Encontro no fim do mundo
1 Encontro no fim do mundo
Notas iniciais
Boa leitura!
Encontro no fim do mundo
[Léo] Me deitava no asfalto morno no meio do cruzamento das ruas mais importantes e movimentadas do bairro. Em um dia normal, eu provavelmente seria atropelado, mas aquele dia certamente não era normal. Ouvia os sons distantes das ondas quebrando na areia. Bem distantes, mas nenhum outro som os ofuscava. Olhava para o céu azul, limpo, pensando comigo mesmo se aquele era o fim do mundo. Estava sonhando? Estava morto? Faria sentido, mas eu nunca havia me sentido tão vivo. A verdade era que todos haviam sumido. Todos os pássaros, todos os ratos, animais, vizinhos e amigos — todos sumiram. Não haviam pessoas, não havia barulho, havia apenas o silêncio da solidão. Nem mesmo o tempo parecia passar, e eu apenas podia me perguntar o motivo de estar ali. Se todos foram embora, por que eu fiquei? Então resolvi esperar ali, no ponto mais movimentado que eu conhecia. Talvez alguém aparecesse correndo para me avisar que a cidade foi evacuada em defesa a um ataque terrorista, talvez alguém fosse me pedir para levantar pois fariam uma obra ali, talvez eu simplesmente acordasse do que poderia ser o sonho mais real e quieto que já tive. Mas não. Estava apenas eu, as ondas distantes e a poesia solitária do relevo do asfalto.
E então,
Ela…
[Mari] As casas estavam vazias. Não só as vizinhas, mas todas elas. As ruas, sem pedestres, carros estacionados, todos eles. Não haviam crianças no parquinho, não haviam compradores nas lojas, nem mesmo a praia via seus tantos visitantes. Era como se a cidade virasse uma versão fantasma de si mesma, silenciosa como o vazio do espaço. Eu estava sozinha? Andava pelas ruas, descalça, procurando alguma explicação para todos terem sumido. Não me importava com o sumiço de todos, apenas estava curiosa com o mundo como eu nunca tinha visto. Não sabia por que estava sozinha, mas sabia que estava, e caminhar pelas ruas só me fazia ter mais e mais certeza disso, até que o vi. Bem ali, deitado no cruzamento como se a rua fosse dele. Desviava o olhar vazio que mandava para o céu e o direcionava para mim. Bem para mim.
[Léo] Olhava ao longo da rua enquanto a observava caminhar em minha direção, curiosa. Parecia estar na mesma situação que eu, acordando em um mundo vazio. Mas vê-la me deu um certo alívio. Agora eu sabia que não estava sozinho, mas tinha menos certeza de que não era um sonho. Ela deslizava apressada pelo chão, descalça, vestida apenas com a roupa íntima completamente branca, com seu cabelo longo e bagunçado, como se tivesse acabado de acordar. Me sentia invasivo olhando-a seminua a andar por aí, mas ela era tão linda que me fazia esquecer do mundo que talvez tivesse acabado.
[Mari] Eu me aproximava do rapaz que me encarava com um olhar incrédulo. Era como se fosse puxada de meus pensamentos de volta a realidade, afinal, tinha alguém ali. Sentia que ele entendia aquela situação tanto quanto eu, não saberia explicar, mas entendia. Normalmente eu não falaria com um estranho deitado no meio da rua, mas não havia mais ninguém com quem falar, e eu de certa forma sentia que devia falar com ele.
— Ei você! — Me aproximava do rapaz que me olhava como se ainda não acreditasse que eu estava falando com ele. Talvez nem mesmo eu acreditasse. — Quem é você?
— Eu… Meu nome é Leonardo. Pode me chamar de Léo se quiser. — Leonardo se virava novamente para encarar o céu, parecendo não se importar com nada.
— Léo. Por que você é a única pessoa por aqui?
— Bem, parece que o mundo acabou sem nós, não é mesmo?
