desde que a conheci via o carinho que ela tinha a cada palavra dita sobre a mãe. – Ela queria ter tido outros filhos, mas ele não quis. As vezes penso se ele ao menos queria a mim.
— Não fala assim...
— Meu pai trata as pessoas como seus soldados, e comigo não é tão diferente, as vezes só queria me sentir parte de uma família.
— Um dia, vamos ser uma família. Prometo. – ela se virou em minha direção com um leve sorriso.
— Com filhos ao redor da mesa nas refeições? – confirmei com a cabeça, mesmo nunca tendo pensado sobre o assunto. – Mais de um?
— Quantos você quiser.
— Eu te amo, e não vejo a hora de ter uma família com você. – beijei seus lábios com carinho e interiormente sabia que havia sido sincero por ela me tornaria um homem de família e daria o melhor de mim para que fossemos felizes.
— Mãe temos que ir, ou vamos nos atrasar. – Suzan comentou já se levantando alguns minutos depois me trazendo de volta ao presente.
— E aonde vocês vão? — Perguntei fingindo não saber.
—Ao spa, todas as mulheres dessa família vão ter um dia de beleza hoje. Então rapazes se virem com o almoço que vamos ficar fora a tarde toda.
— Acho que se forem esperar a Johanna vamos perder a reserva no restaurante para o jantar.
—Muito engraçado Finn. – minha neta fechou a cara para o irmão rapidamente.
— Vocês não vão começar não é? Por favor. – Woody pediu e lembrei das diversas vezes que tive que fazer esse papel de pacificador entre ele e a irmã.
— Falando em reserva, meu querido, você confirmou com o restaurante a nossa?
— Claro. Uma mesa para 26 pessoas às 19 horas confirmado já. — vi a dúvida passar em seus olhos. Obviamente ela esperava ouvir que havia me esquecido.
— Talvez fosse bom eu ligar só pra confirmar é uma reserva grande, e se perdermos não vamos conseguir outra.
—Não é né necessário já liguei. Esta confirmado.
—Quando?
— Effie você não confia em mim? Acha mesmo que iria esquecer algo assim? — ela achava e provavelmente estava certa em achar.
— Vamos mãe! Papai disse que ligou. — embora ela estivesse com dúvida se despediu com um rápido beijo em meus lábios e um aceno para os demais.
Assim que ouvi a porta da sala se fechar vi meu filho estender a mão e dar um leve tapa na parte de trás da cabeça do meu neto.
— Você tinha mesmo que lembrar da reserva ? Se sua vó ligar no restaurante a surpresa acabou.
— Desculpa pai. – parte de mim queria que ela liga-se, provavelmente tornaria tudo mais fácil.
— Talvez fosse bom ligar para o restaurante só para garantir. — comentei procurando meu celular assim que entramos no carro.
—Não vai ser necessário mãe. Papai garantiu que ligou.
— Só pra garantir, não custa nada. — conhecia o marido que tinha tempo suficiente para esperar que ele não tivesse entrado em contato confirmando a reserva daquela noite.
— Não se preocupe mãe, Peeta vai ligar lá só para garantir que o pai confirmou a reserva. Você por outro lado vai aproveita o dia.
— Ele realmente vai ligar Liza?
—Sim, não se preocupe. — assenti com a cabeça concordado. Podia confiar essa tarefa a meu neto sem medo.
O caminho até o salão foi cheio de conversas soltas, estava realmente feliz em poder passar o dia na companhia das duas gerações de mulher da minha família. Por mais que a data fosse o que muitos consideravam uma ocasião para ser comemorada a dois poder reunir todos eles era gratificante. Eu não lembrava a última vez que isso tinha acontecido desde de que meus filhos saíram de casa. Compromissos e imprevistos do dia a dia só nos permitiam uma reunião completa em ocasiões como o natal, ainda sim sempre acabamos passado a data com integrantes a menos.
-Vó como foram seus votos quando casou com o vovô? A senhora se lembra?- Karen era uma copia fiel da mãe e tão romântica quanto.
