Encontro com os Nativos
2 Capítulo 2 – A luz no fim do túnel.
Notas iniciais
-Como nós vamos descer? – Chin quis saber.
— Com a ajuda da gravidade! – eu disse pulando no buraco, a tempo de ainda ouvir Chin gritando que eu sou doido e rindo muito com isso.
A queda foi longa, pareceu que fiquei caindo por horas, agora sei como Alice se sentiu, mas finalmente acabei fazendo uma aterrissagem suave. Estava muito escuro, então não pude enxergar nada, e após alguns passos eu ouvi três pessoas descendo atrás de mim, logo pensei que fosse Chin, Rámon e Amy que haviam decidido descer pulando também, mas na verdade era a Bruxa do Mar e dois Golens! Eu me preparei para puxar a minha adaga, e então senti leves dedos passando entre meus cabelos: eu estava desmaiado no colo de Amy, e sabia que ela estava olhando de uma maneira muito preocupada.
-Você vai ter rugas mais cedo – disse levantando — se continuar ficando preocupada desse jeito – continuei rindo.
Já estava esperando ela brigar e me chamar de irresponsável por pular no buraco, então tudo escureceu de novo. Quando acordei, ela não estava mais lá, Chin me disse que ela teve que correr para pegar uma erva ou algo parecido, o pai dela está muito doente. Eu queria poder ajudar, mas não posso ainda, e sei que ela pode fazer qualquer coisa quando está determinada, não precisa da minha ajuda.
Todos já haviam descido, então seguimos pelo buraco, ainda não tínhamos sinal do Nuran. Após alguns minutos andando, vimos uma luz forte e ofuscante, nós finalmente encontramos a saída, Chin estava certa, havia um túnel que dava diretamente na praia. De longe nós avistamos Nuran, que vinha correndo em nossa direção, todos nós nos preparamos para lutar, eu puxei minha adaga e Chin recuou o arco, mas antes mesmo de começarmos a lutar, ele começou a gritar e pular, parecia mais feliz do que com medo.
- Nuran! Tudo bem com você? – Chin gritou enquanto abaixava o arco.
- Eu ... Ramón.. certo... praia! – conseguíamos ouvir apenas algumas palavras do que ele gritava, ele ainda estava muito longe.
- Eu não acredito, meu irmãozinho ficou maluco! Bem que minha mãe avisou que estudar magia podia fazer isso... – ela disse suspirando e balançando a cabeça negativamente.
- Não acredito nisso. – Ramón falou colocando a mão no ombro dela. – Ele deve estar realmente empolgado com algo, dever ter encontrado algum amuleto ou algo do tipo.
- Calma! Sem teorias por enquanto, vamos esperar para saber o que aconteceu. – eu disse calmamente enquanto dava alguns passos em direção a aquela areia branca e ao mago eufórico.
Ele mal se aproximou e pulou nos braços da Chin, não dizia outra coisa além de: “Ramón estava certo! Ramón estava certo!” enquanto a espremia em um abraço. Tentamos acalmar-lo um pouco antes de perguntarmos o que aconteceu, demos um copo d’água a Nuran, que estava tão agitado, que até mesmo derramou um pouco da água do copo de tanto tremer. Quando finalmente parou um pouco ele disse:
- Vocês têm que ver! Monstros tiram mesmo férias! Tem vários deles na praia tomando sol! – ele disse rápido, tropeçando nas palavras, enquanto mostrava uma alegria difícil de esconder, se é que ele queria esconder...
- Eu sabia! Doido de pedra! Tenho que mandar uma mensagem para a mamãe...
- Espere! Eu não estou doido, eu realmente vi os monstros, assim como Ramón disse! – ele explicou com um tom suplicante.
- Ahh, essa eu pago para ver! – Ramón disse enquanto enfiava a mão no bolso e contava alguns zenys.
Eu estava me divertindo muito com toda essa confusão, mais decidi que iríamos ver se esses monstros estavam lá, afinal, o mundo já está virando de pernas para o ar mesmo. Ao chegarmos perto do mar, vimos um grupo de monstros deitados beira mar, com óculos, guarda sol e toalhas, pensei que o calor tinha fritado meu cérebro, mas todos estavam realmente lá. Eu usei esconderijo e fui me aproximando devagar, eu sabia que devia ter aumentado o nível de túnel de fuga, mas nunca pensei que precisaria de mais velocidade. Ouvi os monstros rindo e brincando, assim que estava perto o suficiente, a Bruxa do Mar virou-se para mim e disse: “- Que bom que você veio rápido! Esperávamos sua chegada só amanha!”
