Encontre-me No Nosso Lugar
1 Capítulo ùnico
Notas iniciais
N/A: Crepúsculo não me pertence.
Olá! Essa fic faz parte do Projeto One-Shot Oculta, um amigo oculto entre autoras do fandom de Crepúsculo. Confira as regras e todas as participantes na página bit (ponto) ly (barra) POSOffnet
Você também encontra o link diretamente no meu perfil, na aba de Favorite Authors. Essa fanfic é dedicada à minha amiga oculta Clhoe Less!!!!!, um amor de pessoa que esperou até os 45 do segundo tempo para ler o presente. (Desculpa!) Espero que você goste tanto da história quanto eu gostei de escrever.
POV EDWARD
A merda de morar sozinho era ter que fazer o café da manhã todo dia. Eu não conseguia funcionar sem o maldito café, mas tinha que funcionar para fazer o maldito café. Eu daria um beijo em quem inventou a cafeteira pré-programável! Era metade do meu suplício feito seis horas da manhã em ponto. A parte de preparar alguma coisa para comer, infelizmente, tinha que ser toda minha. Com certeza, se eu procurasse, acharia uma máquina que produz alguma coisa comestível sozinha. Mas eu não estava tendo tempo para procurar. E não seria nada saudável.
Depois de comer, beber, e jogar uma água no corpo, segui para a academia do prédio. Eu odiava malhar com todas as minhas forças. Eu mataria o filho da puta que inventou que os seres humanos precisam fazer atividades físicas para serem saldáveis.
Obviamente, eu desfrutava de um personal trainer. Alguém tinha que me obrigar a fazer exercício. Infelizmente, ele só criava minhas séries e me incentivava, o dia que inventassem um que fizesse o trabalho todo por mim, eu daria um beijo nessa pessoa também. Faria uma estátua ao lado da estátua do inventor da cafeteira.
Tomei outro banho quando voltei para o meu apartamento e segui para o escritório. Meu motorista parou na garagem do prédio nove horas da manhã e, como acontecia diversas vezes, eu estava no meio de uma ligação, fazendo anotações no computador e não pude sair do carro.
Eram dez e meia quando entrei na minha sala e pude desfrutar da minha confortável cadeira. Minha secretária, Carmen, entrou logo atrás de mim, perguntando se eu precisava de alguma coisa antes da reunião em uma hora e meia. Dispensei-a, conectando o notebook agora em uma tela maior para ler os documentos referentes a tal reunião.
Um barulho avisando que havia chegado mensagem no meu e-mail pessoal chamou minha atenção antes de eu sequer ler o título do relatório a ser lido. Tendo ignorado os avisos de novos e-mails anteriores, abri esse de uma vez para ver qual seria o spam. Um mesmo assunto se repetia várias vezes na minha caixa de entrada entre todos os e-mails ignorados. Li diversos títulos em desespero até finalmente clicar em um:
“A atriz, cantora e compositora Isabella Swan, popularmente conhecida como Bella Swan, desmaiou em um shopping na ensolarada cidade de Los Angeles, onde mora. A cantora da música tema do filme ‘Netuno em Chamas’, indicado ao Oscar por Trilha Sonora e ganhador de vários prêmios por canção original, fazia compras sozinha quando foi rodeada de fãs. Pessoas no local disseram que Bella parecia estar passando mal desde que chegou no shopping, outras relatam que ela estava muito bem, e o ato foi uma forma de fugir dos insistentes pedidos de fotos. A equipe de Bella Swan não foi encontrada para comentar o desmaio ou a suposta fuga da cantora. Será que a princesinha cansou dos fãs? Acompanhem em nosso site ou nossas redes sociais todas as atualizações sobre o incidente.”
Eu me perguntei que tipo que jornalista escrevia um texto porco desses.
Abri mais alguns links, encontrando histórias parecidas. Algumas com textos melhores, porém igualmente questionáveis. Nenhum veículo sério falava sobre o ocorrido, apenas os de fofocas.
Todas as matérias vinham acompanhados por fotos tiradas no momento do “desmaio”. Meu sangue fervia por ver a privacidade de Bella invadida, ela encolhida no chão, as mãos protegendo a cabeça, o corpo mole no colo de um segurança do shopping, o olhar de pânico quando foi retirada de lá… Levantei com tanta raiva da cadeira que ela bateu no móvel atrás, derrubando um monte de objetos de decoração.
Carmen, vendo pelas paredes de vidro que eu estava de pé, começou a arrumar as coisas para a reunião.
Puta merda. Eu não tinha lido nada do relatório. Passei a mão pelo cabelo, tirando todo o gel que o deixava milimetricamente no lugar todas as manhãs. Vi Carmen se aproximar pelo vidro, se assustando com meu cabelo e me deixando nervoso como uma criança prestes a ouvir sermão por ter feito besteira. Antes que eu pudesse pedir alguns minutos ela se recompôs, aceitou que eu sou louco, e começou a fazer um resumo sobre o que esperávamos da reunião. Santa Carmen! Quando me lembrou que a empresa que encontraríamos tinha interesse em comprar a minha, voltei à realidade. Ninguém mexe no que é meu.
Não havia nada que eu pudesse fazer em relação a Bella agora. Esvaziei a mente e me concentrei na reunião.
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Era sempre fácil me desligar do mundo quando estava concentrado. Quando estava focado no que eu queria. Foi assim quando a EAMAC começou a chamar atenção depois da faculdade e eu passei noites acordado captando investidores e fazendo-a crescer até chegar na grande Nova Iorque. Com apenas vinte e sete anos consegui o feito de ver meu empreendimento ser um sucesso. Sim, eu era um desses homens impressionantes que ficou milionário antes dos trinta, é possível. Mas a muito custo. Muito. Quase paguei com a minha vida. Eu precisei mostrar que merecia os milhões. Sempre focado e concentrado no que queria.
Mas alguma coisa estava diferente comigo desde que vira aquelas fotos, o foco não era mais o mesmo. Eu as via toda vez que fechava os olhos. Fui tomado por uma angústia que me paralisou. Não conseguia fazer nada que não fosse pensar em Bella desacordada e no que poderia ter levado ao desmaio.
Naquele mesmo dia a equipe dela lançou um comunicado cancelando todos os compromissos e avisando que sairia de férias por um tempo. Sem muitas explicações, apenas muitos pedidos de desculpas.
Uma semana depois, ninguém ouvia falar dela. Muitas especulações eram feitas, muita mentira era falada, e nada trazia até mim a notícia de como ela estava e que merda estava acontecendo.
Aquilo só serviu para me deixar com os nervos mais a flor da pele. Como ninguém se importava em saber como ela estava? Por que fazer fofocas era mais interessante do que a vida dela? E se Bella precisasse de ajuda? Agoniado, só havia uma coisa que eu poderia fazer: ir até Forks. Com certeza era lá que ela estava escondida.
Eu poderia ter menos trabalho e apenas perguntar para minha irmã, ou meus pais, como ela estava. Mas meu interesse por Bella depois de todos esses anos não era algo que eu queria que eles soubessem. Nem eles iam me querer perto dela.
Eu fui o culpado pelo fim do nosso relacionamento, indo para longe e estragando tudo. Na cabeça deles, eu não me importava com Bella, e era assim que eu queria que eles seguissem pensando. Apesar da realidade ser o completo oposto.
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Antes de ir para Forks, eu precisava deixar tudo ajeitado na EAMAC para a roda continuar girando. Só havia um problema: eu não sabia delegar. Eu tinha orgulho da minha empresa, do que construí, e era difícil ver outra pessoa tomar conta de algo que era meu.
Foi com muito custo que, quando fiquei internado com uma crise renal, confiei aos meus funcionários tarefas que não poderia fazer preso em uma cama de hospital. Depois de trocar água por refrigerante, não me alimentar direito ou dormir, me estressar, não eram apenas pedras nos rins que me prejudicavam. Meu pai, médico, veio até Nova Iorque e me obrigou a fazer uma bateria de exames. Vários problemas descobertos depois, fiquei fora da empresa mais tempo do que queria, aprendendo na marra a dividir tarefas e cuidar da minha saúde.
Velhos hábitos demoram a morrer, eu havia voltado a controlar tudo quando os exames voltaram a mostrar resultados mais positivos. Lembrar da não falência da EAMAC nesse período da minha ausência me deixou com um peso a menos na consciência. Dessa vez seria até mais fácil, uma vez que eu não estaria internado sem acesso aos computadores. Eu estaria apenas de férias.
A última vez que entrei de férias foi no penúltimo período da faculdade. Depois disso, apenas períodos esporádicos de folga para reuniões em família em eventos específicos. Mesmo assim, sempre com o computador e o telefone a postos. Não lembrava mais como era ficar tanto tempo seguido sem fazer nada.
Chamei Carmen na minha sala e planejei tudo para ser resolvido dali uma semana. Remanejei reuniões, dividi projetos, deleguei. A sensação era estranha, mas se eu queria saber como Bella estava, era o certo a fazer.