— Seu avô e eu não chegamos a escrever nossos votos. Casamos no cartório e usamos os votos padrão que o juiz pediu. — esperei ver decepção em seus olhos, mas diferente do que esperava ela apenas perguntou.
—Já pensou no que diria a ele caso tivesse que escrever seus votos?
— Na verdade sim. Há alguns anos chegamos a cogitar renovar nossos votos, então cheguei a pensar em como os faria. – havíamos planejado duas vezes a renovação dos nossos votos uma em nossas bodas de prata, mas na época tínhamos três filhos na universidade e isso sem duvida manteve nossos pés no chão. 25 anos depois iriamos comemorar as bodas de ouro, mas foi um ano difícil já que foi o ano em que Liza e os filhos sofreram um acidente de carro e embora nada de muito grave tenha acontecido Peeta tinha ficado internado por quase um mês devido a uma cirurgia na perna, sem contar o período de fisioterapia e não achei que era um bom momento para isso.
— Aposto que ele está na sua cabeça. — acabei sorrindo já que de fato a maior parte dele estava.
O assunto mudou rapidamente como de costume e por um momento me perdi em velhas lembranças. Como o momento em que Haymitch e eu juramos amar um ao outro.
Havia sido simples e rápido como todo casamento no cartório. Ainda sim guardo cada momento daquele dia na memória.
Meu coração estava acelerado e confesso que o medo era uma constante, aquela não era uma decisão pequena, aquele dia mudaria minha vida, alias nossas vidas. Mas qualquer receio que poderia ter acabou momento em que o vi parado em frente ao cartório da cidade. Haymitch estava usando um terno cinza ligeiramente maior do que deveria ser. Vi quando ele mexeu na gravata e olhou o relógio ansioso. Definitivamente aquele não era nem de longe o estilo de roupa que estava acostumado a usar e assim que desci do carro de aluguel ele sorriu vindo em minha direção.
— Achou que eu não viria?
— Juro que nem pensei nessa possibilidade. Você esta linda.
— Obrigada, alias você não esta nada mal.
— Pronta? – olhei uma ultima vez para a estrada antes de apertar sua mão e entrar no cartório e em menos de 10 minutos estamos saindo, com uma certidão. – Feliz senhora Abernathy?
— Muito.
— Effie, eu sinto muito, por não ser como você sonhou. – realmente não estava sendo, no meu mais belo sonho, haveria uma igreja, meu pai me conduziria pela nave eu usaria um vestido branco e todos nossos conhecidos estariam ao nosso redor.
— Você é o que sonhei.
— Realmente não queria que fosse assim, queria poder te dar mais do que nós dois e o Chaff como testemunha. – olhei o melhor amigo dele sentado nos degraus do cartório e sorri ao voltar a olhar nos olhos do homem que eu amava e que agora era meu marido perante a lei.
— Você e eu... É o que basta pra mim, não importa ninguém mais. Estou feliz amor, mais do que já estive em muito tempo.
— Eu juro que vou fazer de tudo para ver você e ele felizes. – ele me abraçou colocando levemente a mão em meu ventre ainda liso.
— Pode ser uma menina.
— Dessa vez é um menino. Sei que é. – sorri e o beijei nos lábios com carinho. Meu pai estava errado Haymitch Abernathy era sim o homem certo pra mim.
— Está tudo confirmado com o buffet e a florista já está chegando. — Peeta comentou entrando na sala. — Tudo bem vô?
— Tudo garoto, só estou pensando no que dizer. — Talvez se a pergunta tivesse vindo de outra pessoa não tivesse sido tão sincero, mas dos meus netos Peeta era de longe o mais atento às pessoas ele realmente se importava.
—Já tem alguma ideia? — neguei com a cabeça e ele se sentou ao meu lado. — Já tentou voltar ao princípio? Me conta como vocês se conheceram?
— Você já sabe, Effie já contou essa história várias vezes desde que você era moleque..
