Encontrando Um Anjo

1 Capítulo Único


Paula chegou ao seu primeiro dia de aula na faculdade. O campus era enorme, e ela ficou meio perdida. Viu uma jovem morena que usava óculos, que carregava uma pesada pasta nas mãos. Professora ou nerd, pensou? No primeiro dia de aula dificilmente trazíamos alguma coisa... Paula trouxera um caderno e uma caneta, e isso já lhe parecia muita coisa.

- Oi, você poderia me dizer aonde é a coordenação do curso gestão de turismo?

- Prédio 3.

- Fica para que lado? — A jovem lhe apontou o lado oeste. — Está bem, brigada.

Paula saiu nessa direção a procura do tal "prédio 3".

Enquanto entrava no prédio apontado, observou uma bonita moça que vinha caminhando pelo lado do sul, na mesma direção. Não pôde deixar de parar um segundo para apreciar aquela admirável beleza. A jovem tinha vestes simples e os longos cabelos castanhos bagunçados, e esses fatores apenas realçavam mais a sua beleza. Finalmente fora observada, e os olhos verdes da garota lhe lembrara de que estava atrasada. Subira a alta rampa que se posicionava ao norte do estacionamento 1 da faculdade, e entrara rápido no prédio que possuía uma grande placa com o nome 3.

Estando lá dentro, ela logo perdeu a jovem de vista. Era muita gente passando pra lá e pra cá, procurando suas salas, e verificando se estavam no lugar certo. Paula não pôde deixar de olhar em sua volta, tentando reconhecer aquela bela face novamente. Se arrependeu profundamente por não ter se apresentado.

Encontrou finalmente a coordenação de seu curso, um ambiente apertado que estava cheia de jovens, que conversavam alto. Viu o quadro de avisos que ficava próximo a porta de acesso à coordenação e leu a lista das salas e turmas desse semestre para cada curso, incluindo o seu. Desistiu de entrar, não iria perder nada mesmo, diante da bagunça que escutava vindo lá de dentro.

Chegou à sua sala, que apenas confirmou ser a verdadeira, ao ver seu nome escrito no papel que tinham colado à porta. Finalmente! Foi quando ela olhou para a greta de vidro que possuía na porta, que dava para ver o fundo da sala, e percebeu que estava tudo deserto, e com a luz apagada. Abriu a porta, confusa. Não seria essa a sala? Cadê os alunos? Sentou-se na primeira cadeira que avistou, e ali ficou, esperando.

Passou mais de quinze minutos esperando, até se tocar de que alguma coisa estava errada. Havia chegado alguns minutos depois do horário, portanto poderia ter perdido algum comunicado importante. Talvez a aula já estivesse acontecendo em outro lugar, naquele dia em particular, ou simplesmente o professor(a) não teria podido comparecer.

Voltara à coordenação, quando avistara novamente a jovem que havia admirado há pouco. Ela conversava animadamente com algumas pessoas, e Paula não demorou para perceber que não se tratava de uma caloura. Abriu a porta da coordenação, finalmente, e a menina imediatamente a olhou. Embora ela estivesse calada, desde que Paula entrara na coordenação, uma outra menina continuava falando, e logo a chamara pelo apelido "Duda". Paula aproximou-se de uma senhora que tinha escrito na blusa preta que usava "assistente da coordenação".

- Eu sou caloura, minha aula estava programada para começar 1 hora atrás na sala 15 do 4º andar. Mas não tem ninguém lá. Você poderia me dizer se a sala mudou?

- 4º andar? — Repetiu rapidamente, como se estivesse tentando lembrar de alguma coisa. Pegou rapidamente uma lista de papéis e logo respondeu — Ah, sim. 1º semestre, do turno matutino. Você só terá aula 10h30.

- 10h30? Mas isso ainda é daqui há 2h.

- Exatamente. Não te avisaram quando você fez a matrícula? Dia de segunda feira vocês não tem a primeira aula.

- Não. — Paula respondeu forçando um sorriso. Até que a situação não seria de todo ruim, imaginando que poderia dormir até mais tarde toda segunda, mas só de lembrar que estava lá, e que teria de esperar até tarde para ter aula, dava vontade de gritar. — Obrigada. — apenas disse, fingindo uma conformação que intimamente não existia.

Paula fechou a porta, e foi se afastando, quando ouviu uma voz por trás. .

- Então você é caloura? — Duda perguntou, a encarando.