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O helicóptero pousou no heliporto do hospital de Forks na hora exata, duas semanas depois das fotos que assombravam meu sono todos os dias. Pela janela eu via meu pai, sério, com as mãos no bolso enquanto me aguardava. Tive que contar que estava indo para casa por um tempo quando pedi autorização para usar o heliporto do hospital. Aproveitei que meu pai trabalhava lá para adiantar as coisas a meu favor. O da delegacia estava em obras, estragando minha ideia de chegar despercebido.
Aconteceu do meu aniversário ser dali a quatro dias e o fato ajudar como desculpa para estar lá. Não que eu tivesse usado isso como desculpa, eu apenas avisei que estava indo e eles que entendessem como quisessem. Crise dos trinta tardia? Podia ser. Tanto faz.
Parei com a mala na frente do meu pai, que abriu um sorriso, me deu um tapa no braço como cumprimento, e virou as costas para segui-lo. Eu não era de muitas intimidades com minha família. Com ninguém, na verdade.
- Está tudo bem com você, Edward? – Carlisle puxou assunto no grande retângulo do elevador.
Ele estava de folga do hospital naquele dia e estava ali apenas para me buscar. A ideia era ficar em um hotel, minha mãe quase voou pelo telefone para me proibir.
- Sim, tudo ótimo. – Respondi. – Seguindo minhas dietas, fazendo exercício físico, tudo normal.
- Com a companhia?
- Também. Melhor do que eu.
Ele fez um som com a garganta e emendou outro assunto.
Eu havia acabado de matar duas outras desculpas que eu poderia dar para estar aqui. Se não havia nada de errado comigo ou com a empresa, qual poderia ser o motivo da viagem? Eu ia seguir de boca calada o tanto quanto fosse possível.
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Minha mãe estava na cozinha quando entrei. Acenei com a mão para ela na pia, já fazendo o caminho até lá. Não adiantava tentar manter a distância com Esme, não era da natureza dela.
- Que surpresa você nos visitar, Edward! – Abraçou-me apertado. Em algum momento desde a última vez que eu a vira, ela trocou o perfume. O outro era mais doce. Lembro de relacionar o aroma dele a ‘mãe’, e ter procurado para comprar. Para ela, ou para mim, até hoje eu não sei. – Está tudo bem?
- Tudo perfeito. As coisas andam meio lentas na empresa, mas está tudo bem. – Mentira. Os negócios estavam agitados como sempre.
- Que bom! Quer um sanduíche? – Na verdade, não estava com fome. Estava nervoso, tenso, e com o coração ainda apertado de angústia. Mas minha mãe não sabia nada disso, e seguiu falando alegre por ter o filho em casa. – Leva sua mala para o quarto, toma um banho, coloca uma roupa mais confortável, tira esse gel desse cabelo, e depois vem comer um pouco.
Enquanto ela começava a me fazer algo para comer, subi com as minhas coisas. Não havia a opção de dizer ‘não’. Nunca havia a opção de negar nada para Esme.
Uma hora depois, eu estava sentado na sala com meus pais, conversando e comendo. Era óbvio o estranhamento deles com a minha presença. Se era apenas por eu estar aqui, ou se por desconfiarem que eu buscava notícias sobre Bella, não tinha como saber sem perguntar. E eu não perguntaria. Patético, eu sei.
Eles não comentaram sobre ela, e eu nem achei que fariam. Os fofoqueiros da família eram meus irmãos e meus cunhados, e nenhum deles estava aqui no momento. Se alguém me daria as informações que precisava, seriam eles.
Dez horas da noite estávamos os três quase dormindo no meio do filme. Foi cada um para o seu quarto encerrar o dia no mesmo clima estranho de quando eu cheguei.
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A noite não foi fácil. Apesar do cansaço e da falta de despertador para acordar, meu corpo sabia que não estava em casa e não relaxou. Despertei diversas vezes durante a madrugada achando que estava atrasado para o trabalho. Desisti de dormir eram oito horas da manhã. Depois de tomar café da manhã com a minha mãe, sentei com meu notebook na varanda para ler e-mails de Carmen.
- Vai fazer o que hoje, Edward? – Minha mãe perguntou, descendo elegantemente as escadas de madeira com seus saltos super finos. Alguma coisa no tom dela deveria ter me preparado para o que viria.
- Não sei. Vou primeiro dar uma olhada se Carmen enviou alguma coisa para eu resolver.
- Seus irmãos virão aqui mais tarde, não trabalhe muito. – Eu sabia! Ela entrou no carro rindo ao som do meu resmungo. Que bom que alguém estava se divertindo na minha viagem.
No final das contas, não tive muita coisa relacionada a trabalho para resolver. Eu tinha certeza que Carmen, e Eleazar, uma feliz descoberta de eficiência entre os funcionários, estavam me escondendo muita coisa. Desde que eu não estivesse sabendo, estava tudo bem. Eu só precisava seguir com plano patético de saber sobre Bella.
O que encontrei foi um e-mail do meu personal trainer com a minha rotina de exercícios para não perder o pique enquanto estivesse viajando. Era como se meu coração fosse parar se eu ficasse um dia sem exercícios.
Rodei os três andares da casa dos meus pais procurando por um lugar que pudesse servir de academia, encontrando apenas quartos cheios de livros, projetos de decoração e plantas. Terminei tendo que ligar para meu irmão, Emmett com certeza teria a indicação de um lugar.
- Eu ia lá mais tarde, mas vou na casa dos nossos pais ver um certo puto vacilão que resolveu dar as caras em Forks. – Foi a resposta dele. – Faz o seguinte, amanhã a gente passa lá de manhã.
- Não, Emmett, nada de acordar cedo. Eu estou de férias.
Minha frase foi recebida com uma enorme gargalhada.
- Férias? Você? – Mais gargalhada, agora ela vinha acompanhado pela da esposa dele, Rosalie. – Cadê aquela história de ‘trabalhe enquanto eles dormem’?
- O que tem uma coisa a ver com a outra? Emmett, me passa o endereço que eu vou lá hoje.
- Cara, é Forks, é só você sair sem rumo pela rua que você acha.
- Emmett… — Eu odiava malhar. A história de que você acostuma depois de um tempo NÃO funcionou comigo. Se Emmett brincasse mais um pouco eu realmente ia acabar postergando e não fazendo exercício nenhum.
- Estou brincando, cara. – Mais risos. Minha mãe não era a única a estar se divertindo com a minha passagem pela cidade. – Vou mandar o mapa por mensagem.
- Obrigado.
Com a capa de chuva, guarda-chuva e o carro extra dos meus pais, parti para o centro da cidade.
Não foi difícil achar a academia, apesar do mapa ser um rabisco de uma criança de três anos. Era a mesma de sempre, agora modernizada. Estacionei algumas quadras depois e voltei caminhando, reconhecendo a vizinhança. As poucas pessoas na rua passavam por mim e viravam a cabeça para ter certeza do que estavam vendo. Pelo menos a jovem atrás do balcão da recepção da academia não fazia ideia de quem eu era.
- Você também é novo na cidade? – Explicado, ela não era daqui, nem fez ligação com o sobrenome da minha família.
- Não. – Tecnicamente, eu não era novo.
- Engraçado, nunca te vi por aqui.
- Demora para fazer a inscrição? Eu posso fazer on-line? – Por que não pensei nisso antes? Eu não queria ser sem educação, mas não tenho paciência para conversa fiada e ela estava me irritando tentando puxar assunto.
- Não, eu achei seu cadastro antigo no sistema, vai ser rapidinho. Só preciso que você confirme os dados. – Ela esperou alguma coisa carregar. – Edward Anthony Masen Cullen, aqui está você. Está morando com Doutor Carlisle e Esme? Eles são o máximo! Aquela casa é linda, sempre quis saber como ela é por dentro.
- Você está confirmando meu endereço, ou matando uma curiosidade?
- Os dois. – Ela deu uma risadinha.
- Pode deixar o mesmo endereço que está aí.
- O número do telefone mudou?
- Qual está aí?
- É um telefone fixo da cidade.
- Pode deixar esse mesmo.
- Continua solteiro?
Mais do que quando fiz minha inscrição.
- Sim.
- Não quer acrescentar o número do celular?
- Não.
- Nem para receber avisos?
- Não.
- Ne-
- Preciso confirmar mais alguma coisa, ou está tudo certo?
- Vamos só preencher a forma de pagamento.
Pensei em fazer uma piada sobre colocar o pagamento no cartão de Emmett, mas rapidamente me dei conta do assunto que renderia e deixei para lá.
- Tudo certo! – A enérgica atendente falou. Ela fez eu me lembrar da minha irmã, Alice. Provavelmente se conheciam. – Quais serão seus horários?
- Eu preciso escolher? Não posso simplesmente vir a hora que eu quiser?
- Pode, claro, pode sim, imagina. Era só para deixar anotado no seu cadastro um horário de preferência.
- Não tem. Se está tudo certo, tenho que ir.
- Claro, claro, tudo certinho. Tchau!
- Tchau.
Eu merecia passar por isso só para descobrir como Bella estava. Eu estava complicando as coisas por orgulho, merecia enfrentar esse tipo de situação. Uma ligação. Eu poderia ter feito uma mísera ligação para Alice, para minha mãe, para qualquer um deles, e acabar com minha dúvida. Ao invés disso, estava me espalhando pela casa dos meus pais, me matriculando em uma academia, me acomodando, sem nenhuma pista dela. Novamente: patético.
