Encontrando o amor da sua vida em nível extremo
7 Capítulo 7
Parte I
Três dias se passaram, dias em que Máscara da Morte ficou louco de preocupação com Aiolia, se martirizando e pensando que havia assustado o grego ao contar que era transgênero. Isso fez com que ficasse irritado a maior parte do tempo, descontando tudo em um mais paciente que o normal Shura, que mordia o próprio lábio figurativamente para não contar o quê acontecera a Aiolia.
Isso durou até que, na quarta-feira à tarde, Aiolia logasse no Sanctuary Online.
Golden Lion está online
Golden Lion disse:
[Chiara? Está aí?]
Máscara da Morte estava como “ausente” no bate-papo, para não parecer tão desesperado quando Aiolia viesse. Estava morrendo de raiva e já tinha pensando em um milhão de respostas ácidas para quando Aiolia voltasse, mas quando viu a mensagem simples toda sua raiva se esvaiu e foi responder de imediato, mesmo que tivesse ensaiado deixar Aiolia no vácuo um pouco.
Máscara da Morte disse:
[Estou. Aconteceu alguma coisa? Você sumiu.]
Golden Lion disse:
[Acontecer, aconteceu.
É meio longo e complicado
E difícil de acreditar
Quer ouvir?]
Máscara da Morte disse:
[Ok]
Aiolia viu o “ok” e pensou que talvez Máscara tivesse ocupado no momento. Nem tinha passado por sua cabeça que a ausência tivesse feito caraminholas na cabeça do italiano e que ele ficou chateado e irritadiço por conseqüência. Afinal de contas, não tinha sumido por querer. Não tinha sido nada divertido.
Golden Lion disse:
[Então, aquela hora que saí quando terminamos de falar da última vez
Quando saí do quarto, meu pai tava bêbado, atacando meu irmão e o namorado dele
Eu não tava entendendo nada na hora e fui tentar parar o pai
Mas acabei levando uma facada e perdi muito sangue
Agora to de molho no hospital]
Chiara leu a mensagem incrédulo. Parecia surreal que tudo aquilo tinha acontecido. Era difícil acreditar, preferia que fosse uma mentira deslavada para justificar a ausência, mas alguma coisa lhe dizia que não era isso.
Máscara da Morte disse:
[Sério isso? E você está bem? E seu irmão, como tá?]
Deitado na cama do hospital e segurando o celular com um pouco de dificuldade, Aiolia suspirou. Os últimos dias tinham sido difíceis e nem tanto por causa das feridas físicas. Era mais a reação do pai, bêbado, que preferia ter um filho morto a um filho gay. Foram as palavras que viu sua mãe dizer no dia seguinte, depois que já tinha acordado no hospital, que doíam.
Doía tentar ser um filho melhor, dar tudo de si e nunca ser suficiente. Doía ver seu irmão chorar e se culpar pelo acontecido e por ter se descuidado, mesmo que a Aiolos não coubesse culpa.
Mesmo que não tivesse uma boa relação com os pais, doía saber que nunca seria um filho suficientemente bom. Que nunca os traria orgulho e que era errado.
Aiolia respirou fundo. Não choraria por ninguém.
Golden Lion disse:
[Fisicamente estou bem. Fui esfaqueado cinco vezes, uma em cada braço e três vezes no tórax. Não tive nenhum órgão importante perfurado, mas a aorta foi atingida. Ainda estou em observação, perdi muito sangue.
Na verdade, os médicos não sabem como não morri.
O Aiolos tá na casa dos namorados
(ele namora dois gêmeos)
Ele foi expulso de casa. Tá se sentindo horrível, mas está bem.]
Máscara da Morte tremeu. Era engraçado como a vida era frágil, como uma bolha de sabão. Isso o fascinava tanto que sonhava em ser médico quando criança, saber como o corpo funciona e como cada detalhe é importante para que funcionasse. No entanto, saber que Aiolia quase morrera dias atrás lhe trazia um aperto no coração difícil de suportar, ainda mais sabendo por quem e o motivo que levaram a isso.
Máscara da Morte disse:
[Para onde você vai depois que sair do hospital? Não é pra casa dos seus pais, né?]
Golden Lion disse:
[Claro que não.
Vou ficar com o Milo até meu irmão achar um apartamento pra gente.
Nem se eles me quisessem em casa eu voltava.
