Encontrando nossos corações
6 Coragem.
Notas iniciais
Hermione
De todas as coisas que eu sentia sobre Ronald Weasley aos dezessete anos, nunca pensei que poderia sentir culpa. Sim, uma culpa que me causava um certo sufocamento. Porque eu quase o perdi, e antes eu agia como se eu não me importasse.
Mas eu me importo, e muito.
Sentada naquele leito da enfermaria, meu coração parecia se comprimir a cada suspiro que saía involuntariamente de seus lábios. Ele sentia dor? Estava tendo pesadelos?
Eu esperava que não.
E naquele momento, eu poderia afirmar com todas as letras, sem medo algum:
Não se atreva a me deixar, Ronald Weasley.
Eu te amo.
***
Antes de todo esse melodrama, posso adiantar que está tudo bem. Ronald voltou a ser saudável e insuportável, como sempre foi.
Contudo, confesso que o medo de o perder mudou mais ainda meus sentimentos sobre ele.
Depois das férias de Natal, a rotina do castelo continuava na mesma: eu evitava o casal mais chato de Hogwarts na biblioteca, ajudava o Harry, pensando em formas de persuadir o professor Sloghorn, escutava as reclamações de Ginny sobre o irmão e o namorado, – segundo ela, Dean já estava começando a ser um pé no saco – e visitava Hagrid e Asafugaz nos tempos livres. Além do estudo.
Sempre havia o estudo.
Ainda assim, eu sentia que algo estava estranho, não conseguia me concentrar totalmente. Algumas semanas se passaram e mesmo não querendo, comecei a notar Ron mais presente vez ou outra. Como no dia que eu e Harry estávamos no corredor e ele se esquivou da namorada super possessiva para se juntar a nós. Eu o ignorei, obviamente, mas dei um sorrisinho interno de satisfação.
Também teve o dia que estávamos na sala comunal, numa tarde, e senti os olhos azuis fitando minhas costas. Não consegui me concentrar, parecia que o olhar dele podia me tocar fisicamente. Era como um cutucão chato e persistente, mas fiquei completamente tentada a ceder.
Mas acho que vocês me conhecem o suficiente para saber que eu não me daria por vencida.
Não ainda.
Sinceramente, por mais que eu sentisse falta do Ronald, eu sou extremamente orgulhosa e meus sentimentos por ele não facilitavam que eu abrisse uma brecha para voltarmos a ser amigos. Quero dizer, como eu poderia voltar ao mesmo patamar de antes? Eu o amava, e eu sabia que eu não seria nem um pouco condescendente se ele resolvesse ferir meus sentimentos como ele fazia.
Mais que isso: como eu voltaria a ser amiga dele com todos esses sentimentos e ainda ter que vê-lo com a Lavender?
— Sinceramente, Hermione... como eu vou saber? – Ginny me respondeu, depois que eu fiz essa mesma pergunta.
Estávamos no final de fevereiro, e o sol começava a dar seus primeiros sinais de vida depois do inverno rigoroso. A primavera era uma época que me alegrava, trazia vida ao castelo e aos alunos, que pareciam sempre ter a energia renovada. Eu e Ginny aproveitamos o dia bonito para nos estirarmos na beira do lago, comendo alguns doces que ela estocava em seu dormitório.
— Ginny, qual é? Você sabe mais dessas coisas do que eu... – falei despretensiosa, mas me arrependi ao ver seu olhar irritado – Desculpa, não quis dizer sobre você e o...
— Eu entendi, Mione... me desculpe, estou irritada com o Dean – ela olhou para o lago e deu um longo suspiro – Sabe, eu nunca gostei muito da Lavender, mas admito que admiro a coragem dela.
— De se relacionar com o seu irmão, imagino – fiz a piadinha infame, e isso pareceu animar Ginny, que abriu um sorriso.
— Também, mas... ela se jogou nessa relação, não foi? Podia ter dado muito errado, mas deu certo.
— E você acha que eu deveria fazer o mesmo? – a pergunta saiu mais cautelosa do que eu esperava, mas eu estava internamente apavorada.
— Não sei o que você deveria fazer..., mas sabe, a garota mais inteligente que eu conheço me disse que eu deveria ser mais eu mesma, porque o cara que teria meu coração, seria um cara de sorte – Ginny me encarou e senti uma onda de afeição por ela. Como alguém podia ser tão incrível assim?
Mas ao mesmo tempo, fiquei triste. Eu sempre fui eu mesma com o Ronald, nunca precisei esconder nada dele – nada além dos meus sentimentos recém-descobertos – e comecei a pensar que ser eu mesma não daria certo nunca.
— Você está enganada, sabe? – a ruiva pareceu ler meus pensamentos.