Quando meus irmãos chegaram mais tarde naquele dia, ouvi minha família rir da minha cara enquanto eu contava a simpatia exagerada da atendente. Ela se chamava Giana, amiga de Alice como imaginei, e havia se mudado de volta da Itália fazia pouco tempo.
- Ela é bem normal, Edward. – A ideia de normal da minha irmã não é muito normal. – Você podia aproveitar e se divertir um pouco.
- Não, obrigado.
A insistência deles para que eu saísse com Giana quase me fez dar a volta e voltar para Nova Iorque. Talvez Bella não estivesse escondida aqui, afinal, e eu viajei todo esse caminho à toa. Mas eu precisava, pelo menos, saber que estava tudo bem com ela.
Eu não queria, e não daria, o braço a torcer e perguntaria para alguém. E se ela estivesse comprometida? E se estivesse grávida e por isso não se sentiu bem? Eu não precisava da cara de piedade de ninguém. Escolhi esconder por todos esses anos que ainda a amava, o problema era todo meu para lidar com isso sozinho como estava lidando até hoje.
Toda vez que Bella começava um relacionamento, eu ficava imaginando se seria aquele o cara a tirá-la de mim. Se, finalmente, a perderia para sempre. E toda vez que não dava certo, eu me perguntava se era por minha causa. Se ela ainda sentia alguma coisa por mim e também não conseguia seguir em frente com ninguém.
Eu torcia para Bella ser feliz, encontrar alguém que a tratasse do jeito que ela merecia ser tratada. Entretanto, não havia como negar que uma parte de mim ficava satisfeita em saber que ninguém ficava.
Tive algumas namoradas ao longo de todos os anos, mas com nenhuma consegui ter uma conexão como a que tinha com Bella. Fomos o primeiro um do outro. Namoramos por seis anos, da escola até o terceiro ano de faculdade, quando eu comecei a estragar tudo.
Fui para Nova Iorque com a EAMAC, Bella foi para Los Angeles ser compositora, roteirista ou escritora. Ela era incrível com as palavras! Não foi surpresa quando conseguiu vender algumas músicas e alguns roteiros enquanto ainda estava na universidade. Com os contatos certos, começou a cantar as próprias músicas e a fazer sucesso. Não era nada grandioso, nada de encher um estádio, mas ela fazia dinheiro e tinha fãs espalhados pelo mundo.
Bella nunca teve a intenção de ser cantora, mas ela conseguia passar a emoção das próprias músicas de uma forma tão verdadeira que simplesmente aconteceu.
A explosão veio quando um amigo, que havia dirigido um roteiro dela em uma famosa série musical, a chamou para fazer uma participação nesse mesmo seriado. O sucesso foi tanto que ela logo passou a receber mais convites do que atrizes com anos de carreira.
Um desses convites foi para um musical no cinema. Foi um estouro de bilheteria, e a vida dela nunca mais foi a mesma.
Ela havia acabado de fazer a promoção da parte dois do musical quando o incidente aconteceu. Outros, em proporções muito menores, já haviam acontecido e Bella sempre os contornou. Esse havia mudado alguma coisa para fazê-la desmaiar daquele jeito e se esconder de tudo.
Era impressionante o tanto que eu sabia sobre uma pessoa apenas pesquisando sobre ela na Internet. Eu tinha um aviso para me avisar sempre que o nome ‘Bella Swan’ fosse mencionado on-line, como a merda de um stalker.
E como a merda de um stalker, eu estava preparando meu terreno em oura cidade para ter notícias dela.
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No dia seguinte, meu terceiro dia em Forks, fui para a academia assim que ela abriu, evitando o horário de Giana. Não adiantou muita coisa. Ela não estava, mas parecia ter avisado para todas as mulheres solteiras da cidade sobre mim. Algumas eu reconhecia do tempo que morei aqui, outras eram moradoras novas.
Eu ouvia o nome de Alice vez ou outra nas conversas, aproveitei para aguçar a audição e tentar ouvir também sobre Bella. Não ouvi nada, a cidade parecia não saber da existência dela. Claro que, ninguém era obcecado por ela como eu.
Voltei para casa, tomei café com a minha mãe antes dela sair para projetar a casa de alguém, e dormi até duas horas da tarde. Eu era desinteressante nesse nível. Sem hobbies, aventuras, interesses, ou amigos para conversar. Trabalhar demais me deixou sem tempo para ter uma personalidade.
Fiquei vagando pela casa admirando o quanto de história meus pais tinham acumulado entre aquelas paredes. De lembranças de viagens, a pinturas e costuras que ambos haviam feitos com as próprias mãos. Pergunte em quantos países eu já estive, e me veja perder a conta. Pergunte quantos pontos turísticos eu conheço, e me veja zerar a lista.
Talvez a crise tardia dos trinta anos, no fim das contas, fosse real.
As paredes e móveis também eram cheias de histórias. Algumas fotografias mostravam um Edward sorridente, antes de virar um robô sem alma que só sabia trabalhar. Muitas fotos recentes continham apenas meus pais, irmãos e cunhados, e sobrinhos. Eu estava de mau humor em algum canto na hora da foto, ou simplesmente não estava.
Comecei a ficar entediado com meus próprios pensamentos. Recolhendo as chaves e a carteira, fui dar uma volta na cidade.
Sentei-me em um restaurante, me lembrando de uma imagem que Alice me enviou de uma pessoa sozinha com a legenda ‘liberdade ou solidão?’. Comi olhando pela janela para evitar chamar atenção e ter meu rosto exposto por aí.
Nunca se sabe quando um viciado em Internet está por perto.
Estava decidindo se pedia sobremesa quando uma velha picape azul da Toyota passou na rua e chamou minha atenção. Era o carro de Charlie Swan, pai de Bella. As chances de ser ele, eram bem pequenas, Charlie amava ser o xerife da cidade e andava de viatura para cima e para baixo. Nos dias de folga e nas férias o homem usava barcos como seus meios de transporte.
Vasculhei o restaurante atrás do garçom e implorei para ele trazer a conta o mais rápido possível. Saí como se tivesse esquecido a panela no fogo.
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Desci do carro antes que perdesse a coragem. A casa branca continuava igual: a mesma árvore na frente da janela do quarto, as janelas verdes com a tinta descascada. Até o carro estacionado de qualquer jeito na garagem de terra. Apressei-me até a porta e toquei a campainha três vezes seguidas como costumava fazer anos atrás.
Fechei os olhos e imaginei Bella abrindo a porta e correndo para os meus braços. Eu encaixaria o rosto no pescoço dela e tudo ficaria bem.
O tempo passou enquanto segui sem resposta. O assoalho havia sido trocado, não havia mais rangido quando alguém se aproximava da porta. Ou simplesmente não tinha ninguém.
Banho? Dormindo? Me evitando?
Apertei a campainha de novo, mais forte dessa vez.
Esperei bons trinta minutos antes de apertar de novo. Ninguém me atendeu.
Não insisti, dei meia volta e fui embora, o caminho todo pensando em qual desculpa daria caso alguém tivesse me visto parado na porta da casa de Charlie.
Não cheguei a nenhuma desculpa boa.
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Foi uma merda existir depois que cheguei em casa. Passei a noite em claro, agitado pela casa. A mera ideia de estar próximo a Bella deixou meu corpo formigando. Eu não me sentia tão vivo fazia muito tempo. De uma hora para outra uma chave foi virada e o meu redor parecia ter ganho uma nova roupagem. Ir para a academia pela manhã nunca tinha sido tão satisfatório, mas nem ela ajudou a gastar toda a energia que parecia estar acumulada no meu corpo.
Fui gastar da pior forma possível: trabalhando. O escritório do meu pai ficava na parte da frente da casa, paredes de madeira escuras com enormes janelas de vidro que deixavam entrar o pouco de luz que o tempo nublado de Forks permitia.
Não vi o tempo passar enquanto mergulhava em documentos e contratos. Se meus pais me vissem pulando o almoço dentro da casa deles, eu não teria ouvido o suficiente para o sermão que me passariam.
Decidi levantar na hora que a campainha tocou. Surpreendi-me quando vi a figura de casaco cinza e cachecol amarelo, uma touca preta enfiada na cabeça deixando pouco do cabelo a mostra. Eu nem precisava perguntar quem era, reconheceria aquela forma mesmo que não tivesse um pequeno nariz vermelho de frio fugindo do cachecol. Então Bella realmente estava em Forks.
Abri a porta com o coração querendo sair pela boca. Não sabia o que dizer em saudação, fiquei olhando para ela enquanto entrava. Eu também nem teria tempo de falar, Bella abriu a boca assim que apareci o suficiente na porta e ela teve certeza que poderia ouví-la.
- Por que você foi na minha casa ontem?
Não adiantaria mentir. Não faria sentido dizer que fui ver Charlie, e não ela.
- Para te ver.
- Por que? – Insistiu, sem paciência, abraçando o próprio corpo.
- Eu estava preocupado com você. Estou preocupado.
Bella fechou os olhos e sacudiu a cabeça para os lados.
