Encontro Pelo Engano
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Não acreditava naquilo. Realmente, poderia esperar tudo, menos um adolescente rebelde — e bonito — cheio de piercings cobrando cento e quinze reais por causa de desgracentos oitenta e cinco churros parado em sua porta.
CHURROS!
— Qualé, cara?! Tô fazendo meu trabalho, colabora. Você pegou seu celular, botou seus dados, endereço e nos foi informado que seria pagamento em cartão. E então? Tô esperando.
— Eu não pedi coisa nenhuma! — estava desesperado — deve ter sido engano, moço.
Sério? Minha noite de sábado solitária e rotineira sendo importunada por causa de alguma cria sem noção que decidiu passar trote em pleno episódio especial da novela das oito?
Observei o garoto de cabelos espetados — algum gel realmente bom pois não conseguia ver aquela parte grudenta que faz tudo juntar! — equilibrar as três caixas de churros em uma mão e colocar a outra na cintura.
Suspirando e com sua voz se elevando um pouco mais, disse: — Então, princeso. Deu trabalho para conseguir colocar tudo na moto porque a cordinha não prendia e tenho certeza que dá menos trabalho jogar tudo na sua cara e assaltar você ‘pra pagar isso, tá ligado? É a minha última entrega e eu quero terminar isso logo!
— De quantos empregos você já foi demitido? — perguntei.
— Quê? — Certo, ele ficou bem mais puto do que se tivessem perguntado quantos centímetros de pau ele tem em rede nacional — Por acaso está dizendo que não faço meu trabalho direito? REALMENTE ESTÁ PERGUNTANDO ISSO?
— NÃO! Quer dizer… Tipo, não é nada másculo para um trabalhador ameaçar pessoas. Ainda mais se for por causa de um engano de entrega de churros.
Suas sobrancelhas se juntaram ainda mais em uma expressão surreal de raiva e surpreendentemente mais agressiva que um chihuahua — tirando a parte da tremedeira, afinal quem estava com medo era eu. O garoto sabe-se-lá pensou qualquer coisa diversas vezes e repensou durante os trinta segundos que ficamos nos encarando.
Comecei a ficar mais desconfortável. Talvez ele esteja pensando em como esconder meu corpo sem nenhum vestígio? Ou talvez em pegar a cordinha da bagagem para me fazer engolir igual macarrão transpassando todos os churros por ela? Quem sabe não seja um teste para saber quantas pessoas aceitariam o churros para depois aparecer câmeras mostrando o qual mal caráter eu sou deixando uma família de mais de vinte pessoas a espera de churros para alegrar a noite?!
Mas tudo o que falou foi: — Tá.
— Tá o quê?
O jovem em minha frente soltou o ar e com ambas as mãos segurou as caixas. — Olha… está sendo uma péssima noite e já foi descontado de meu salário cinquenta talqueis por causa de mal comportamento. Por fa… escuta, vai ser… másculo da sua parte não me dar uma estrela pela entrega ou algo assim, beleza? Não precisa pagar nem nada, eu tiro do meu bolso, o senhor Sugar Rush teve muito trabalho para fazer.
Então o vi virar de costas lentamente e começou a andar, um passo atrás do outro, como se possuísse algemas em suas pernas. Senti a tristeza invadindo nossos corações pela entrega mal sucedida de um alimento tão saboroso que deve possuir um sabor único.
Senti a aura desiludida emanar do cavalheiro prestes a subir em sua moto e deixar-me com a grave culpa de descumprimento com a sociedade.
Certo, a desolação veio com tudo.
— Cara... Bro! Espera aí. — Comecei a correr atrás deste nobre que apenas queria ir para casa.
O rapaz loiro se virou para mim com o maior sorriso malicioso, carregado de segunda intenções e vitória aparente. — Resolveu pagar?
Então esse era o plano?! Criatura safada!
Mudei de ideia. Esse jogo se joga a dois.
— Ah, não. Mas como você vai tirar do próprio bolso e sei que não irá conseguir comer tudo, que tal dividir um pouco comigo? — joguei meus cabelos para trás e lhe entreguei meu melhor sorriso, puro e tão angelical e sei que nem mesmo o próprio Satã conseguirá não resistir a ele.
