Na outra linha do tempo, as únicas extracurriculares que eu tive foram fora da escola, o cursinho de Inglês que eu já fazia desde o fundamental 1, quando eu comecei a primeira série, me alfabetizando em ambas as línguas, e no ensino médio que eu comecei em uma academia que oferecia boxe.

Eu não tinha a menor ideia do que esperar, ou quem encontrar nas aulas de Judô, assim como japonês, música e o clube de leitura e produção textual, seria uma completa surpresa, eu não iria negar, estava empolgada pra isso.

Quando atravessei o portão, carregando o meu violão e uma sacola com o Quimono e a faixa dentro, me surpreendi ao ver a Andreia sentada num banco do pátio, não esperava que a minha colega e alvo ainda estaria na escola naquele horário, pro meu completo cho que, ela acenou pra mim, dei de ombros e me juntei a ela.

“Tu realmente veio pra causar, não foi?” Andréia acusou, um leve sarcasmo na voz mas as olhos estavam suaves.

Eu ri, lembrando da nossa primeira interação na matrícula. “Quando tu sofre bullying, tu tem duas saídas, ou tu te faz invisível e escolhas ruins pra te proteger, ou tu impõe respeito logo no começo, garantir que ninguém pise em ti.” Comentei.

“Tu escolheu a segunda opção, então.” Ela assumiu.

Eu assenti, Andréia era o tipo de pessoa que jamais seria legal com uma novata na frente dos outros, ela esconderia o lado legal do resto da escola até que tu provasse que poderia pertencer ao grupo dos populares, então por enquanto nossas conversas ou seriam no pátio vazio depois das aulas ou no banheiro como a excruciante maioria das séries adolescentes.

“Tá indo pra casa?” Perguntei.

Ela assentiu. “Tive aula de francês, e tu? Judô ou Karatê?”

“Judô.” Comentei. “Não quero me tornar o novo Karatê kid.” Zombei. Ela rolou os olhos.

“Marcela me contou, o teu conselho.” Ela mencionou.

Eu sorri levemente, bom saber que aquela bronca se resolveu logo. “Vocês se entenderam então, depois da aula de literatura?”

“Eu fui longe demais, mas a Marcela às vezes é meio sem noção.” Ela adicionou, apertado os punhos “talvez tu veja muito mais nas pessoas do que elas mostram, ou tu não conversaria comigo.” Ela comentou, levantando. “Não sei porque tu tá escondendo isso.” Apontou meu violão. “Seja qual for o motivo... eu quero ver tu tocando no pátio uma hora dessas.”

Antes que eu pudesse responder, Andreia virou nos tornozelos com a bolsa da Vitor Hugo no ombro e o livro de francês contra o peito e saiu em direção ao portão. Ela iria guardar meu segredo, mas pôs um tempo limite, eu precisava ver o que iria fazer.

“Eu pensei que ela esqueceria sobre isso depois de um tempo.” Murmurei, rolando os olhos. “Aparentemente a Andréia observa e se importa mais do que ela mostra também.” Disse eu enquanto levantei do banquinho espanando a poeira invisível do meu jeans rasgado.

Ajustei a alça da sacola preta de um material grosso e maleável, que não rasgaria fácil apertei a capa do violão firmemente contra o ombro e me dirigi para dentro do prédio do ginásio de esportes onde teria a aula de Judô.

Fui para o vestiário, entre num dos boxes, me despi trocando de roupa para uma bermuda de suplex e uma camiseta branca antes de vestir a calça creme com cheiro que podia comparar com livro novo, o tecido era levee maleável diferente do casaco(?) do quimono, que era grosso e pesado, tinha uma cordinha, amarei e fui pra sala, onde o sensei iria ensinar como arrumar a faixa.

A sala de Judô era pequena dentro do ginásio, quase como um corredor mais largo com tatames verdes alinhados no chão, vi o sensei ajoelhado no meio da sala, alguns alunos que eu não conhecia sendo a maioria do fundamental 2, vestindo o Quimono, casaco aberto usando tênis.

“Aparentemente eu sou a tia.” Pensei com um resmungo, “A única do ensino médio aqui.”

“Não seja fresca, a gente gosta de passar tempo com a Nita, lembra?” Julinha pontuou, ela tava certa.

Além do mais, não tinha por que ter vergonha de ser amiga dos pirralhos, quando todo mundo for adulto a idade não faz menor diferença, quantas vezes eu não saí pra beber com a Nita, ou mesmo estudamos juntas pra faculdade.

“Tem razão, foda-se se eles são um bando de pirralhos. Eu quero mesmo é me divertir.” Comentei, encerrando a meu zap mental com a Julinha, quando o sensei pediu que tirássemos os tênis e subíssemos no tatame.