- O que você quer? – Perguntou, a voz saindo em um gemido angustiado.
O que eu quero? É uma ótima pergunta. O que eu achava que ia acontecer ali? O que eu queria que acontecesse?
- Eu queria saber como você estava. Eu li… — Não quis falar sobre o incidente para o caso disso despertar algum gatilho nela. – E fiquei preocupado.
- Você não pode simplesmente me procurar depois de anos só porque está preocupado comigo.
Não, eu não podia, mas eu fiz. Sem nem pensa em como seria para ela me encontrar novamente. Eu só podia imaginar o ódio que ela sentia por mim agora, e me preparar para a humilhação que ela faria eu passar.
Chamei-a para ir até a sala, precisava estar sentado para aguentar o que quer que ela jogasse em mim. Sentei no enorme sofá branco virado para a poltrona onde achei que ela sentaria para ficar longe de mim, mas Bella deu a volta na mesa de centro e se sentou ao meu lado.
- Eu vi as fotos, li o comunicado da sua equipe, não tinha outra forma de saber como você estava sem ser procurando por você. Eu não acreditaria em nada que saísse na imprensa.
- Você está louco? Eu não estou entendendo o porquê dessa preocupação.
- Bella… — Foi estranho falar o nome dela sem ser um sussurro para mim mesmo. – Eu nunca deixei de amar você.
Eu estava louco. Eu queria morrer. Só isso explica o que falei. Não queria ser nada mais do que sincero com ela, mas jogar a verdade assim não estava nos meus planos. Eu agora olhava para uma Bella de olhos arregalados, a boca abrindo e fechando enquanto, provavelmente, decidida quais xingamentos usar contra mim.
- Como…? Quem…? – Bella fechou os olhos e bufou. – Quem te deu o direito de vir aqui e me falar isso?
- Eu não vou mentir para você, Bella.
Eu estava fodido da cabeça quando decidi vir aqui, precisava ter ensaiado o que falar. Eu não podia simplesmente ter chegado em Forks sem saber o que falaria se a encontrasse.
- Não faz sentido. Você terminou comigo porque não estávamos conseguindo manter o relacionamento a distância durante a faculdade. Seus estudos, sua empresa, tudo vinha primeiro do que eu. Como você aparece aqui hoje dizendo que ainda me ama?
- Eu nunca disse que não amava você. E você sempre veio primeiro. – Bella abriu a boca para protestar, mas eu a parei. – Eu expliquei que por amar você, estava terminando. A sua felicidade era mais importante para mim, Bella. Eu nunca conseguiria viver comigo mesmo se te prendesse em um relacionamento pela metade. Ambos sabemos que você ficaria comigo mesmo eu não te dando atenção enquanto trabalhava, enquanto estudava. Eu não queria que a gente se odiasse. Se nós ficássemos juntos, nunca daríamos certo.
- Como você me amava? Edward, você quebrou o meu coração quando terminou comigo. A gente podia ter feito dar certo, você não quis. Porque sua carreira era sua prioridade.
- Por que entramos nesse assunto? – Eu não gostava quando ela falava assim. Como Bella não entendia que ela seria infeliz vivendo ao meu lado com a vida que eu tenho?
- Porque depois de anos e anos você resolveu me procurar e dizer que me ama. Depois de me magoar imensamente.
- Eu só estou sendo honesto com você. Eu precisava saber se você estava bem, Bella. O que você quer que eu fale? Eu não conseguia me concentrar para fazer nada. Eu fechava os olhos e via cada foto. Dia e noite. Pensar em você machucada estava me matando.
- Você poderia ter ligado para Alice e perguntado. – Por um segundo eu vi a minha Bella rolando os olhos enquanto falava uma frase tão óbvia.
- E ter que responder um questionário enorme antes? E ouvir sermão?
- O problema é seu. Você poderia ter mentido. Omitido a verdade. A última coisa que eu precisava era você chegando aqui com isso.
- A minha intenção não era te contar nada. Era só saber como você estava. Mas eu te vi passar de carro na rua e, se eu já não estava raciocinando direito, aí que meu cérebro entrou em choque e parou de funcionar. E ver você aqui agora, tão perto…
Eu podia sentir o cheiro de morango mesmo que ela não tivesse retirado uma peça sequer de roupa desde que entrou. Eu poderia fechar os olhos, respirar fundo e fingir que nada aconteceu. Poderia fingir que estávamos apenas os dois conversando em uma tarde qualquer.
A voz fraca de Bella me tirou do meu devaneio.
- Podia ter feito pelo telefone. Com Alice.
- E porquê eu ter vindo aqui te incomoda tanto? Você seguiu com a sua vida, Bella. Você não quis mais olhar para a minha cara depois do término. Você cortou qualquer tipo de relação entre a gente.
- Você queria o que? Que eu continuasse sendo sua amiga enquanto te amava? Que ouvisse você contar dos seus relacionamentos que não eram comigo?
- Eu não sei. Mas eu sinto sua falta até hoje. Eu virei a porra de um stalker seu.
- Não. Eu não quero ouvir. Você procurou por isso. Nós poderíamos ter continuado juntos.
- Bella, eu te deixei livre para ser feliz. Eu sabia que nem sempre te daria a atenção necessária, não tinha cabimento só porque eu te amava te deixar presa a mim quando-
- Eu não era sua prioridade.
- Para de falar isso.
- Eu não tive escolha, Edward! Você terminou o nosso relacionamento para me poupar e nem sequer me consultou! Não procurou saber se eu estaria melhor com você ou sem!
- Por que nós estamos discutindo isso de novo? Nós não temos mais nada. – Sacudi a cabeça derrotado. – Você está ótima. – Apontei para ela. – Acho que podemos encerrar o assunto.
Achei que Bella fosse levantar e ir embora, mas ela abaixou a cabeça e ficou olhando para o próprio colo.
- Bella?
- Eu não posso lidar com isso agora, Edward. – Ela começou a chorar. – Eu estou exausta. Eu tive uma crise de estresse. Não há possibilidade de lidar com isso agora.
- Não precisamos lidar com nada. Cada um pode voltar a seguir o seu caminho como se essa conversa não tivesse acontecido.
- Como eu vou seguir como se nada tivesse mudado? – Ela limpou o nariz na manga do casaco.
- Como você fez muito bem até agora.
- Muito bem? – Ela riu sem humor. – Edward, eu precisei fazer terapia porque nenhum homem era bom o suficiente. Eu comparava todos com você. Eu deixei de confiar nas pessoas porque você traiu a minha confiança. Eu perdi meu melhor amigo. Eu senti a sua falta todo maldito dia desde que nós terminamos. A minha terapeuta simplesmente teve que aceitar que eu nunca te esqueceria e trabalhar em volta disso. – Arregalei meus olhos com a confissão. – Não, Edward, eu não estou bem.
Nós ficamos em silêncio. Eu não sabia o que falar depois disso. Então ela ainda me amava também. Com certeza também me odiava. Eu queria perguntar mais, falar mais, mas não conseguia organizar meus pensamentos. E ver Bella triste na minha frente, por minha causa novamente, não era o que eu tinha planejado para essa viagem.
- Eu também sinto sua falta, Bella.
- Valeu a pena?
- Não. – Eu daria todo o dinheiro que tenho para voltar no tempo. Eu não escolheria a EAMAC novamente. – Eu não sabia que você sofreu tanto. Eu fiquei mal por te ver seguir adiante tão bem, e só segui a minha vida tentando não cruzar com a sua e não te atrapalhar.
- Era mentira.
- Agora eu sei. Foi um sentimento agridoce te ver feliz. Eu fiquei feliz também, por ter te livrado de uma vida presa a mim. E triste por você ter seguido em frente tão facilmente, enquanto eu carregava um peso comigo. Por vezes eu pensei em entrar em contato, mas a sua falsa felicidade me convenceu e eu não tive coragem. Preferi te ver feliz de longe.
- Eu colei as suas capas da Forbes e da Time no meu closet, para quando eu ficasse com vontade de te ligar, lembrar quem vinha em primeiro lugar na sua vida. Eu prometi a mim mesma que nunca me humilharia, nunca competiria com a EAMAC. – Não me escapou que ela falou o nome da empresa com nojo.
- Bella… eu amo a minha empresa, o meu trabalho, mas eu te amo mais.
- Você tem um péssimo jeito de demonstrar isso.
- Eu não vim aqui para te reconquistar. Eu nem sonhava que isso era possível.
- Eu acho que você não entendeu o que eu falei. Eu te amo, sinto a sua falta, mas não quero ficar com você. – Um chute no saco doeria menos. – Não vou dividir atenção com um computador.
- Você está dizendo que concorda comigo que sua vida seria um inferno se ficássemos juntos?
- VOCÊ NÃO ME DEU OPÇÃO! Edward, me ouve, por favor! Você decidiu por nós dois. Eu já te disse várias vezes: eu nunca fui sua prioridade. Eu sei disso. Sempre soube. Você não sabe. Você só se livrou de mim. Você não queria ter que me dar atenção enquanto ia para reuniões com investidores, você não queria dividir seus problemas comigo e se fechava em uma bolha de estresse quando alguma coisa dava errado. Nem como um troféu eu estava ali, porque você não me levava para lugar nenhum com medo de algum velho dar em cima de mim. Eu não fazia parte do seu mundo, e você me descartou. – Deu de ombros.
