Encontro Marcado

1 Capítulo Único


No restaurante do hotel que se hospedaria durante o torneio de Tóquio, optou por uma mesa próxima a janela, assim poderia se distrair com a paisagem noturna e as luzes da grande metrópole. Impaciente, esperava por alguém. Não que a pessoa estivesse atrasada e sim ele que havia chegado bem antes do horário combinado.

Não gostava de esperar, porém não havia muito o que fazer naquela situação. Logo teria que pedir algo para comer antes que acabasse sendo expulso apenas por permanecer no copo d’água. E pensava profundamente se compensava responsabilizar o rapaz com quem havia marcado aquele encontro.

Procurou pelo celular para confirmar a hora e se não havia nenhuma mensagem. O largando sobre a mesa ao não encontrar nenhuma novidade. Estava dando o horário combinado e já começava a temer que seu encontro havia sido desmarcado e o outro nem se dado ao trabalho de avisar.

Batia os dedos sobre a mesa olhando para os lados na esperança de reconhecer alguém tão perdido quanto ele. Às vezes levava a mãos até os cabelos em tons de vinho para arrumar uma mecha atrás da orelha, porém a mesma logo voltava a cair, se tornando um ciclo.

Por fim levou as mãos sobre as pernas, tentando evitar que tremessem tanto, em visível nervosismo. Suspirou demoradamente, acima de tudo, precisava manter a postura.

— São só alguns minutos de atraso. – dizia para si. – Posso perdoa-lo por isso.

Percebendo que começava a chamar a atenção de outras pessoas no local, por conta de sua inquietação, tentou disfarçar pegando o cardápio abandonado em sua mesa. Olhou rapidamente o que dispunha, arregalando os olhos ao confirmar os preços. Dificilmente pediria algo além daquela água.

— Não deveria ter permitido que Nagisa me convencesse disso... – murmurou praguejando o amigo de cabelos louros que havia armado aquele “encontro”. – Na verdade não devia ter ouvido nenhum deles. Até o Haru, do jeito dele, me atiçou com a ideia de nos conhecemos durante um jantar. “Aproveite que irá competir em Tóquio para se conhecerem” – repetia o que dissera um de seus amigos. – Que vontade de chorar. – confessou para si levando as mãos para o rosto. – Desde o começo achei essa ideia ruim. Ele também não parecia à vontade quando citei esse restaurante. Talvez ele nem quisesse me conhecer... Ou soubesse do roubo que é esse lugar.

A ideia de começar a conversar com alguém por um aplicativo de encontro não parecia tão ruim no início, o real problema era a hora de se conhecer pessoalmente. Não esperava que esse momento chegasse tão cedo, principalmente pelo fato de o rapaz morar justamente na capital e quando começaram a conversar Rin ainda estava em intercâmbio na Austrália. Também já havia ocorrido confusão por causa de ter um nome tão feminino, algo que tinha certeza que tinha sido explicado e resolvido. Porém, agora, isso ainda parecia o incomodar. Talvez o fato dele ser realmente um rapaz fosse um problema.

Estava a ponto de finalmente ir embora e esquecer daquela loucura, quando um garçom parou em frente a sua mesa, o fitando intensamente. Sem graça, voltou a se ajeitar na cadeira e evitar que seus olhares se cruzassem.

— Algum problema, senhor? – ouviu a voz firme do garçom, o fazendo estagnar. – Parece terrivelmente inquieto. Isso está começando a incomodar os outros clientes. – foi direto, não medindo suas palavras.

— Não.. Está tudo bem. – respondeu ainda evitando o olhar. – Na verdade não está nada bem. – confessou. – Acho que meio... Acabei de levar um bolo... – sorriu sem humor.

— Por um acaso seu nome seria Matsuoka Rin? – o garçom indagou sem pretensão alguma.

— Hã? Sim. – surpreso, levantou o olhar finalmente.

— O senhor não levou um bolo. – sorriu. – Seu encontro é comigo. Termino meu expediente daqui meia hora.

— Sousuke? – ainda surpreso indagou. Recebendo um sorriso como resposta.

— Então gostaria de pedir algo enquanto espera? Por minha conta por fazê-lo esperar tanto.