Alívio nem começava a descrever o que eu senti por ter colocado meia nova e sem furos ou chulé hoje. Ele pediu para cruzar as pernas para que pudesse começar a aula, explicando a origem da arte marcial.

A criançada tava super empolgada, e eu não podia estar mais animada com isso, uma arte marcial do meu segundo país favorito fora do Brasil, era tudo o que eu sempre quis, além do mais a criançada, provavelmente compartilhava meu amor por anime.

Eu tinha levado ao violão porque como sairia lá pelas 19h ainda seria claro, pensei em tocar depois do Judô no pátio dos fundos da escola. Típico casa de expectativa X realidade, saí às 19h30, minhas pernas tremendo, minha mão vermelha e dolorida, exausta e morrendo de fome.

Eu fui direto pra casa, de quimono e tudo, cabelo saltando pros lados da cara e o rabo de cavalo quase caindo, apertei a chiquinha, não fazia ideia como não desmaiei no caminho e fiquei-me perguntando se eu tinha desmaiado e isso era alucinação quando cheguei em casa e me joguei no sofá.

“Oi, manA, ...” Mila guinchou o cumprimento vendo a minha cara de quem tinha sido atropelada por um caminhão. “Puta que pariu!

“Se tiver uma terceira volta no tempo, me avisa pra eu não fazer Judô no mesmo dia do Inglês!” Implorei.

Milla guinchou uma gargalhada. “Eu vou pegar um suco pra ti.”

Levantei um braço como se tivesse me afogando pedindo por socorro. “Com canudinho!” Implorei.

Ela foi até a cozinha só podia ouvir os passos e a gargalhada ecoando atrás dela, Provavelmente minha irmã não pensou que daria conta de tudo incluindo trezentas extracurriculares porque fez um estágio e tinha um emprego quando estava na faculdade que não lembrava.

“Como que eu aguentei tudo isso?” Me perguntei, gemendo de dor no corpo

Além do suco a mana me trouxe um pedaço de bolo de milho que a Dona Vitória tinha deixado ontem e um sanduíche de dois andares com salada.

“Tu é a melhor... cadê o pai e a mãe?” Perguntei, gemendo ao sentar.

“Decidiram sair numa escapada romântica com jantar à luz de velas, no restaurante Italiano aqui perto, porque sabem que tem filhas responsáveis.” Ela me explicou.

“Feliz por eles.” Tomei um gole de suco e uma mordida no bolo, a doçura do bolo me acertou em cheio, aquele quentinho no coração era tudo o que eu precisava. “É como um abraço da Dona Vitória a cada mordida, né?” Comentei.

A mana sorriu e assentiu. “É, exatamente isso. Ela não precisa tá aqui, só uma mordida nos doces dela, conforto imediato.”

“Como que eu aguentei estágio e emprego sem entrar num colapso?”

“Tem certeza?”

Neguei, com meus ombros caindo em derrota. “Tem razão, eu não lembro, eu não sei se eu aguentei, mas eu quero acreditar que sim e posso me tornar a versão humana do Bombril.” Admitir. “Ainda tem uma caralhada de tema pra quinta.” Mencionei.

“E se tu deixar pra amanhã vai acumular com os de amanhã né?” Milla afirmou eu só assenti e dei uma mordida no meu sanduíche. Ela deu um tapinha no meu ombro. “Bem-vinda ao segundo round do ensino médio.”

Rosnei. “Se eu não tivesse faminta eu jogava esse sanduíche na tua cara!” Exclamei, mas soltei uma gargalhada que fez tudo doer. “É bem-vinda de volta!” A gente gargalhou.

“Eu te ajudo, tá?” Milla prometeu, eu sabia que não precisava cobrar.

“Tu é a melhor irmã mais velha que alguém pode ter!” Disse eu encostando minha cabeça no ombro dela enquanto mastigava meu sanduba animadamente.

Fui tomar um banho, deixei a água quente relaxar meus músculos enquanto via uma poça de tinta roxa escorrer pelas minhas costas e correr para dentro do ralo, sorri aliviada ao ver que realmente saía no banho, na primeira vez, eu passei tinta normal, meu cabelo ficou destruído.

“Espero que não tenha que gastar uma grana que eu ainda não tenho para tratamento de hidratação ou queda de cabelo.” Murmurei, mas o gemido de alívio ao sentir os músculos relaxando, superava toda a minha preocupação com o meu cabelo.