- Não fala assim. Não foi fácil terminar com você. Toda vez que eu fazia você ir até meu dormitório e você dormia enquanto eu estudava, sentia culpa. Você poderia estar fazendo qualquer coisa, mas sempre escolhia estar comigo. Por isso te deixei ir. Achei que fosse conseguir me estabilizar e procurar por você. Não imaginei me afogar nesse mundo. Olha aonde estamos tantos anos depois.
- Nós vamos ficar andando em círculos aqui. Acho melhor eu ir embora.
- Por que você veio aqui, afinal, Bella? O que queria que eu dissesse?
- Eu não sei. Eu achei que, talvez, se ouvisse você dizer que estava feliz, que ia casar, ou algo assim, eu tomasse vergonha para te esquecer. Eu queria que você dissesse isso. Queria um encerramento para seguir em frente. O tanto de vezes que eu pedi para esquecer você, Edward. Ao mesmo tempo, eu queria que você só me abraçasse e dissesse que tudo ia ficar bem.
Ela voltou a chorar assim que disse isso. Puxei-a para mim e a abracei meio torto do jeito que estávamos no sofá. Ela nem tentou lutar contra, só se aconchegou.
- Eu precisei tanto de você. – Sua voz saiu abafada no meu peito. – Do meu melhor amigo.
- Bella, você está me matando aqui.
- O que você está sentindo não é nada perto do que eu senti.
- Não, provavelmente não. Mas não foi fácil para mim também. Não está sendo fácil para mim saber que você passou por tudo isso. Eu só queria que fosse feliz, Bella. De verdade. Do fundo do meu coração, eu achei que fosse a coisa certa a ser feita. Eu errei com você. Você merece toda a felicidade do mundo, saber que você não a tem e que a culpa é minha está me deixando mal.
- Você tem amigos em Nova Iorque, uma vida rica cheia de mordomias, não se preocupa comigo, vou ficar. Hoje está sendo o encerramento que eu esperava.
- Não fala assim. E você está enganada, eu não vivo bem. Você ainda não entendeu que eu só trabalho. Não confio em ninguém para gerir minha empresa por mim, eu acumulo trabalho. Vou da empresa para casa, faço exercício físico porque sou obrigado pela minha saúde, e volto a trabalhar. Eu não tenho amigos, tenho parceiros de negócios. Quando tive minha crise renal não tinha uma pessoa para ficar no hospital comigo enquanto urrava de dor, para cuidar de mim quando voltei para casa me arrastando sozinho. Eu liguei para o meu motorista, que só me carregou porque estava sendo pago. Meu pai precisou ir até Nova Iorque me obrigar a fazer exames e me ajudar a comer e tomar banho. Ninguém ligou para saber como eu estava. Recebi cestas no escritório que foram enviadas por secretarias que mal sabiam o que havia acontecido comigo.
“Por anos era a vida que eu queria: ser reconhecido pelo meu trabalho, chegar ao topo por meu próprio mérito. E eu consegui. Mas o custo foi muito grande. Meu orgulho não me permitiu abaixar a cabeça e voltar para casa. Não me permitiu desistir. Recebi diversas propostas pela empresa, meus problemas poderiam ter sido resolvidos cedo. Mas eu pensava em todos “você chegou até aonde chegou, fez tudo o que fez para desistir?”. E meus funcionários? Nenhum acordo era bom o suficiente para eles. Pessoas demais já pagaram pelos meus erros, eles não têm nada a ver com isso, não pagariam também. Eles merecem mais. E fui ficando.
Eu amo o meu trabalho, a minha empresa, mas cada vez que preciso puxar o saco de alguém e socializar eu penso em desistir. Cada proposta indecente que recebo eu desanimo da vida. Diversas decisões que tomei não tive ninguém me guiando. Muitas das vezes eu só queria alguém comigo, você, para me apoiar ou consolar nas decisões ruins. Eu me sinto inseguro, eu sou inseguro. Essa máscara de poderoso é o meu ego controlando minhas vontades. Eu não consigo abandonar minha empresa, o que eu criei.
Se você perguntar novamente se valeu a pena, eu te digo que não. Não valeu. Eu preferiria mil vezes não ter todo o sucesso que eu tenho, mas ter você do meu lado.
Eu preferiria estar na plateia te ovacionando quando subiu ao palco para ganhar todos aqueles Grammys por suas composições. E não na frente da televisão com uma garrafa de cerveja comemorando com as paredes. Eu queria ter comemorado cada vitória na sua vida com você.
Eu me arrependo, Bella. Me arrependo de ter te deixado ir. Mas quando vejo tudo o que você conquistou, eu só posso achar que fiz o certo.
Eu peço perdão por não ter te dado escolha, apesar de achar que ficarmos juntos desgastaria nossa relação e hoje nossa situação seria muito pior. Você odeia me amar, mas você não me odeia. E eu posso conviver com isso. Nunca quis que a nossa relação se baseasse em ódio e briga. Não queria que você me odiasse, com isso eu não saberia conviver. Foi exatamente por isso que terminei, não queria ódio entre nós. Eu sinto muito por saber que você está magoada comigo. Que te fiz sofrer.”
Bella me abraçou apertado uma vez, se levantou e andou até a porta. Eu só consegui ficar parado no sofá olhando enquanto ela caminhava.
- Eu preciso ir embora, — Ela se levantou decidida dessa vez. – ou nós vamos ficar dando voltas e voltas no mesmo assunto.
Bella caminhou para a porta enquanto eu a olhava atônito. O que tinha acabado de acontecer aqui?
- Edward, você pode abrir para mim? – Bella pediu, parada na porta, o nariz agora vermelho de choro. Fui até ela, inspirando o perfume de morango enquanto imagens nossas juntos enchiam a minha cabeça.
Quando estava do outro lado, virou-se para de despedir. Eu não estava pronto ainda para dizer adeus para Bella novamente. Nunca estaria.
- Eu estarei na cidade por um tempo ainda. Será que nó-
- Não, Edward. Não vamos nos encontrar. Nós podíamos ter escondido os segredos um do outro. Eu odiando minha carreira, você odiando esse mundo corporativo do qual ainda faz parte porque seu ego e seu orgulho são muito grande. – Sacudiu a cabeça, nem um pouco preocupada em ferir meus sentimentos. Bom, até onde todos sabem, eu não os tenho. – O que a gente confessou aqui hoje não é o bastante. Não é só de amor que sobrevive um relacionamento. Nada mudou. Adeus.
Quando meus pais chegaram em casa, eu ainda estava apático no sofá. Jantei no automático, não me concentrei em nada que passava na televisão, nem tive forças para saber se Carmen havia enviado alguma coisa.
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Eu tinha quatro sobrinhos que praticamente não conhecia. Alice e Jasper tinham um bebê de três anos e uma menina de cinco. Emmett e Rosalie tinham uma menina de nove, Charlotte, e uma adolescente de quinze, Bree. Eles começaram a procriar cedo.
Charlotte faz parte do grupo de xadrez da escola. Como orgulhosamente gosta de dizer, ela é enxadrista. Depois do meu estado catatônico de ontem, ela misteriosamente apareceu na casa dos meus pais. Voltou da escola para treinar para um campeonato e me fazer companhia. A justificativa dada foi que a irmã mais velha fazia muito barulho em casa e pedia muita coisa, importunando a concentração da mais nova no jogo. Eu não sabia se a história era real, ou se minha família notou que havia algo de estranho comigo e enviou a menina com medo de me deixar sozinho. Qualquer que fosse o motivo, agradeci a companhia. Eu realmente estava na merda e poderia fazer bom proveito de uma distração. Principalmente de uma criança, que eu tinha zero experiência e estava dando um nó no meu cérebro.
Eu sabia que Charlotte participava de campeonatos, mas a menina era excelente de um jeito que eu nunca vi. Geralmente os jogadores focam no jogo, e nada mais, Lottie é diferente. Nem mesmo enquanto conversávamos durante a partida a mente dela se afastava do tabuleiro. Ela estava achando, palavras dela, ‘o máximo’ me fazer perguntas constrangedoras. Talvez essa fosse a estratégia dela. “Por que você não tem namorada? Ou prefere namorado?”, “Você fuma?”, “Você fica bêbado e joga os copos de uísque na parede quando fica frustrado?”, “Você faz seus funcionários chorarem no banheiro?”, “Se você é o chefe, porque não deixa os outros trabalhando para você e sai?”, “Se você tem tanto dinheiro, porque não para de trabalhar? Os adultos dizem que se tivessem muito dinheiro igual a você, não trabalhariam nunca mais. Acho que nem eu trabalharia.”
Com quem essa criança estava conversando?
- Qual a idade das outras pessoas do seu clube de xadrez, Lottie?
- Não sei. – Deu de ombros e mexeu uma peça. – Por que?
- São da mesma idade que você, ou tem muitos adultos?
- Entendi. Você não está perguntando literalmente os números. Todos da minha idade, somente nossos instrutores são mais velhos. Por que?
