Enchanted

1 Capítulo 1 - Enchanted


Notas iniciais
"Ele se interrompeu, sem saber como terminar a frase. Como explicar a alguém que nunca havia visto na vida a sensação que sentia de que ela precisava de algo que não encontrava? Isso não fazia sentido."

Recadinho lá em baixo!! :D

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Estrelas prateadas pontilhavam o céu naquela noite de outono em Nova Orleans. A temperatura no início da noite de sexta feira era agradável, fresca com ocasionais brisas vindas do lago Pontchartrain, que arrepiavam os pelos dos braços.

Aproveitando o início do final de semana, jovens saíam em grupos passeando pela cidade. Iam ao cinema, ao lago, faziam compras. Quase sempre acabavam se encontrando no Cafe du Monde, comendo croissants doces e lotando mesas com risadas e seus espíritos juvenis. Em uma dessas mesas se encontrava Rose Hathaway. Uma jovem de vinte e três anos terminando a faculdade de direito e perdida, sem saber o que faria assim que recebesse o diploma.

Rose estava acompanhada por um grande grupo de amigos, embora apenas três dentre eles ela considerasse realmente. Lissa, Mason e Eddie eram seus melhores amigos de infância e ela estava ali apenas por eles estarem também.

Era por eles que suportava os flertes de Jesse Zecklos – que queria por que queria seduzi-la e levá-la para a cama – e os comentários maldosos de Mia Rinaldi. Por eles que riam das histórias de Avery Lazar que não soavam verdadeiros aos seus ouvidos e sorriam com gentileza para Natalie Dashkov, prima de Lissa que era boazinha de mais para ser saudável. Rose fazia isso por eles. Por seus amigos que pareciam gostar de tudo e todos. Que culpa tinham eles, se ela era exigente demais com quem forjava laços? Então Rose se entrosava, embora superficialmente, com o grupo que sempre saia junto.

Aquela noite não tinha nada para ser especial. Foram ao cinema ver um filme de ação e depois passearam pelas ruas vendo vitrines, para o desespero dos rapazes do grupo. A certa altura, como todos os finais de semana, foram parar no café para comer. O grupo de sete de repente tornou-se quinze e Rose sentia-se sufocada naquela bagunça de conversas atravessadas que não lhe interessavam.

Vagou o olhar pelo lugar lotado. Sempre as mesmas pessoas, percebeu. Tirando alguns turistas e suas câmeras apontadas para todos os lados. Mas era época de baixa temporada, ocasionando em seu numero reduzido, consideravelmente.

Então ela o viu.

Cabelos compridos, alguns centímetros abaixo das orelhas e castanhos. Uma blusa escura — não conseguia distinguir a cor de onde estava — de gola v e mangas dobradas até os cotovelos. Tinha uma xícara de algo quente a sua frente e um livro de capa de couro na mão. Estava sozinho.

A visão do homem entretido na leitura a distraiu a ponto de fazê-la indagar quem o estranho era. Qual livro estaria lendo? Por que estava sozinho? Ele era o único rosto que se destacava em meio ao turbilhão de gente. Talvez fosse a calma que ele exalava. Como ele conseguia ler em um lugar tão barulhento como aquele?

Rose suspirou e desviou o olhar do estranho. Havia se cansado daquele teatro. Levantou-se e se afastou rapidamente com a desculpa de que iria ao banheiro antes que alguém pudesse ter a ideia de acompanhá-la ou chamá-la de volta.

Estava tão cheia! De falsos sorrisos e falsas amizades, de fazerem sempre as mesmas coisas e irem aos mesmos lugares. Mesmo as festas, cheias de bebidas e beijos, tornaram-se tediosas. Não queria nada disso! Desejava aventuras, saídas sem planejamento, conhecer lugares e pessoas novas. Repudiava o ócio e a rotina.

Queria mudança. Ouvira uma frase certa vez que dizia "Seja a mudança que você deseja para o mundo". Bem, Rose estava disposta a por em prática. Se ela queria mudança, deveria sê-la, correria atrás. Queria ser como o estranho que vira minutos atrás.

Iria embora. Não suportaria mais a presença daquelas pessoas ali. Desculpar-se-ia com seus amigos mais tarde. Estava na hora de pensar nela.

Decidida, não olhou para o lado onde estavam seus amigos e companhia enquanto caminhava para fora do local. Se eles a chamassem temia não ter forças para continuar seu plano.

Andou sem rumo até chegar a uma praça bem iluminada. Havia uma extensão de grama verde com famílias, amigos e casais passeando e divertindo-se. Sentou-se em um dos bancos e esticou as pernas a sua frente, cruzando os pés.