Lavei o cabelo com xampu pra agilizar o processo, assim meu cabelo estaria virgem de novo amanhã, e a próxima tinta colorida só mês que vem se chegasse a isso. Ser adulta no corpo de adolescente te dá perspectivas do que tu deve ou não deve fazer com o teu corpo.

Pintar o cabelo com tinta não importa a cor, permanente ou não é uma delas. Vesti meu pijama do pateta, fui pro quarto e encontrei a mana me esperando, lendo o que eu já tinha escrito de tema das aulas de ontem, os famigerados rascunhos.

“Não sei como foi na primeira vez..., mas isso aqui tá muito bom” Ela comentou ao me ver entrando.

“Quase a mesma coisa, mas não tinha aula de Japonês.” Admiti. “Só decidi começar a estudar essa porque não teria como explicar que eu já sabia sem ter estudado.”

“Putz...Ia ser tipo, criança gênio.”

Assenti em confirmação. “Violão, mesma coisa.” Entrelacei os dedos me alongando, estalando tudo relaxando levemente. “Agora minha colega Andréia me viu tocando no dia da matrícula e decidiu me torturar pra tocar no pátio, pra todo mundo ver!”

A Milla deu um tapinha na minha coxa, um sorriso enviesado. “Eu não queria tá na tua pele maninha.”

Eu bufei. “Pensei, “Ah vai ser divertido rever todo mundo, vai ser nostálgico, tiro de letra!” Expectativa vs realidade!” Exclamei“Quer saber, vamo só fazer o tema e esquecer da tragicomédia que é a minha vida por um momento.”

Milla riu alto e puxamos os cadernos, apostilas, e a maratona de tema de casa começou, Já era umas onze da noite, com muito gemido, vontade de jogar tudo pela janela e chamar Artemis pra me mandar de volta quando finalmente terminamos.

“Não lembrava que o tema de casa do ensino médio era tão intenso.” Mila murmurou.

“E recém foi o segundo dia de aula do primeiro ano, não quero pensar quando chegar o segundo mês com provas toda semana.” Comentei.

“Nem me lembra, faculdade é praticamente a mesma coisa, com temas específicos.” Ela contou.

Como eu já tava de pijama, só deixei a mochila e roupa de amanhã preparada, fui pra cama, mandei uma mensagem pra Naya, me desculpando porque tava em situação de atropelamento simbólico e não poderia conversar hoje.

Dormi o sono dos justos, meu corpo não estava completamente restaurado quando acordei, mas pelo menos as articulações não doíam tanto, teria aula de música e entregaria meus resumos, além de três períodos com a Rubi. Um de literatura e dois de Língua portuguesa.

O melhor, eu levaria meu violão dessa vez, porque na aula de música instrumentos musicais estavam inclusos. Desci pra tomar café da manhã, o pai, a mãe e a Milla já estavam na cozinha, tudo servido, bolo, pães e tudo que uma mesa de café da manhã oferece.

“Como foi ontem?” Perguntei, curiosa para saber do encontro dos meus pais.

“Ah, foi bem divertido, teve até apresentação de um grupo de danças típicas da Itália.” O pai me contou, eu me empolguei pra ir um dia e assistir a performance. “Quer carona Julinha? Tu vai levar o violão hoje né?” O pai ofereceu.

Eu saltei da mesa e dei uma abraço apertado, gemi em completo deleite. “Tu é o melhor pai do mundo!”

“Ela chegou em casa ontem parecendo que tinha acabado de acordar na UTI depois de um coma.”

“Ou depois de ser esmagada pelo caminhão de lixo.” Confessei.

“A gente perguntou se tu tinha certeza.” A mãe zombou da minha cara.

“Eu deveria ter levado em consideração a resistência do corpo e do cérebro.” Admiti derrotada.

O pai me deu a carona, quase pedi pra ele me carregar até a minha classe na sala de aula, mas seria pedir demais. Dei um beijo na bochecha do meu véio e saí do carro, cruzando o portão, encontrei as gurias e fomos conversando até a sala de aula, primeira aula já seria matemática, pro meu horror.

Puxei o caderno, apostila e minha pasta de dentro da mochila. Não sei se o professor iria recolher ou iria pedir pra levarmos na mesa dele, estes pormenores eu não lembrava, mas deixei no canto da mesa.

Quando o Pedro entrou, ele guinchou ao ver a case do violão, Andréia soltou um dardo com os olhos, ficou muda e seguiu até a mesa dela, ela iria me torturar, eu tinha que pensar rápido e torcer que ela nãofizesse música também, ou eu tava ainda mais ferrada.

Foi um alívio quando a aula terminou, eram 4 períodos de matemática na semana, dois na segunda, um na quarta logo no primeiro e um na sexta logo no penúltimo.