- Sim. — Respondeu, assim que virou, sentindo uma profunda sensação de agitação por estar sendo abordada por aquela garota que a fascinava com sua beleza.

- Eu estou no 3º semestre. Meu nome é Eduarda.

- Paula. — Respondeu, sem saber se dava uma mão, ou forçava um rápido abraço. Na dúvida, simplesmente deu um breve toque no ombro de Eduarda.

- Eu te vi mais cedo entrando no campus... você está meio perdida ainda, não é?

- Sim. — Riu, encabulada. Se ela a viu mais cedo, teria visto também a forma que ela a admirava. Teria percebido? Que vergonha!

- Eu ouvi a conversa ali dentro, você está com um horário livre, então... Se você quiser eu posso te mostrar alguns lugares daqui, que você vai precisar conhecer ...

- Eu adoraria. — Abriu um largo sorriso, provocando em Duda a mesma reação.

As duas caminharam pela faculdade, e Duda apresentou a Paula o laboratório de informática, ao auditório, ao espaço de xérox, e por fim, a cantina. Saíram de lá, e subiram novamente a rampa que dava acesso ao prédio 3.

- Vamos sentar um pouco?

- Aqui? — Perguntou Paula estranhando a idéia de sentar na rampa.

- Sim. As pessoas fazem isso todo o tempo. — Disse, mostrando dois rapazes um pouco mais abaixo, e um grupo de pessoas mais em cima encostados no corrimão, todos conversando tranquilamente.

Assim que elas se sentaram, Duda procurou por um assunto.

- Então... quantos anos você tem mesmo?

- 19 — Respondeu a novata — E você?

- 21.

Duda encarou Paula com um olhar curioso.

- Você gosta de que tipo de música?

- Rock brasileiro e Mpb...

- Hum... — Pensou um pouco e continuou — Rebelde e romântica, hein?

Paula sorriu, tímida.

- Nunca tinha pensado nisso por meu gosto musical, mas sim...

- Eu também me considero assim, para ser franca. Mas também adoro músicas internacionais. As pessoas sempre pedem pra eu cantar.

- Você é cantora? Profissional?

- Bom... eu tento, né? Há 1 ano e meio eu entrei em uma banda só de mulheres. Se chama "Girls Bafo", já ouviu falar?

Paula riu assim que ouviu o nome da banda, e Duda a observou em silêncio, mas com um sorriso nos lábios.

- O nome é bem original. Adorei! E o que significa?

- Meninas belas e fortes de atitude original.

Paula refletiu por um segundo sobre o nome da banda.

- Bom, eu realmente não conheço as outras da banda, mas tirando por você, eu concordo plenamente.

Duda sorriu.

- Qualquer dia desses eu te convidarei para ir a algum ensaio da banda.

- Eu iria adorar.

- O prazer seria todo meu.

As duas se entreolharam, em silêncio.

- Você gosta do curso? — Perguntou Paula.

- Eu sempre tive curiosidade de estudar turismo, e meu pai também tem uma rede de hotelarias, então...

- Uniu o útil ao agradável.

- Na verdade, está mais para unir o útil ao obrigado.

Paula deu uma breve gargalhada à ironia de Duda.

- Para ser franca, o meu sonho é cantar. Transmitir a todos o meu modo de pensar, com músicas agradáveis e substanciosas. Que transmitam mensagens, sabe?

- Tipo a Pitty?

- Bom, não estava pensando nela, mas pode ser também. As músicas da Pitty são um bom exemplo disso. — deu uma pausa — Então você curte a Pitty?

- Na verdade, sim. — Respondeu, corando um pouco — Sou fã há anos.

- Eu costumo cantar uma música da pitty nos shows.

- Qual?

- Não sou muito boa com nomes. Deixa eu ver se eu me lembro... — Duda começou a cantarolar a melodia baixinho, enquanto tentava lembrar a letra — "Esqueci as regras do jogo, e não sei mais jogar. Veio escrito na embalagem, use e saia pra agitar ..." — cantou, finalmente.

- " ... Vou com os outros pro abate, o meu dono vai lucrar. Seja cedo ou seja tarde, quando isso vai mudar ". — Paula a ajudou a concluir o parágrafo. — "Brinquedo torto" é o nome.

- Ah, verdade. Como pude esquecer? — Disse Duda, rindo de sua própria lerdeza. — Você até que não canta muito mal.

- Nossa, aí o meu respeito por você termina.