— Acabou? Isso explicaria o sumiço de todos. E talvez o motivo de você estar deitado no meio da rua. — Eu dizia em tom de brincadeira, como se julgasse a posição do rapaz.
— E provavelmente explica você estar andando sem roupas por aí.
Olhava para mim mesma e percebia que ainda estava sem roupas. Não ligava para isso enquanto estava sozinha, estava confortável, sentia que o mundo era a minha casa. Mas então havia um desconhecido olhando para mim. Então eu corri, corri para minha casa, gritando para o garoto não olhar para mim. Mesmo no fim do mundo, aquilo era constrangedor.
[Léo] Ela corria para longe, vermelha, envergonhada. Eu não podia julgá-la, ela estava se sentindo confortável, o mundo, sem mais ninguém, era a casa dela. E eu fazia o mesmo, me sentia confortável, deitava onde queria sem medo de ser julgado. Minutos depois ela voltava arrumada em um vestido preto, com o cabelo preso, mas ainda descalça.
— Então, garota. — Me sentava em uma posição mais confortável para conversar, olhando-a nos olhos, agora sem me sentir um invasor. — Ainda não me disse seu nome.
— Marina.
— Marina, é? Prazer, sou Le…
— Léo, você já disse. — Ela parecia curiosa, demonstrava interesse. Sentou-se ao meu lado, olhando para o céu na mesma direção que eu encarava a tão pouco. — Então… Acho que estamos sozinhos aqui.
— É, pelo menos enquanto eu não acordar desse sonho maluco.
— Ei! Isso não é um sonho.
— Eu tenho certeza de que não é, mas você precisa admitir que parece um, Marina.
— Mari. — Ela voltava o olhar para mim novamente, tentando recomeçar o encontro inicialmente desajeitado. — Só Mari, ok?
— Tudo bem, “Mari”. E qual é a do vestido preto? Não se incomode comigo aqui. — Eu tentava ser amigável, mas sentia que meu senso de humor era um pouco inapropriado naquele momento. Ou em qualquer momento. Marina ficou vermelha, mas tentava disfarçar sua timidez.
— Eu achei que preto fosse um visual mais adequado para o fim do mundo.
[Mari] Léo tentava conversar como se eu fosse a última garota do mundo. Eu entendia o ponto de vista dele, afinal, eu era a última garota do mundo. Mas ele também era o último, e o que no primeiro encontro me fez querer correr para me esconder, agora me dava um pouco da companhia que estava me faltando.
— Ei Mari, sabe que você não precisava correr até sua casa para…
— Já passamos dessa fase, ok? — Eu ainda estava um pouco envergonhada, mas não estava realmente incomodada com aquilo, apenas tentava brincar. Estava bem humorada, mesmo que fosse o fim do mundo, parecia que nada era um problema. — Pode parar de me lembrar disso, que tal?
— Não é isso que estou dizendo. Olha, tem umas lojas com roupas bem legais aqui na rua, por que não foi em uma delas?
— Como assim?
— Sabe, ir lá nas lojas e escolher algo que goste.. — Léo se levantou do chão, apontando em direção a uma das lojas — Todas as portas estão destrancadas. Podemos entrar em qualquer lugar.
— Então eu deveria apenas ir lá e… Pegar?
— Por que não? — Ele cruzou os braços atrás da cabeça, levantando os ombros com um tom de quem não se importava — Não acho que alguém vá se incomodar.
Léo estava certo, sem pessoas no mundo, nada do que nós pudéssemos fazer incomodaria alguém. Não havia mais ninguém para se importar, a única que podia me julgar era eu mesma. Aquele mundo agora era meu.
[Léo] Mari entrava em todas as lojas de roupas que via na rua, testando diferentes visuais, mesmo que ninguém mais fosse ver. Não estava frio, não estava calor, podíamos usar as roupas que quiséssemos sem nos preocupar com o clima. Ela gostava de vestidos leves e nenhum calçado, achava que era mais confortável sem eles.