A Bi entrou cumprimentando todo mundo, pendurou a bolsa na cadeira, e fez a chamada, prometendo que recolheria os resumos e avisando que teríamos aula de português juntos logo após o recreio.

Eu gemi, Gramática me odeia, não importa a idade ou quantas vezes eu refaça o ensino médio, vai dar na mesma.

POV Rubi

Depois que fiz a chamada na turma da Julia já fui pedindo para que meus alunos entregassem o tema, um parágrafo com cinco linhas resumindo a introdução da apostila, era algo simples, sei bem que adolescentes não aguentam temas longos, odeiam por esforço no trabalho, eu já fui uma não muito tempo atrás.

Mas nunca passou pela minha cabeça que uma aluna em específico, vestindo sombra lilás com delineador, uma jaqueta jeans preta e camiseta da Alanis também preta, além dos jeans rasgados da mesma cor iria fugir a essa regra com um sorriso orgulhoso e bibliografia na última página.

Ela levantou da cadeira dela, um sorriso que fez meu coração saltar, as páginas (sim eu disse no plural.) impecáveis grampeadas.

“Eu sei que tu pediu cinco linhas.” Ela comentou como se falasse do tempo, com cara de quem salvou o mundo ontem à noite. “Mas pra mim isso é fisicamente impossível.” Ela explicou.

Ouvi uma risadinha vindo de trás dela. “Sora, uma vez a Ju escreveu cinco páginas frente e verso em uma redação de “como foram as férias de verão.” A gente tava na quinta série.” Luana comentou.

“Isso “resume” tudo, deixa o meu por último...” A Julia disse rindo. “Não precisa dar nota inteira também porque eu não fiz e nem vou fazer o que tu pedir, nos próximos.” Ouvi orgulho na voz dela, e a baixinha caminhou confiante até a classe dela, ignorando os murmúrios entre os colegas.

Eu simplesmente ofeguei e aceitei o próximo que veio da Luana, desta vez com as cinco linhas que eu pedi. Quando todos entregaram, só por curiosidade folheei as 11 páginas do trabalho da Julia, e quase tive um infarto quando cheguei na última.

“Referências bibliográficas?’ Exigi incrédula.

Ela deu de ombros um sorriso inocente. “Literatura é minha matéria favorita.” Contou ela.

Eu engasguei, me recuperei rápido e comecei a aula, só imaginei o que ela me entregaria no tema de Língua Portuguesa. Quando o sinal bateu para o recreio, fui direto para a sala dos professores com os resumos em mão e uma ansiedade danada para ler o da Julia primeiro, acreditava que daria tempo nos vinte minutos de recreio.

Doce ilusão, era como se eu estivesse relendo a minha monografia, Carmela sentou na minha frente, estreitou os olhos, se curvou sobre o texto de cabeça pra baixo.

“Eu conheço essa letra.” Ela comentou.

“Julia! Essa letra é da Julia!” Ana exclamou.

“Julia Almeida-Gomes?” Perguntei.

“Isso, página grampeada, parece que eu to vendo ela na sétima série me entregando umas cinco páginas descrevendo com detalhes sórdidos a cadeia alimentar.” Ana disse soltando uma gargalhada. “Eu tinha pedido tópicos com uma descrição simples de como funcionava.”

“Espera! Essa mesma aluna me entregou duas páginas!” Sérgio anunciou. “Se desculpou dizendo que fez na força do ódio, me assegurou que não tinha nada contra mim, mas a matéria não fazia sentido.” Ele riu. “Imagino o que ela faria por uma matéria que ela ame.”

“Onze páginas com referências bibliográfica na última.” Confessei, meu rosto queimando levemente.

“Definitivamente a Julinha.” Carmela comentou chocando a mão da Ana com um high five.

Mas o Sérgio também estava muito satisfeito com o “resumo” que a Julia entregou para ele. “Se não fosse injusto com os outros alunos que fizeram a atividade de acordo com o que eu pedi, daria nota inteira e ponto extra.” Ele admitiu frustrado.

Os colegas que entraram depois e escutaram a conversa não puderam deixar de rir, a professora Michiko de Japonês ficou muito empolgada para receber o trabalho da Julia hoje depois do almoço quando daria aula extracurricular para ela.

“Espero que ela tenha também desobedecido a ordem do tema da casa.” Disse a professora com forte sotaque japonês, mesmo que já morasse no Brasil há pelo menos quinze anos.

Nós todos podíamos entender a razão, era raro alunos com tal compromisso e dedicação aos estudos, inclusive matérias que não gostava. Não pude deixar de sentir meu coração esquentar, e torcer que mais alunos meus fossem dedicados como ela.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.