Encontrando nossos corações
7 Encontrando meu coração (Ron)
Notas iniciais
Ron
Os dias que se seguiram a minha recuperação foram... intensos, por falta de palavras.
Assim que acordei, confuso e com uma baita dor de cabeça, reconheci o teto branco da enfermaria. Ainda era muito difuso quando eu tentava me lembrar do motivo de estar ali, mas Madame Pomfrey me explicou brevemente o que aconteceu – me avisando que eu teria de tomar uma poção de Arruda por uma semana – e tratou de logo chamar o professor Dumbledore, que trouxe Harry, Ginny e – para minha agradável surpresa – Hermione em seus calcanhares.
— ... e então te trouxeram para cá – à medida que Harry relatava o ocorrido, ele parecia mais pálido do que nunca – Ficamos extremamente assustados.
— Imagino, eu mesmo não me lembro de muita coisa – comentei, prestando atenção ao redor. Dumbledore já havia se retirado, após se certificar de que eu estava fora de perigo.
Mas eu não estava preocupado com o envenenamento, apesar de quase ter morrido. Minha cabeça só tentava imaginar o porquê de Hermione estar tão calada, abatida. Quando Harry e Ginny se depararam com meus olhos abertos, vieram correndo perguntar se estava tudo bem, como eu me sentia, parecendo tontos de alívio.
Enquanto Hermione se limitou a sentar na cadeira mais distante da cabeceira e olhar para qualquer lugar, menos para o meu rosto.
— Precisamos ir, passamos aqui porque mal conseguimos dormir até termos certeza de que você tinha acordado – Ginny me olhou como se pedisse desculpas, mas eu entendi que eles precisavam descansar. Os olhos caídos acusavam isso.
— Sem problemas...
Eles se levantaram e começaram a se despedir. Ginny me deu um beijo na testa e Harry deixou alguns sapos de chocolate que ele mesmo comprara – “Não tem poção do amor, prometo!”, ele disse para quebrar a tensão. Foi bom ter um motivo para rir naquela situação tão melancólica.
Hermione continuava estática, mas pareceu acordar de seus devaneios e ia se levantando para seguir os outros dois, sem dizer uma só palavra.
— Será que você poderia ficar mais um pouco?
As palavras saíram de minha boca antes que eu pudesse refreá-las. De relance, reparei que Harry olhou para Ginny em alerta, mas ela apenas deu de ombros e saiu da enfermaria, o puxando pela mão.
Voltei o corpo inteiramente na direção de Hermione, que tornara a se sentar, mas dava olhadas furtivas para a porta, como se estivesse planejando sair correndo dali.
É, isso me magoou um pouco.
— Está doente? – uma ótima forma de se começar uma conversa, inclusive.
— Não, por quê? – ela ainda olhava para a porta, e tentei não ficar irritado.
— Me desculpe, mas... você não me parece bem – evitei dizer “você está horrível” porque havia uma imensa probabilidade de isso causar mais uma briga entre nós. Os cabelos dela estavam mais cheios do que de costume, como se a dias não se preocupasse em penteá-los, seus olhos castanhos e intensos estavam mornos, quase sem brilho e estavam emoldurados por uma olheira delicada, mas aparente em seu rosto da cor de chocolate.
E nem assim ela poderia estar horrível.
— Não tenho dormido bem – deu de ombros.
— Ah...
Ficamos em um silêncio constrangedor, e comecei a brincar com uma linha solta nos cobertores. Eu queria muito conversar com ela naquele momento, mas enquanto tentava me distrair, continuei reparando que ela evitava meus olhos.
— Hermione, você está bem?
Aquela simples pergunta quase me fez ficar arrependido de tê-la feito.
Hermione parecia agora lutar contra as lágrimas que encheram seus olhos, e eu entrei em pânico. Não sabia o que poderia ter acontecido, se ela estava mentindo sobre estar doente, se era por conta da falta de sono, ou se era coisa de mulher. Fiquei pensando no que eu poderia fazer, só consegui erguer o corpo para me sentar e esticar o braço para pegar em uma de suas mãos.
— É que... – as lágrimas teimosas começaram a cair – eu fiquei tão preocupada, Ronald... faz dias que eu não consigo dormir, pensando na nossa amizade e de como ficou tudo tão confuso e vazio; e depois você faz isso! – ela indicou o leito em que eu estava deitado.
— Não se preocupe, eu estou bem – a resposta veio meio automática, porque meu cérebro ainda não havia processado tudo aquilo. Ela estava preocupada? Comigo? Ficara dias sem dormir por minha causa?
— Agora você está – ela fungou, limpando os olhos vermelhos com a manga do suéter fino que usava – Mas quando te trouxeram para cá, imóvel e mal conseguindo respirar...