— Sim, mas você nunca contou. — dos meus netos Peeta era o que mais conviveu conosco, ele não era tão apegado a mãe quanto os irmãos e desde pequeno nunca se importou em ficar em nossa casa ou viajar conosco independente da distancia e do tempo que ficaria longe. E não que tenha preferencia entre meus sete netos, mas tinha mais facilidade em lidar com ele do que com os demais.
— Foi no final do verão de 1956. A cidade estava eufórica com a implantação de uma base militar e Seamville¹ nunca esteve tão movimentada quanto naquele período e mesmo no dia mais quente do ano o lago que normalmente ficava cheio estava praticamente vazio...
Não foi nenhuma surpresa ver tão poucas pessoas no lago, minha própria família havia trocado uma tarde aproveitando o sol para ir a cidade ver a chegada dos militares, não que fosse contra a chegada deles a cidade, mas não estava nem um pouco animado em ficar em pé no sol quente esperando por um desfile. Estava recostado em uma das árvores os olhos fechados aproveitando a calma e a sombra e não vi ela se aproximar.
— Licença... — abri meus olhos e a vi pela primeira vez, por um instante pensei ter pegado no sono e ainda estar sonhando. Os cabelos loiros ondulados abaixo do ombro e o rosto mais bonito que já tinha visto, seus lábios estavam se mexendo, contudo não havia ouvido nada. — Você pode me ajudar?
—Como? — ela sorriu como se não estivesse surpresa com minha reação e de fato provavelmente não estava.
— Estou procurando o caminho para cidade, acho que me perdi, você pode me ajudar dizendo onde fica?
— Claro. — levantei rapidamente batendo na minha calça tirando os rastros de grama. — A cidade fica para lá, posso te acompanhar se quiser. — Não sei porque sugeri acompanha-la e vi que ela parecia analisar a proposta com cuidado.
— Desculpa não queria te assustar.
—Não, tudo bem. Eu ficaria grata se pudesse me acompanhar. Sou nova na cidade e provavelmente me perderia de novo. — caminhamos um do lado do outro, com a distância de quase uma pessoa entre nós.
— Pai militar?
— Sim, morei em tantos lugares que perdi a conta de quantos.
—Deve ser interessante, conhecer tantos lugares.
— Não muito. Pelo menos não quando não há para onde voltar. E você sempre morou aqui?
— Sim, nasci na casa onde ainda moro com minha mãe e minha irmã. — ela não perguntou sobre meu pai e agradeci por isso. Não me agradava em nada falar sobre a falta que ele não fazia em minha vida e sobre o fato de que o fim da lei seca também foi o fim do homem sóbrio que minha mãe conheceu.
—Isso significa que é uma boa cidade então?
—Acho que é como toda pequena cidade do sul. Temos nossa história e tradições, a maioria das pessoas se conhece, os verões são insuportavelmente quentes e qualquer novidade mobiliza a população.
— Tirando os verões insuportáveis. Parece-me agradável. — concordei com a cabeça.
— A cidade fica logo ali. — comentei apontando a fileira de casas pavimentadas que indicavam o início do centro comercial.
—Obrigada. A propósito sou Effie Trinket.
— Haymitch Abernathy.
— Foi um prazer conhecer você. Acredito que nos vemos por aí...
— O destino parecia conspirar a nosso favor e nos encontrarmos ao acaso um número considerável de vezes antes que tomasse coragem e a convidasse para sair. Depois disso foi como se a conhecesse a vida toda.
— Vovó diz que o senhor foi muito devagar. — ri.
—Provavelmente fui mesmo. Mas ela era... era tão incrível que acreditava que jamais teria uma chance de verdade. Sua avó sempre foi mais do que desejei na vida.
—Se fosse hoje em dia ela teria chamado você para sair. Palavras dela, não minhas.
— Não duvido. Sou uma exceção ao padrão dos homens da nossa família que são apressados. Como você, acho que puxaram Effie.
— Eu?
