Encare-me

21 21- Só eu e você


Notas iniciais
Escrevi correndo, então perdoem os erros ou qualquer coisa porque eu não revisei. Arrumo os erros depois.

"Escolheu deixar tudo aqui, sumir daqui
Pra onde nem sei
Mas espero que sim"

Roberta se pôs ao meu lado, me abraçou e me fez deitar em seu colo. Ficamos ali sem dizer sequer uma palavra. Eu não queria ouvir um discurso de que minha avó estaria em um lugar melhor, ou que ela sentia muito pela minha perda. Se pudesse, dormiria ali no colo de Roberta e não acordaria mais.

"Se arrancou, e partiu daqui, e levou de mim
Aquele talvez
Rir de tudo no fim"

—Bom dia – Ouvi Roberta vindo da cozinha com um copo de café nas mãos – Se quiser chegar na hora temos que sair agora. – Disse me entregando o copo.

—Bom dia – Disse desanimada

Tomei o café rapidamente e logo fomos para o carro. O silencio com Roberta nunca havia me incomodado, mas hoje ele estava me torturando. Para disfarçar liguei o radio e comecei a cantar junto com a musica.

Talvez pudesse resolver... Quem vai saber? Quem sabe a dor venceu?— Fiz uma pausa para refletir a letra – ...Pra quê essa pressa de embarcar na jangada que leva pro lado de lá?...— Minha voz era fraca, voz de quem estava preste a chorar.

—Acha que sua avó gostaria de ver você desse jeito? – Roberta se pronunciou

Eu não respondi, era obvio que ela não aprovaria o meu estado, mas eu estava me sentindo tão mal por não tela mais comigo que só queria chorar.

—Me fala da sua avó Jess. – Roberta tentava puxar assunto.

—Ela era pirada – Ri ao lembrar de suas maluquices

—Acho que isso é uma característica da sua família – Comentou tirando sarro. – O que gostavam de fazer? – Perguntou curiosa

—Ela gostava de me levar para praia – Lembrei

—Achei que odiasse praia – Comentou

—Eu odeio, mas quando dona Clarice queria ir pra algum lugar ninguém tirava isso da cabeça dela. E eu era sempre a que acompanhava a vovó maluca – Ri ao lembrar de nossas viagens.

—Mas você não é alérgica a água do mar? – Lembrou Roberta.

—Eu não entrava na água.

—Ia para a praia, e não entrava na água?!

—Nem eu, nem dona Clarice – Acrescentei – Ela me fazia jogar futebol – Gargalhei.

—Você odeia futebol

—É, mas vovó amava... – Sorri ao lembrar.

Minhas lembranças de minha avó eram ótimas, eu estava mal por não ter mais ela ao meu lado mas estava feliz por ter aproveitado o tempo com ela, mesmo fazendo coisas que eu odiava.

“Ele era um bom brasileiro”— O radio tocava

Não pensava só em dinheiro— Completou Roberta aumentando o volume

Conhecia o bairro inteiro, Fazia charme pra usar o isqueiro...— Ri pensando que essa era a musica que mais me fazia lembrar da minha avó.

A arte de amar, a cachaça no bar
E a cabeça cansada de pensar

Chegamos ao endereço que minha tia havia me enviado e assim que estacionamos minha tia veio até nós.

—Eai panaca?! – Me cumprimentou forçando uma animação

—Você já foi melhor Lanninha – Retrucou Roberta

—É minha mãe que ta lá no caixão – Agora estava seria – Passei um batom rosa nela – Riu de sua ação.

—Ela vai vir puxar seu pé! – Disse rindo, minha avó odiava batom rosa.

—Vocês são más. – Concluiu Roberta rindo de nós que riamos da minha avó.

Lanna nos levou para o caixão ainda aberto de minha avó. Ao ver aquele batom rosa nela não pude conter meu riso que resultou em dois tapas, um de Roberta e outro de Lanna que estava rindo também.

—Não acredito que ela deixou a gente – Comentei com minha tia

—Nem eu...

Pude sentir que meus olhos estavam marejados e prontos para deixar minhas lagrimas expostas.

—Engole esse choro piranha! – Disse minha tia com uma cara brava – Se ela imaginar que você chorou no enterro dela ela ressuscita só pra dar na sua cara – Me deu um leve tapa.

—Ta legal... nada de choro

—Achei – Disse Roberta se aproximando de nós com um batom na mão.

—Vermelho? – Perguntei só para confirmar e ela assentiu.

Com um papel tirei aquele batom rosa dos lábio de minha avó, e o substitui com um lindo vermelho que ela amava.

Vi Lanna guardando algo no caixão ao lado de minha avó.

—O que é isso? – Perguntou Roberta curiosa.

—O cantil dela – Disse sem se importar com o que Roberta pensaria.

—Esta enterrando vodka com a minha avó? – Não estava acreditando que ela estava fazendo isso.