Senti que ela tremia levemente e meu coração ficou em pedaços. Nunca na minha vida eu pensei que poderia causar aquele tipo de reação em Hermione Granger. E apesar de ter ficado secretamente feliz por saber que ela se preocupava, também não queria que sofresse.
Coloquei toda minha força de vontade – ainda estava bem fraco – para puxá-la para mais perto, e ela ofegou de surpresa. A abracei ali, sentindo o perfume de seus cabelos e sua pele quente em comparação a minha. Do jeito que meu coração batia acelerado, me perguntei se ela o estava sentindo, um pouco envergonhado.
Ficamos ali abraçados por um longo tempo. Senti o corpo de Mione ir relaxando à medida que o choro passava. O coração dela também estava batendo forte, eu podia sentir.
Não sei bem quanto tempo ficamos daquele jeito, mesmo depois de ela ter parado de chorar. Nossas respirações eram a única fonte de som naquela enfermaria, já que Madame Pomfrey estava recolhida em sua salinha e o resto dos leitos estavam vazios.
— Me desculpe – a ouvi sussurrar em meu peito. Senti um arrepio quando sua respiração quente tocou minha pele.
— Não se desculpe, deve ter sido assustador, eu não sei o que seria de mim se fosse um de vocês.
Se fosse você. Era o que eu queria dizer.
Ela pareceu pressentir que tinha algo a mais em minhas palavras e se afastou o suficiente para olhar em meus olhos pela primeira vez em muito tempo. Ainda não estavam brilhantes e intensos, devido ao cansaço e à choradeira recente, mas tinham aquele ar perspicaz que me deixava meio confuso e totalmente temeroso.
Naquele momento, porém, eu não estava com medo.
— Preciso te dizer uma coisa – ela murmurou, ainda olhando em meus olhos. Eu não conseguia sequer piscar, tal era o encantamento que ela tinha sobre mim. Ela me encarava de uma forma que eu nunca fui encarado antes. Parecia um misto de muitas coisas que eu ainda não compreendia, mas pude ver a determinação que ela tinha para me contar o que quer que fosse.
Quando ela abriu a boca, no entanto, a porta da enfermaria se escancarou, nos fazendo pular como gatos. Só nesse momento que percebi que Hermione estava sentada na cama junto comigo.
— Que maravilha! – a voz estridente e irritante que encheu a sala me fez pensar em todos os palavrões que eu conhecia em dezessete anos de existência.
***
A semana se passou e a cada dia, eu estava mais bem disposto. Madame Pomfrey havia assegurado que segunda-feira, pela manhã, eu poderia voltar a minha rotina e eu estava contente. Harry, Ginny e outros amigos, como Neville, Luna e Hagrid sempre passavam pela enfermaria para me visitar e contar as novidades. Meus pais, Bill e os gêmeos me visitaram duas vezes, com as mesmas expressões de alívio quando me encontravam mais saudável e forte. Hermione também comparecia quase todas as vezes, porém parecia evitar ficar sozinha comigo novamente, depois do escândalo que Lavender havia feito.
Por falar em Lavender, ela estava um pesadelo. Após chegar na enfermaria feito um búfalo raivoso, Hermione se recompôs do susto e foi embora, me deixando louco de curiosidade e remorso por ter saído tão facilmente.
Fui bombardeado com as perguntas inconvenientes da Lavender sobre meu relacionamento com Mione, tendo sempre que responder um desanimado “ela é minha amiga” ou “todos ficaram preocupados, relaxa”. Ela chegou até a insinuar que Hermione voltara a falar comigo porque eu tinha virado alvo de conversa nos corredores, o assunto da vez. Como se ela fizesse questão de ser popular.
Tive de morder a língua para não ser indelicado.
Ela também resolveu aparecer em uma das vezes que meus pais foram me visitar, parecendo encantada em conhecer seus sogros. Foi extremamente desconfortável quando ela abriu as portas cantarolando um “Uon-Uon!”, e se lançou em uma longa e penosa conversa sobre o quanto ela gostava de mim, olhando vez ou outra para Hermione, com desgosto. Papai foi até simpático com ela, mas mamãe fechou a cara em um azedume do mesmo jeito que fazia com Fleur, o que me animou um pouco. Fred e George, como sempre, não tardaram a me azucrinar com piadinhas e imitações sobre a forma com que Lavender me tratava.
Não queria ser rude, mas estava tão cheio dela que passei a fingir que dormia profundamente todas as vezes que ela me visitava. Era muito melhor do que sua companhia ultimamente, ainda mais porque eu não tinha muitas coisas boas para dizer sobre nós naquele momento.
No sábado seguinte, pela manhã, Harry veio me visitar rapidamente a caminho do campo de quadribol. Como Ginny acordara um pouco atrasada, ainda estava tomando café da manhã e não teria tempo de passar pela enfermaria. Fiquei nervoso quando ele me contara que teve de me substituir pelo McLaggen, que fora o segundo melhor nos testes para goleiro. Tinha medo de que ele ficasse com meu lugar permanentemente.