E agora? Faria o que? Qual era o próximo passo para mudança? Não poderia ser simples assim. E não seria, Rose sabia. Ela deu o primeiro passo, um mínimo passo. Era agora que a sua determinação a levaria para onde quisesse

Após alguns minutos, absorta em seus pensamentos, muitos nos quais há anos não se aventurava, Rose piscou voltando à realidade, sem saber ao certo quanto tempo ficara presa ao passado.

Preparava-se psicologicamente para se levantar e voltar para casa quando, pelo canto do olho, uma presença chamou-lhe a atenção.

O que a fez olhar, Rose nunca soube, mas seus olhos pousaram sobre um homem alto vestindo um casaco comprido e negro. Reconheceu-o imediatamente, é claro. Era o homem da cafeteria, o mesmo a qual Rose observara. Sem o livro no rosto e vendo-o mais de perto, pode perceber que era muito mais bonito do que pensara.

O estranho andou em volta com as mãos no bolso e, sem aviso prévio, virou-se para Rose, segurando seu olhar no dela. Pega pela surpresa, Rose foi incapaz de desviar o olhar imediatamente e somente quando sentiu suas bochechas esquentarem virou-se para frente.

Pelo canto do olho, Rose o viu caminhar até um banco a alguns metros dela e retirar o livro que lia do casaco. A curiosidade foi maior e Rose se viu observando-o novamente. Desta vez, quando o homem ergueu os olhos para ela, não desviou o olhar. Ele franziu o cenho levemente, como se indagasse se conhecia a bela moça de cabelos escuros que o observava tanto.

Seu peito se moveu com um suspiro pesado, e ele se levantou movido por uma determinação que Rose pôde sentir mesmo de longe. O homem caminhou diretamente para ela.

– Importa-se se dividirmos o banco?

Ele possuía um leve sotaque que indicava que sua nacionalidade não era americana. Rose sorriu de leve.

– Não. Estamos em um local público, afinal de contas. – disse, sem conseguir segurar o tom.

O homem sorriu e seus olhos brilharam em diversão; seus dentes eram brancos e retos. Ele possuía um sorriso lindo e contagiante e Rose se viu sorrindo abertamente para ele de volta.

– Eu sei que isso vai soar estranho – continuou o homem após alguns momentos de silêncio – mas nós nos conhecemos de algum lugar, por acaso?

– Eu acho que não... – Rose sentiu-se encabulada por tê-lo encarado por tanto tempo.

– Ah, eu lhe vi no Cafe do Mondo, ainda alguns minutos atrás. – Ele não estava assim tão absorto em sua leitura, então, pensou Rose. – Não aguentou o tumulto?

– Culpada. – respondeu com diversão. – Também te vi lá. Lendo. Como consegue ler naquele lugar? Tanta gente, tanta conversa...

O homem deu nos ombros humildemente e estendeu a mão.

– Dimitri Belikov. – apresentou-se tardiamente.

– Rose. – apertou sua mão e sua pele era quente enquanto a sua estava fria – Hathaway.

– Prazer, Rose.

Rose encolhe os ombros e solta sua mão, desviando o olhar em seguida para a praça a sua frente. Os minutos silenciosos não são incômodos. Dimitri inspirava tranquilidade e assim Rose se sentia também tranquila.

– Então, Rose. – recomeça ele, fechando o livro que havia aberto para ler sem sucesso – Está tudo bem? – ela o encara sem entender. Dimitri sorri timidamente e parecendo um envergonhado — Você parecia um pouco... Sufocada agora a pouco, no café. E, não sei, você me parece...

Ele se interrompeu, sem saber como terminar a frase. Como explicar a alguém que nunca havia visto na vida a sensação que sentia de que ela precisava de algo que não encontrava? Isso não fazia sentido.

– Era apenas muita gente. Muita gente desnecessária, para ser mais exata.

– Entendo.

Com qualquer outro encontro casual, este seria o fim de uma conversa. Um impasse. Mas não com Rose e Dimitri. Apesar de o silêncio ter caído novamente, Dimitri continuou ao seu lado e Rose não se sentiu incomodada com isso.

Há certa altura, perguntou-lhe que livro lia. Parecia um livro antigo e realmente o era. Fora dado a Dimitri por sua avó.

– Quando eu era pequeno tinha um encanto pelas lombadas de livros que tínhamos em casa. Os meus preferidos eram os que se tratava do faroeste americano. Em meu aniversario de onze anos ela me deu este livro. Disse-me que o havia encontrado em um sebo. Desde então eu o releio sempre que possível.

– Então você gosta de bang-bang? – o tom de Rose era divertido.

– Sim, eu gosto de ação. E você, gosta de ler?