Rin permaneceu sem reação ao encarar os olhos escuros do garçom. Aos poucos, sua ficha caia sobre a situação, não evitando o avermelhar do rosto. Tentando se esconder atrás do cardápio. O que resultou em um riso do outro.

— Posso sugerir algo então? – mudou sua pergunta, sem abandonar o sorriso acolhedor. – Costuma beber?

— Raramente... – respondeu ainda mantendo o olhar para o chão.

— Aceita dividir uma garrafa comigo assim que eu estiver livre?

— Isso... Me ajudaria a falar sem gaguejar? – tentou agir de modo mais descontraído, fazendo o outro rir novamente.

— Isso depende de como o álcool comportasse em seu organismo e a quantidade que toma.

— Acho que vou querer...

— Alguma preferência?

— Nada forte.

— Está com fome?

— Na verdade... Não muita. – confessou, porém não especificou exatamente o motivo. Era por conta do nervosismo que não sentia vontade de comer.

— Vegetariano?

— Não. – pensou por uns instantes. – Mas não gosto de comida apimentada.

— Entendo. – anotava tudo. — Aguarde mais um pouco, logo retornarei com seu pedido. – ditou por fim, afastando educadamente da mesa.

Enquanto esperava, Rin digeria o que acabara de ocorrer. O olhar perdido para o lado de fora da janela. Ainda parecia ser mentira que seu encontro era justamente com um dos garçons do hotel onde ficaria, porém isso dava sentido do porque Sousuke reagir estranho quando sugeriu o lugar. Passou a pensar também o quanto ele ganhava por noite e se não o prejudicaria ao se oferecer a bancar com as despesas do jantar. Estava disposto a no mínimo convencê-lo a dividir a conta.

Após uma curta espera viu Sousuke se aproximar com duas taças e uma garrafa de líquido transparente.

Acompanhava com os olhos ele se afastar e voltar dessa vez com uma bandeja cheia. Um a um dos itens eram colocados sobre a mesa. Duas tigelas de arroz, um peixe grande grelhado e meticulosamente fatiado, uma tigela de legumes fatiados ao shoyu.

— Espero que goste, por conta da casa. – começou a falar. – Escolhi como acompanhamento do salmão, um vinho Sauvignon Blanc. Seu sabor é puxado para o cítrico e herbáceo. Ajuda a ressaltar o tempero do peixe.

— Isso tudo não meio... Caro? – indagou receoso.

— Não se preocupe com isso. – respondeu retirando o avental e sentando-se na cadeira a frente de Rin.

— Espera! Você ainda não está em horário de trabalho?

— Não tem problema. – Sousuke parecia totalmente tranquilo enquanto pegava os hashis e uma das tigelas de arroz. – O hotel é da minha família, isso inclui o restaurante também. Então posso ter algumas regalias de vez enquanto. Também não jantei ainda.

Rin permaneceu inerte durante minutos. Estava difícil digerir aquela confissão.

— Hã?! – levantou bruscamente batendo as mãos na mesa. Sousuke continuou comendo em sua tranquilidade inabalável. Rin, assim que notou toda atenção que havia atraído, voltou a se sentar envergonhado. – Você nunca falou sobre isso.

— Você nunca perguntou. – respondeu pegando um pedaço do peixe. – Nunca falei muito de mim em nossas conversas.

Rin novamente voltou a ficar sem graça. Realmente suas conversas eram voltadas mais sobre suas conquistas na natação e as coisas relacionadas a sua vida na Austrália. Raramente perguntava sobre como iam as coisas no Japão e sabia apenas o pouco que Sousuke falava sobre si. Coisas como onde morava e que trabalhava com os pais. Também que o outro já havia praticado natação e se garantia no nado costas, porém havia se afastado do cenário competitivo após um rompimento no ombro.

— Realmente... – admitiu. – Eu me empolgava demais falando de coisas que interessavam só a mim...

— Você fala do que gosta e parece feliz. E assim fico informado sobre o cenário competitivo fora do Japão. – respondeu em um simplório sorriso. – Então voltou pro Japão pra competição internacional em Tóquio, não é? Diga quais são suas expectativas. Acredito que esteja ansioso para competir com os melhores do mundo. Já tem algum “rival” em mente?