- Suas perguntas ficam mais complicadas a cada hora.
- Eles não conversam com a gente, são muito adultos para isso. E as pessoas não conversam muito comigo, dizem que sou chata. E eu leio bastante. – Charlotte falou despretensiosamente, dando de ombros novamente. E, então, pareceu ter se arrependido do que falou, se apressando nas apalavras seguintes sem nem deixar eu perguntar quem a chamava de chata. – Mas não conta para a minha mãe, tio Edward! – Arregalou os olhos, assustada. Foi a primeira vez que a vi perder a concentração.
- Rosalie não deixa você ler? – Perguntei confuso. Eu sabia que meu e minha cunhada não eram cem por cento da cabeça, mas não era possível que esse fosse o caso aqui.
- Não tudo o que eu leio. – As bochechas dela ficaram vermelhas.
Explicado. Quer dizer, não muito.
- Charlotte? O que você anda lendo?
- Tio Edward, por favor! Não é nada demais! Ela diz que eu não deveria ler livros sérios demais para a minha idade. Tem amigas minhas que leem livros com sexo. Eca. Os meus não têm! Eu juro! – Olhei incisivamente para ela. – Quer dizer, quando têm eu pulo tudo! Mas não é muita coisa, eu juro!
- Está tudo bem, Charlotte. Eu não vou contar nada para os seus pais.
Só Deus sabe a que eu tinha acesso aos nove anos de idade. Eu não contaria nada para ninguém. Foi a primeira vez que Charlotte saiu do personagem ‘inteligente demais’ e se mostrou uma criança da idade dela. Eu não ia estragar o momento. Eu podia começar a gostar dessa coisa de ser o ‘tio legal’.
Que piada. Eu provavelmente estragaria a criança e ela me acharia ‘chato’.
- A Bree lê coisa muito pior e ninguém fala nada. – Ela debochou. – Ninguém nem imagina.
Se meninos de nove anos sabiam demais, os de quinze faziam. Era uma realidade completamente diferente que eu não queria pensar agora. Principalmente se tratando da minha sobrinha.
- Tudo bem, Lottie. Vamos mudar de assunto. Eu não vou contar nada para ninguém.
Achei que isso fosse levar a concentração dela de volta ao jogo e a calasse por algum tempo.
Não.
Realmente serviu para as peças voltarem a se mexer, mas as perguntas não pararam. E mesmo tendo perguntado anteriormente sobre namoradas, ela voltou para esse assunto. De uma forma bem mais específica.
- Você e a tia Bella vão ficar juntos de novo?
A minha vontade foi de derrubar o Rei no tabuleiro, pegar Charlotte pelo braço e devolver para os pais.
- Seria legal se vocês namorassem de novo. – Minha sobrinha voltou a falar indiferente ao meu nervosismo do outro lado da mesa. – Agora que você está aqui, a tia Bella não vai mais aparecer, e eu gosto dela. Se vocês ficarem juntos, ela não vai precisar se esconder.
- O quanto você sabe sobre essa história, mocinha?
- Tudo. – Enquanto eu absorvia a resposta, ela mexeu uma peça e me olhou. Mexi qualquer uma e recebi um bufo aborrecido como reação. Enquanto pensava no próximo movimento, Lottie voltou a falar. – Um dia tia Bella foi na minha casa muito triste. Ninguém quis me contar o motivo, ela disse que me contava depois, e eu sabia que não ia contar. Então eu coloquei fone de ouvido e fingi que estava lendo um livro. – Eu jamais poderia quebrar a confiança dessa criança, ela é uma mina de informações!
- Você sabe porque Bella desmaiou no shopping?
- Ela tinha que responder logo se queria participar de outro filme. Eles, não sei quem são, ficaram pressionando, queriam logo a resposta. Estava muito calor, ela estava sem comer e dormir direito, ensaiando para um filme, dando muitas entrevistas para o filme novo, o corpo não aguentou. Foi estresse.
- Mas porque ela veio para cá?
- Porque ninguém para de falar do filme dela. Tia Bella contou que nunca quis ser atriz, ela não gosta de ficar se vendo em todo lugar. Eu concordo, é estranho. Ela disse que tudo ficou grande demais e a sufocava. – Charlotte parou para pensar por alguns segundos. – Ou alguma coisa assim. É confuso. Isso foi outro dia, não no dia do fone de ouvido. Estavam todos falando demais e eu estava tentando jogar. – Irritou-se com a memória.
- Já deu para ter uma ideia, obrigada.
Bella sempre foi tímida, muito educada, odiava dar trabalho para qualquer pessoa. Ver-se rodeada de desconhecidos parando-a na rua, pedindo fotos, fazendo perguntas invasivas deve ser um pesadelo. Imaginei se ela aceitava todos esses filmes apenas porque não sabia dizer ‘não’ para as pessoas. Ela mesma disse ontem que odiava o que fazia, mas eu não levei muito a sério na hora. Deveria ter perguntado mais. Será que ela ficou chateada por eu não ter me interessado?
Jogamos em silêncio até Charlotte me vencer. Nenhum dos dois levantou da mesa, automaticamente devolvemos as peças para o tabuleiro e começamos outra partida. Eu não sei como Bree atrapalhava o jogo da irmã com suas conversas, depois que quebrou o estranhamento de ficar sozinha comigo pela primeira vez, Charlotte quase não ficou calada.
- Eu não queria vir para cá hoje. Achei que você fosse um resmungão, mal humorado, você nunca deu atenção para a gente, sempre reclama das piadas do meu pai. Mas a tia Bella falou que você era o melhor jogador de xadrez que ela conhecia, depois de mim, é claro, e eu deveria vir e te desafiar.
Eu ignorei completamente a péssima imagem que minha sobrinha tinha de mim.
- Quando você falou com Bella?
- Ela foi lá em casa ontem depois de vir aqui.
Charlotte nasceu sem filtro igual a Emmett. Se todos sabem que essa menina não tem trava na língua, por que a deixaram sozinha comigo?
- Ela falou sobre mim?
- Eu não posso falar. – Agora resolve se calar.
- Por que?
- Prometi para tia Bella. Mas eu também falei para ela que vocês têm que ficar juntos. É mais fácil.
- Na verdade, Lottie, é bem complicado.
- Não, não é. Mas eu não vou explicar de novo, tio Edward. Se você quiser, pode perguntar para a minha mãe e para a tia Alice, elas sabem.
- Claro. Vou perguntar sim. Vou perguntar até para Bella.
- Você poderia. – Charlotte me desafiou.
- Ela não quer falar comigo.
- Claro que não. – Bufou, exatamente como a mãe fazia quando estava sem paciência. – Você vai voltar para Nova Iorque.
- Sim, eu preciso trabalhar.
- Na sua empresa. – Rolou os olhos. – Eu sei. Todo mundo sabe. É só o que você faz. Por que seria diferente agora?
Eu me inclinei para frente e olhei bem sério nos olhos castanhos de Charlotte.
- Alice? É você aí dentro?
Charlotte deu uma risadinha.
- É a verdade, tio Edward.
- Eu sei que é. – Suspirei derrotado.
Depois que Charlotte foi embora, eu fiquei pensativo. Por que vim aqui? O que eu achei que fosse encontrar? No fundo eu sempre soube que Bella estava bem, minha mãe não teria conseguido disfarçar a preocupação da voz na conversa que tive com ela antes de vir. Então, o que foi diferente dessa vez? O que me fez vir? E o que me fazia ficar? Bella. Essa era fácil. A simples menção do nome dela por Charlotte arrepiava todos os pelos do meu corpo. O que eu sentia por ela não diminuiu nem um pouco depois de todos esses anos.
É claro que eu estava gostando de passar esses dias com a minha família. Conhecê-los novamente. Mas a chance de, talvez, ver Bella pela rua, de saber que ela estava logo ali, me deixava vivo.
Eu queria Bella de volta? É claro que queria! Eu nunca deixei de amá-la depois de todos esses anos. Então, por que eu não me mexia para isso acontecer? Por que tudo era mais importante do que ela? O que eu tinha na cabeça?
Eu não era feliz em Nova Iorque, perderia tanta coisa assim deixando tudo para trás por ela?
Só tinha uma forma de descobrir.
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Eu não contei para ninguém o que ia fazer. Nem para Charlotte, ela não ia conseguir guardar o segredo e a última coisa que eu precisava era de gente torcendo contra. Voltei para Nova Iorque no mesmo dia e fui direto para o escritório. Carmen tinha arrumado tudo o que eu pedi e estava com a sala de reuniões cheia.
Não foi difícil delegar dessa vez. Eu tinha um motivo, tinha vontade, e confiava que todos fariam um bom trabalho. Tinha que confiar. Não era como se eu estivesse abandonando a EAMAC, apenas me afastando para ser uma pessoa normal. Talvez um dia até eu me afastasse de vez. Estava farto de ser um robô.
Quanto mais tempo eu passava distribuindo minha empresa, mais aliviado eu ficava. Era para ser ao contrário, mas via as pessoas conseguindo ser eficientes dentro do horário de trabalho, sem se matar com horas extras, e tinha a certeza de que estava fazendo a coisa certa. Eles davam mais ideias, participavam mais. Eu não percebia que o clima na empresa era estranho até chegar um dia e ver um grupo comemorando com sorrisos e apertos de mãos uma meta batida por eles.
