Notas iniciais
OLÁ ♥ Mais bads nesse capítulo. Foi difícil PRA CARALHO de escrever. Sério. Perdão a pequena demora, ontem minha internet não estava colaborando :( Enjoy ♥

Parte I

Antes de acompanhar a reencarnação de Shaka, Ikki deixou o corpo recém- desencarnado do amado sentado em um banco de pedra em frente ao mar, de olhos fechados como se dormisse. Ficou lá por alguns minutos, até que Milo e Shura recebessem uma mensagem de Ikki, que acompanhava a nova encarnação do protegido.

O Shaka desencarnou.

Eram palavras simples e que traziam uma mensagem clara, mas que pegaram Milo e Shura de surpresa. Ambos estavam no carro, rumando para o bar e conversaram animadamente em grego (já que Aiolia não ouvia e Chiara não entendia) sobre o trabalho deles como anjos da guarda e como tudo corria bem. No banco de trás, Aiolia e Chiara em inglês com alguma dificuldade, mas se calaram de supetão quando Milo parou o carro, em choque.

— [O quê aconteceu?] – volveu Máscara, vendo o semblante abatido dos outros dois. Aiolia permaneceu calado. Se conhecia o amigo, algo muito sério havia acontecido; Milo não se abatia fácil.

Fato é que ambos os anjos da guarda sabiam que Shaka desencarnaria cedo, mas não esperavam que fosse tão cedo assim. Por ser uma virtude, ter visto desencarnações inúmeras vezes e não ter conhecido essa encarnação de Shaka, Shura se sentiu incapaz de ficar penalizado com o fato. Entristeceu-se, no entanto, ao saber que Shaka era importante para a família e os amigos e o quanto a alma dele ainda sofreria por cumprir uma sanção descabida.

Já para Milo aquela mensagem simples veio como um golpe pesado demais para conseguir conter. Era tão amigo de Shaka quanto de Aiolia. Mesmo sabendo que Shaka morreria cedo era tão difícil aceitar, difícil se refrear e não contar o que sabia. Como responderia? Olha, recebi uma mensagem do anjo da guarda do Shaka falando que ele morreu. Sabia que Ikki não estava junto ao corpo, mas acompanhando a reencarnação precoce. Teria que respirar fundo, guardar as lágrimas e chorar tudo o que podia quando de fato visse Shaka.

Então Milo engoliu o choro, segurando a mão de Shura em busca de conforto, deu partida no carro e respondeu – [Não foi nada.]

Não demorou muito para que chegassem ao bar e encontrassem Shaka sentado em um banco de pedra perto do estacionamento, em frente ao mar. Milo saiu do carro e estancou, sem coragem de chegar perto do virginiano, que parecia adormecido. Shura segurou o anjo pelos ombros, tentando passar segurança enquanto ele mesmo não sentia muita. Desconfiado das atitudes de Shura e Milo, Máscara da Morte ficou para trás, esperando Aiolia que, ao ver Shaka, foi de encontro ao mesmo, feliz.

— O quê está fazendo aqui, Sha? – Aiolia começou risonho quando ficou de frente ao corpo do virginiano – Adormeceu enquanto meditava de novo?

Obviamente não obtendo resposta, o leonino tocou no amigo, o sentindo não frio e duro, mas com a temperatura mais baixa que o normal, ainda amolecido.

— Shaka?

— [Aconteceu alguma coisa?] – disse Máscara, se aproximando de Aiolia e tocando o ombro deste – [Ele está bem?]

Aiolia não havia entendido o que o italiano disse, mas imaginava ser a respeito da situação, então respondeu, de uma maneira quase que ininteligível – [O Shaka... Ele está frio e estranho, eu...]

Chiara olhou para o corpo e sua espinha gelou. Tocou o pescoço do virginiano, apenas para constatar suas suspeitas: estava sem pulso, Shaka estava morto.

Máscara arregalou os olhos. Parecia irreal. Não conhecia Shaka, só tinha visto uma foto, mas... Seria tão difícil para Aiolia e ele já estava passando por tantos problemas. Era sorte ou não para Aiolia Chiara estar aqui?

