Enchanted
21 Capítulo 21 - Save You
Notas iniciais
Take a breath,
I'll pull myself together
Just another step, until I reach the door
You'll never know the way,
It tears me up inside to see you
Dimitri andava de um lado para o outro. Os passos ecoavam na sala fria e impessoal. Não conseguia dormir, não consegui comer e também não conseguia ficar parado. Também não voltava para casa há quase uma semana, simplesmente não suportava.
– Dimka!
Uma voz jovem e preocupada o chamou paralisando-o de chofre. Ergueu a cabeça do chão branco e encarou uma jovem de cabelos e olhos castanhos. Ela corria em sua direção e não hesitou em abraça-lo com força.
De início Dimitri não soube o que fazer, paralisado como estava pela surpresa. Enfim, seus ombros relaxaram e ele abraçou o corpo pequeno da moça. Suspirou. Há dias precisava disso, de carinho e conforto. Não que a família de Rose, especialmente Lissa, não tivessem sido prestativos, mas cada um deles também tinha sua dose de preocupação e o mesmo peso sob os ombros do grupo. O consolo não funcionava muito bem.
– O que você está fazendo aqui? – indagou em um sussurro contra os cabelos macios. Percebeu que haviam luzes avermelhadas nele. – Era para você estar na faculdade, Viktoria.
– Posso faltar alguns dias. Família vem em primeiro lugar.
Dimitri abraçou a irmã mais forte, se permitindo esse momento de defesas baixas. Após minutos de silêncio, se soltaram e sentaram-se em um sofá azul e desconfortável.
– Como soube?
– Mamãe me ligou. Estava morrendo de preocupação e com o coração em frangalhos. Eu sabia que ela não iria te deixar sozinho, mas Sonya está prestes a ter o bebê, não achei justo deixar tudo com ela. E achei que você iria preferir minha presença à de vovó.
Dimitri segurou sua mão e fechou os olhos, sem conseguir sorrir com a provocação sobre sua avó rígida, porém cheia de amor.
– Obrigada. De verdade, Vik. Eu acho que precisava disso.
Viktoria apertou as mãos do irmão e apoiou a cabeça no ombro dele.
– E como ela está?
Dimitri suspirou, brincando com os dedos da irmã nos seus. Lembrou-se de quando ela era pequena, suas mãozinhas quentes se seguravam com força nos seus dedos procurando por apoio ao andar. Ou de quando eram suas mãos nas costas dela que a ajudavam a andar de bicicleta. Agora era a vez dele que precisava de apoio.
– Viva, por enquanto. – Viktoria beliscou seu braço – Ai, Vik. Não estou sendo negativo, é uma constatação. Rose perdeu muito sangue até o socorro chegar. As balas fizeram muito estrago internamente. Na primeira cirurgia quase não conseguiram estancar uma hemorragia e depois ela entrou em choque de novo e precisou voltar para a mesa cirúrgica...
– Pare de falar assim, feito um robô. – ralhou a irmã – Feito um desistente.
– Não estou desistindo dela, Vik. – A voz de Dimitri endureceu – Nunca irei. Rose é forte e uma lutadora. Mas não somos deuses, Vik, somos apenas humanos. Tudo o que me resta é rezar para que o melhor aconteça, e às vezes o melhor pode não trazer necessariamente felicidade. A vida está além de nossas mãos.
– Eu sei... mas não quero pensar que o ruim possa acontecer. Quero dizer, eu sei que não a conheço, mas sei que se você a escolheu é porque ela é especial.
– Ela é, Vik. – Dimitri beijou o alto da cabeça da irmã com carinho.
Ficaram sentados e abraçados por mais alguns minutos, até outro casal se juntar a eles.
– Dimitri.
Janine o cumprimentou. Ela estava com uma aparência exausta, pálida e com olheiras. Abe ao seu lado estava intocável como sempre, mas seus olhos e a curva de seus lábios denunciavam a dor que sentia.
– Alguma novidade? – indagou sentando-se ao lado de Dimitri.
– Não, nada ainda. Ainda está em observação, mas me informaram que em breve o médico vem conversar conosco.
Os olhos de Janine se focaram em Viktoria e pareceram perceber sua presença só naquele momento.