—Sim. Até onde sei você e aquela morena andam evoluindo bastante. — falar sobre a vida amorosa dele era mais fácil do que pensar no que escrever.
— Bom... Estamos dando um passo de cada vez. Falando nela ela vai ir hoje e agradeceria muito se não a fizesse ficar envergonhada.
— Apresentar a garota aos pais em uma comemoração de bodas é um grande passo. E não se preocupe que se quiser fazer o pedido hoje sua vó e eu não nos importamos.
— Engraçado você. Não vai ter pedido nenhum. Estamos nos conhecendo, gosto dela, muito. Mas ainda é cedo para um pedido. Futuramente quem sabe.
— Cedo? Vocês estão quase morando juntos. — ele revirou os olhos. — Pelo menos ela parecia bem à vontade no seu apartamento. — a pouco mais de um mês tinha ido fazer uma visita, porém não havia sido o loiro que abriu a porta. A morena que usava um shortinho e a camisa dele sem dúvida não esperava encontrar na porta alguém que não fosse Peeta.
— Esse tipo de comentário que gostaria que não fizesse. Katniss ainda está sem graça.
— As coisas evoluem rápido hoje em dia. No meu tempo as coisas não eram assim.
— Você sabe que sei que a vovó casou grávida do tio Woody não sabe?. Porque basta fazer as contas e ver que de setembro a abril não tem 40 semanas.
— Você anda petulante garoto.
— Voltando ao assunto principal. Alguma ideia do que escrever agora?
— Não, depois de todos esses anos não há nada a dizer que ela não saiba. É besteira.
— Talvez ela saiba, mas não tenho dúvida que não muda o fato de que vai adorar ouvir.
O dia no spa havia sido verdadeiramente agradável, conversamos bastante, rimos e lembramos casos antigos. Mas estava ansiosa para voltar para casa antes do trânsito ficar ruim, afinal ainda tínhamos que ir para o restaurante e odiava atrasos.
— Não se preocupe mãe, vamos direto. Trouxemos as roupas e nos arrumamos aqui mesmo.
— Não trouxe minha roupa Suzan, Temos que ir para casa.
— Comprei algo par você usar hoje, um presente. – Clove trabalhava com moda e normalmente confiava no bom gosto da esposa do meu neto.
— Um vestido branco?
— Perola e vai ficar lindo com o terninho. Experimenta.
— Só você mesmo. – elas acabaram insistindo para que fizesse uma maquiagem e quando enfim fiquei pronta só Johanna estava me esperando. – Cadê todo mundo?
— Foram para o carro, vamos? – minha neta havia estacionado do lado oposto do carro da minha filha e acabamos indo apenas nós duas.
O tempo estava agradável, e sorri normalmente Seattle era sempre chuvosa, mas hoje o tempo parecia estar colaborando. Nunca tinha cogitado a hipótese de morar ali, entretanto foi ali na Costa Oeste que formei meu verdadeiro lar, ali que a loucura se tornou realidade.
— As coisas vão ficar bem, você vai ver. – Haymitch parecia derrotado, e pela primeira vez temi que ele se arrependesse de ter se casado comigo.
— Não vou conseguir um emprego aqui, precisamos ser realistas. Seu pai aparentemente deixou bem claro que não apoia nosso casamento. – em uma cidade pequena como Seamville se casar sem o consentimento dos pais não é algo bem visto e considerando a influencia do cargo do meu pai isso não ajudava muito.
— Vamos dar um jeito amor.
— Que jeito? As economias estão acabando e você vai entrar no terceiro trimestre da gravides logo, preciso de um emprego.
— Não acredito que papai esta fazendo isso, ele não tem o direito.
— Ele esta fazendo o que prometeu fazer.
— Sinto muito...
— Não sinta, nunca. Não é culpa sua.
— Alguma ideia?
— Uma na verdade, vai parecer loucura, mas a longo prazo parece uma boa opção. – ele fez uma pausa. – Vamos embora daqui.
— Como?