Eu fiquei assustado, como ela sabia que eu estava ali??” – Eu vejo tudo, também sou conhecida como a vidente, oráculo e profetisa.” Ela me respondeu sem eu nem mesmo perguntar em voz alta! Eu sai do esconderijo, e ao contrário do que eu pensei, nenhum monstro me atacou, nem mesmo se importou com a minha presença.
- Eles estão comemorando, não vão te fazer mal algum. – a bruxa continuou enquanto puxava uma cadeira para mim e se sentava em outra próxima.
- Comemorando o que? –eu me atrevi a perguntar, mesmo sabendo que não era necessário abrir a boca para que ela soubesse o que eu pensei.
- O final de nossa sina, quando finalmente devolvermos a runa ao altar, estaremos novamente livres. – ele disse normalmente.
- Vocês também foram amaldiçoados? – eu perguntei surpreso, falar era bem mais confortável do que outro ser ler a minha mente e me responder antes mesmo de eu perguntar.
-Hahaha! Não bobinho, a runa é nossa fonte vital, sem ela nós não podemos nem mesmo sair dessa região ou até lutar para sobreviver. E por causa dessa força, dessa energia, que as pessoas daquele clã nunca morriam, elas estavam consumindo essa energia extra, o que nos deixava mais fracos.
- Quer dizer que quando eu devolver a runa, vocês serão fortes novamente?
- Exato. – ela sorriu.
- Mas... – eu hesitei por um momento – Se vocês ficarem fortes, não vai ser ruim para os humanos? Monstros fortes para matar e torturar as pessoas?
- De certa forma sim. – ela fez uma pausa enquanto pegava uma maça e a limpava na barra do vestido. – Embora... – deu uma mordida na maça, e virou-se para mim. – Nós nunca machucamos ninguém, e não será agora que vamos começar. Só queremos viver em paz, sem precisar ingerir essas comidas humanas estranhas para obter energia.
- Bem, é bom ouvir isso, se ficaremos a salvo, eu devolverei a runa. – eu disse me levantando e me virando para dar sinal aos meus amigos, que estava tudo bem.
- Porém, devo advertir, — a bruxa do mar se levantou também. – Teremos que fazer um ritual de purificação da runa antes, e você deverá estar presente, pois não poderei pegar na runa antes que ela esteja livre das energias humanas.
Eu concordei com a cabeça e voltei a outra parte da praia, onde Nuran e os outros estavam me esperando. Peguei a runa com Ramón e todos nós voltamos para a gruta, para nossa felicidade, somente bruxa do mar e três golens nos seguiram. A velha senhora organizou e preparou o altar e foi buscar as outras coisas para o ritual, enquanto isso, nós esperamos sozinhos.
- Kaymo, é realmente seguro devolver a runa para eles? – Chin me perguntou com um certo tom de preocupação.
- Não se preocupe, eles não vão fazer nada de mal. – eu disse sorrindo.
-Ramón disse que era mais seguro que nós matássemos todos eles e vendermos a runa para algum colecionador.
- Pare de dizer bobagens, você sabe que para ele tudo se resolve na força, no dinheiro ou nos dois. – eu ria enquanto me virava para tentar acabar com essa discussão boba. – Mas afinal, onde está a bruxa?
- Parece que eles não estão voltando ainda. – disse Ramón que estava na entrada do túnel que a bruxa saiu.
- Eu estou bem aqui. –uma voz que vinha do outro lado da caverna disse. – Vamos começar o ritual.
Ela finalmente apareceu, e assustou Nuran que estava quase adormecendo do lado da outra entrada. Ela estava sozinha e não havia voltado com objeto nenhum. Eu me preocupei, então pensei: “- Onde estão os Golens? E os objetos do ritual? A senhora não os encontrou?” Mas não houve nada, nenhuma resposta misteriosa saiu da boca da bruxa.
- Me entregue a runa. – ela disse gentilmente enquanto seguia em minha direção.
- Mas... a senhora não disse que teria que purifica — lá primeiro? – eu perguntei surpreso.
- Não será mais necessário. Me entregue a runa agora!!! – ela ordenou.
- Tudo bem, não precisa gritar... – eu tirei a runa da mochila e a estendi para entregar à bruxa.
- Não entregue! – Chin gritou enquanto uma flecha passava atravessando a mão da senhora.
- Você ficou doida? Nós já não conversamos sobre isso? – eu repreendi a arqueira.
- Pelo visto você não entendeu... ESSA NÃO É A BRUXA DO MAR VERDADEIRA! – ela gritou enquanto corria em minha direção;
- Do que você está falando? – eu perguntei surpreso deixando a runa cair.
- Vai dizer que você não percebeu que ela não respondeu nenhum pensamento seu até agora?
- Pensei que fosse por educação...
- Mas não foi! Ela não é a verdadeira!
