Encare-me
12 12- Ela acalma a mente
Na lanchonete Roberta mal comia, apenas me encarava, não que eu me incomodasse com isso. Mas ela estava com uma cara nada boa.
—Então... — Começou Roberta – Não tem nada pra me contar?
—Eu? Nada. – Disse fazendo pouco caso
—Certeza? Você que odiava a Inácia, e agora fica até depois da aula batendo papo com ela?!
—Ta com ciúmes? – Roberta revirou os olhos
—Não é ciúmes, eu só estou tentando te entender... – Disse bebendo um gole do meu suco.
—Que tal me dizer quem era o garoto por quem você me trocou lá na sua sala? – Essa foi a minha vez de encara-la
—Te troquei? – Disse rindo
—Você me expulsou da sala pra deixar ele entrar, então sim, você me trocou.
—Eu não te expulsei.
—Me senti expulsa. – Fiz uma pausa – E trocada!
—Esta com ciúmes? – Perguntou sorrindo
—Não. Só estou tentando te entender – Disse num tom sarcástico
— Só pra constar, Eu não seria idiota de te trocar...
—Sei... – Murmurei – Ainda esta me devendo uma explicação pelo seu atraso hoje.
—O que vai fazer no resto do dia? – Roberta não sabia mudar de assunto disfarçadamente. Não tenho certeza se isso era um defeito, mas isso me ajudava a ganhar varias discussões.
—Nada, Roberta... – Disse balançando a cabeça em negação, havia desistido de interrogar Roberta pelo atraso.
—Pode passar lá em casa quando anoitecer? – Estranhei pelo horário mas concordei. – Se importa se eu for embora? Tenho umas coisas pra fazer antes de ir para casa.
—Coisas? – Perguntei curiosa
—Te explico depois. Juro – Disse se levantando
—É bom você preparar um longo discurso para esse monte de “explico depois” – Comentei enquanto ela me dava um beijo na bochecha se despedindo.
Continuei o meu almoço sozinha, até ser surpreendida por alguém assoprando minha orelha para me chamar a atenção.
—Posso sentar? – Perguntou Inácia vendo o lugar vazio ao meu lado.
—Claro. – Respondi sorrindo. – E desculpa por hoje mais cedo... – Eu ainda não estava acreditando que tinha chamado Inácia de gostosa.
—Ta tudo bem Jess. – Disse compreensiva. – Bom... você já almoçou pelo visto... Que tal um sorvete? – Eu demorei para responder então Inácia argumentou – Você esta me devendo...
—Um sorvete? Porque não? – Disse me levantando para ir com Inácia até a sorveteria.
Me deliciei com o sorvete, e me diverti conversando com Inácia até olhar para o relógio e ver que eu estava meio que atrasada para encontra Roberta.
—Foi ótimo, mas eu preciso ir... – Disse me despedindo
—Eu te dou uma carona – Ofereceu sorridente
—Eu não estou indo pra casa. Eu pego o ônibus. Não tem problema – Dei as costas antes que Inácia insistisse mais.
Chegando na casa de Roberta eu bati na porta, sabia que ela odiava o barulho da campainha.
—Olá –Disse o Homem na porta – É Jessica não é? A garota da escada. – Claro... agora eu era conhecida pelo tombo da escada, ótima primeira impressão. Não que eu quisesse impressionar ele. Ele era só o marido do amor da minha vida.
—Isso... E você deve ser o Hugo? O marido. – Disse sorrido mas gritando por dentro.
Ele fez que sim com a cabeça e me deixou entrar.
—Espero que não se importe se eu for embora, tenho compromissos... – Disse ele saído e fechando a porta.
Eu poderia soltar fogos de tanta alegria naquele momento.
Ao ver que Roberta não estava na sala, tentei a cozinha, mas sem sucesso. Fui então para o quarto onde a encontrei deitada na cama chorando.
—Ruby – Corri até ela – O que aconteceu?
Ela nada respondeu, apenas me abraçou deitando em meu colo e continuou chorando.
Quando vi que ela havia se acalmado, tentei novamente.
—Ruby?
—Meu casamento acabou... – Disse baixinho
Roberta já avia dado “um tempo” com o marido muitas vezes, e sempre que isso acontecia ela ia para minha casa em busca de companhia, ela dizia que estava tão acostumada com gente em sua casa que era insuportável ficar só. Então ia para minha casa assistir filme e se entupir de sorvete. Mas nunca chorava por ele. Se ela estava chorando, era porque dessa vez foi definitivo imaginei.
—Por isso esta chorando?
—Não... – Confessou voltando a chorar – Se eu disser que não sei porque estou chorando você acreditaria? – Disse olhando para mim com os olhos cheios de lagrimas.
—Não. Mas não te interrogaria... – Disse fazendo ela sorrir, um pouco fraco, mas já era alguma coisa.
—E não deveria estar chorando mas estou... – Fez uma pequena pausa – Eu sou uma idiota...
—Não você não é. Você é a mulher mais incrível que eu já conheci Ruby.
—Jura? – Disse derrubando mais uma lagrima.
—Juro.
Ela se aconchegou em meu colo e fechou os olhos.
—Demorei tanto tempo para tomar coragem e terminar com esse casamento... – Começou a falar – Você me deu coragem sabia?
—Dei? – Me espantei
—Aquele beijo, no hospital. Eu nunca senti nada parecido com ele... – Disse se aproximando colocando uma mão em meu rosto e me dando um leve beijo nos lábios – Nos estamos separados dês do dia do hospital...
—Por que não me contou?
—Porque eu... Não sabia o que estava acontecendo entre nos... Talvez eu ainda não saiba... – Lamentou
—Pra onde ele foi? – Disse tentando disfarçar a tristeza em meus olhos
—Pra casa da amante imagino... – Fez uma pausa — Ele vem para buscar a ultima caixa com as coisas dele amanhã. – Disse já sem chorar
—Ruby... Por que exatamente você estava chorando? – Perguntei não satisfeita com o “não sei porque”
—Porque eu acho que gosto de você... – Sorri ao ouvir a confissão de Roberta
—Isso é tão ruim assim? – Brinquei
—É ótimo. Mas eu nunca me senti assim. Não sei o que esperar e... – A interrompi com um beijo calmo e reconfortante.
—Toma – Disse colocando meu colar com a pedra Jade em seu pescoço. – Ela acalma a mente. – Disse acariciando seu rosto.
—Já disse que você é a melhor coisa que aconteceu comigo? – Disse sorrindo para mim
—Não disse, mas eu já sabia. – Disse com cara de superior
—Ah, sabia? – Arqueou a sobrancelha
—Dês do dia em que eu tirei uma foto sua bêbada e não publiquei. – Roberta abriu a boca para dizer algo mas eu a interrompi antes mesmo de deixa-la começar – Eu vi aquela foto e pensei, a Roberta tem muita sorte de me ter como amiga. Eu sou a melhor coisa que já aconteceu com ela. Porque qualquer outro não hesitaria em publicar aquela foto você sabe...
—Nossa...Você é minha heroína... – Disse balançando a cabeça em desaprovação – Apagou aquela foto não é?
Sorri e nada respondi. Ela sabia que eu não havia apagado a foto. E sabia que não iria publica-la então não se deu ao trabalho de discutir.
—Sabe que vai dormir aqui né? – Disse com a voz manhosa mas com o olhar autoritário
—Eu vou? – Brinquei
—É você vai!
—É acho que vou... – Sorri para ela que se aconchegou em meus braços
—Adorei o colar – Comentou fechando os olhos
Eu nada respondi. Dei-lhe um beijo na testa e fui lentamente fechando os olhos.
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