Eles não batiam as metas sempre? Por que estavam daquele jeito? Descobri que era a primeira vez que eu não mexera no projeto. O trabalho tinha sido inteiramente deles e estavam felizes, e aliviados, por tudo ter dado certo.
Não era a empresa que tinha um clima ruim, era eu. Eu levava uma nuvem preta e espalhava a escuridão por onde passava.
Mas eu não era tão ruim assim, era? Mas eu estava melhorando. Estava ficando mais fácil.
Enviei uma mensagem para Charlotte:
Edward: “Você tinha razão, era bem fácil. Eu só precisava querer.”
Charlotte: “Várias cosias são fáceis. Sobre qual você está falando?”
Edward: “Bella.”
Charlotte: “Tio Edward, você ainda tem um caminho longo pela frente. A distância entre Forks e Manhattan, para ser mais exata.”
Edward: “Eu ainda preciso acertar algumas coisas. Não a deixe fugir, por favor.”
Charlotte: “Tio, eu acho que você esquece que eu SÓ tenho 9 anos. O que quer que eu faça? Não posso nem andar sozinha na rua. E é FORKS! Não é como se eu morasse nessa selva que você mora.”
Edward: “Você pode ser fofa e usar sua fofura? Por favor?”
“Selva que você queria visitar.”
Charlotte: “Vou ver o que posso fazer por você. E é CLARO que eu queria visitar! É NOVA IORQUE!”
“E não conte nada para ninguém, Lottie! E um dia eu trago você aqui e nós conheceremos o estado todo juntos.”
Charlotte: “NOVE ANOS!”
“E eu NEM SEI o que falaria, de qualquer forma.”
“E oba!”
Edward: “Apenas seja fofa, deixa que eu faço o resto.”
Charlotte: “Tenta ser fofo também. Pode ser que também funcione para você.”
Edward: “Pede outra coisa mais fácil, Lottie.”
Charlotte: “Não é possível que eu seja a única inteligente dessa família.”
Edward: “Vou contar para seus avós o que você acha da inteligência deles.”
Charlotte: “Não é justo, tio! Faz alguma coisa que você sabe que ela acha fofo. Vocês já namoraram uma vez, tenta lembrar de algo.”
Edward: “Tudo bem. Certo. Acho que eu consigo. Obrigado, Lottie! E tente manter a matraca fechada.”
Charlotte: “Pede algo mais fácil. <3”
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Eu estava aceitando conselhos de uma criança de nove anos. Uma criança mais inteligente do que muito adulto, mas, ainda assim, uma criança.
Escrevi um bilhete simples, igual aos que eu escrevia nas aulas e passava para Bella quando começamos a namorar. Eu amava prestar atenção na reação dela quando os recebia. Bella era mais nerd do que eu e odiava ser distraída das aulas. Mas era só um bilhete meu chegar na mesa dela que, como ela mesma dizia, se derretia toda.
Com o bilhete em mãos, faltava uma coisa: entregar para Bella. Havia outra forma de chamar a atenção dela quando estávamos juntos. Ou melhor, quando não estávamos juntos. Essa não era muito recomendado, sendo Bella moradora da casa de um policial, mas era a que eu tinha a minha disposição.
De volta a Forks, parei de baixo da janela, relendo a frase que eu escrevera novamente depois de tantos anos.
“Encontra comigo no nosso lugar?”
Amarrei em uma pedra e joguei pela janela do quarto de Bella. Ela ainda deixava a janela aberta no frio intenso.
O nervosismo dela não ler, ou de Charlie pegar a pedra primeiro foi mil vezes pior do que eu me lembrava.
Eu estava de volta em Forks, com a minha vida resolvida em Nova Iorque dependendo de um bilhete em uma pedra. Meu futuro agora estava aguardando um encontro com Bella na nossa clareira.
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POV BELLA
Cheguei vinte minutos atrasada para o nosso “encontro” na campina. Não por não querer ir ou por ter ficado perdida pelo caminho, mas por ter ficado escondida observando Edward andar de um lado para o outro no meio das lavandas. Ele estava de calça jeans e uma camisa de flanela amarela. Era uma roupa que eu nunca o imaginaria usando. O Edward que usava roupas formais desse jeito, sem um pingo de gel no cabelo, tinha há muito ficado para trás. Eu não o teria reconhecido se os trejeitos não fossem os mesmo que eu conhecia desde sempre. Algumas coisas não mudam mesmo que você queira.
Foram anos tentando seguir minha vida sem pensar nele. Eu tentei de tudo, sabia que era doentio esperar por alguém por tanto tempo como o esperei. Mas ninguém me entendia como ele, ninguém me fazia rir como ele, ninguém nunca foi ele.
Não sabia que esse dia enfim chegaria. Se me dissessem que Edward largaria a EAMAC por mim, eu teria um ataque de riso. Seguido por uma crise de choro por lembrar de tudo o que ele desistiu para se mudar para o outro lado do país para construir seu império.
É óbvio que eu chorei, gritei, e o odiei. E me odiei, também, no processo. Mas o amor sempre falou mais alto, nossa ligação não aceitava ser partida mesmo que os dois tivessem tentado.
A família de Edward evitava falar sobre nós, mas eu tinha certeza que eles se sentiam tristes por eu ainda esperar por uma pessoa que nunca deu indícios de que ainda me queria. Esme ainda tinha alguma esperança, mas nem ela conseguia ser otimista como uma parte de mim ainda era.
Levei meu tempo para sair da sombra das árvores e caminhar pela campina. Foram tantos momentos felizes ali, eu sentia a enxurrada de memórias como um cobertor me abraçando e acalentando. Era quase como se nem um segundo tivesse se passado desde a última vez que nos vimos.
Nunca vi Edward tão desconfortável como naquele momento. O cabelo, antes impecável, era judiado pela mão, apontando para todos os lados. Bem melhor assim do que a aparência de robô imaculado. Ele continuava lindo como sempre, o tempo havia feito seu trabalho de forma esplendorosa. As olheiras que ostentou por anos debaixo dos olhos não existiam mais, prova de que Edward realmente não estava mais deixando o trabalho sugar sua vida.
Quando eu estava perto o suficiente para ouvir o forte suspiro que deu, ele começou a falar.
- Eu me demiti da minha própria empresa. – Meus olhos se arregalaram mais pelo show do que pela informação em si.
Charlotte, filha de quem é, havia me contado que Edward estava se esforçando para conseguir uma nova chance comigo. Achei que ele fosse apenas dar um tempo da empresa, mas ela me garantiu que dessa vez era para valer. Não levei muito a sério, apesar de ser uma menina esperta, Char tinha somente nove anos e não entendia muitas nuances da vida adulta. Eu sabia que enviar a pequena, a mais parecida com Edward dos Cullens, até a casa deles daria certo. Os dois criaram um laço que se manteve mesmo depois dele ter voltado para casa.
– Nunca me senti mais perdido. – Edward olhou em volta, como se não conhecesse aquele lugar como a palma da própria mão. – E mais vivo.
- Vai fazer o que agora?
- Ajudar Charlotte a treinar para o Nacional. Servir de guia de viagem para ela. Ficar de babá da Maria para Jasper e Alice. – Deu de ombros. – Quem sabe?
- Sem chance de voltar para Nova Iorque? – Eu não queria criar esperança.
- Sem chance. – Respondeu com um sorriso torto. – Quem diria que eu voltaria a morar com meus pais aos trinta anos?
Tudo o que eu sempre quis estava acontecendo bem ali, na minha frente, e eu não conseguia acreditar. Eu ainda precisava de uma prova, ainda precisava de alguma coisa.
- Por que me chamou aqui, Edward? Eu quero ouvir de você com todas as letras.
- Eu quero você de volta, Bella. Quero que a gente dê certo mais do que quis ou quero qualquer outra coisa nesse mundo. Quero minha melhor amiga de volta, quero rir de novo, quero viver. Estou cansado de ser esse robô que vocês veem. Ao contrário deles que nada sentem, eu sinto. Sinto sua falta, sinto falta de pessoas que se importam comigo. Eu quero proteger você, Bella, e não deixar que aconteça de novo o que te fez vir para cá.
Estresse. Deixei que ele achasse que era algo mais sério, ele merecia sofrer um pouquinho. Um dia contaria a verdade.
- Uau, muita responsabilidade.
- Desculpa, eu não queria traz- — Soltei um riso pelo nariz e sacudi a cabeça. Eu queria mesmo fazê-lo se justificar o dia inteiro, ou queria aproveitar o tempo perdido? Eu já estava decidida que o aceitaria de volta, não precisava de mais. Eu não queria competir com uma empresa, e agora ela não existia mais. Quer dizer, existia, mas não me atrapalharia mais. – O que?
Espalmei a mão direita no peito dele e estiquei a outra até sua nuca, puxando a cabeça dele para baixo, para mim.
Por um segundo, foi como nos filmes: o casal se beijando, a câmera girando, os pássaros cantando, o mundo suspenso e somente aquele momento no centro de tudo.