—Claro que não. Ela odiava vodka. – Fez uma pausa – É gim – Gargalhou – O que vai deixar pra ela? – Perguntou.

Eu não havia pensado nisso, enterrar ela com algo que ela gostasse. Se bem que eu deveria ter lembrado que fizemos o mesmo com a minha mãe. Deixamos um colar com um pingente em forma de coração e dentro do pingente havia uma foto minha e uma de Lanna. Mas o que eu deixaria para a minha avó? Lanna havia deixado o melhor que era o cantil que ela amava, o que sobrou pra mim?

—Não trouxe nada? – Perguntou ela vendo que demorei para responder. – Compra um maço de cigarro – Sugeriu – Ela iria adorar.

—Isso! – Disse antes de sair correndo para o carro

—É serio que vai deixar cigarro pra sua avó? – Roberta havia me seguido.

—Não. – Continuei procurando algo em minha bolsa – Achei – Sai do carro com um isqueiro em mãos.

—Porque você tem um isqueiro na bolsa? Você não fuma – Lembrou

—Eu não. Mas dona Clarice fumava e me deu o isqueiro para quando ela esquecer o dela.

Voltamos para perto do caixão e guardei o isqueiro dentro do caixão ao lado de minha avó.

—Vamos enterrar – Anunciou Lanna vendo que já iriam fechar o caixão.

Dei um ultimo beijo em minha avó e me afastei para que pudessem fechar.

"Aceno da margem
Ao longe o barco vai, até mais!
Guarde pra mim um bom lugar"

—Agora somos só eu e você. – Comentou Lanna me abraçando forte

O resto do enterro foi em silencio. A não ser por algumas brincadeiras de Lanna que sempre que via que eu estava pronta para chorar me fazia rir. E as minha risadas pareciam incomodar o resto do pessoal que estava acompanhando o enterro.

Lanna nos convidou para um bar assim que saímos do cemitério mas tivemos que recusar pois voltaríamos para São Paulo na mesma noite. Nos despedimos e pegamos estrada.

—Você é forte Jess – Comentou Roberta

—Lanna que é – Fiz uma pausa pensando no esforço que Lanna fez para não chorar na minha frente e me manter rindo durante um momento tão difícil para ambas.

—Vocês duas são – Disse Roberta sorrindo para mim.

Meu celular começou a vibrar. Era uma mensagem de Camila

“Estamos na sua casa. Vem pra cá urgente”

“Estamos chegando” Respondi.

—O que será que aconteceu? – Roberta parecia preocupada.

—Espero que não seja nada serio.

Chegamos em minha casa e ao entrar nos deparamos com Judith no meu sofá.

—Ju? – Me espantei – A Roberta veio pra...

—Ela já sabe de tudo – Disse Inácia com uma cara de culpa.

—O que?! – Roberta parecia brava

—Vocês disseram pra gente terminar o nosso “namoro”

—Terminar o namoro de vocês, e não expor o nosso – Esclareceu Roberta.

—Estávamos numa festa e eu vi a Mila pegando uma garota, achei que era o momento perfeito para uma crise de ciúmes e um termino. – Inácia começou a explicar

—Mas depois da crise, ela deu um beijo na Judith – Disse Camila um pouco brava como se tivesse sido traída de verdade. – Quando eu cheguei na sala que estava rolando a festa e dei de cara com essas duas trocando saliva – Olhou para Inácia – Judith pirou dizendo que estava se sentindo culpada e eu tive que contar sobre tudo pra ela parar de se culpar pelo fim de um namoro que não existia.

—Eu não vou falar nada – Judith se aproximou — Podem relaxar – Judith tentou nos tranquilizar

—Ju... – Comecei a falar mas fui interrompida por Inácia

—Ela não vai falar.

Eu, Roberta e Camila fomos para a cozinha conversar sobre o risco que Roberta estava correndo com mais alguém sabendo sobre nosso namoro. Mas concordamos que o melhor a fazer era confiar em Judith.

Voltando para a sala encontramos Inácia e Judith aos beijos no meu fofa.

—Os quartos são lá em cima – Informei interrompendo as duas que não sabiam como se explicar. – Não querendo expulsar vocês, mas eu acabei de voltar do enterro da minha avó e realmente quero vocês fora da minha casa.

—Vovó Clarice? – Judith parecia chocada.

—Eu sinto muito – Disse Inácia sem jeito.

—Eu não vou dizer nada porque se eu falar que sinto muito é capaz da dona Clarice vir puxar meu pé de noite – Brincou Camila, mas eu pude ver em seus olhos que ela estava triste por saber da minha avó.

Camila arrastou Judith e Inácia para fora de minha casa deixando eu e Roberta sozinhas. Tudo que eu queria agora era deitar abraçada com Roberta e pedir para ela não me deixar nunca. Mas eu não tive coragem de pedir tal coisa, não sei porque, apenas não consegui.

Notas finais
Musicas: Lado de lá - Pitty Bom Brasileiro - Cachorro Grande