- Por que? — Perguntou, rindo.

- Eu não canto mal? Como assim? Sou péssima. Vou te dar outra chance, para me falar a verdade. Pronto, fale agora.

Após uma pausa em silêncio, Duda admitiu.

- Você é péssima.

Depois de um tempo sem assunto, Duda perguntou.

- Você tem namorado?

Paula fez um súbito silêncio.

- Assunto tenso? — Perguntou Duda, brincando com a reação da outra.

- Não, é que... Eu não tenho namorado.

- Ah, entendi, então não precisava ficar tensa. Era só dizer "solteira".

- Bom, isso aí também, mas... — pausa — a verdade é que ... eu não namoro com meninos.

- Hum... — refletiu — Como eu disse... rebelde e romântica, hein?

Paula riu, corada, enquanto Duda a encarava com uma expressão curiosa.

- Esse seu colar é lindo. — Disse Paula interrompendo o pensamento de Duda.

- Também acho. Foi um presente que eu recebi.

- De alguém especial, certamente.

- Sim. — Duda deu um pequeno sorriso e tocou no colar, tendo boas lembranças. De repente, parou e observou Paula por um instante. — Vou tirar ele para você ver.

- Não precisa. — Disse, em vão, já recebendo o colar que Duda lhe entregava.

Paula tocou no colar e abiu o pingente de formato de uma linda borboleta vermelha com asas amarelas, nele estava escrito "Voe", em um papel dourado. Devolveu o colar para Duda, mas assim que a menina tocou em sua mão, o colar desceu a rampa, e diante da altura em que elas estavam, foi caindo até sumir da vista delas.

- Foi para o estacionamento — Disse Paula apontando para a parte de baixo da rampa — Vou buscar para você. Espera aqui.

- N-não precisa. — Falou Duda, meio que em choque.

Sem dizer mais nada, Paula desceu a rampa, olhando para o chão. Nada viu. Pessoas passavam de lá pra cá, e vice versa, e nesse instante começou a chover. Era um colar tão lindo e Duda só havia tirado do pescoço por sua causa. Estava se sentindo culpada e não sairia dali até encontrar aquele colar, mesmo que isso significasse ficar encharcada por causa da chuva.

Olhou para o chão que agora tinha pequenas poças de água começando a se formar. Olhou nas gramas que ficavam ao lado da rampa, e nada. Por fim, teve a luz de olhar debaixo de um dos carros estacionados mais à frente. Não havia pensado nisso ainda, porque era um pouco distante do lugar aonde elas estavam, porém, com a movimentação que a rampa possuía, alguém poderia ter chutado. Se abaixou ao lado do carro e finalmente avistou o objeto. A borboleta ainda estava intacta, por sorte, mas o papelzinho havia sumido durante a queda. E naquela chuva, evidentemente, seria impossível de encontrá-lo.

Decidiu retornar para o lugar onde elas estavam sentada, e percebeu que a rampa estava deserta. Entrou no prédio procurando pela jovem, mas e agora, como a encontraria? Sabia o seu nome, e o semestre, então poderia passar na coordenação para descobrir sua sala. Fora primeiro até o banheiro, e limpara com cuidado o colar de Duda. Realmente podia sentir algo em especial naquele colar, que não a permitira deixar de procurá-lo, mesmo na chuva.

De repente olhou para o relógio, que apontava para quase 11h. Sua aula já havia começado há alguns minutos. Correu até a sala de aula, que finalmente estava cheia, e se sentou na penúltima cadeira da 3ª fileira, que ficava encostada na parede, e o mais perto possível da porta. Estava constrangida pelo horário que chegara. Paula finalmente observou os colegas em volta, e reconheceu uma, que estava sentada na outra fileira ao seu lado. Sussurrando, ela disse.

- Clara! Não acredito que estou te vendo por aqui! O que está fazendo na cidade?

- Me mudei há alguns meses.

- Nossa, fico muito feliz por saber. Mas... porque você não me ligou?

- Menina, eu estava tão cheia de coisas pra fazer, você não tem noção. Mas ainda estava nos meus planos te ligar.

- E sua irmã Cecília, tem notícias dela?

- Claro que sim. Voltou com a Bruna, acredita?

- Mentira! Sério?! — Expressou, evidentemente contente.