[Mari] Léo rodava pelos restaurantes procurando os melhores lanches para comer. Não havia fome, mas podia comer o quanto desejasse sem se sentir cheio com isso. Ele buscava os pratos mais bem temperados que podia encontrar, gostava de sabores fortes, dizia que uma comida sem sabor era uma comida sem motivo para existir.
[Léo] Sentamos na beira da praia, animados. Tínhamos o mundo inteiro para explorar e ninguém para nos julgar.
— Você faz alguma ideia de por que estamos aqui? — Ela disse olhando para o mar tranquilo, que outrora estaria entupido de pessoas. Agora estava a sós com a areia.
— Como eu poderia? Me deitei no chão esperando respostas, e tudo o que me veio foi…
— Quais são suas teorias? — Marina me interrompeu, como se tentasse evitar outra piada que eu certamente faria.
— Podemos estar em um sonho.
— Você sabe que isso não é um sonho, não tente se enganar.
— Eu sei, mas é o mais fácil de acreditar.
— Bem, eu penso que todos resolveram ir embora e me deixaram aqui. Eu sou irritante demais para eles. — Ela se deitava na areia, agora com um vestido florido, adequado para a liberdade de ter um mundo particular.
— Com certeza. E eu teria abandonado você também se não tivessem me esquecido aqui. — Disse brincando, em tom de provocação.
— Ei! Se quiser ir embora, pode ir. Eu estava muito bem sem você aqui.
— E se eu fosse, quem mais te lembraria de se vestir?
— Eu me viro sozinha. Você é quem ia precisar de ajuda para se lembrar de levantar do chão!
— Tudo bem, então vamos declarar uma trégua aqui, ninguém vai embora e assim temos com quem conversar.
— Certo. — Mari se virou de lado, olhando para mim novamente. — Você acha que eles vão voltar?
— Eles quem?
— Todos eles. Meus amigos, seus parentes, os motoristas raivosos, todos. — Mari parecia um pouco atordoada, efeito de estar no fim do mundo, talvez, mas não parecia incomodada, apenas curiosa.
— Talvez eles voltem. Talvez nós é que tenhamos sumido do mundo real e eles é que sentem nossa falta. Todos eles.
— Não consigo me lembrar de nenhum. Não lembro de rostos que eu via todo dia, não lembro de pessoas com quem convivia, é como se eles nunca tivessem existido. Mas eu sei que existiram, eu me lembro de ter convivido com eles. — Eu compartilhava desse sentimento. Era a primeira vez que parava para pensar a respeito. Não me lembrava de ninguém além de mim, mas sobrava a certeza de que eles existiram.
[Mari] Brincava com a areia enquanto observava o céu. Estava tudo tão calmo, como se o mundo fosse um bebê dormindo. E eu questionava a minha própria existência. Como poderia estar em uma situação tão estranha com um desconhecido e ainda assim me sentir bem? Eu deveria estar preocupada com meus amigos, mas não pensava neles. Pensava apenas em aproveitar o tempo que tinha com o mundo para me divertir.
— Léo, que horas são?
— Eu não sei. Que diferença faz?
— É estranho… Parece que faz tantas horas que acordei sozinha aqui, mas ainda está de manhã.
— Sim. Estamos conversando a tanto tempo que já deveria ter anoitecido. Algumas vezes talvez.
— Então quer dizer que o tempo parou?
— Ou estamos vivendo na velocidade da luz.
— Isso não faz sentido. É só olhar as ondas, ou sentir o vento. Eles não estão diferentes, apenas mais calmos.
— Então estamos em um dia infinito.
— Hm… Parece que o mundo realmente acabou então.
— Poderíamos só sentar aqui e observar o infinito chegar ao fim.
— Não! Que ideia chata. Temos o mundo inteiro para explorar, eu ainda não cansei!
Levantei da areia e andei alguns passos para longe da margem, olhando para Léo e vendo que ele não se movia.