—[Aiolia, olha para mim] – Chiara disse enquanto pegava o rosto de Aiolia com as mãos e o voltava em sua direção – [Vai ser difícil aceitar isso, mas o Shaka está morto...]

—[Não... Eu... Ele não pode ir antes de mim!]

O grego não conseguiu fazer muita coisa além de abraçar Chiara, ambos incrédulos. As lágrimas escorriam soltas de Aiolia, ao passo que o italiano se controlava, confortando o então amigo.

Ao longe, a situação de Milo e Shura não era muito diferente. Milo deixava correr um choro silencioso e calmo, mas estava devastado por dentro.

— Shura... Isso não é justo.

Shura sabia que não era só dessa desencarnação que Milo se referia. Toda aquela história estapafúrdia envolvendo Ikki, Shaka e Shun é injusta. Uma sanção descabida e injustificada, comandada por um serafim, anjos do mais superior escalão.

— Eu sei, Milo. Mas não podemos fazer nada.

Em Roma, Ikki segurava nos braços a nova encarnação de seu amado. Recém-nascido, ainda sujo de sangue e placenta, pálido e de pulmões fortes, chorando. Quando percebeu que alguém entrava no banheiro, uma moça que saiu correndo chamar algum funcionário da Il Paradiso, começou a limpar o bebê como podia, usando a pia.

Não demorou muito para que Aldebaran entrasse afobado e arregalasse os olhos ante a cena. – Eles estão bem? Você é o pai do bebê?

— Não, só ajudei no parto.

Aldebaran observou a mãe, que jazia aparentemente sem vida no chão da boate. Era June, uma jovem prostituta sem família que frequentava o local. Duvidava que alguém sabia quem era o pai do bebê. Se fizesse o que era legal, chamaria a polícia e a assistência social e o pequeno acabaria em um orfanato sabe-se Deus por quanto tempo, principalmente levando em conta a política heteronormativista e complicada de adoção na Itália¹. Era legal, mas não era certo. Era?

O brasileiro sorriu. Já sabia o que fazer.

— Esse bebê... Tem aonde ir.

Camus suspirou fundo enquanto passava cola em bastão nas sobrancelhas. Não que fosse um problema Afrodite ser um troll, jotun ou que o valha. Apesar do preconceito que existia nas araras celestes² com relação a criaturas não humanas (e, portanto, desprovidos de alma), o ex-anjo não os via de forma pejorativa. No entanto, era problemático o namorado saber da existência dos anjos e tudo que envolvia isso, por que... Bem, Camus tinha outro namorado.

Afrodite também pensava no assunto. Que, como anjo (ou ex-anjo, já que a demissão ocorreu há pouco tempo, mas não fazia lá tanta diferença assim) Camus devia ter uma família lá em cima, namorado/namorada/qualquer palavra neutra para a expressão que exista em italiano (isso levando em conta que, apesar de cada anjo ter uma expressão de gênero preferida, incluindo as não-binárias, possuíam neutralidade sexual). Parte de si queria ignorar o assunto, que se transformaria em um elefante branco no meio da sala, mas outra parte de si preferia por em pratos limpos.

O jotun só tinha uma vida e depois seria pó. Não ia gastar essa vida sendo trouxa.

— Camus, a gente precisa conversar – disse Afrodite depois de um tempo, se afastando da penteadeira e subindo no salto metaforicamente – Você tem família, namorado, namorada ou qualquer expressão neutra que signifique a mesma coisa? Digo, italiano não tem expressões neutras nesse sentido, é uma língua problemática, sueco é uma língua neutra, bem melhor para se expressar.

Por ter mercúrio em peixes, Afrodite costumava ter dificuldades em se expressar e em se focar no assunto.

— Quer mesmo falar nisso? – arqueou a sobrancelha já invisível pela maquiagem.

— Quero.

— Tenho um namorado. O anjo do tal Aiolia, alma gêmea do Chiara. O nome dele é Milo.