- Sim. Mas porque não pergunta diretamente pra ela? — Clara respondeu apontando para a irmã que se encontrava em sua frente. Paula que ainda não tinha percebido a presença dela, abriu um sorriso. Cecília, por sua vez, largou por um instante um caderno em que estava escrevendo e olhou para trás a ponto de cumprimentar a amiga que a muito tempo não via.

- Quer dizer que você voltou com a Bruna? — Sussurrou, sorrindo, e Cecília deu um breve sorriso feliz e voltou o olhar para o professor.

"Continua uma nerd", pensou Paula.

Bruna e Cecília namoraram por 5 anos, até que há 2 anos atrás, elas simplesmente se separaram, com o relacionamento desgastado. As duas eram mais velhas que Paula por 4 anos, enquanto Clara, a irmã mais nova de Cecília, tinha apenas 1 ano a mais que a jovem.

Após passar o momento de euforia e reconhecimento dos colegas de classe, Paula finalmente sentiu falta do caderno que trouxera para a faculdade. Lembrou novamente do momento na rampa, onde o havia visto pela última vez. Certamente Duda o levara quando precisou sair, impedindo assim que alguém o pegasse.

No final da aula, as meninas finalmente se cumprimentaram corretamente, com direito a abraços apertados.

- Fico muito feliz que vocês tenham voltado, Cecília. Você sabe como eu sempre achei lindo vocês duas juntas. Fiquei triste quando vocês terminaram, vocês eram a minha inspiração... um casal modelo.

- No início eu pensei que não fóssemos mais voltar. O término foi bom, serviu como um alívio para tantas discussões. Ela seguiu o caminho, e eu o meu... Eu viajei para São Paulo e depois descobri que Bruna voltou com aquela tal e percebi que ainda não tinha deixado de amar... Voltei pra cidade, e tentei recuperá-la...

- Aquela lá a que você se refere é a Cíntia? A primeira namorada?

- É. — Respondeu Clara.

- E a Bruna onde está, finalmente?

- Está morando comigo agora. Está fazendo curso de arte cênica.

- Ela está aqui também? Nossa, que maravilha. Abandonaram o interior mesmo hein? — Brincou Paula — Eu estou realmente feliz de tê-las por aqui.

- Você não quer ir com a gente pra casa? Você vê a Bruna. — Ofereceu Clara.

Paula ficou em dúvida, queria procurar Duda, mas também gostaria muito de ver a Bruna. Acabou decidindo por acompanhar as meninas. Passou toda a tarde na casa delas, colocando os papos em dia. Quando finalmente voltou pra casa, correu para o computador e acessou a internet.

O "GOOGLE" teria que ajudá-la. Procurou pela banda "Girls Bafo" e logo descobriu uma página da banda hospedada no site PALCO MP3, feito para artistas e bandas independentes. Lá haviam músicas e o perfil dos componentes da banda, e Paula imediatamente entrou no de Duda, e encontrou um email para contato.

Lhe escreveu:

## "Duda, nos conhecemos hoje na faculdade. Por sorte eu encontrei o seu email. Eu estou com seu colar, e talvez você esteja com o meu caderno. Queria marcar de nos encontrarmos amanhã para eu te entregar." ##

Enviou.

Paula retornou ao perfil da jovem, e leu o poema que Duda havia escrito: "Tenho pressa. Faço da vida minhas palavras, rebeldes inatas. Amadureço como as plantas que demoram para crescer. Mas, acima de qualquer coisa, me atrevo a querer. Sou uma lagarta, e meu destino é me desenvolver, para finalmente poder ser." Embora sem conseguir entender o que o poema queria dizer, Paula o achou interessante. Voltou o seu olhar para o perfil, e depois ouviu as músicas da banda.

2 horas depois, ela finalmente viu o site piscar na área de trabalho, indicando uma mensagem nova recebida. Ansiosa, a abriu de imediato.

## "Oi Paula! Desculpa ter saído sem te dizer nada, tive que entrar correndo pra aula, e depois te procurei no final da manhã e não te encontrei. Estou com seu caderno sim, e obrigada por achar o meu colar. Será um prazer reencontrá-la amanhã!" ##

Na mesma hora, Paula enviou:

## "Rampa, intervalo?" ##

Instantes depois, recebeu a resposta.

## "Combinado" ##

No outro dia, Paula chegou à faculdade ansiosa. Queria muito rever Duda. Assistiu as duas primeiras aulas apenas imaginando como seria a sensação de revê-la. Quando finalmente tocou o sinal, ela saiu correndo, enquanto suas amigas a procuravam para convidá-la para ir a cantina.