— Você não vem?
— Pra que tanta pressa?
— Porque já estamos a uma eternidade parados aqui. Vamos ver mais!
Léo parecia querer passar todo o tempo dele esperando por alguma coisa. Sabia que não tinha mais responsabilidades agora que o mundo acabou, sabia que não precisava fazer mais nada, e aproveitava isso.
[Léo] Mari queria testar todas as possibilidades. Tinha o mundo inteiro para ela, podia fazer tudo o que quisesse sem ser julgada, e queria preencher cada momento com pequenas aventuras.
[Mari] Não haviam regras para nós no fim do mundo. Podíamos fazer as coisas do nosso jeito. Corremos por aí, sem rumo, sem nunca nos cansar. Criamos histórias só nossas, sem ninguém para duvidar. Parávamos por horas e horas, apenas porque Léo queria respirar.
Pareciam horas, mas o tempo não passava. Era como se cada segundo que passávamos juntos fosse infinito.
Estávamos já em outra cidade, explorando locais que não conhecíamos, e embora eu pudesse visitar todos os lugares do mundo, era como se sempre tivesse mais para ver.
— Temos todo o tempo do mundo, você pode esperar um pouco antes de invadir o parque. — Ele dizia, sentado ao meu lado no gramado da praça, debaixo da árvore que marcávamos com nossos nomes.
— Eu não entendo. O que você tanto espera?
— Nada. Eu só gosto de ir com calma.
— Disso eu sei. Já me disse algumas vezes.
— Então por que se incomoda tanto com as nossas pausas? Eu gosto de parar e conversar.
— Vai ver é por isso que estamos juntos aqui. Sem mim, você passaria a eternidade inteira apenas esperando. Seria uma existência bem chata, não acha?
— E sem mim você ainda estaria correndo por aí sem roupas.
— Achei que já tivéssemos superado isso. — Rimos por alguns momentos, trocando olhares que se entendiam por si só.
[Léo] Marina me fazia perceber que meu mundo não deveria ser feito de pausas.
[Mari] Léo me mostrava que cada momento significava mais com o tempo.
[Léo] Então ela se aproximou de mim, tocando seus lábios nos meus com um beijo.
[Mari] Não era apenas um beijo, era o único beijo no mundo.
[Léo] E mesmo se todas as pessoas estivessem ao nosso redor, eu não me importaria.
[Mari] Éramos apenas nós.
[Léo] Ela e eu.
[Mari] E eu sentia como se já conhecesse aquilo.
[Léo] Era um conforto familiar que eu não saberia explicar.
[Léo]— E se nós estivéssemos juntos quando o mundo acabou? — Ela disse, ainda sem conseguir controlar sua vontade de estar sempre em um momento.
— Nunca saberíamos. É como se não existisse um antes.
— Então aqui está a minha teoria. Éramos um casal, morremos, e nos encontramos aqui no fim do mundo. Nos completávamos durante a vida, e agora que o nosso tempo lá acabou, temos toda a morte para continuar.
— Então estamos no paraíso?
— Sim, no nosso paraíso. Por isso ninguém mais nos incomoda. Não temos problemas, não temos limites. O mundo é nosso para viver o que quisermos viver!
— Isso faz de você um anjo?
— Você acaba de ser beijado por um anjo.
— Eu aceito essa teoria. Então o mundo não acabou. O nosso mundo acabou…
— Para vivermos em um novo! — Mari gesticulava mostrando o mundo ao redor. Estávamos mortos? Talvez, mas da forma mais viva que podíamos.
[Mari] Talvez eu estivesse certa, talvez não, talvez fosse apenas um sonho, ou quem sabe o mundo estava apenas passando por um fenômeno inexplicável, mas para mim, aquele momento era real. Eu estava no meu paraíso, e não me importava qual era o motivo de estar lá. Estávamos felizes.
Por toda a eternidade.
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