Na verdade, eu sentia que minha fisionomia não estava lá muito boa.
— Estou?
— Redondamente – desviou os olhos para o lago novamente, antes de continuar – O Ronald não é fácil de lidar, mas ele gosta de você, Hermione. Não posso falar por ele o quanto ou se é da mesma forma que a sua, mas ele se importa... ele é um idiota insensível e inseguro muitas vezes, e acho que é por isso que ele nunca vai dar o primeiro passo.
— E obrigatoriamente eu preciso dar o primeiro passo? – revirei os olhos.
Típico.
— Bem, é você quem sabe..., mas já parou para pensar que o Ronald quase nunca toma a iniciativa por medo?
— Medo?
— É, Mione. Medo da sua reação, da rejeição... ele não consegue lidar com isso, e muito menos vindo de você...
— De mim? – comecei a me sentir meio patética ao repetir tudo o que Ginny dizia.
— De você – ela parecia estar se divertindo horrores às minhas custas – Pense nisso e veja como eu não tenho razão.
Ela estufou o peito e caímos na risada, mas eu logo murchei novamente.
— A gente não está se falando faz semanas...
— Hermione, você acabou de dizer que eu sei mais dessas coisas que você – quando abri a boca para responder, ela cortou – Eu sei que você não quis dizer sobre a minha situação com o Harry. Mas quando eu paro para pensar em todos esses anos que eu fui apaixonada por ele, eu sinto que deveria ter dito, mesmo depois de ter mudado tanto... pelo menos, talvez eu teria dado espaço para realmente gostar de outra pessoa, e eu sei o porquê de não gostar do Dean, ou do Miguel Corner...
— Ginny...
— O que eu quero dizer é que e daí se vocês não estão se falando faz semanas? – ela me encarou novamente, os olhos castanhos em brasas, assim como os da sra. Weasley.
— Eu não sou corajosa como você, Ginny.
— Não estou falando de coragem, Mione. Estou falando de saber o que é melhor para você, se você vai conseguir conviver com a sua escolha, ou se ao menos vai tentar mudar isso. Nisso você é muito melhor do que eu... – ela apertou minha mão e me deu uma piscadela – E quem disse que isso não é um ato de coragem? Você gosta do meu irmão!
***
O primeiro dia de março amanheceu ensolarado, porém o tempo amanheceu fechado para mim.
Após a conversa com Ginny, fazia mais ou menos umas quatro noites que eu não dormia bem. Eu estava tão cansada e distraída que em uma dessas noites, pisei acidentalmente no rabo do pobre Bichento, que armou um escândalo e arranhou minhas pernas antes de sair do dormitório, bufando.
Para coroar, a idiota sra. Uon-Uon e Parvati acharam o evento engraçadíssimo, o que não contribuiu para o meu estado de espírito.
Mesmo que a conversa tenha me feito pensar muito sobre o assunto, eu ainda me encontrava no meu dilema interno. Contar ou não ao Ronald? Se sim, como eu poderia fazer, teria coragem? E se ele dissesse não e escolhesse a Lavender? Por que a Ginny não falou sobre isso?
Por que eu não perguntei isso a ela?
As perguntas martelavam tanto na minha cabeça, que eu só conseguia dormir pela exaustão, lá pelas tantas da madrugada. E como eu não conseguia perder um dia sequer de aula, obrigava meu corpo a levantar, já que minha alma não existia mais naquela altura do campeonato.
Estava de tanto mau humor, que esbarrei em Lavender logo na subida da escada espiral. Pelo visto, ela também não estava em seus melhores dias. No entanto, ela apenas me deu uma olhada cínica e subiu para o dormitório pisando duro.
Será que até o final do dia o dormitório feminino do sexto ano ia explodir?
— Bom dia, Mione! – Ginny cantarolou, enquanto corria na minha direção com um pacote em mãos.
— Dia... – respondi um pouco ofendida com o bom humor dela àquela hora da manhã de um sábado.
— Pra você – ela estendeu o pacote, me surpreendendo um pouco.
— O aniversário é do Ronald, não meu – resmunguei e soltei um bocejo.
— Eu sei, mas eu queria te entregar isso. Presente de Natal – ela deu uma piscadela e saiu, sem me dar tempo de perguntar mais alguma coisa. Já disse que odeio quando ela faz isso?
Olhei o pacote de papel pardo e encontrei um bilhete, que dizia para abrir quando estivesse sozinha. Como tinha gente no dormitório, resolvi ir ao lugar que eu mais me sentia confortável no mundo.
Se vocês chutaram “biblioteca”, acertaram!