E com essas colocações a tensão que Rin sentia desde o início do encontro começavam a desaparecer, permitindo uma longa conversa animada e um jantar prazeroso.

Rin falava sobre todos os tipos de competidores que já havia enfrentado, como havia sido sua adaptação em outro país, sobre seu treinador que, apesar de gostos estranhos, era bom no que fazia.

Sousuke acompanhava tudo com um sorriso, via como o outro se sentia realizado por fazer o que gostava. Também teve seu momento de falar, comentou como era trabalhar com os pais desde que se afastou das competições, do sonho de um dia voltar a nadar e que já realizava acompanhamentos médicos. Falou também sobre os tipos certos de bebidas que acompanhava cada prato e o porquê disso. Não que Rin entendesse muito, mas aquele foi o momento de ele apreciar o outro falar de algo que aprendeu a gostar.

Rin precisava admitir que o álcool o ajudou a se soltar mais, que nenhum dos dois tinham se dado conta da passagem do tempo e a comida também havia caído bem. Não havia reclamações sobre a noite além de que uma hora se encerraria.

— Então ficará hospedado no hotel durante a fase eliminatória? – Sousuke voltou a perguntar após terminarem de comer e só restar vinho em suas taças.

— Sim. – respondeu contornando um dos dedos na borda da taça. – Meu treinador também veio me instruir e assistir a competição, claro. Ele ficou com o quarto do lado para me dá o mínimo de privacidade. – pausou. – Ou ele mesmo que deve querer ter seu preciso momento sozinho com seus gostos duvidosos.

— Posso deduzir então que possuiu um treinador exótico.

— Só estranho mesmo, mas exerce bem seu trabalho como treinador.

— E eu posso ir assisti-lo competir? Meio difícil acreditar em suas façanhas só te escutando. – sorriu com a provocação.

— Está duvidando de minha capacidade? – acabou mordendo a isca.

— Só gosto de confirmar a veracidade das histórias. – prosseguiu.

— Quero te ver bem na frente da arquibancada quando eu quebrar o recorde atual. – se exasperou fazendo o outro rir.

— Assim espero. – respondeu ao parar de rir. – E como a hora passou... – mudou drasticamente de assunto. – Já passou da hora de fechar.

— Ah... – não escondeu o desanimo. – Já tão tarde assim?

— Não precisa fazer essa cara, ainda vamos nos ver mais. Até porque trabalho aqui e você está hospedado no hotel.

— Não estou fazendo cara nenhuma! – negou terminando de virar o resto do vinho em sua taça. – Acho que passei do limite. – levou uma das mãos a cabeça que latejou por um momento.

— Fique sentando. – sugeriu. – Vou levar essas coisas para cozinha e lhe trazer um pouco de água.

— E isso resolve algo?

— Agora não muita coisa. – respondeu. – Seria bom se você pudesse descansar amanhã caso realmente persista a ressaca.

— Droga...

— Você é realmente fraco pra álcool.

— Eu te disse antes... Por que fui tentar de acompanhar...?

— Importante que ainda está consciente pra poder reclamar. – complementou e o outro apenas resmungou algo. – Eu já volto.

Rin apenas esperou em silêncio o retorno de Sousuke. Observando o restaurante já praticamente vazio, com exceção de um ou outro perdido que também já deixavam o lugar. Por ser aberto para o público em geral e não totalmente exclusivo para hóspede do hotel, até ficou feliz por ter certa preferência em atendimento e não ser expulso de início, era normal haver fila de espera.

Era um lugar que atraia muitos estrangeiros, queria ter observado melhor o lugar em toda sua agitação, porém seu nervosismo de mais cedo não havia lhe permitido.

Pegando o celular em mãos, percebeu bateria baixa e algumas mensagens que depois pensaria se responderia. Muitas pertenciam a seus amigos curiosos querendo saber se havia rolado o tal encontro ou se ele havia fugido. Também reparou que passava da meia noite e a única certeza que tinha era que havia tentado aproveitar ao máximo o tempo.

— Rin? – voltou a realidade ao seu nome. – Está tudo bem? Parece distante.