Mesmo sabendo que viera depois, que não seria eterno (ou ao menos não viveria por tempo indefinido), se sentiu traído ao ter suas suspeitas confirmadas. Seu olhar encheu de lágrimas, mas as controlou e engoliu o choro. Se não por si mesmo ou por Camus, não choraria por causa de seu show e de sua maquiagem. É. – O que quer fazer com relação a isso?

— Como assim? – Camus via as coisas de uma forma um tanto mais simples. Não via problema nenhum em namorar Milo e Afrodite ao mesmo tempo, então o que queria era óbvio: continuar com os dois. Mas sabia que não era fácil para Dite, principalmente por ser uma criatura breve. O amava assim como amava Milo e não suportaria se tivessem que terminar o relacionamento. – Eu queria ficar com os dois.

— Eu não tenho vocação pra trouxa, Moïse! – ainda contendo o tom da voz, vociferou, utilizando o prenome do (ex?) namorado, que era guardado por todos para momentos de fúria – Mesmo que fosse absurdo dizer “Olha, eu sou um ex-anjo e tenho um namorado que é um anjo da guarda que encarnou também, vamo se comer?” era sua obrigação me dizer que tinha outra pessoa também! Kranen³!

Camus era um doce de pessoa, mas um tanto excessivamente frio. Igual sorvete. Tinha uma capacidade empática meio baixa, então isso o igualava ainda mais às bolas de sorvete, incapazes de sentir piedade por alguém. Então o francês pensava ser um tanto complicado entender a fúria de Afrodite. Como pensado anteriormente, sabia que seria difícil para ele. Mas não entendia o arrombo de raiva e as lágrimas que eram seguras e, sinceramente, nem queria entender.

Na dúvida entre falar algo ou não algo por poder piorar a situação, Camus se calou. O que, de fato, piorou a situação.

— MOÏSE! DIZ ALGUMA COISA! – já não contendo a voz, o sueco saiu de irritado, choroso e contido para uma bomba de fúria – CARALHO, FILHO DE UMA PUTA! Não me importo de você ter outro, VOCÊ É OU ERA UM ANJO! EU SEI QUE ISSO ACONTECE! Mas você deveria ter me contado! CADÊ A PORRA DO CHIARA E DO SHURA QUANDO PRECISO DELES?

Ignorando a parte de Dite querer Chiara e Shura por perto sabe-se lá por qual motivo, Camus desejou Aldebaran por perto para aplacar a calma de um peixinho em fúria, mas o chefe não estava em lugar nenhum à vista. Se dissesse alguma coisa errada Afrodite lhe voava na cara e o desfigurava todo.

Até por que já tinha visto a cena antes.

— Afrodite... Amor.

— Não usa meu nome que eu não te dei essa liberdade! – o sueco estava possesso e, com a voz firme e ainda mais grossa que o natural, impunha respeito (e medo) à Camus.

Só para que fique claro, Afrodite era um centímetro mais baixo que Camus, mas era um gigante/troll/jotun e, quando queria, conseguia ficar mais alto do que normalmente era. Significando que Camus, agora um humano normal, estava enfrentando um Afrodite de dois metros e meio, em cima de um salto agulha de quinze centímetros, todo trabalhado na maquiagem incompleta, seminu e de força descomunal. Se queria viver, era primordial que acalmasse o outro.

Tipo, era muito importante.

— Como quer que eu te chame? De boa. Sven? Lars? Pelo sobrenome? – respondeu calmo. Não sabia como não tinha aparecido mais ninguém ali dentro do camarim, mas agradecia ao fato. – Sven, respira fundo. Você está com quase três metros agora.

Mais tarde ambos descobririam que não havia aparecido ninguém na hora por terem o combo cadáver + recém nascido no banheiro feminino da boate.

Se, emocionalmente, queria ficar bem maior e destruir tudo, racionalmente Afrodite sabia que não podia. Mesmo irritado, diminuiu de tamanho até o seu normal, se sentou na namoradeira que ficava ali por perto e massageou as têmporas, se recostando. Não era fácil fingir ser humano se não podia destruir tudo quando se irritava.