— Sei que não gosta de se mudar e que planejávamos viver aqui, fazer de Seamville seu lar também, mas acho que seria valido pensarmos em ir para outro lugar, longe daqui onde não nos julguem ou nos conheçam.
— E isso seria onde?
— Qualquer lugar. Vamos pegar o que temos e ir embora.
— E sua mãe? Sua irmã?
— Mantemos contato com elas, quem sabe elas não venham depois. Eu quero te dar um futuro, mas aqui não vamos conseguir.
— Como saberíamos onde ir?
— Já sei. – ele levantou e foi até a estante pegando um mapa. – Fecha os olhos. – sorri antes de fechar. – Não vale olhar.
— Não estou olhando.
— Certo. Me da sua mão. – fiz o que ele me pediu e senti o papel em cima da mesa. – Agora aponta um lugar.
— Você não pode estar falando serio.
— Vamos lá. – fiz o que ele pediu. – Abra os olhos. Acho que temos um destino agora.
— Não podemos ir para Seattle.
— Por que não?
— Estamos na Carolina do Norte é loucura.
— Posso tentar ir primeiro, você fica na minha mãe...
— Não... Não vamos nos separar. É loucura, mas vamos com você onde quer que você vá.
— Johanna esse não é o caminho do restaurante.
— Preciso passar em um lugar antes. Não se preocupe vamos chegar a tempo.
— Sua tia sabe que ia fazer um desvio? Não estou vendo o carro dela.
— Ela sabe não se preocupe. — Levou cerca de 15 minutos para que ela encostasse em frente a uma pequena capela do nosso bairro. — O que vamos fazer aqui? Vamos nos atrasar.
—Na verdade estamos bem na hora. — olhei para ela sem entender. — Vovô pediu para te entregar. — ela estendeu uma caixinha de veludo com um pequeno envelope e reconheci a letra imediatamente.
"Sei que estou atrasado, mas você me daria à honra de me encontrar no fim da nave?"
Senti um nó se formar na minha garganta. Haymitch não fazia o tipo de homem que faz grandes demonstrações. Abri a caixinha e notei que estava vazia.
—Johanna?
— É para você colocar sua aliança. — notei que minha mão tremia enquanto retirava o anel que a 60 anos não saia do meu dedo. — Respira fundo e tenta não borrar a maquiagem. – comentou saindo do carro e me deixando sozinha por um instante. Não consegui ao menos pensar direito quando batidas na janela do carro chamaram minha atenção.
— Pronta para uma caminhada? — Woody perguntou com um largo sorriso e acabei sorrindo de volta. Caminhar pela nave da igreja em direção ao amor da minha vida havia sido um sonho antigo, mas fazer esse percurso ao lado do meu filho era mais do que dia poderia ter sonhado.
Enquanto entrávamos na igreja observei todas as pessoas importantes da minha vida ali, meus netos e bisnetos estavam olhando em minha direção. Minhas filhas estavam no altar e sorriram. Mas quando Haymitch virou foi como se tudo ganhasse um sentido novo.
A igreja não estava cheia, não teria conseguido manter a surpresa se estivesse. Ainda sim ali estavam todos que precisam estar. A família que construímos juntos e os amigos mais próximos. Sabia que só o fato de conseguir reunir todos deixaria Effie feliz, e o plano do jantar seria suficiente para que a comemoração estivesse completa. Ainda sim 60 anos atrás não pude dar a ela um casamento dos sonhos e por mais que ela negasse sabia que nossa ida ao cartório deixou a desejar. Minha mulher era romântica, tinha sonhos e sem dúvida merecia mais. Talvez fosse tarde, talvez ela odiasse a ideia ainda sim sentia que precisava fazer isso, eu devia isso a ela.
E quando expus a ideia aos meus filhos todos pareceram gostar então a organização havia começado. Uma recepção em nossa casa e a confirmação dos novos na capela do bairro.
—Johanna já chegou, o tio está indo buscar a vovó. — Gale avisou antes de voltar para seu lugar e senti um frio na barriga muito parecido com o que sentia anos atrás em frente ao cartório de Seamville.