Eu contei que sou bi quando minha mãe veio aqui e eu diria que não foi uma conversa divertida]
Chiara entendia de conversas que não eram divertidas. Ele mesmo teve uma anos atrás e doía ver casos piores que o que teve. Era absurdo pensar que pais, que deveriam amar e cuidar dos filhos, estavam dispostos a virar as costas (para dizer o mínimo) quando os filhos mais precisavam.
Máscara da Morte disse:
[Eu passei por isso. Eu entendo. Eu queria te dizer que eles vão entender e se arrepender, mas isso seria mentira. Às vezes não acontece. Minha mãe me aceita, ela me ajudou muito. Mas meu pai não. Dos meus amigos, nenhum deles tem uma boa relação com a família.
A do Aldebaran não sabe, Camus não vê a dele desde que foi expulso de casa, Dite tem um relacionamento distante com a mãe. Shura que tem sorte por não ter família e não dever nada para ninguém.]
Golden Lion disse:
[Vai ser difícil no início
Mas acho que as coisas vão melhorar]
Máscara da Morte disse:
[Vão sim, Aiolia. A verdadeira família da gente é aquela que a gente escolhe. Posso soar meio piegas agora, mas quem não te aceita como você é não merece que você sofra por isso. Não adianta sofrer pelo que os seus pais disseram se não é culpa sua.
Eles estão chateados (pra amenizar um pouco as palavras) por uma expectativa que eles tinham de você e seu irmão, que foi frustrada. Não é culpa sua se quem criou as expectativas foram eles.]
“Eu devia ouvir meus próprios conselhos”, pensou Chiara.
Toda essa situação de Aiolia, supondo ser verdade, fazia Máscara pensar em como devia dar uma segunda chance ao velho. No dia em que fora expulso de casa ouviu coisas realmente pesadas e que nunca esqueceria e que o magoavam até hoje, mas aparentemente ele queria pedir desculpas. Certo que um pedido de desculpas não apagava toda a mágoa, mas tiraria o peso dos ombros que Chiara ainda carregava.
Parte de si (uma parte um tanto mesquinha e egoísta) também se deliciava ao saber que o pai tinha sofrido pela rejeição. Era satisfatório saber disso.
Golden Lion disse:
[Eu já não curtia muito o pai mesmo.
Você sabe o que ele fazia com minha mãe
Eu já te contei antes.
E dela eu já esperava seguir qualquer opinião que ele tivesse
Mas, cara. Vamos mudar de assunto?
Eu to precisando me distrair, sabe?]
Máscara da Morte sorriu. Sabia como era. Na sua época não teve ninguém a quem recorrer e foi realmente difícil agüentar sozinho, sem ter alguém de confiança para abrir e ficou feliz de saber que podia ser uma fortaleza para Aiolia.
Isso o fez perceber o quanto o grego lhe fizera falta nos últimos dias de ausência e o quão rápido passou a desejá-lo em outro nível além da amizade internética e como precisava da sua presença.
Máscara da Morte disse:
[Eu estou com muita vontade de te ver agora. Queria poder ir até aí, mas estou juntando grana para fazer a mastectomia]
A porta da enfermaria onde Aiolia estava se abriu, fazendo o grego desviar o olhar para ver quem era. Diferente do que esperava, algum profissional do hospital ou algum acompanhante dos seus “colegas de quarto”, quem viu entrando era Shaka. O loiro chegou e sentou ao seu lado, com o semblante abatido e deixando a mochila aos pés da cama de Aiolia.
— Desculpe a demora – Shaka começou a falar, prendendo os cabelos e ajeitando os óculos novos no rosto – Tive que passar na ótica para pegar meus óculos.
— Tá abatido, aconteceu alguma coisa?
Shaka sorriu. Adorava isso em Aiolia, a capacidade dele de se preocupar com os outros mesmo estando na merda – Ando tendo dificuldades para dormir. Enxaqueca, sabe?
Aiolia sabia que o amigo não vivia sem os óculos e que a enxaqueca provavelmente era proveniente daqueles dias sem eles e ficou muito agradecido de ver o amigo ali, mesmo depois de ter uma crise que parecia ter sido das terríveis.
— Ah, sei. Melhorou?
Golden Lion disse:
[ E falta muito pra conseguir pagar a mastectomia?
É muito caro?]