— Relaxa, Ron... ele pode voar bem, mas eu não o teria em minha equipe. O cara me tira do sério! – Harry tentava me explicar pacientemente todas as vezes que eu perguntava como o grandalhão loiro estava se saindo, como se tivesse pescado meus temores. Ele pegou a Firebolt e ia se virando, quando pareceu se lembrar de algo – Falando nisso, dá para você parar de fingir que está dormindo quando Lavender vem te visitar? Ela também está me deixando louco!
— Err... tudo bem – dei meu melhor sorriso amarelo.
— Se você não quer mais namorar, é só dizer a ela.
— Para você é fácil falar – Harry apenas riu.
— Sério, é mais fácil do que imagina.
— Enfim – achei melhor mudar de assunto – Mione vai passar por aqui?
— Acho que não – fiquei desapontadíssimo, e Harry deu um sorriso irônico – Ela estava tomando café com Ginny, mas disse que queria assistir ao jogo com Luna, e foi procurá-la.
— Ah sim... bem, então dê uma surra no McLaggen... quer dizer, na Lufa-Lufa por mim.
— Pode deixar – Harry saiu da enfermaria e eu me atentei para escutar o jogo de longe.
***
Pedi a Harry que dessa uma surra no McLaggen, mas parece que McLaggen deu uma surra em Harry, afinal.
De início, fiquei preocupado quando a maca trazia um Harry sujo de terra, balançando a cabeça molemente de um lado para o outro. Ele estava inconsciente e havia uma quantidade considerável de sangue em suas vestes. Porém, depois trocar suas roupas por pijamas, limpar e fazer os curativos, Madame Pomfrey lhe deu uma poção revigorante, e Harry acordou querendo assassinar o colega de time que havia atingido sua cabeça com um balaço. A enfermeira precisou de um pouco de força bruta para o deixar na cama, ameaçando o prender ali por mágica.
Ri um pouco da situação, mas a verdade é que eu estava aliviado de McLaggen ter feito bosta.
Harry acabou se acalmando – depois de tercemos um rosário contra o goleiro substituto da Grifinória – e eu lhe contei sobre a narração espetacular que Luna Lovegood fez do jogo. Acho que eu nunca me senti tão alegre dentro de um hospital. Ficamos rindo disso, fazendo comentários, até que a porta da enfermaria se abriu. Ginny e Hermione vinham acompanhadas de Luna, que trazia dois pequenos arranjos de florezinhas delicadas; ela dizia que eram para alegrar nossas mesinhas de cabeceira. Fiquei um pouco sem graça ao ver o sorriso reluzente que Hermione lançou a Luna. Ela vestia uma camiseta cor de vinho, com o leão de nossa casa estampado em dourado. Os cabelos estavam presos naquelas tranças bonitas que ela aprendera a fazer. Pelo canto dos olhos, Ginny sorria maliciosamente para mim, então pigarrei e elogiei a narração de Luna novamente, enquanto comíamos feijões de todos os sabores e Ginny nos contou que pegou uma detenção daquelas por ter tentado derrubar McLaggen da vassoura quando o jogo acabou.
— Vingativa, irmãzinha?
— Como se você tivesse sangue de barata – ela me fuzilou com os olhos.
***
Assim que as meninas foram embora, Harry caiu no sono, e eu fiquei perdido em pensamentos mais uma vez. Tive vontade de pedir que Hermione ficasse mais um pouco, como da outra vez, mas não ficaríamos sozinhos de fato. Harry é nosso melhor amigo, mas ainda não era o momento de contar para ele sobre meus sentimentos por Mione.
Sobre o quanto eu a amava.
Sim, amava!
Depois de uma semana encalhado em uma cama, meus sentimentos foram tomando lugares desconhecidos, mas agradáveis. Me peguei pensando nela constantemente, no calor de seu corpo, do meu coração ansiando por encontrar o dela. Eles batiam tão acelerados!
Sorri como sempre fazia ao pensar nela. Era muito louco na minha cabeça, que todas as vezes em que eu jurava que era só amizade, sempre tinha um desapontamento. Como hoje cedo, por exemplo. Ou quando ela levou o McLaggen – argh! – para a festa do Slughorn; ou quando ela foi acompanhante do Krum naquele baile. Agora parecia tão distante! Eu não tinha dimensão de meus sentimentos, e eu precisava dizer a ela.
Parecia loucura, e eu estaria muito encrencado se não desse certo, mas me levantei e vesti um roupão sobre o pijama. O relógio mostrava que era um pouco mais de oito e meia da noite, cedo demais para ter a sala comunal totalmente vazia; saí da enfermaria o mais silenciosamente possível e desatei a correr.
Eu estava indo encontrar meu coração.
Fale com o autor