Paula chegou na rampa, e se sentou, e alguns segundos depois Duda apareceu, e tocou no seu ombro de leve, alertando-a de sua presença. Em seguida, sentou ao seu lado.

- Então, como foi a primeira aula ontem? — Perguntou, claramente tentando puxar um assunto

- Normal. Primeira aula nunca diz nada.

- Acho que sei bem o que você quer dizer. Por isso filei as duas primeiras aulas ontem.

- Ah, foi por isso que você estava livre naquele horário?

- Sim... — Duda sorriu, em uma expressâo cômica de que fora pega no flagra.

- Que bonito!

- E eu nem posso dizer que me arrependo, porque se eu não tivesse filado aquela aula, não teria te conhecido.

Paula sorriu, satisfeita com o que ouvira.

- Eu também não me arrependo cedo, e de não ter lido o email que recebi da coordenação avisando da minha grade de aulas. — Respondeu recebendo uma divertida risada de Duda.

- Tá vendo? Ontem foi um dia mágico. Tudo conspirou para que pudéssemos nos encontrar.

Paula riu da brincadeira de Duda.

- Falando em mágica ... — Tirou o colar da bolsa — Isso aqui é seu. — Estendeu a mão para que Duda finalmente o pegasse — Infelizmente perdeu a mensagem de dentro.

Duda o olhou, parecendo triste por um momento, mas depois dera um legítimo sorriso.

- Coloque você.

- O que?! — Paula exclamou tensa.

- Coloque você... — Repetiu, movendo os cabelos para trás, para liberar o espaço. Vermelha, Paula posicionou-se às costas da jovem, e ajeitou o colar no pescoço de Duda. Sentiu a pele da garota por alguns instantes, e disfarçou a pequena demora como se estivesse com dificuldades para encaixar o fecho. Duda, por sua vez, sorriu com a sensação do toque. Paula finalmente o encaixou, e retornou para o lado de Duda, que a encarou ainda sorridente.

- E eu acho que isso é seu. — Disse, tirando de sua mochila o caderno.

Paula a agradeceu, e Duda a olhou profundamente.

- Não, eu que tenho que agradecer o que você fez por mim ontem... Procurar o colar por tanto tempo, sem ele ser nada pra você.

- Mas era pra você. — Argumentou, arrancando um outro sorriso de Duda.

- Você é muito linda! — Duda deu um estalado beijo em Paula — Agora vou precisar voltar para a sala, acabou o intervalo.

- É, eu também. — Falou, sem graça. Nem havia visto o tempo passar.

- Meu telefone está na última folha. Me ligue no horário marcado. — Disse Duda, já entrando no prédio, enquanto Paula a observou paralizada. Quando voltou a si, pegou imediatamente o caderno e o abriu na última folha. Havia o seguinte recado:

" Adorei te conhecer. E mais uma vez obrigada por achar o meu colar, você não faz idéia do quanto essa atitude foi importante pra mim "

No final da folha, Paula viu em uma letra de outra cor, o número de telefone de Duda, e ao lado, apenas escrito: às 20h.

Paula sorriu e voltou para a aula rezando para o tempo voar e as 20h chegar logo. Mas, pelo contrário, o tempo demorou uma eternidade, a medida que sua ansiedade aumentava ainda mais.

Finalmente dera 20h. Paula sem querer parecer desesperada, ou ansiosa, esperou mais alguns instantes para ligar. 20h04 fora o limite, e ela simplesmente discou. Depois de tocar umas 2 vezes, a ligação fora atendida.

- Paula... — Disse, ao invés de dizer alô.

- Oi! Como você sabia ...?

- Sou adivinha.

- Mentira! Você só chutou. — Brincou Paula.

- É, tem razão. Mais uma vez obrigada pelo colar.

- Foi um prazer recuperá-lo, só sinto muito pelo papel ter se perdido.

- Não sinta. Essa parte na verdade foi bem simbólica. — Admitiu, misteriosa.

- Por que?

- Algum dia eu te conto. E prometo que não irá demorar muito.

- Está bem.

As duas continuaram conversando por muito tempo, e sobre diversos assuntos, mas uma coisa Paula ainda não havia perguntado, e sua curiosidade não estava lhe deixando em paz.

- Ei, posso te perguntar uma coisa?

- Claro. O que?

- Porque eu deveria ligar às 20h?

Um breve silêncio se fez no outro lado da linha, e Paula quase se arrependeu de ter perguntado.