Quando me virei, a bruxa não estava mais lá, e nem a runa da escuridão. Agradeci a Chin por avisar, mas foi tarde demais. Estávamos caminhando para a saída quando ouvimos passos atrás de nós.
- Esqueceram do nosso ritual? – a senhora que tinha acabado de entrar segurando um livro disse. – Oh... Entendo, então foi isso que aconteceu... – ela balançou a cabeça, provavelmente respondendo aos meus pensamentos ou os de Chin. – Vocês poderiam... Trazer de volta a preciosa runa para essa senhora abusada, por favor? — definitivamente ela estava respondendo a Chin.
- Essa sim é a verdadeira, ahahaha. – Chin ria enquanto se aproximava mais.
- Está desculpada. – a bruxa disse sorrindo.
- Mas eu nem... deixa para lá.
Novamente, enquanto tentávamos sair da gruta, ouvimos passos.
- Não se preocupem! – uma voz misteriosa ecoou pela caverna. –Eu a trouxe de volta.
- Quem é você? – eu perguntei retirando minha adaga da cintura.
- Calma, eu só quero ajudar. – o estranho de olhos cor azul-acinzentado suplicou.
- Você... é o Nefesto! Venha aqui que eu tenho contas para acertar com você! – eu o ameacei com a minha adaga.
- Espere ai! – Chin disse enquanto me segurava para que eu não o partisse em dois. – Ele está do nosso lado!
-O que você quer dizer? – eu parei de tentar me soltar.
- Ele veio devolver a runa, ou você não está vendo? – ela disse após me soltar e pegar a runa nas mãos do arruaceiro.
- Podemos começar? -A velha perguntou. – Foi o que eu pensei. – eu não costumei ainda com essa leitura de pensamentos. – Primeiro coloque a runa nesse pedestal, eu vou ler umas palavras desse livro e pronto. – ela disse sorrindo.
- Só isso? – eu quis saber.
- Só. – ela abriu o livro e começou a ler... Aramake Hunda Arg Suntem Estvas – então fez uma pausa e se virou para Nesfeto. – Você tem certeza que quer isso? – uma lágrima desceu pelo canto do seu olho, mas ela a secou antes que outra pessoa a visse.
- Tenho toda a certeza que realmente quero que remova o restante de energia humana que reside na esfera. – ele disse com todas as letras, como se estive decorando por dias e esperando esse breve momento para dizer-las.
- Mas... por que ele não gostaria? Digo, ele mesmo devolveu a runa. –eu perguntei perdido.
- Quando o ritual se completar, todos os membros da guilda amaldiçoada, envelhecerão e virarão pó. – a arqueira disse com um tom triste.
- Você não foi amaldiçoada Chin! – eu falei.
- Mas eu sou. – Nefesto respondeu.
- Sim, e daí? Você merece! Afinal, para que você está fazendo tudo isso? – eu já queria pular no pescoço dele e o matar com as minhas próprias mãos, já que a garota tomou a minha adaga.
- Você verá. – ele sorriu. – Prossiga com o ritual. – disse virando-se para a bruxa.
E ela recomeçou.
- Aramake Hunda Arg Suntem Estvas Blacleta Runya Kamva Chep Palari Bralbleck Blak Maktok Vrutox Fregstoga Tulok Satilua Nakibrude Morono Nakla!
A runa brilhou numa intensa luz azul e logo tornou-se envolta por um brilho negro.
- Está terminado! Muitíssimo obrigada! – uma jovem de cabelos negros e roupas douradas me abraçou.
- Ahm... bruxa do mar? – eu perguntei confuso.
- Hahaha, sim sou eu, como vocês devolveram a runa, eu recuperei minha energia. – ela sorriu e começou a dançar pela caverna.
De repente ela parou, e correu em direção à Nefesto.
- Não! Não me deixe! – ela chorava suplicante.
- Tudo bem, eu fiz o que deveria fazer. – ele disse fazendo um enorme esforço.
- Eu sei uns feitiços eu posso talvez... – ele a interrompeu colocando o indicador sobre seus lábios.
- Não precisa, eu estou bem. – disse se tornando cada vez mais velho e sua voz sumindo.
- Você não deveria morrer! Você nem é velho o suficiente!
- Por isso se chama maldição. – ele tentou rir, mas não conseguia, e engoliu seco. – Lembre-se, eu te amo e sempre vou te amar Karine. – ele suspirou com seus últimos esforços e se tornou pó nos braços da jovem, que agora chorava desesperadamente.
- Agora vocês podem ir! – ela nos disse num tom ríspido apontando a saída.
Então está tudo acabado, a maldição assim como o clã, se foi.
- Kaymo! – Karine me chamou. – Seus pais estão em Umbala. – e depois ficou em silêncio.
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