Andei pelas sessões de livros, a fim de achar uma mesinha vazia. Os NOM’s e NIEM’s estavam chegando, então era normal que a biblioteca ficasse tão cheia nos fins de semana naquela época do ano. Dei bom dia à Madame Pince e me sentei em um dos últimos reservados antes da sessão restrita. Por conta dos barulhos agourentos e sombrios que alguns livros emitiam, os alunos evitavam estudar por ali.
Rasguei o pacote e me deparei com um frasco do meu xampu favorito, de camomila. Junto com o xampu, havia uma carta com uma caligrafia familiar.
Mas a caligrafia não era de Ginny.
Era de Ronald, é claro era. Quantas vezes já revisei seus trabalhos e li suas respostas naquela mesma caligrafia?
Abri a carta com os dedos trêmulos e uma súbita vontade de rir e chorar ao mesmo tempo, e enquanto eu lia cada palavra naquelas letras tão conhecidas, tão reconfortantes, meu coração foi acelerando, como se cada batida me desse um pouco mais de coragem.
E num estalar de dedos, tomei a decisão que mais importava naquele momento.
***
— De novo, como aconteceu?
Eu escutava lacunas de conversas, pela primeira vez na vida, não fiz questão de escutar um professor ou meus amigos.
Na verdade, toda a minha atenção era voltada ao corpo deitado naquele leito da enfermaria. Ronald estava meio esverdeado, o cabelo parecia mais ruivo do que nunca devido a palidez. Os lábios dele tremiam, e meu coração pulava uma batida todas as vezes que ele franzia o cenho em seu sono.
Não me lembro muito bem o que aconteceu depois que eu saí correndo da biblioteca e dei um encontrão em Harry. Eu estava sorrindo radiante, com o frasco de xampu e a carta nas mãos, pronta para me jogar nos braços de Ron e o abraçar apertado, de findar toda aquela agonia.
Mas quando vi a expressão de puro terror no rosto de Harry, percebi que o assunto era sério.
E quando ele me contou o que havia acontecido, me lembro de ter parado de escutar e fiquei entorpecida.
Os corredores de Hogwarts nunca foram tão longos.
Tum-tum.
A enfermaria escura estava cheia, e quando o vi tão debilitado, precisei me sentar. Não encontrava minha voz.
Tum-tum.
Sentia meu coração bater forte, tão saudável, que desejei que ele estivesse batendo no peito de Ron.
Tum-tum.
Culpa, medo... desespero. Como eu pude fingir que não me importava?
Tum-tum.
Enquanto todos discutiam e teorizavam o que poderia ter acontecido, eu só fitava o rosto de Ron. Fred e George chegaram logo depois, mas não prestei muita atenção também. A enfermaria parecia estar barulhenta, mas eu tinha a impressão de estar escutando através de um chumaço de algodão nos ouvidos.
— Her-mi-o-ne – a voz rouca me despertou daquele estado de choque – Ca-mo-mi-la.
Senti que todos olhavam para mim. O prof. Dumbledore, prof. Snape, prof. Minerva, prof. Slughorn, Harry, Hagrid, os gêmeos e Ginny. Mas não me importei, me esforçava apenas para não cair no choro.
***
Mal senti o tempo passar. Depois de nos certificar de que Ron ficaria bem, Harry sabiamente me guiou para um dos atalhos ocultos por uma grande tapeçaria. Ele sabia que eu precisava de espaço antes de voltar para a torre da Grifinória.
E chorei.
Chorei tudo o que eu queria ter chorado naquelas noites sem dormir e por todo o estresse daquele dia. Chorei pelo medo quase irracional que eu senti ao cogitar que eu não pudesse mais vê-lo. Chorei por ter demorado tanto para me decidir, e contar sobre meus sentimentos. Chorei porque durante todo esse tempo, eu apenas coloquei minha máscara de alguém que não se importa.
Sendo que eu me importo tanto!
Droga, eu o amo! Como eu pude fugir assim?
Chorei tanto que meus olhos estavam pesados e inchados, e Harry, como sempre, me deu seu colo, esperando que eu desabafasse da forma que eu quisesse.
Mas não consegui dizer muitas coisas, as palavras que queriam sair, junto com toda aquela carga emocional eram para o idiota e descuidado do Ronald, que dormia pacificamente na enfermaria. Enquanto chorava, apertava a carta que havia lido naquele mesmo dia, ela exalava o mesmo calor que a presença dele, e as palavras ali escritas eram a certeza de que ele me diria pessoalmente com aquela voz alegre:
“Sinto sua falta, Hermione Granger. Então pare de ser tão cabeça dura, e me perdoe. Não consigo viver sem você, mas não conte isso para ninguém.
PS.: amanhã é meu aniversário, e sim, estou te chantageando!
PS.: e se você quer saber, eu me importo mais do que você imagina.
Com afeto,
Ron Weasley.”
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