- Porque nesse horário eu sempre estou em casa...

- Ah, pensei que pudesse haver alguma outra razão. — Falou, desapontada.

- Talvez haja... Mas mesmo que houvesse, eu só diria em outro momento.

- Você adora me deixar curiosa, Duda.

- Essa é a minha intenção... — Duda riu e levou a outra a uma gargalhada.

- E você ainda admite?

Mais uns dias se passaram e os encontros na rampa durante o intervalo se tornaram habituais. Clara começou a estranhar os sumiços da jovem, e finalmente durante uma aula chata aproveitou para sondá-la, por mensagens de texto.

= " O que você tanto faz nos intervalos? " =

Paula sentiu o celular vibrando e o pegou. Leu a mensagem que havia recebido, e olhou para a amiga que a encarava rindo. Começou a digitar.

= " É uma menina que conheci no primeiro dia. Vou encontrá-la " =

Ansiosa, Clara imediatamente abriu a mensagem que acabara de chegar, e sorriu com a resposta.

= " Você tá afim dela? " =

Vermelha, Paula respondeu.

= " Deixe de ser curiosa " =

Em seguida, recebeu outra mensagem.

= " Ah, me diga, senão vou te seguir no intervalo e me apresentar a misteriosa! kkkk " =

Paula a encarou rindo com aquela expressão de "Você não faria isso", e depois respondeu.

= " Está bem, admito. Totalmente " =

Clara deu um pequeno sorriso de satisfação ao ler a resposta.

Na hora do intervalo, Paula chegou à rampa e avistou logo Duda. Sentou ao seu lado, como de costume.

- Quer? — Perguntou Paula, oferecendo um pirulito a Duda.

- Claro.

Depois de alguns instantes chupando o pirulito, Duda observou a amiga.

- Você não comprou um pra você?

- Já chupei mais cedo.

- Ah, então vamos dividir esse. — Disse, decidida, tirando o pirulito da boca e oferecendo para Paula, que ficou vermelha, e mordeu os lábios de leve em sinal de nervoso.

- Não precisa!

- Você se incomoda de dividir um pirulito comigo? — Perguntou Duda, incisiva, deixando a outra constrangida.

- Claro que não. — Respondeu, recebendo imediatamente o pirulito em mãos.

E assim, elas compartilharam o pirulito até ele derreter totalmente.

- Hoje é o dia. — Avisou Duda.

- Do que?

- As informações que fiquei sem te responder, eu disse que um dia te diria... Chegou o momento.

Paula a olhou, sentindo a curiosidade voltar.

- Então diga.

- Aqui está. — Tirou da bolsa um pequeno envelope, e o entregou para Paula.

- As minhas respostas estão aí?

- Sim.

- Todas? — Perguntou Paula em tom provocativo.

- Talvez. — Duda levantou a sombrancelha, e sorriu.

- Posso ler agora?

- Não, não, não. Você vai ler depois que eu for embora.

- Não achei que você fosse tão tímida. — Brincou

- Pode falar o que quiser, mas você só vai ler isso mais tarde.

- Ah, adoro pessoas mandonas! — Paula brincou novamente, levando Duda a sorrir com malícia.

- Então, eu agora já vou. Imagino que você deve estar muito curiosa, mas só leia depois, OK?

- Seu pedido é uma ordem, patroa!

Duda saiu dando risada da perturbação de Paula, que se controlou para não abrir logo aquele envelope. Foi até a sala de aula e quando não aguentou mais o abriu, finalmente.

" Paula,

Pode parecer uma bobagem dizer isso por carta, mas a verdade é que eu queria te fazer uma surpresa, mas não encontrei um momento apropriado. Por isso, a carta me pareceu algo mais válido. Onde estávamos mesmo? Ah sim, suas perguntas.

Bem, o colar foi o presente de uma pessoa muito especial. Minha primeira namorada, de fato. E ela escreveu "Voe" no papel me incentivando a assumir o que eu sintia, que na época eu não conseguia. E, um certo dia, depois que terminamos, tivemos uma dessas conversas incrivelmente inteligentes, e ela me disse que eu só conseguiria seguir em frente, esquecê-la, no momento em que eu conseguisse voar pelas minhas próprias asas.