Ou talvez Satã encarnou como um motoboy de doces…
— Tá me tirando, tio?! Tch. — O adorável chihuahua se irritou novamente e sussurrou — e eu pensando que as pessoas hoje em dia possuem um coração recheado de doçura e bondade… meu rabo que tem.
E que rabo, hein? Não pude deixar de reparar após sua última frase que nem foi tão baixa assim por sua voz robusta.
E… bom, não acho que irá fazer mal algum realmente dividir churros.
— Efetivamente, meu bom colega. — não pude deixar de soltar um risinho ridículo
.
— Uh?! Qual teu problema, porra? Tá achando que é refinado e chique para falar dessa forma? Tu mora no centro da cidade. — emputeceu o Senhor Rabo Doce.
— Isso não foi nada vitoriano.¹
O entregador de churros me olhou de cima a baixo e, ainda com uma expressão fechada, porém mais passível, me devolveu a risada com um comentário nada chique — Maluco do caralho.
— É que eu tenho a impressão que a Era Vitoriana foi muito fina. — Limpei a garganta novamente e respondi: — Tenho uma ótima solução para nós dois.
— Diga.
Me curvei levemente e ofereci minha mão direita — Eu, Eijirou Kirishima, aceito você…?
— Isso é uma cerimônia de casamento?! Haha. — ele neutralizou seu olhar. — Katsuki Bakugo.
— Certo. Aceito você, Katsuki Bakugou como meu parceiro de episódio especial por esta noite, em troca de oitenta e cinco churros por minha conta, o que acha?
Sorrindo de lado, Bakugo tira a maquininha que até então eu não tinha notado estar presa ao seu lado esquerdo — Primeiro, crédito ou débito?
Puts, esqueci dessa parte— Hm... posso pagar lá dentro? Mas é débito.
— Uhum…
Liberei a passagem e deixei Bakugo passar em minha frente antes de segui-lo e fechar o portão sem grade e virar, novamente, para o meu novo hóspede. — Sempre aceita convites de desconhecidos? Eu poderia ser um assassino.
Katsuki virou-se rápido o suficiente para nossos olhos ficassem frente a frente. Um vermelho, intenso, igualmente ou tão mais forte que o meu. — Alguém que usa pantufas de dragãozinho para atender a porta não pode ser malvado o suficiente.
Não pude deixar de ficar envergonhado. Minhas pantufas de estimação nunca saem dos meus pés quando estou em casa.
Senti o hálito quente de Bakugo com o seu pequeno arfar sobre minha boca.
Desculpe-me, porém sou facilmente seduzido por breves saliências direcionadas á mim.
— Você tem problemas em beijar caras com dezessete anos e meio?
— Não.
— Muito bom. — e com isso Katsuki selou nossos lábios iniciando um beijo eufórico e carregado de adrenalina.
Puxei Bakugo pela cintura com uma das mãos e a outra foi parar em sua nuca fazendo um breve carinho no seu cabelo — sem gel — enquanto ele enlaçava meu pescoço com apenas um dos braços — churros atrapalhando as coisas, novidade.
Eu nunca fui um grande fã de beijos de língua — que coisa, ele também tinha um piercing nela — mas eu gostava do que ele fazia.
Gradualmente fomos nos afastando e, com um curto selinho, segurei seu queixo e olhei em seus olhos — Eu sabia.
Provavelmente Katsuki não sabia pela dúvida que apareceu em si. — Meu gaydar fez uonuonuon quando olhei você.
Com um soco não tão forte em meu ombro ele voltou a sua posição inicial e foi entrando na sala, não antes de me retrucar — Pfft, babaquice isso de gaydar. Essa coisa não existe. No entanto eu acredito em uma teoria que todo mundo é bi, já ouviu falar?
— Vou adorar ouvir. — Disse sentando no sofá e ligando o play da gravação de minha novela.
— Então, se você for hétero e estiver vendado, eu posso colocar a mão no seu pau e não irá se importar quem for.
Ah.
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