Encontrando o amor da sua vida em nível extremo
15 Capítulo 15
Notas iniciais
Parte I
Afrodite não teve muito tempo para absorver a informação de que Camus desaparecera diante dos seus olhos. Já se sentia ficar maior e a voz engrossar um pouco, mas tentava se controlar e não chorar. É. Ia ficar bem. Respirou fundo diversas vezes, no intuito de terminar sua maquiagem e ir trabalhar e justificar a ausência do namorado com uma mentira qualquer, mas foi interrompido pela entrada de um cara oriental e um tanto alto e que Afrodite tinha certeza ser um anjo ou algo assim. A aura era humana, mas era diferente.Não é como se o jotun fosse capaz de pormenorizar todas as espécies celestiais.
De qualquer forma, quem entrou no camarim foi Ikki, ensopado de sangue. Entre ansioso e nervoso, disse, ríspido – Cadê o Camus?
— As asas dele apareceram de uma hora pra outra e ele puff, sumiu. – Afrodite respondeu a verdade, se sentando no divã de camurça vermelha e respirando fundo, sem nem notar o estado do outro – Eu preciso de férias.
Ikki contraiu as sobrancelhas – Você tá bem? – o anjo tinha reparado que Afrodite ficava ligeiramente maior a cada segundo e também era difícil não notar a diferença na entonação da voz do outro, que ficava mais grave na medida em que falava – Tenta se controlar pra não destruir o lugar todo, meu bebê tá aqui.
Se estapeando mentalmente por chamar a enésima versão recém-nascida de Shaka de “meu bebê” novamente, Ikki se sentou ao lado de Afrodite e começou a emanar uma aura verde clarinha que, se o sueco não estivesse tão ocupado tentando se acalmar pra não alcançar sua altura máxima e consequentemente destruir Il Paradiso com tudo dentro, diria que a aura era docinha e com gosto de chá de erva doce.
— Tack!¹ — Afrodite respirou fundo, já mais calmo, olhando Ikki de cima em baixo – Eu preciso aprender a me controlar direito, isso que dá sair de casa antes de atingir a maturidade. E você precisa tomar banho.
— Então o Camus desencarnou, aquele filho da puta – disse Ikki, sorrindo meio de lado, ignorando o comentário sobre seu estado – Você é o Afrodite, certo? – continuou ao ver a concordância muda do outro – O Aldebaran quer falar com você. Na verdade era com o Camus, mas acho que você deve servir.
Sem tempo para ficar indignado com “você deve servir”, Afrodite seguiu Ikki até o banheiro feminino, só para ficar embasbacado com a situação de lá. – Tudo bem, o quê aconteceu?
A situação no banheiro não era das mais comuns na boate, que já comportava todo tipo de situação estapafúrdia. Uma moça loira já conhecida de tempos jazia obviamente morta no canto do último box, com as pernas para fora e uma poça de sangue que tomava quase que todo o chão do local. Aldebaran estava num canto, meio choroso, com um bebê nos braços. O bebê já não chorava mais, estava bastante calmo, tudo culpa de Ikki, que também tinha usado a aura verdinha de chá no diminuto Shaka.
— Dite? Cadê o Camus? – disse Aldebaran, meio aéreo, aninhando o bebê.
— O Camus sumiu no ar com as asas branquinhas dele, de importante só tem eu aqui – sorriu cínico – Eu não sirvo?
Ikki riu. Tinha gostado de Afrodite.
— Serve, mas é que o Camus entende de bebês. – o brasileiro não tinha reparado (ou nem se importou) com a resposta ácida do outro e muito menos ligado os pontos de que Camus não voltaria. Estava mais preocupado com o bebê e o quê faria com ele. Tinha decidido fingir que era o pai biológico, já que sabia que o bebê não tinha um, mas era crime e era arriscado, não era? – Sabe me dizer se é crime aqui na Itália eu assumir esse bebê como se fosse meu filho, sabendo que não era?
— Olha, eu não faço ideia – disse, se aproximando e desviando do sangue. Assim como Camus quando desencarnou, estava com a maquiagem a meio caminho e de cueca, sem tucking² e de chinelo – Mas qualquer coisa é só mentir e falar que ela disse que era seu... Ela não pode desmentir isso, pode? Por que quer ficar com ele?