— Camus, só diz alguma coisa, pelo amor de Deus. – Camus se sentou ao lado dele, o abraçando de lado, fazendo com que Afrodite escorasse a cabeça em seu ombro. –Você devia ter me contado, independente deu saber ou não que você era anjo.

— Eu sei – assumiu – Peço desculpas por isso. Mas eu realmente te amo. O que eu queria fazer é ficar com vocês dois, entende?

— E o Milo... Sabe? – riu amargo. Mesmo que negasse, era um trouxa de marca maior. Não conseguia odiar Camus – Eu quero conhecê-lo.

— Ele sabe. Ele também tem outros... Relacionamentos, eu diria. Me perdoa? Vai ficar tudo bem?

— Não sei... Preciso pensar.

Parte II

Shion estava perto de bater sua cabeça contra a mesa. Shun era incansável, tinha aproveitado sua estadia para revisar outros casos e tinha achado tantos erros pequenos, grandes e outros absurdos que estava se sentindo um tanto inútil e incompetente.

Olhou para o arquivo do Shaka em cima de sua mesa. Outro volume começando, para se juntar com os outros tantos que já existiam. Aparentemente ele também se chamaria Shaka nessa encarnação (como em todas as outras vezes. Shion achava impressionante o empenho de Ikki para que Shaka não mudasse de nome – e não havia mudado nem uma única vez), mas dessa vez era Shaka Cavalcanti.

E também tinha o arquivo de Camus, um idiota de marca maior que foi demitido por uma palavra dita (por mais que ele minta a esse respeito), o de Ikki, que cumpria sentença, o do próprio Shun, que também cumpria sentença, o de Saga e Kanon, que tinham uma relação anjo-protegido de ad-encarnação ... Entre os envolvidos na teia Aiolia-Chiara, apenas Mu (que tinha um anjo da guarda recém-formado muito fofo chamado Atla, que tinha em Mu sua primeira proteção) e Aldebaran (protegido por um jovem chamado Teneo) eram situações tranquilas e consideradas verde (nível de perigo baixo).

Aiolos era um caso à parte. Este também cumpria sentença. Injusta, agora sabia, com os apontamentos de Shun.

Se ergueu da mesa quando sentiu seus ombros sendo massageados, olhou para trás e viu Dohko. Se não fosse o arcanjo, não sabia o que faria da vida.

— Dohko, esse é o pior set de encarnações que eu já tive.

Dohko continuou as massagens, tentando aliviar a tensão nos ombros do namorado – Olha o lado positivo, ao menos Shura e Milo que resolveram te ajudar com o Aiolia e o Maschera.

Bufou. Isso não era nenhuma vantagem – Na próxima, eu quero mais encarnações verdes. Só tenho duas, Dohko, isso é tão injusto!

O arcanjo riu. Chegava a ficar com dó, mas não podia enrolar mais. Tinha que avisar – Então, Shion. Aproveita o estresse e ouve essa. O Camus deu alarme vermelho.

Notas finais
¹De acordo com minhas pesquisas, para se adotar um bebê na Itália é pré-requisito ser um casal heterossexual casado (ou com o equivalente italiano à união estável) comprovado há mais de três anos e um mínimo de 18 anos de diferença entre os pais e a criança. Apenas nesse ano de 2016 vi casos que começam a acontecer de adoção de casais homossexuais, mas apenas em casos de adoção parcial – onde você é considerado pai/mãe das crianças, mas seus pais não são avós – e especificamente em casos em que houve barriga de aluguel, alugada em outros países, em que, normalmente, uma das partes do casal já é legalmente pai da criança. No geral, é tudo muito homofóbico e heteronormativista, então fica só o recado de que nenhum dos personagens da fic conseguiria adotar um bebê na Itália :’3 ²Eu AMO essa expressão e é por isso que eu a uso sempre que possível. ³De acordo com o tradutor do google, significa “caralho” em sueco. Foi o primeiro capítulo que eu não tinha nenhum de frente e tive que escrever dentro dos 15 dias. Tô orgulhoso. Ah, sobre a ad-encarnação: vai ser explicado no decorrer da fic :’3 (é só eu não esquecer de explicar isso). Amo todos vocês, até o próximo ♥