– Admito que não leia muito. Não é que não goste, é a preguiça que é maior. – Dimitri riu baixinho e Rose gostou do som de sua risada. – Gosto de livros que falem sobre animais, entretanto. Principalmente lobos.

– Então você gosta de feras?

– Sim, eu adoro feras. – ri, sentindo seu peito se aquecer.

– Isso significa que você é uma pessoa perigosa?

– Hey, quem gosta de tiros e de lugares sem lei é você.

– Touché.

A palavra dita com tom de derrota e seus olhos brilhando em divertimento com a conversa descontraída fez Rose rir com suavidade.

Rose descobriu que Dimitri havia nascido na Rússia e sua família havia se mudado para os Estados Unidos quando ele ainda era um jovem adolescente. Dimitri era detetive policial, havia sido transferido para Nova Orleans há pouco tempo e tinha mais três irmãs, as quais ele cuidava com muito carinho e dedicação desde que seu pai morrera há 15 anos.

Dimitri era o que menos falava, entretanto. Ele era quieto, embora Rose o achasse mais interessante que ela própria. Talvez seja sua natureza de detetive, mas ele era reservado e apesar da expressão relaxada, não ria muito; torcia os lábios na promessa de um sorriso.

Rose contou-lhe que terminava a faculdade de Direito, mas que não sabia se era o que queria fazer e nem o que faria depois daquele ano que se formasse. Contou que seus pais estavam em lua de mel e que morava com sua melhor amiga, Lissa, que estudava Política.

Ela gostou da companhia de Dimitri e de como era fácil falar com ele – mesmo que só estivessem batendo um papo agradável. Ele era, de longe, muito melhor que aqueles que seus amigos insistiam em andar juntos. Ouvia-a e interessava por suas palavras genuinamente.

Há certa altura, quando os pais levaram os filhos da praça, os casais procuravam por mais privacidade e o silêncio começava a cair em volta do casal, perceberam que, tão concentrados um no outro, haviam perdido a noção da hora.

– Precisa ir? – Rose indagou a Dimitri quando este conferiu o relógio e franziu a testa.

– Preciso. Amanhã devo ir à delegacia logo cedo. O dever me chama.

Seu sorriso, embora pequeno, provocou uma sensação estranha em Rose, que se viu obrigada a sorrir de volta, sem saber ao certo o motivo.

– Você está de carro ou algo assim? Posso lhe dar uma carona, se quiser. – imediatamente após oferecer, lembra-se dos casos que já pegou de moças que acabaram sequestradas ou coisa pior por aceitarem carona de estranhos, mesmo que soubesse que Rose estaria segura com ele.

– Estou bem, obrigada. Não se preocupe.

– Tudo bem então.

Ele hesitou um instante e Rose riu.

– Vá dormir, camarada. Descanse e deixe a cidade livre dos bandidos.

– Não se preocupe senhorita, poderá dormir bem esta noite. — Respondeu à altura da brincadeira e retirou um papel do bolso – Boa noite, Rose. E se tiver algum problema ou, bem, simplesmente precisar de alguém para conversar.

Ele lhe entregou o papel, um cartão com seu nome e telefone e após cumprimentá-la com um chapéu imaginário, deixou o banco com um sorriso. Antes que se afastasse muito, porém, seu celular vibra e, seguindo sua intuição ao ver o número desconhecido, ao atender vira-se para a jovem em pé há alguns metros.

– Só pra garantir que você tenha meu número. – disse antes de desligar o aparelho e observar um sorriso largo e até então desconhecido se formando nos lábios do homem. – Boa noite, Dimitri.

Despediram-se de longe e tomaram seu rumo.

Quando a noite começara, Rose não dava nada a ela. Seria apenas mais uma noite chata e entediante com pessoas que ela não gostaria estar e fazendo o que fazia sempre. Mas a noite a surpreendera trazendo consigo um homem misterioso numa cafeteria. Homem que a faria rir e relaxar em alguns minutos.

Rose começou a noite com nada e a terminou com um amigo novo.

Ela estava fazendo a mudança.

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Notas finais
Olá, galerinha!

Estou com mais uma fic, pois é. Não me pergunte como farei, TAMBÉM NÃO SEI. Mas não abandonarei ninguém. u.u Posso sumir às vezes, mas abandonar? Jamé!

Mas e ai, me contem, gostaram do primeiro capítulo? É bem diferente do estilo que estou acostumada, e apesar do desafio, estou gostando de escreve-la! Espero que vocês gostem também. E quanto à promessa de sexo, drogas e rock&roll, não se preocupem queridas amigas pervertidas, não é promessa vã. Tenham paciência que devagar se vai longe *risada maléfica*

Beijocas e até o próximo capítulo (de alguma fic ai.. hm)