– Essa é Viktoria, minha irmã. Ela veio me fazer companhia. Vik, esses são os pais de Rose. Abe e Janine Mazur.
– É uma infelicidade nos conhecermos nessas circunstâncias. – diz Abe, com um aceno de cabeça. – Mas fico feliz que tenha vindo ficar com Belikov. Talvez o convença a ir para casa e tomar um banho, quem sabe fazer uma refeição decente.
– Eu estou bem, Zmey...
– Não, não está Belikov. Rose é nossa filha e estamos sofrendo por ela, mas eu tenho minha esposa e ela tem a mim. Por mais que todos estejamos sofrendo juntos, para você é como se estivesse carregando o peso todo sozinho.
– Ele costuma fazer isso mesmo... – Viktoria murmura audivelmente, ajeitando os cabelos despenteados do irmão. – Vamos até a cafeteria, Dimka. Tomar um café pelo menos. Andar, sair dessa sala de espera horrível.
Sob os olhares de todos, Dimitri assenta.
– Qualquer novidade...
– Sabemos onde te encontrar, Dimitri, pode deixar. – Janine promete.
–-
Estavam à mesa na cafeteria, Viktoria convencera Dimitri a ingerir muffins de banana com seu café e agora ele parecia menos acabado. Dimitri estivera usando a apatia para fugir de suas preocupações. Se não tivesse forças o suficiente, não sentiria nada e os dias se passariam sem que ele percebesse. Mas agora, alimentado, a energia voltava e com ele a ansiedade.
Lembrava-se claramente de quando Camille Conta entrou em seu caminho, no meio da rua. Estava desesperada, machucada mas não dizia nada.
– Preciso ir até a polícia. – insistia – preciso procurar por alguém.
Quando Dimitri mostrou sua insígnia e se apresentou, os olhos da jovem se iluminaram em um misto de alegria, alívio e urgência. Despejou um monte de palavras das coisas registrou apenas um nome: Rose.
Há pouco tempo haviam deixado a delegacia. Mikhail lhe informara que o celular de Rose deveria estar desligado, mas que conseguira triangular a área em que estivera ativo pela última vez. Era um bairro nobre e grande. Sua equipe estava em busca do motorista de táxi que a buscara e ainda não tinha notícias de Abe. Não podia ficar parado, então pegou seu carro e decidiu andar e conhecer o bairro. Martelava o que Rose poderia ter ido fazer ali, mas foi somente quando Camille se apresentou que as peças juntaram-se em sua cabeça.
Ligou imediatamente para a delegacia e informou a situação, solicitando reforços para a mansão dos Conta, dizendo que havia reféns mas não sabia quantas pessoas haviam na casa. Deveria levar Camille para tomar depoimentos, mas não podia suportar a ideia de se distanciar mais de Rose e foi com muito espírito que Camille entrou no carro com ele e voltou para casa. Ela estava com medo, mas Rose se arriscara tanto por ela que o mínimo que poderia fazer era espera que fosse libertada.
O primeiro carro que se aproximou, entretanto, não foi o da polícia: era Abe. Abe e suas conexões que Dimitri preferiria não conhecer descobriram que Marcel Conta estava envolvido com um grupo de traficantes pesados, que drogas seriam a menor das preocupações de Dimitri com esses caras. E eles estavam ali para atar os nós com Marcel.
Tanto Dimitri quanto Abe sabiam que deveriam esperar por reforço, que entrar lá só os dois não seria a melhor estratégia para Rose. Mas ao ouvirem o tiro não puderam mais esperar. Se organizaram em segundos, a urgência se intensificando ao ouvir um segundo estouro pouco tempo depois. Instruiu Camille a procurar abrigo em algum vizinho que confiasse e após vê-la desaparecer sob os cuidados de uma família que parecia comercial de margarina, ele a Abe, armados, entraram no lugar. Já podiam ouvir as sirenes se aproximando, mas não havia tempo a se perder.
Entraram pela cozinha, que sabiam que estava aberta. O corredor estava com as luzes apagadas, mas podiam ver uma massa disforme em seu fim. Com alívio constaram ser um homem. A arma estava caída no chão próxima da mão inerte do homem, indicando que ele pretendia – ou havia – a usado. O alivio se foi imediatamente. Onde estava Rose?