— Ele não tem ninguém, a mãe dele morreu e também não tinha – Aldebaran respondeu, acariciando as bochechas de Shaka, que bocejou, com fome e sono, mas calmo por causa da aura verdinha de Ikki – Não quero que ele vá para um orfanato e eu não vou conseguir adotá-lo. Você sabe como as coisas são aqui na Itália.
— Uhm... Então só chama a polícia e a ambulância e diz que você é o pai. – respondeu sorrindo- A gente dá um jeito pra cuidar, Chiara e Shura não estão aqui, mas voltam...
— Eu odeio interromper vocês... – Começou Ikki, pegando Shaka do colo de Aldebaran – mas tenho algumas notícias. – Ao sentir Ikki, Shaka reagiu ainda mais forte. Mesmo sendo recém-nascido era evidente que o bebê se sentia bem, seguro e feliz perto do anjo, que sorria doce ao olhar o bebê, mas endurecendo o olhar quando falava com os outros dois – Creio que vai dar tudo certo com relação a ele, mas quero que ele se chame Shaka³. É o nome dele em todas as encarnações. E seria bom se vocês saíssem daqui agora. Não dá tempo de chamar a polícia ou a ambulância – olhou o relógio meio sem jeito por estar segurando o bebê e assoviou – Cacetada, não dá tempo.
Ikki então entregou Shaka para Aldebaran e estalou os dedos, explodindo uma pequena bolinha preta que tirou do bolso da roupa alva manchada de sangue. Em um piscar de olhos, estavam os quatro nos fundos da boate, a cerca de 20m de distância. Antes que Aldebaran ou Afrodite pudessem perguntar o que estava acontecendo, Il Paradisoexplodiu.
Enquanto as coisas em Roma esquentavam em um sentido literal não muito bom, o caminho oposto se seguia no apartamento de Milo em Atenas.
Isso por que, sabendo que Aiolia e Máscara da Morte estavam juntinhos e ocupados em canonizar o shipp, Milo e Shura se dividiam entre ficar felizes por estarem cumprindo muito bem, obrigado, o trabalho e se entristecer pela morte de Shaka.
— Eu sabia que ele ia morrer cedo, mas... – Milo começou, sorvendo um pouco de café forte e amargo – Eu não estava preparado.
— Ninguém nunca está – Shura se aproximou, sorrindo triste – Eu ainda não entendo todo esse problema com eles... E por que as araras celestes insistem em fazê-los se encontrar a cada encarnação.
— Ao menos o Ikki e o Shun estão lá em cima para manter as coisas sob controle, Shu.
— Não diminui a dor do Aiolos. Nem a do Shaka. Muito menos a dos gêmeos. E nós dois saímos impunes. E descontaram no Camus depois. É ridícula a sanção que deram para ele por causa do Hyoga e da Natássia.
Milo suspirou – Ao menos acho que a do Aiolos e a dos gêmeos acaba agora. Não é possível que vai dar merda dessa vez, eles estão se engraçando um com o outro.
— Minha experiência diz que a probabilidade de dar merda é maior, Mi – Shura disse enquanto punha mais café forte em uma xícara, bebendo – Se conheço esses três, o Shaka cumpre toda a sanção, mas esses não saem dessa maldição.
Nenhum dos dois gostava de tocar nesse assunto e não era por menos. Era coisa antiga, de quando Shaka começou o ciclo infinito de nasce-morre-renasce-morre. Os únicos que foram punidos na ocasião foram Ikki, Shaka e Aiolos. No primeiro escorregão, ao invés de uma advertência ou uma sanção leve, Camus pegou uma desproporcional e pesada e os gêmeos – sendo de fato almas gêmeas, mas um sendo anjo e outro humano – foram discretamente amaldiçoados ao invés de punidos. E cabia a Aiolos desfazer a maldição, mas ficava quase impossível devido à sanção que Aiolos cumpria sem saber.
Sendo os únicos impunes da história toda e sem entender nada mesmo sendo parte de tudo, Shura, Milo e Camus concordaram em Shura controlar as coisas lá em cima com Shun por serem de hierarquias superiores, enquanto Milo e Camus buscavam modos de encarnar e manter-se por perto e Ikki seguia Shaka, como já era esperado. Isso foi dando certo, ainda que a situação de ninguém tenha mudado, até Camus resolver descumprir uma regra e ser punido.
Punição essa que tinha sido cumprida em tempo recorde, apitando os celulares de Milo e Shura, com uma mensagem de Ikki.
