Encontro em família.
7 Cabeças-duras.
Fora a própria Tsume e a senhora Mebuki, que não deixava nada passar, ninguém mais pareceu perceber o que tinha acontecido. Mesmo assim, Kiba parecia transtornado. Olhava para todos os lados, esperando alguém apontar o dedo.
Assim que encontrou os olhos do filho, Tsume sabia que a noite tinha acabado ali.
— Mãe… eu quero ir embora.
— Oh, que isso querido, nem servimos o jantar ainda. — Mebuki se adiantou tentando salvar o momento.
— Eu perdi a fome.
— Meu amor, não precisa se preocupar, é vocês que estão namorando e…
— A gente não tá namorando. — Kiba cortou a anfitriã.
— Kiba… — Shino chamou tímido, fazendo Kiba o olhar decepcionado. –Tsume-san, senhora Mebuki, se não se importam… — apesar de estar tão transtornado quanto Kiba, Shino manteve toda a calma e etiqueta para se desculpar pelo ocorrido. – Eu sinto muito mesmo.
Enquanto Mebuki inventava alguma desculpa, para justificar a repentina partida dos Inuzukas e de Shino, Tsume pegava suas coisas para se juntar ao filho e a Shino, que já a esperavam lá fora.
Olhar para os dois ali agora, tão afastados, era de partir o coração. A sensação parecia mil vezes pior que descobrir que, de repente, Shino seria a companhia de Kiba em um jantar romântico, ou até mesmo de vê-los trocando beijos por ai, no meio dos outros.
Tsume se recordava do tempo em que os Aburames entraram de vez em sua vida. Depois que Shino nasceu, e a senhora Aburame se foi, Tsume sempre aparecia com Hana para ajudar o senhor Aburame a cuidar de Shino. Na época, já grávida, se lembrava bem quando o senhor Aburame dizia que “aquele bebe seria de Shino”. Naquele tempo, os dois acabavam rindo e Tsume nem se dava ao capricho de perguntar o que aconteceria caso fosse um garoto. Depois do nascimento de Kiba, o assunto simplesmente morreu.
Tsume odiava essas coisas de destino, principalmente quando ele batia assim, na sua cara.
Os três caminharam silenciosos de volta pra casa. Foi a primeira vez de Tsume caminhando entre eles e não ao lado, como sempre fazia. Definitivamente uma sensação horrível.
Demorou pra se dar conta de que já estavam em casa. Kiba entrou correndo, feito uma criança birrenta. Shino ficou ali parado esperando um merecido sermão, ou pior, ser ignorado mais uma vez.
— Shino… — o rapaz levantou os olhos cheios de lágrimas.
Tsume levou mais um susto. Depois da morte do pai, a Inuzuka nunca mais viu Shino chorar na vida. Queria poder abraçá-lo e dizer que estava tudo bem e que ele não fez nada de errado. O problema é que, naquele momento, ela não tinha certeza se não foi tão errado assim. Além disso, aquela atitude deveria ser agora direcionada a Kiba. Deu um bom tapa nas costas de Shino e sorriu. Lá no fundo, Shino sabia que aquele gesto queria dizer muita coisa, principalmente coisas boas. Limpou as lágrimas retribuindo o sorriso. Trocaram um breve boa noite e Shino se foi. Por esse e outros motivos Tsume admirava Shino, fácil de lidar e sempre muito compreensivo; o total oposto de Kiba.
Seria mentira se dissesse que os dois nunca haviam se desentendido antes. Mas, as birras de Kiba não duravam nem 24 horas e logo lá estava ele, saindo de fininho com Akamaru em seu encalço, para, logo depois, aparecer com Shino, todo sorridente como se nada tivesse acontecido. A mulher entrou em casa, sabendo que amanhã seria um novo dia e que, como sempre, tudo se resolveria.
***
Tsume nunca foi o tipo de pessoa desagradável que tinha o hábito de se enfiar na vida das pessoas, dando palpites onde ela nem mesmo conhecia. Mas ali, era a vida de Shino e junto com ele, a de Kiba.
Se arrependeu mortalmente de ter esperado a semana toda Kiba aparecer em casa, acompanhado de Shino, como nos velhos tempos. Não, Kiba não apareceu com Shino em nenhum momento, até porque, ele nem saiu do quarto. Perdeu as contas de quantas vezes na vida, tentou punir o filho com ao menos uns 15 minutinhos trancado em seu quarto, pensando nas travessuras que tinha feito. E agora o próprio Kiba se punia. Sinal que a coisa era séria; e grave.