Eu o estava beijando.
E ele estava em choque.
- O que? – Foi a minha vez de perguntar?
- Eu não mereço você, Bella.
- Já mereceu menos. E, mesmo assim, olha onde estamos hoje. Eu nunca deixei de te amar, não vale a pena ficar ressentida, quando eu posso apenas ser feliz.
Ele me beijou na testa e me abraçou tão apertado que achei que fosse explodir. Beijou meu rosto todo enquanto dizia que me amava. Eu sentia em cada toque, em cada palavra, o quanto ele estava sendo sincero.
- Eu vou compensar todo o sofrimento que causei a você, Bella. Você não vai criar mais uma música triste sequer.
- Eu ganhei alguns prêmios com elas. – Fiz bico.
- Se quiser música triste agora, vai ter que inventar uma história da sua cabecinha. Nada de experiências pessoais. – Ele fez uma careta que criou uma ruga entre os olhos, passei o dedo para tirar.
- Não nas músicas tristes. – Fiquei na ponta do pé e o beijei.
- Não nas músicas tristes. – Edward repetiu, e me beijou novamente.
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POV EDWARD
Dois anos haviam se passado desde que ganhei outra chance com Bella. Eu não estava desperdiçando um minuto sequer.
Meu relacionamento com a EAMAC era tão saudável quanto o meu relacionamento com Bella. Aprendi a confiar na minha equipe e a ser o dono. Basicamente, eu trabalhava quando queria, de onde queria. No início, Bella ficou um pouco decepcionada, ela achava que eu ia largar a empresa de vez. Eventualmente, expliquei o erro que cometi ao dizer que havia me demitido da minha própria empresa, e ela entendeu, e acreditou em mim, de que tudo daria certo.
Bella colocou o pé no freio e encerrou a carreira de atriz, o que fez sua saúde mental e física melhorarem consideravelmente. Ela estava se afastando dos palcos também, e se mantendo apenas nos bastidores criando músicas, roteiros, livros… Onde sua escrita a levasse.
Levamos nosso relacionamento para a terapia, e aprendemos bastante um sobre o outro. Hoje eu podia dizer que estávamos felizes e saudáveis. Era essa a vida que nós deveríamos ter tido desde o início.
Resolvemos comemorar com uma viagem até Paris. Bella queria o clichê de caminhar de mãos dadas na Cidade Luz, tomar vinho às margens do Rio Sena, comer um croissant com a torre Eiffel de testemunha. Cada passo era uma parada diferente para tirar foto, admirar um prédio que ela achava bonitinho, bisbilhotar um casal que fazia o mesmo passeio que nós fazíamos…
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!- Está arrependido por ter vindo de sapato social, pode falar.
Bella deu uma risadinha, chutando a ponta do meu pé na calçada. Estávamos debaixo de um toldo, aguardando uma chuva torrencial dar uma estiada para voltarmos ao nosso apartamento.
- Eles não nos deixariam entrar no restaurante se não estivéssemos vestidos de acordo. – Sapatos sociais e longas caminhadas não combinam, mas eu queria que Bella tivesse toda a experiência dela, então, que meus pés doessem pelo resto da viagem.
- É claro que teriam, Edward, somos nós! Podemos estar aposentados, mas olha quanta gente ainda nos acompanha por onde passamos.
Puxei-a para mim e dei um beijo sobre sua cabeça.
- O que não pode é essa chuva eterna atrapalhar a gente de voltar para o apartamento. – Resmunguei. Eu queria tirar esses sapatos para parar de escorregar igual a um tapado.
- Ela diminuiu um pouquinho, vamos? Ou está com medo de molhar seus sapatos?
O celular de Bella vibrou com uma ligação antes que eu respondesse que estava com medo de escorregar e pagar mico na rua. Ela soltou alguns xingamentos nada bonitos para serem ditos em público. Sorte que éramos as duas únicas pessoas debaixo do pequeno toldo. Olhei-a com os olhos arregalados fingindo espanto. Bella desligou o telefone e riu.
- Kate avisou que ganhei um Grammy por melhor canção com ‘Meet Me At Our Spot’. – Deu uns pulinhos na calçada. – Vou receber o prêmio mês que vem, fingindo que não sei de nada.
- Ei, parabéns! – Abracei-a, antes que ela escorregasse e se machucasse.
- Obrigada! Eu amei ter escrito essa música para a Zafrina e o Laurent, eles são tão legais, quase me deu vontade de voltar a trabalhar com as minhas músicas.
- Voce não deve jamais parar de escrever, mesmo que somente para outras pessoas, Bella. Você é incrível! Eu ainda fico impressionado em como você conseguiu escrever uma música que é sobre a gente, mas que não é sobre a gente.
- É fácil. – Fingiu modéstia, corando sob a luz do toldo do restaurante.
E por falar em restaurante.
- Bella, acho melhor enfrentarmos essa chuva do jeito que está, ela não parece que vai ceder tão cedo, e uma hora o restaurante vai fechar.
- Vai molhar os pezinhos? Ou melhor, os sapatinhos, Cinderello?
- Querida, nós paramos aqui porque a madame não queria molhar o cabelo. – Provoquei de volta.
- Silêncio, Edward. Você está proibido de ter memória. Tudo bem, vamos lá. – Ela não se moveu.
Tirei meu paletó e coloquei sobre nossas cabeças.
- Vamos, não é uma caminhada tão longa, eu protejo seu cabelo, Rapunzel.
- Às vezes os heróis só precisam de ternos Armani.
A chuva parecia ter ficado mais forte no curto caminho até o hotel e o terno de nada serviu, estávamos os dois encharcados na calçada, olhando a recepção pela porta de vidro, decidindo se molhávamos o belo chão de madeira. Bella tirou meu paletó que ainda segurávamos inutilmente sobre a cabeça e virou o rosto para a chuva. Ela é linda! Como fui tão burro e a perdi uma vez?
- Tudo bem, eu entendi que cenas na chuva fazem parte de clichês românticos. – Comentou, completamente encharcada e derrotada.
Eu ri. E uma luz acendeu na minha cabeça. Nós estávamos juntos fazia dois anos, eu tinha certeza que, dessa vez, não perderia Bella novamente. No que dependesse de mim, seríamos nós contra o mundo até o fim. Estávamos em Paris, vivendo clichês, eu poderia muito bem aproveitar a oportunidade e acrescentar o maior dos momentos românticos na lista de Bella. Eu ia esperar pelo Natal, uma data que ambos não curtimos muito, e tentar ressignificá-la. Eu pensaria em outra coisa.
- Preciso me preocupar por você estar rindo igual a um idiota? Edward?
- Posso fazer um ato que não está na sua lista?
- Pode?
Eu me ajoelhei no meio da rua em Paris, debaixo de chuva, sem um anel no bolso, mas pronto para fazer a mulher na minha frente feliz.
- Bella, eu nunca deixei de amar você nem por um segundo. Desde que nos conhecemos, sempre foi você. Sempre será você. Você me daria a extraordinária honra de se casar comigo?
- Sim, sim, sim! – Peguei a mão dela, que deveria ter um anel, e a beijei, uma promessa silenciosa de que logo aquele lugar estaria ocupado. – Edward, levanta do chão e me abraça logo! – Fiz o que mandou. Já havíamos beijado na chuva diversas vezes em Forks, mas sabia que dessa vez teria um gosto diferente e entraria no ‘top clichês’ de Bella. – Minha terapeuta vai me odiar por isso: eu amo você mais do que tudo, Edward.
- Conte o contexto para ela, Jane vai te perdoar.
- Vamos parar de falar da minha terapeuta. Nós vamos casar! — Bella começou a tatear a bolsa procurando pelo celular, enquanto dava alguns pulinhos e me olhava com um sorriso enorme. Tive que esticar a mão para pará-la antes que escorregasse nas pedras lisas da calçada. – Precisamos contar para Charlotte!
- Bella, acho melhor entrarmos primeiro.
Depois de conseguirmos chamar a atenção do concierge e entrar pela porta lateral, sem destruir o centenário piso de madeira, pisado por Napoleão Bonaparte, encerado todo dia, limpo com panos de algodão puro…, chegamos ao nosso quarto, onde, finalmente, Bella, ligou para Charlotte. Minha sobrinha estava dormindo. Ainda debatemos se contaríamos para mais alguém, decidindo por esperá-la. Lottie merecia ser a primeira a saber de tudo. Depois espalharia a novidade para os outros.
Estava sentado na ponta da cama, calçando meias para enfrentar a temperatura glacial do habitat de Bella, quando o colchão se mexeu do meu lado e ela se sentou.
- Que jornada, não? – Bateu com o ombro no meu.
- Foi um inferno. – Respondi. – Mas chegamos ao paraíso.
Os olhos dela se arregalaram e brilharam, um enorme sorriso abrindo.
- Você pensou em uma música, não foi? – Ela mordeu o lábio e sacudiu a cabeça afirmando. – Vai lá escrever, eu esquento a cama para você.
- Você é o melhor, Edward!
E pulou para a escrivaninha.
Essa não era a primeira, e que não fosse a última de muitas noites esquentando a cama enquanto Bella escreve, agora letras mais felizes.
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