Então, parece que o Camus cumpriu a sanção dele.
Shura anuiu em silêncio, torcendo o bico – É agora que Chiara pira. Camus vai ser dado como morto.
— Ao menos ele conseguiu cumprir – respondeu Milo, sorridente – Achei que ele ia levar umas duas encarnações.
Antes que os dois pudessem desenvolver o assunto, receberam outra mensagem de Ikki.
Liguem a tv.
Milo ligou a televisão, colocando em um canal de notícias por acreditar que era disso que se tratava, mas não era necessário ser tão específico. Isso por que estaria em todos os canais por um tempo o ataque, de origem até então desconhecida, a uma boate gay romana, a Il Paradiso.
Parte II
Camus chegou em casa, feliz da vida depois de longos anos com o apartamento celeste que dividia com Milo fechado. Ainda ficaria sozinho um pouco antes que tivesse a companhia do amado, mas superaria isso. Primeiro tinha que tirar a maquiagem e tomar um banho para esquecer o vexame e foi isso que fez. Entrou na banheira quente aromatizada de rosas por causa de Afrodite e comendo fatias de maçã por causa de Milo. Também bebia vinho e estava relaxando, isso pelo menos até Shun entrar no banheiro sem cerimônias.
— Desculpa entrar assim, mas eu não consegui esperar quando soube que você voltou – Shun sorriu e se sentou na beirada da banheira – Como foi?
— Repentino, deixei muita coisa para trás – se aprumou, bebendo mais vinho – Se você perguntou da desencarnação. Se quer saber como foi a vida, foi diferente. Uma das melhores, valeu cada dia, cada esforço – sorriu de volta, deixando a taça de lado e colocando uma fatia de maçã na boca, mastigando – Agora se é sobre a situação no geral, eu tô por fora. Proibiram de me contar qualquer coisa desde que a Natássia morreu. Como tá indo?
— Ah... O Shaka desencarnou e encarnou de novo na Itália, o Ikki conseguiu com que ele ficasse com aquele seu amigo Aldebaran. O Shaka tem sorte, o Aldebaran é uma alma muito boa. – suspirou, parando para juntar as muitas informações na cabeça e poder falar de forma coerente –Imagino que você sabe que o Chiara e o Aiolia se encontraram, não é?
— É, eu imaginei – bebeu mais vinho – Chiara ia viajar hoje pela manhã.
— Os gêmeos estão estáveis e o Aiolos também. Estão indo surpreendentemente bem dessa vez.
— Mas vai dar merda. Duvido que dá certo – Camus se levantou da banheira, totalmente nu, pegando o roupão de Milo e vestindo – Da última vez os três eram irmãos. Foram criados juntos em uma das melhores famílias disponíveis por essas bandas, tiveram uma infância boa, uma adolescência plena, se casaram, tiveram filhos... E ainda assim acabou no mesmo.
— Dessa vez a família deles é toda desestruturada – Shun se levantou e afastou um pouco, dando espaço para Camus – Pode dar certo.
— Mas não vai. –o (novamente) anjo sorriu, saindo do banheiro e sendo seguido por Shun –E não é pessimismo. É realidade. O Aiolos tem que achar a própria alma, que está dividida e presa cada pedaço no corpo de um dos gêmeos. Por isso eles sempre se engafinham.
— E os gêmeos estão fadados a destruir o dono das metades que os ligam enquanto estiverem ligados, eu sei. Não tem como dar certo sem a gente intervir.
Ficaram calados, tanto por pena quanto por se sentirem inúteis. Não podiam intervir sem quebrar uma série de regras e não estavam em Hogwarts para serem louvados caso desse certo. Além de tudo, o resultado seria ainda pior caso desse certo só por que interviram. Toda a situação Kanon-Saga-Aiolos tinha que ser resolvida em tentativa e erro de três almas que encarnavam sem memória. Praticamente um tiro no escuro. Sorte.
— Mas Camus, – Shun começou, sorrindo largo – Eu vim aqui te dar seu novo trabalho. – Pegou a pasta que havia deixado em cima do sofá e entregou a Camus – É a pasta do Afrodite. É novinha. Eu queria entregar em mãos.
Camus suspirou, num misto de sentimentos por ser ele o escolhido. Agora sabia como Ikki se sentia – E qual é o objetivo dele?
— Cuidar do Hyoga.
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