Antes que pudessem se comunicar, uma terceira pessoa apareceu do outro corredor. Com rapidez, Abe o dominou e tampou sua boca. Dimitri esperou com a arma em punhos, mas vendo que ninguém mais aparecia, voltou sua atenção ao homem.
– Cadê a outra garota? – exigiu saber. Os olhos do homem brilharam divertidos. Dimitri segurou-o pela garganta. – Onde. Está. A garota.
Abe soltou o homem, que mal respirava. Os dois estavam em seu limite. Abe era um homem que faria de tudo por sua filha, assim como Dimitri. Os dois juntos era perigoso, e sem ninguém ali para media-los, era possível que mais mortes ocorressem.
– Se você não responder agora, vou me irritar, e ele vai se irritar, você não quer lidar com nós dois irritados.
Mas o homem não parecia querer ficar quieto. Na verdade, estava ansioso para falar.
– A gostosinha idiota? Ela morreu.
O mundo pareceu parar.
– Mentira. – cuspiu Dimitri, apertando mais a mão na garganta do outro.
Dimitri era mais alto, mais forte e mais perigoso. O homem sabia disso, Dimitri poderia quebrar seu pescoço sem nem ao menos perceber e ele não queria morrer. Se tinha uma coisa que fazia alguém falar rápido, se havia uma coisa que quebrava a lealdade era a autopreservação.
– Robert a matou. Atirou nela sem nem hesitar.
Respondeu com dificuldade considerando que estava ficando ser ar.
– Quem é Robert e onde está a garota?
Foi a vez de Abe perguntar. A frieza em sua voz era tão perigosa quanto a fúria quente de Dimitri.
– Está... ugh – o homem engasgou, mas Dimitri não fez menção de soltar – Robert deve estar na sala grande e a menina na escadaria ali na frente.
Dimitri o jogou contra a parede com força, acertando sua cabeça e o nocauteando.
O caos explodiu quando a polícia invadiu. Ouviram gritos e correria e os dois seguiram em sua direção.
Haviam dez homens ao todo na casa, um deles morto e o outro nocauteado. Quatro foram pegos pela polícia, mas ainda faltavam o Robert, Marcel e dois outros capangas. Dimitri e Abe que os encontraram tentando fugir pela mesma porta que precisavam passar para encontrar Rose.
Armas se ergueram. Robert em sua arrogância sorriu, dando o confronto por vencido, afinal, eram dois contra quatro.
– Olá, Robert. – disse Abe, apontando a arma para a cabeça do outro.
– Abe. Você por aqui. Agora é cachorrinho de policial?
– Às vezes é preciso. Sabe, quando alguém atira na minha filha.
A ameaça era clara. Abe morreria se pudesse levar consigo Robert, mas não arriscaria a vida de Dimitri também. Devia isso a sua filha, estivesse ela viva ou morta.
– Oh, aquela jovem era sua filha? Corajosa, porém estúpida. Uma pena.
– Seu bastardo. – Abe engatilhou a arma, mas não atirou.
– Ora Abe, você e seu amigo policial vão nos deixar passar. Ou então vão fazer companhia à sua adorável filha, vocês querem isso.
Antes que pudessem responder, entretanto, Marcel, que permanecera atrás e esquecido, moveu-se. Deu uma coronhada em um dos homens e apontou sua arma para o outro.
– Larga. – o outro fez o que Conta mandou.
– Marcel, o que diabos você está fazendo? – finalmente a voz inflexível de Robert despertou para raiva – Não seja idiota, abaixe essa arma.
– Eu não vou morrer na cadeia e nem aqui. – respondeu – Eu estou disposto a fazer um acordo. Falo o que vocês quiserem. Falo do sistema, falo os nomes, vou cantar tudo feito um passarinho.
– Que inferno, Marcel!
– Não! Você é um assassino, Robert, e não vou me envolver nisso. Acabou e eu me recuso a me ferrar mais por você. Não vou fugir, ninguém aqui vai.
Nessa hora mais policiais aparecem, cercando-os e obrigando Robert a abaixar a arma. Finalmente puderam atravessar a porta e a visão que Dimitri teve a seguir nunca esqueceria.
Sometimes I wish I could save you
And there's so many things that I want you to know
I won't give up till it's over
If it takes you forever, I want you to know
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