E era exatamente por esse motivo que, agora, a matriarca estendia suas costumeiras caminhadas depois da feira até a casa do jovem Aburame.
Parou na porta. A vontade que teve logo de cara era a de derrubar aquela porta e entrar bufando, revoltada por ter que lidar com dois adolescentes tão teimosos. Na sua idade não devia mais passar nervoso com os relacionamentos do filho já praticamente adulto. Imaginou que apenas ficaria sentada na varanda tricotando suéteres horríveis que os netos provavelmente odiariam usar. Ah sim, agora também não teria netos; teria?
— Tsume-san? — Tsume nem reparou que Shino havia aberto a porta e já a encarava a um tempão.
— Você está pálido, Shino. — seria ótimo começar uma conversa com um “bom dia Shino”, ou um “como você está?”, mas começou como Tsume começaria – Bem, eu quero dizer, você é pálido, mas agora tá demais! O que você anda comendo, rapaz? — Shino ficou em silêncio; era a resposta – Vou fazer alguma coisa pra você comer.
— Tsume-san, não se preocupe eu não estou com fome.
Ignorando Shino completamente, Tsume abriu todas as portas de todos os armários e, nada; nada mesmo! A única coisa na cozinha de Shino que poderia ser ingerida, era água. A mulher lançou um olhar mortal a Shino que se encolheu na cadeira. Tsume voltou a sala onde havia deixado as sacolas das compras da semana, e pegou tudo o que precisava para preparar uma refeição razoável.
Shino aceitou uma tigela bem cheia sem reclamar. Além da fome que obviamente sentia, tinha ali o tempero de Tsume, que trazia um pouquinho daquela sensação de estar mais próximo de Kiba. Aliás, Shino reparou que era o prato favorito de Kiba. Pensou se aquilo não foi intencional. Tsume também se serviu. Ambos comeram em silêncio. Shino sabia que Tsume estava preocupada, mas, respeitou sua opção de manter o silêncio. Ir até ali e preparar uma boa refeição, era mais uma forma de mostrar que ele era importante e que devia conversar com Kiba.
— Bom, agora preciso mesmo ir, Shino. Tenho mais um cabeça dura pra alimentar. Tsume se deu por satisfeita depois de se certificar de que Shino limpou seu quinto prato.
— Obrigada Tsume-san.
— Vou deixar algo aqui pra você; vai te fazer bem.
Shino até pensou em brincar, dizendo que agora, poderia passar mais uma semana sem comer, mas, desistiu depois de ver Tsume ir até as panelas e conferir se havia comida o suficiente para ele continuar a se alimentar corretamente.
Assim que Tsume se despediu e foi embora, Shino recolheu a sacola que a mulher deixou ali. Olhou curioso. Talvez Tsume tivesse se enganado.
***
Kiba não tinha vontade alguma de comer nada. Sentia sim um vazio enorme, mas, tinha certeza que não era fome. Mesmo assim, resolveu ao menos manter o velho ritual de comer seus damascos, como fazia toda sexta.
Levantou da cama e foi até a cozinha, sentindo os efeitos do jejum forçado. Se arrastou até a mesa e começou a fuçar as sacolas que a mãe trouxera.
— Mãe… — Kiba pareceu perdido – Cadê os meus damascos?
— Não tem mais damascos. Um rapaz alto e bonitão ficou com todos. — Tsume levantou as sobrancelhas de uma forma insinuante.
— Quê? Mas só a senhora e o… você-sabe-quem compram damascos aqui em Konoha.
— Você-sabe-o-quê? — a mulher olhou feio para o filho.
— O quê não; quem. — a mulher continuou o olhando intrigada – O SHINO CARAMBA!
— OE, MOLEQUE ATREVIDO, NÃO FALE NESSE TOM COMIGO!
— De… desculpa, mãe. — Kiba se encolheu chateado na cadeira.
— Desculpa nada! Tá pedindo desculpa pra pessoa errada, aliás, damascos também.
— Não sei como pode defender ele, não viu o que ele fez sem eu querer?
— Kiba, se você me disser que não gostou nenhum pouquinho do que o Shino fez, eu vou lá cortar as bolas dele, agora.
— Mãe, eu sou homem.
— Que bom, já estava pensando que tinha criado um moleque em vez de um homem! — Tsume sorriu para o filho – Então vai lá se desculpar com o Shino, como um homem de verdade.
Fale com o autor