Me posicionei de costas para a entrada e Liza ajeitou minha gravata sorrindo em seguida. Não sei quanto tempo passou até que eles enfim entraram. Assim que me virei e a vi flashes passaram na minha cabeça e o tempo pareceu voltar, quando ela parou na minha frente com um sorriso que iluminava seus olhos era como vê-la pela primeira vez.
— Acho que não é necessário pedir que cuide dela não é? Então apenas continuem fazendo um ao outro feliz. — meu filho falou antes de beijar o rosto dela e se posicionar no altar ao meu lado.
—Você está linda.
— Você não está nada mal. – sorri.
— Ainda que eu fale a língua dos homens e dos anjos, se não tenho amor sou como um sino ruidoso... Se eu não tenho o amor não sou nada...O amor é paciente, prestativo, não é invejoso não se vangloria, não se incha de orgulho. Não falta com respeito, não é interesseiro, não se irrita, não planeja o mal. Não se alegra com a injustiça, se alegra com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera e tudo suporta² — Effie apertou minha mão mais forte, sabia que aquela era uma de suas passagens favoritas e a escolha por ela tinha sido fácil. — Estamos aqui hoje para confirmar os votos... — dizer que prestei atenção ao que foi dito seria mentira, estava nervoso demais para isso. — Haymitch seus votos.
— Effie, pensei em tantas coisas para dizer nesse momento, mas de alguma forma nada parecia suficiente, nada do que possa dizer a você será suficiente para expressar o que sinto. Então lembrei que ouvimos varias vezes que éramos diferentes demais, que não daria certo e que estávamos cometendo um grande erro quando nos casamos, que não iria durar. Eles estavam certos em dizer que somos diferentes, mas nunca fomos um erro e 60 anos depois olha onde estamos. O que construímos juntos. Não sou perfeito nunca fui ainda sim você me amou com todas as minhas imperfeições e sou eternamente grato por isso. Grato por ter você na minha vida. Porque você deu cor aos meus dias cinzentos, me fez desejar mais do que podia sonhar, acreditou que eu conseguiria quando eu mesmo achava que iria fracassar. Eu te amo e vou continuar a amar por todos os dias da minha vida.
Haymitch nunca foi de muitas palavras e ouvi-lo ali diante de todos foi ainda mais significativo. Eu não havia preparado nada ainda sim me arrisquei com as palavras.
— Não estava preparada para hoje, mas isso só prova que fiz a escolha certa em dizer sim anos atrás, mas isso também não é surpresa eu já sabia. Sabia que tinha feito a escolha certa no momento que disse sim pela primeira vez e embora os últimos 60 anos não tenham sido perfeitos, pois tivemos problemas como todo casal, sempre passamos por tudo juntos. Você esteve ao meu lado nos bons e nos maus momentos. Você fez meus sonhos ganharem vida. Eu me sentia tão só antes de você e me lembro que certa vez você me prometeu que eu nunca mais estaria sozinha e sou eternamente grata por você ter cumprido essa promessa. Você me deu uma família com três filhos lindos e eles nos deram netos e bisnetos maravilhosos. Obrigada Haymitch Abernathy por me dar mais do que sonhei um dia. Eu te amo, sempre vou amar.
— As alianças ... — sorri ao pegar uma mesma aliança que coloquei no dedo dele anos atrás.
— Haymitch Abernathy eu te ré entrego essa aliança como prova do meu amor e da minha fidelidade.
— Effie Abernathy eu te ré entrego essa aliança como prova do meu amor e da minha fidelidade. — assim como uma aliança deslizou pelo meu dedo, que é o seu lugar de colocação e um solitário de diamante. — Estava devendo. E estas bodas pedem.
— Eu te amo.
— Eu também. — ele beijou meus lábios com carinho no momento em que os aplausos foram ouvidos. Aquela era minha vida e nenhum outro casario eu tenho mais feliz do que ele.
¹ Cidade fictícia.
² Coríntios 13: 1, 4-7
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