— Melhorei sim. Encontrei com o Mu no caminho. Ele disse que de noite passa aqui. Conversando com o tal Chiara?
— É – Aiolia sorriu inconscientemente – Ele me faz esquecer um pouco do por que deu estar aqui.
— Você gosta dele não é?
Aiolia desviou o olhar, numa clara demonstração de “não quero falar sobre isso”. Shaka riu de lado. Era muito óbvio que Aiolia estava apaixonadinho, mesmo sem nunca ter visto o cara. Em situações normais isso faria Shaka ficar enciumado e com ganas de afastar Aiolia do namorado tóxico (sendo ele ou não), mas, curiosamente, quando Shaka pensava em Chiara/Máscara da Morte/que o valha, ficava tranqüilo. Deu de ombros. Vai entender.
Máscara da Morte disse:
[Tem tempo que to juntando grana. É um pouco caro, mas o maior problema é achar algum médico aqui na Itália que o faça]
Golden Lion disse:
[E pagar um médico de fora fica ainda mais caro...
Bem, olha quem ta aqui.
(espera um pouco que aí vem foto)]
Aiolia voltou a olhar Shaka, que interpretou isso como “agora eu posso falar de novo” e já saiu soltando o verbo – Não acho que tem problema gostar dele, só é melhor conhecê-lo direito antes de sair se jogando de cabeça, Olia.
— Tanto faz. – deu de ombros, puxando um Shaka confuso de lado e tirando uma foto.
— O que foi isso? – Shaka perguntou, ficando de frente para Aiolia e ajeitando os óculos de aro grosso, bem parecido com o modelo que foi quebrado por Iki Amamia— Sou avesso a fotos, Aiolia, você sabe.
— É live streaming.
Shaka riu disfarçado da maneira de Aiolia falar as palavras em inglês e só as tinha entendido por força da convivência. Aiolia estava cada vez pior pra falar e o tal Chiara ia passar maus bocados para conversar com ele.
Golden Lion disse:
[Eu e o Shaka. Ele é meu amigo, meu ex namorado também. Tá aqui no hospital comigo]
Máscara clicou no link e viu um Aiolia abatido, tão diferente de naquele dia no skype, mas sorridente. O tal Shaka tinha cabelos longos e a cara assustada pela foto surpresa. Decidiu fazer o mesmo, dando um beijo na bochecha de Afrodite, que comia uma pratada de macarronada em frente a TV, e tirou a foto.
Máscara da Morte disse:
[Eu e o Afrodite, meu irmão de coração, mora junto comigo. Não se engane pelos hábitos alimentares, ele é uma lady]
Afrodite girou os olhos. Pelas reações, Máscara estava falando com aquele grego, depois daqueles dias terríveis em que o filho da puta tinha sumido. Distraiu-se rapidamente ao ver que o amigo continuou a papear com o grego gostoso (afinal, Chiara havia lhe mostrado a foto) e já começou a pensar se conseguiria convencer o Debas a importar umas rosas negras de Halfeti¹ para o próximo espetáculo que faria com Camus e Misty quando seu celular tocou.
No visor, Anna Lucchese.
Parte II
Shun lia as fichas de Chiara e Aiolia e fazia seus apontamentos em três cores diferentes e em grafia perfeita, parecendo fonte do Microsoft Word, no caderno preto e branco.
—Uhm. Certo.
Então Aiolia já tinha feito sexo com o anjo da guarda. Milo teria que ser advertido por isso. Chiara também tinha um histórico sexual louvável e uma imensa lista de relacionamentos abusivos. Interessante.
— Uhm. Certo.
Fez uma anotação em verde no caderninho, algo relacionado a tópicos a se evitar. Também tinha aquela passividade de Shura a ser resolvida. Interessante.
— Uhm. Certo.
Dohko bufou. Aquele ali era tão organizadinho que irritava. Gostava de chamá-lo só em último caso. Era um amor de pessoa, mas... Ignorando os pensamentos, Dohko olhou a mensagem no celular que recebeu de Sorento.
Dohko, talvez seja de seu interesse saber que o Gian Lucca está desencarnando.
— Shun?
— Oi? – respondeu sorridente. Ver um caso difícil e se sentir útil faziam a potestade vibrar de felicidade – Em que posso ser útil?
— Parece que houve um problema com a data de desencarnação do pai do Chiara.
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