À princípio é claro, eu não compreendi o que ela queria dizer, mas quando eu tirei o colar para te mostrar, coisa que nunca havia feito antes, e estranhamente acabei deixando-o cair, percebi que finalmente estava pronta. E que havia finalmente encontrado alguém que me trouxesse de volta essa vontade... de voar. Por isso, quando você me devolveu o colar e me disse que o papel havia se perdido, eu não me importei. Simbolicamente, eu não precisava mais dele.

Agora, a última pergunta. Caso você ainda não tenha concluído isso, que está mais do que óbvio, eu pedi que você me ligasse sempre às 20h, porque o nosso primeiro dia de aula (e primeiro encontro) foi no dia 20 de fevereiro.

Duda"

À noite, Paula ligou para Duda, e ela não atendeu. Preocupada, Paula mandou um email perguntando se ela estava online, e instantaneamente recebeu de retorno um emoticon envergonhado. Paula riu, e mandou como resposta o seguinte recado:

" Até amanhã, no mesmo bat-horário e bat-lugar :* "

Paula foi dormir tranquila, e feliz. Amanhã seria "O" dia.

Finalmente acordara no outro dia com o despertador. Olhou no computador se havia recebido alguma resposta de Duda, e notou que não. "Quem cala, consente", imaginou. Correu para a faculdade, mais animada que o normal. Conversou com Clara sobre o que tinha acontecido por sms, e mostrou a carta.

= " Que horas vocês vão se encontrar? " =

= " O mesmo horário de sempre... " =

= " E aí, você vai responder como pra ela? " =

= " Responder? Ela não perguntou nada :S " =

= "Ah, mas ela praticamente se declarou. Você vai ter que dizer alguma coisa " =

= " Ah sei lá! Na hora eu vejo. Ja estou ansiosa o suficiente! kkk " =

Finalmente deu o intervalo e Paula saiu correndo em direção ao elevador, ansiosa. Não queria se atrasar nenhum segundo. Ao mesmo tempo, do lado contrário, e em outro andar, Duda foi se adiantando à escadaria. Quando ambas chegaram ao térreo, cada uma vindo de um lado, elas finalmente se encontraram. Paula a olhou e sorriu, enquanto Duda a encarava um pouco nervosa.

Se aproximaram.

- Vamos? — Perguntou Paula, dando o braço para Duda se apoiar.

- Sim.

As duas foram até a rampa, e se sentaram, no mesmo lugar de costume.

- Você veio.

- Claro que eu viria. — Admitiu Paula.

- Não sei, depois de tudo que eu escrevi, pensei que você fosse sair correndo.

- É, isso passou pela minha cabeça. — Brincou, arrancando finalmente um sorriso de Duda, que ainda continuava tensa. — Gostei da idéia da carta.

As duas se entreolharam, sérias.

- Por causa das respostas, ou... por causa do que eu admiti nela?

- Eu diria que... pelas duas coisas. — Paula sorriu, finalmente tranquilizando a outra. — E eu imaginei que pudesse ser aquilo... 20h.

- Mentira!

- Ahhh... estou falando a verdade! — Paula fez birra, levando Duda a fazer cócegas nela.

As duas riram, e depois pararam, se entreolhando.

- Quer dizer que eu te dou vontade de querer voar?

- ... Para bem longe! — Completou Duda, abusando Paula.

Paula até riu por um breve momento, mas logo depois a observou séria. Sua expressão facial era bastante amorosa. Tocou no rosto de Duda, e o acariciou sutilmente.

- Acho que a melhor coisa que já me aconteceu foi vir pra cá... pra essa faculdade. Estar aqui, desde o primeiro dia, foi mágico. E você é a maior razão disso.

Duda sorriu e mordeu os lábios de leve, e Paula aproximou o rosto em direção ao da outra.

- Será que eu... posso?

- Vem comigo.

Duda se levantou e puxou Paula pela mão. A levou em uma pequena praça que havia por de trás do Prédio 2, onde havia poucas pessoas por ali espalhadas, e apenas casais. Sentaram na grama um pouco mais afastadas, e Duda finalmente respondeu.

- Agora pode.

Paula sorriu, e a puxou para um beijo.

Era absolutamente mágico estar com Duda, e aquele beijo só serviu de confirmação para o que Paula já sabia desde o momento em que a viu chegando no Prédio 3, no primeiro dia de aula: Aquela seria a pessoa com quem gostaria de passar o resto de sua vida. E, juntas, as duas poderiam finalmente 'voar', se arriscar diante das incertezas da vida, com a simples certeza de que estavam apaixonadas.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!