— Sousuke? Desculpa.... Nem reparei que havia voltado.

— Percebi. – sorriu ao responder. – Toma, uma garrafa de água. Pode ir tomando aos poucos, quando sentir sede.

— Obrigado... – agradeceu ao pegar a garrafa. – Melhor eu ir também... – anunciou apoiando as mãos sobre a mesa para levantar.

Não chegava a estar bêbado, porém sabia que havia excedido seu limite ao levantar e sentir certa tontura. Esperou alguns segundos antes de caminhar, torcendo para o outro não reparar nada. Ao dar o primeiro passo, acabou por tropeçar no pé da cadeira. Não cairia, porém Sousuke se alarmou ao se colocar a frente para segurá-lo.

— Tem certeza que está bem?

— Eu só tropecei ao me levantar. – respondeu abaixando o rosto, querendo esconder a vermelhidão. – Consigo andar sozinho.

— Não quer que eu te acompanho até seu quarto? Só por precaução.

— Já disse que consigo andar sozinho. – elevou a voz levantando o rosto rápido demais. Ficando perto demais do olhar de preocupação do outro. Voltou a corar e baixar a cabeça. – Faça como quiser... – cedeu.

“Perto demais....” – pensou, se o outro estivesse com o rosto mais baixo o que teria acontecido? Não queria pensar nisso, senão voltaria a corar só com a imaginação.

Caminharam em silêncio pelos corredores do hotel, Rin evitava qualquer contato visual, tampouco Sousuke tentou puxar assunto, percebia o estranho clima pesado e tinha suas suspeitas do porquê.

— Bom... Esse é meu quarto. – pararam. – Então.... Foi divertido hoje.

— Fiquei feliz em conversar com você sem ser por mensagens. – sorriu.

— Então é isso. Boa noite. – disse sem encará-lo. – Sousuke... – parou a mão sobre a maçaneta. – Tenho uma dúvida. Durante os dias que eu estiver aqui, caso eu peça serviço de quarto...

— Tem o pessoal responsável por essa área. – respondeu sem a intenção de interromper a pergunta do outro, mesmo o fazendo. – Por que a pergunta?

— Não é por nada. Só curiosidade.

— Se quiser eu posso vir também. – sorriu matreiro. – Nada que uma conversa não resolva.

— Que? Não! – se surpreendeu com a resposta. – Quer dizer... – o outro ria ao vê-lo se perdendo nas palavras.

— Vou te deixar descansar agora. – soou sutil. – Caso acorde com indícios de ressaca pode pedir serviço de quarto, o pessoal já está acostumado com casos do tipo e sabem como curar.

— É comum hospedes passarem do limite?

— Mais do que imagina. – pausou. – Mas com sorte você acordará bem. Treinos matinais, não é?

— Sim... Preciso acordar disposto.

— Então, senhor Matsuoka, foi um prazer servi-lo essa noite. – agiu de modo cortês. – Tenha uma boa noite.

— Boa noite... – ditou baixo vendo o outro se afastar.

Permaneceu parado em frente a porta mesmo após Sousuke sumir de vista pelos corredores. Ainda tentava digerir toda aquela noite em meio a dor de cabeça, que parecia ganhar força.

— Parece que você aproveitou bem seu encontro. – assustou-se virando para o lado e vendo seu treinador na porta do quarto vizinho. – E que boa escolha.

— Desde... O quanto ouviu da conversa?!

— O suficiente. – sorriu assustadoramente amigável. – Tudo bem você querer se encontrar com ele enquanto estiver por aqui, mas não perca o foco da competição. Terá que deixar o romance pra segundo plano.

— O que?! Ele é só um amigo. E a gente acabou de se conhecer.

— Se você diz. – deu de ombros. – Boa noite Rin. E cuide dessa ressaca. – ditou por fim voltando ao seu quarto.

— Não tem nada acontecendo... – negava a si mesmo ainda incerto. – Resolvo esse mal-entendido quando estiver melhor. – suspirou querendo apenas encerrar a montanha russa de sentimentos que havia sido aquela noite.

Notas finais
Qualquer erro, pfvr informe pra que eu possa arrumar ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!