Encontro no Céu
1 Capítulo Único
Dean caminhava lentamente, as botas afundando em uma camada fina de folhas douradas que cobriam o chão. O céu acima dele parecia pintado com cores suaves de fim de tarde, e uma brisa leve brincava em seus cabelos. Não havia dor, não havia urgência, não havia medo. Ainda assim, sentia-se inquieto.
Ele lembrava-se claramente de seu fim: a sensação fria do metal atravessando seu corpo, o olhar assustado de Sam enquanto segurava sua mão, a despedida silenciosa e o último suspiro aliviado. Foi triste, mas não inesperado. A vida de um Winchester nunca terminava com calma, Dean já aceitara isso há muito tempo.
Mas o que ele encontrou depois não era nada parecido com o que imaginara.
Bobby foi quem explicou tudo quando ele chegou: Jack havia reformado completamente o céu. Já não era mais um ciclo infinito de melhores memórias. Agora, era simplesmente um lugar para existir, para descansar e, acima de tudo, para encontrar a paz que sempre escapara deles na Terra.
Dean encontrou velhos amigos, conhecidos, e até mesmo seus pais. Foram bons encontros, calorosos e tranquilos. Ainda assim, havia uma pessoa que ele precisava encontrar. Uma conversa que precisava ser concluída. Uma dívida emocional que precisava ser paga.
Castiel.
Cada vez que pensava nele, Dean sentia o coração apertar. Lembrava-se perfeitamente da última vez que o viu, daquele momento em que o anjo, em meio ao caos e à morte iminente, abriu seu coração pela primeira e última vez, declarando um amor que Dean nunca conseguiu esquecer. Palavras que o assombraram por anos, por noites solitárias e estradas infinitas.
Agora estava ali, diante de uma cabana simples à beira de um lago tranquilo. Uma sensação estranha apertava seu peito; ele sabia que Castiel estava lá dentro.
Ele hesitou por um instante, respirando fundo antes de bater suavemente à porta.
— Entra, Dean. — A voz calma de Castiel soou do outro lado.
Dean respirou fundo, abriu a porta lentamente e entrou.
Castiel estava lá, sentado em uma cadeira de madeira perto da janela. Uma luz suave atravessava o vidro, iluminando seu rosto, agora sereno, com olhos tão azuis quanto ele lembrava. Não havia mais aquele casaco bege, apenas uma camisa branca simples, mangas arregaçadas, e calças jeans comuns. Parecia humano, livre, feliz.
— Castiel... — Dean sussurrou, sem saber exatamente o que dizer a seguir.
Castiel se levantou lentamente, observando-o com um sorriso gentil, quase tímido.
— Dean. Faz tempo.
Dean soltou uma risada nervosa, esfregando a nuca.
— Demorou um pouco mais do que eu imaginava para chegar aqui. Mas... aqui estou.
Castiel assentiu suavemente.
— Valeu a espera.
Houve um silêncio carregado de significados. Nenhum dos dois sabia exatamente como continuar. Dean finalmente respirou fundo, tomando coragem para enfrentar o que precisava dizer:
— Sobre a última vez... Eu… eu nunca consegui esquecer. Aquela noite nunca saiu da minha cabeça, Cas.
Castiel ergueu os olhos, serenos, porém vulneráveis.
— Eu também nunca esqueci, Dean. Mas não me arrependo.
Dean suspirou, dando alguns passos em direção ao amigo.
— Você me deixou sem chão, sabia? Você disse aquelas coisas e simplesmente sumiu. Não me deu chance de responder.
Castiel o olhou fixamente, sem se intimidar.
— Eu não precisava de resposta, Dean. Eu disse aquilo porque precisava dizer. Porque era verdade. Era o único jeito de você acreditar que era amado, e não só por mim, mas por muitos outros que dariam tudo por você. Eu faria tudo de novo, exatamente da mesma forma.
Dean sentiu seus olhos marejarem, um calor estranho aquecendo-lhe o peito. A voz saiu quase embargada quando ele respondeu:
— E agora? Ainda não quer ouvir a resposta?
Desta vez, Castiel pareceu incerto, desviando os olhos momentaneamente.
— Não precisa dizer só porque sente que deve...
— Eu quero, Cas — Dean interrompeu, se aproximando mais alguns passos. — Eu nunca fui bom com palavras. Você sabe disso melhor do que ninguém. Mas aquele dia, eu não fiquei só sem chão. Eu fiquei com medo. Não medo do que você sentia, mas medo do que eu sentia. Porque era algo que eu nunca tinha aceitado sobre mim mesmo.
Castiel voltou a encará-lo, atento, esperando cada palavra com ansiedade que tentava esconder.
— Quando você desapareceu, tudo ficou claro demais. Eu perdi a chance de dizer que você também significava tudo para mim. Que a sua falta doeu mais do que qualquer ferimento, doeu mais do que a própria morte. Eu passei cada maldito dia desejando que você estivesse comigo.
Dean finalmente quebrou a distância entre eles, parando apenas a centímetros de Castiel, olhando fundo em seus olhos.
— Eu te amo também, Cas. Sempre amei.
Castiel ficou imóvel, como se precisasse digerir cada palavra. Seus olhos se encheram com uma emoção intensa, mas seu rosto permaneceu calmo.
— Você não imagina o quanto eu esperei para ouvir isso.
Dean sorriu suavemente, erguendo a mão e tocando o rosto de Castiel, pela primeira vez sem medo ou dúvidas.
— Bom, agora não precisa esperar mais.
Castiel fechou os olhos brevemente ao toque, como se estivesse sentindo algo que nunca se permitiu sentir antes.
— E agora? — Perguntou Dean baixinho, quase sussurrando.
— Agora temos todo o tempo do mundo.
Dean sorriu, finalmente sentindo toda aquela paz prometida. O peso em seu peito desapareceu, e tudo parecia finalmente estar no lugar.
— Então vamos aproveitar isso.
Dean encarou Castiel intensamente, sentindo o coração bater acelerado pela primeira vez desde que chegara ao céu. Sem mais palavras, ele envolveu o rosto do anjo com suas mãos, puxando-o suavemente para perto. Castiel respirou fundo, seus olhos brilhando, refletindo cada emoção que sempre tentara esconder.
Quando os lábios finalmente se encontraram, o tempo parou. O beijo começou lento, cheio de cuidado e descoberta, mas logo cresceu em intensidade e paixão. As mãos de Castiel deslizaram pelas costas de Dean, puxando-o mais próximo, enquanto Dean aprofundava o beijo, revelando todo o sentimento que guardara durante anos.
Ali, sob o céu eterno e tranquilo, eles se permitiram amar sem medo, entregando-se a um momento perfeito, onde tudo, finalmente, estava em seu devido lugar.
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